Unison: A Rede Social do Futuro

Andy Marino · Capítulo 8 de 19

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Unison: A Rede Social do Futuro

8 - A face do dragão

Sonia Carter tinha grandes olhos cheios de lampejos cinzentos, como a superfície de um rio veloz. Eles davam a Ambrose a sensação perturbadora de que o Unison havia virado do avesso e formado um túnel para dentro da cabeça dela. Ela aceitou o pedido de amizade dele. A Linha de Pensamento dela ativou-se e entremeou-se à dele.

Sonia Carter quer saber por que Takashi demora tanto entre uma visita e outra.

Takashi Nakamura pede

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Binário, pensou Ambrose. Ele está empolgado. Estavam numa pequena sala de conferências – mesa redonda, uma dúzia de cadeiras, sem janelas – nas profundezas das entranhas labirínticas do Centro de Imersão de Entretenimento de Massas, onde Sonia acabava de fazer uma apresentação para os investidores sobre sua mais recente atualização do aplicativo UniPetz. Essa atualização permitia integrar à Linha de Pensamento de um usuário um animal de estimação senciente. Na verdade, Ambrose não conseguia ver a utilidade de uma janela para a alma de uma criatura sem alma, mas percebia que aquilo podia ser bem lucrativo.

Ao redor deles, investidores fantasmagóricos conversavam entre si enquanto iam embora.

Ambrose piscou para libertar-se dos olhos hipnóticos de Sonia. Ela usava um sobretudo impecável de couro branco, com uma larga faixa vermelha perto da barra, que rodeava um par de botas pretas. Circundando seu tornozelo havia uma criatura peluda e de nariz enrugado, parecida com um furão e ocupada em farejar a EmotiSombra de Takashi, que havia reaparecido como uma mancha pulsante, vermelha e laranja.

– Bem-vindo ao CIDEM – saudou ela. Sua voz era pausada e contida. O oposto do jeito direto de falar de Mistletoe, pensou Ambrose, com uma pontada aguda e inesperada. Ele prometeu a si mesmo que iria projetar-se para fora e ver como ela estava, assim que conseguisse arrancar alguma informação de Sonia, cujo olhar frio e profissional o incomodava.

– Obrigado – agradeceu.

– Acho que é a primeira vez que você vem.

– Ele acabou de criar a Conta dele – informou Takashi.

Ela sorriu.

– Ainda sentindo os efeitos da projeção?

Ambrose se fez de tonto.

– Não sei direito.

– Sente algo na garganta? Os resíduos se acumulam.

Ambrose respondeu com um gaaahh exagerado e deu de ombros.

– Acho que está tudo bem.

Sonia despediu-se com um aceno do último fantasma, um velho careca que deixava a sala. Ambrose e Takashi tinham perdido a apresentação. Haviam percorrido um trajeto sinuoso pelos intermináveis corredores do epicentro de jogos do Unison, numa jornada cheia de distrações. Em sua antiga vida, Ambrose não tinha tempo para um parque de diversões como o CIDEM, criado pelos usuários, e seu assombro com a tremenda magnitude do lugar era autêntico. Um olhar através de uma porta revelara uma paisagem infinita de colinas ondulantes, florestas densas e monumentos de granito em ruínas, restos de uma civilização que nunca existiu: gigantes de quatro braços, os membros de pedra desgastados pela idade. Outra porta abria direto no oceano. Ambrose pousara a palma da mão na parede de água que ondulava, como uma lâmina suspensa no umbral da porta.

– Vamos dar uma volta – disse Sonia, enquanto as cadeiras da sala de conferência se expandiam e ganhavam braços espessos e estofados, e encostos altos com apoio para a cabeça. Pareciam ter saído de uma antiga sala de estar vitoriana. Ambrose abanou a cabeça, enojado, lembrando que Adam Trevor curtia design de móveis. Estaria Ivor decidido a tornar a experiência a mais irritante possível?

A cor bege da mesa se transformou em um laqueado marrom-escuro, com padrões granulados mais escuros.

– Sim, vamos para algum outro lugar. Por favor – respondeu ele.

Sonia e Takashi se entreolharam. A expressão neutra e profissional dela suavizou-se. Ambrose teve um sentimento súbito e inexplicável de proximidade a ela, como se ambos fossem velhos amigos num encontro inesperado que exigia um longo e caloroso abraço. Sua Linha de Pensamento estava sendo bastante afetada pela de Takashi. Ambrose teve a impressão fugaz de um momento que ele nunca compartilhara com Sonia – uma espécie de rejeição suave, que não feria a dignidade. Sentiu um aperto na garganta, e seu coração bateu mais rápido.

O interesse de Takashi por Sonia era evidente e constrangedor.

Ela abriu a porta, agora espessa e de aparência medieval, construída com tábuas de carvalho presas entre si por lâminas de metal escuro e enormes cravos pretos.

Esta é uma réplica exata da porta da sala do trono do Rei Ricardo III!

Outras 6.897 pessoas curtiram esta porta.

Fora da sala de conferência, cadeiras-bolha de espuma viscoelástica, populares vinte anos antes, alinhavam-se ao longo do corredor. Ambrose ignorou as wikis de mobiliário que seu Feed acessou instantaneamente. Ele não queria saber que a espuma viscoelástica surgira a partir de designs inovadores de colchões, no século XXII. Para o Novo Usuário Adam Trevor, o CIDEM estava se tornando um museu de móveis.

Valeu, Ivor.

Ambrose ficou imaginando se Mistletoe estava dando trabalho ao velho. Ele torcia para que estivesse.

– Puxa vida! – exclamou Takashi, recuando um passo.

– Por que este lugar deixa você tão bravo, Adam? – perguntou Sonia.

A Linha de Pensamento de Ambrose mostrava seu desprezo. Ele deu de ombros.

– Só estava pensando em outra coisa.

– Uma coisa que você vai aprender bem rápido é que os problemas do mundo material não têm importância aqui – disse ela.

– Mas isso não é verdade. Quer dizer, os problemas lá de fora não somem sem mais nem menos.

Ela acenou com a cabeça, aceitando que ele acreditasse nisso. Dobraram uma esquina e contornaram uma multidão de fantasmas reunidos em torno de uma mesa de Tetra Jack. Cartas metálicas apareciam acima de suas cabeças e caíam como uma cachoeira. Aquilo fez Ambrose se lembrar dos jogos mensais com Len e alguns Associados Programadores, antes que o excluíssem por ganhar com muita frequência. Sua habilidade com o Fluxo de Processo, além de ser a razão principal da genialidade assombrosa que moldara sua identidade empresarial, também fazia dele um oponente frustrante em um jogo de Tetra Jack. Mas agora essa habilidade se fora. Ele podia sentir a ausência dela em sua mente, latejando como o membro fantasma de um amputado. E se tivesse sido eliminada para sempre pelo procedimento?

Enquanto se afastavam dos jogadores, Ambrose captou uma vaga impressão de suas Linhas de Pensamento, e teve um calafrio com o desespero sórdido que havia ali.

– Viciados – resmungou Takashi.

– Todos temos nossos vícios – disse Sonia. – Você joga o RPG Guerra nas Luas de Saturno; outros jogam Tetra Jack.

Ambrose olhou de lado para Sonia, desconfiado com o tom maternal e condescendente. Seu jeito de falar parecia mais com o de alguns de seus amigos mais velhos do que com o de Takashi ou de Mistletoe. Ele se perguntou quem se esconderia por trás do perfil de Sonia Carter, e se sua própria máscara era tão óbvia quanto a dela.

Ou talvez ele estivesse apenas ficando paranoico.

Dobraram outra esquina e agora estavam no corredor de um hotel barato, com suas padronagens florais e papel de parede descascando. O UniPet de Sonia cutucava os tornozelos de Ambrose com o focinho.

– Rapazinho simpático – comentou ele.

– Menina. E algum dia, em breve, vamos poder ser todos como ela.

– Meninas?

– Não. Vamos existir só dentro do Unison.

Do outro lado de Sonia, Takashi fez força para esconder um sorriso de orgulho. Sua EmotiSombra emitia um brilho intenso. Ele tinha levado Ambrose até a Amiga certa, e sabia disso.

– Você quer dizer, tipo... inserção permanente? – perguntou Ambrose.

Ela olhou para Takashi, que encolheu os ombros.

– Já ouvi falar – emendou Ambrose, depressa. – Todo mundo fala disso.

– Ahã – fez ela. – Escuta, Adam, por que você está aqui?

– Takashi não... Sei lá, só estou curioso, e Takashi achou que você podia me ajudar.

– O que quero saber é por que você criou uma Conta.

– Acabamos de conseguir uma grana. Meu pai arranjou um emprego novo, e aí, no meu aniversário...

– Isso é como você está aqui. Estou perguntando por quê.

Por um instante, Ambrose não conseguiu falar. Não havia previsto que ela o interrogaria. Agora tinha certeza de que Sonia era uma máscara para um usuário mais velho.

– Porque todo mundo já está aqui – respondeu ele por fim. – Eu me sentia como a última pessoa na Cidade Litorânea do Leste sem um login, tá sabendo?

Ele percebeu, pela frieza que se infiltrou na Linha de Pensamento dela – um arrepio tangível, que arranhou seus olhos por trás –, que Sonia se decepcionara com a resposta. Ele teria de ser mais específico, se queria descobrir algo útil. Bancar o detetive partindo do degrau mais baixo do Unison – sem Plataforma de Administração, sem acesso, sem rede de Amigos – era algo tão estranho para Ambrose quanto seria o mundo do lado de cima para Mistletoe. Ele se sentia desconfortável com sua ID inútil que curtia móveis e maçãs, e lutou contra o impulso de se projetar para fora.

– Desculpa – disse. – É que nunca pensei nisso antes. Quer dizer, o Unison parecia como...

Ele seguiu Sonia e Takashi por uma porta que levava ao nível superior de um antigo estádio romano. Os bancos duros de granito davam vista para um campo esportivo oval, de terra batida. O lugar estava deserto. Eles se sentaram. Ela o olhou, esperando que continuasse.

Ele prosseguiu.

– Parecia que alguma coisa importante estava passando por mim e que, se eu esperasse demais para embarcar, ela estaria mudada... Tipo, tão lá na frente que eu nunca conseguiria alcançar. Quer dizer, ouvi dizer que já teve uma atualização bem grande, não é?

Ele se deu os parabéns pela forma como preparou a isca. Freelancers como Sonia sabiam o que rolava na fábrica de boatos do Unison. Se seu pai tivesse agido por fora dos limites da UniCorp, escondendo de Ambrose e dos demais Associados seu projeto pessoal, Sonia talvez tivesse captado algum fragmento de informação relevante.

Ele ficou olhando enquanto ela descalçava a bota do pé direito e traçava uma linha na poeira com o dedão. Um leão apareceu na beirada do campo lá embaixo, e caminhou devagar até o centro, onde se deitou, descansando a cabeça pesada sobre as patas dianteiras.

Takashi inclinou-se para a frente e traçou uma linha paralela com um dedo. Um dragão vermelho gordo, com asas escamosas dobradas para trás ao longo das costas, deslizou a partir do outro lado do campo. O leão ergueu a cabeça e observou o dragão, ressabiado.

– Bom – Sonia voltou-se para Ambrose. – Para mim foi mais uma questão de negócios. Onde mais uma garota de 15 anos poderia ganhar tanta grana? Lá fora, você precisa de patentes e equipes de engenheiros. Aqui dentro, você só precisa da matéria bruta, de ideias e conceitos.

Se você tem 15 anos, eu sou Adam Trevor.

– Mas você não programa os aplicativos sozinha, não é?

– Sou contratada da UniCorp. Eles fazem todo o trabalho preliminar e ficam com uma parte dos lucros.

Ambrose estava surpreso com a franqueza dela.

– Então você não é de fato uma desenvolvedora independente?

– Tanto quanto qualquer um, acho. Você tem que ser muito ingênuo para achar que a UniCorp não tem a ver com o que as pessoas criam aqui dentro.

– O CIDEM, por exemplo – disse Takashi. – É um espaço criado e mantido pelos usuários, mas a UniCorp pode puxar a tomada na hora que quiser. Tudo isto... – ele fez um gesto indicando o leão e o dragão, que tinham começado a rodear um ao outro, cautelosos – ... pode virar fumaça em um microssegundo.

– Por que eles fariam isso? – perguntou Ambrose.

– Quem sabe o que passa pela cabeça dele? – disse Takashi.

Sonia lhe lançou um olhar fulminante. A EmotiSombra de Takashi se encolheu debaixo do banco. Ele voltou a atenção para o campo, onde o dragão tinha aberto um par de imensas asas translúcidas, entrecortadas com veias, como olhos injetados de sangue. Elas se agitaram de leve, apenas o suficiente para erguer o corpo do dragão acima do leão, enquanto a cauda se mantinha no solo. O leão escavou a terra com a pata.

– Pela cabeça de quem? – Ambrose indagou. Mas ele sabia.

Sonia mordeu o lábio e deu um ligeiro aceno de cabeça para Takashi. Ele sorriu, e Ambrose sentiu um aumento brutal de energia na Linha de Pensamento de Takashi.

Takashi Nakamura quer sangue de leão.

O dragão dobrou as asas e mergulhou direto no pescoço do leão. O felino se virou de lado e o dragão fincou seus dentes, semelhantes a adagas, no pelo das costas do oponente. O felino rugiu, e em resposta um coro de urros se uniu a ele. Dezenas de leões saltaram de valas ocultas e convergiram para o dragão, que batia as asas loucamente, pairando no ar, a cauda longa chicoteando as bocarras que tentavam mordê-la. O dragão guinchou, e seus próprios reforços sobrevoaram num rasante os muros de pedra do estádio, um borrão escamoso vermelho, amarelo e verde.

Ambrose reconheceu o truque: eles estavam gerando o caos para cobrir uma conversa arriscada intra-Unison. Uma batalha como aquela poderia confundir os escaners da UniCorp por alguns minutos preciosos.

– Martin Truax – disse Sonia, por fim. – O criador. Aquele que concede e toma de volta.

– E o que tem ele?

– O papo entre freelancers como eu é quase todo especulação. Metade é bobagem, metade é estratégia, com o objetivo de confundir todo mundo, abrir espaço para suas próprias ideias, passar a perna nos outros criadores de aplicativos caseiros. Mas ultimamente a coisa está confusa demais. Tipo, Martin está agindo sozinho e nem os seus assistentes sabem o que ele pretende, porque está planejando lançar a Versão 3.0 de surpresa, e eliminar tudo o que havia antes. Logins alterados de alto a baixo. Perfis apagados. Estão dizendo que não vai haver nenhum aviso prévio. De repente, zás, ele revela a atualização, e no fim ninguém está nem aí que seja uma grande emboscada, porque a mudança de jogo vai trazer oportunidades inimagináveis.

– O Unison 3.0 vai ser tipo Humanidade 2.0 – disse Takashi, com um ar de sabedoria, repetindo algum bordão que ele ouvira por aí. – É melhor se abaixar...

Ambrose e Sonia se desviaram para o lado quando uma cauda amarela de dragão passou como um chicote e sumiu por trás do muro superior. Um odor acre de fumaça persistiu no ar.

– E qual é o tremendo lance que vai mudar o jogo? – perguntou Ambrose. – O que ele vai causar?

Sonia afastou seu UniPet da EmotiSombra de Takashi, e acomodou a irrequieta bola de pelo em seu colo.

– Minha teoria favorita? O Unison está no caminho de se tornar a primeira agência de viagens interdimensionais. Você se projeta para dentro a partir de algum ponto da Cidade Litorânea do Leste e se projeta para fora na Expansão de Londres, em alguma base saturnina extraplanetária... ou talvez em outros lugares que nem estão no mapa.

– Como por exemplo?

– Vai saber. Como eu disse, são boatos.

– E o “Marty” não parece muito a fim de dar uma coletiva de imprensa – ajuntou Takashi.

Pela primeira vez na vida, Ambrose encarou por uma perspectiva externa o homem que antes conhecia como seu pai. Martin Truax parecia tão remoto e impenetrável quanto os muros cobertos de hera de sua mansão no Unison.

– Imagino que a gente não pode simplesmente ir até Greymatter e tocar a campainha – comentou.

A Linha de Pensamento de Sonia esfriou de novo.

– Você é o primeiro usuário novo que já vi que sabe o nome da mansão do criador.

O UniPet dela encarou-o com olhos semicerrados, cheios de desconfiança. No campo, os leões foram saindo de mansinho, lambendo suas feridas. Os dragões sobrevoaram numa formação em V e desapareceram para além da borda do estádio. Ele tinha deixado Sonia intrigada, e ela não lhe diria mais nada.

– E rola algum boato sobre um cronograma para essa atualização?

– Bom, engraçado você perguntar isso – disse ela, distante, erguendo-se.

– Por quê?

– Porque, por acaso, pessoas em quem confio acham que o processo já começou.

– E quando elas acham que isso aconteceu?

– Ontem.

Ela voltou-lhe as costas e dirigiu-se para uma porta onde estava escrito saída, no estilo quadrado pré-Unison. Ele a seguiu. Sonia então deteve-se e olhou para ele, hesitante. Ambrose podia praticamente ver sua corrente de pensamento: devo dar a entender que sei que ele está atrás de algo maior, ou simplesmente deixo quieto?

– Tenha mais cuidado. Você não sabe com quem está lidando.

Ambrose piscou, surpreso. Enquanto ela falava, um U dourado apareceu na lapela do casaco dela. Ele piscou de novo, e o monograma da UniCorp sumiu.

– Ei, Adam – chamou Takashi, por trás dele.

Ambrose voltou-se. O cabelo preto e liso de seu Primeiro Amigo tinha sido substituído pelas ondas loiras e indisciplinadas de Martin Truax. Takashi deu um passo para trás.

– Adam, qual o problema?

Agora, também a boca de Takashi tinha se transformado na de Martin: o sorriso de estrela de cinema e os dentes brancos reluzentes. Ambrose sentiu um toque no ombro, baixou os olhos para o U gravado na abotoadura de ouro e girou, aterrorizado.

Sonia vestia o terno do pai dele.

Ele tentou resistir à onda paralisante de náusea que começava em seu estômago e espalhava-se para os membros.

– Isto não está legal – disse Sonia, recuando. – Está tudo errado.

Ambrose caiu de joelhos. O piso de pedra do estádio parecia esponjoso e elástico.

– Sonia? – gemeu Takashi.

Os olhos cinza aço de Sonia apertaram-se, cheios de fúria. As feições de Martin Truax lutaram para eclipsar o rosto dela: pele bronzeada, com uma sombra bem cuidada de barba por fazer espalhando-se pela face dela, pálida e lisa.

– Adam? – a voz dela era o comando autoritário de Martin. – Diga-me o que está vendo!

Ambrose afastou os olhos quando os ombros largos de Martin começaram a preencher o terno. Tentou rastejar, mas suas mãos estavam pesadas demais para moverem-se. Ele olhou para baixo e gritou aterrorizado: estavam presas à terra por abotoaduras gigantes em forma de U, as pontas douradas cravadas nas palmas.

Em algum lugar distante, Sonia gritou:

– Pula fora, Takashi!

Ele sentiu a saída abrupta de ambos como uma leve fricção por dentro do nariz.

Sonia Carter está agora no mundo material.

Takashi Nakamura está agora no mundo material.

Ambrose ficou só. De repente suas mãos estavam livres. Ele se ergueu apressado. Um dos dragões verdes de Takashi estava sentado no banco de granito, as asas bem dobradas de encontro aos flancos escamados.

O garoto recuou. Seu cérebro latejava, e a visão estava embaçada. Seu Perfil parecia distante e sem importância, uma lembrança nebulosa.

– Ah, não...

A cabeça alongada e reptiliana do dragão exibia no alto as ondulações loiras do cabelo de seu pai. O animal se virou para ele e sorriu, revelando fileiras e mais fileiras de dentes brancos perfeitos. Na ponta de cada asa, cintilava uma abotoadura em U.

Quando o dragão falou, soou como a voz de seu pai, sobreposta mil vezes.

– Papai está muito chateado com você, Ambrose.

Ambrose bateu palmas e se projetou para fora do Unison.

O estádio romano afastou-se como se fosse uma foto pendente diante de seu rosto que foi retirada de repente. O espelho que dividia sua mente entre as percepções do tempo real e seu Perfil estilhaçou-se, deixando em seu lugar um segundo de confusão alucinada. Ele então se deu conta de que era Ambrose Truax, que estava encerrado dentro de um tronco oco feito de fios, muito abaixo das ruas da Cidade Litorânea do Leste, na subcúpula, e que sentia uma dor excruciante.

Ele piscou e trouxe o mundo de volta.

As palmas feridas de suas mãos emitiam pontadas quentes braço acima. Fluxos de dados externalizados espiralavam ao seu redor. Ele ouviu os arquejos pesados e roucos de alguém desesperado por ar, e percebeu que era ele mesmo. Suas mãos estavam paralisadas, suspensas dos lados do corpo. Teve um flashback angustiante das abotoaduras do Unison. O que era isso que acabara de acontecer? Seu pai tinha estado por toda parte e em lugar nenhum, ao mesmo tempo. Não, não era seu pai, ele se lembrou. Não mais.

– Me tira daqui! – gritou. Ele ouviu passos arrastados aproximando-se. Parecia alguém que mancava, como se o peso se apoiasse todo em uma das pernas. Algum dos irmãos mancava? Os fios que formavam o tronco se abriram. Ivor enfiou a cabeça pela abertura e exibiu seu sorriso irritante de lábios finos.

– Foi uma visita produtiva, espero.

– Me deixa sair.

O velho abaixou-se para entrar no espaço estreito, e então aprumou-se para libertar as mãos de Ambrose do núcleo gerador de sinal.

– Talvez formigue.

Ambrose apertou os dentes, enquanto Ivor removia um longo fio de debaixo das bandagens da mão direita, e depois da esquerda. Seus olhos se encheram de lágrimas. Ivor desenfaixou cada uma das mãos doloridas e lambuzou-as com uma meleca fresca e malcheirosa antes de voltar a envolvê-las com bandagens novas. A dor diminuiu em seguida. Ambrose movimentou os dedos. Ivor virou as costas e saiu do tronco de fios sem uma palavra. O garoto seguiu-o.

A primeira coisa que Ambrose notou foi que o laboratório fedia. Depois da série de odores cuidadosamente calibrados que sentira no Unison, o túnel subterrâneo cheirava a umidade – um cheiro terroso, meio azedo. A seguir notou que Ivor mancava de modo acentuado, e isso era novidade.

– O que aconteceu? Onde está Mistletoe? – ele olhou ao redor. Nada de garota, nada de scooter. – E onde está seu irmão?

Ivor deixou-se cair na poltrona verde surrada que havia colocado diante dos teclados pré-Unison. A cadela-cabra trotou até ele e se acomodou a seus pés, apoiando nas patas peludas a cabeça provida de chifres.

– Como foi sua investigação preliminar? – indagou Ivor.

– Aconteceu uma coisa... Não sei descrever. Meu pai estava por todo canto, quer dizer, pedaços dele. Era como se ele fizesse parte da infraestrutura, do sistema. É impossível, eu sei, mas... Nunca vi nada assim.

Papai está muito chateado com você, Ambrose.

Ele estremeceu.

– Hum – murmurou Ivor, como se Ambrose tivesse acabado de descrever o almoço delicioso que acabara de comer.

Também neste lugar havia algo errado. Os olhos de Ambrose examinaram a parte da frente do laboratório, os montes de máquinas pré-Unison, a porta de ferro na outra ponta. A scooter com certeza não estava mais ali.

Ele se virou e encarou Ivor, meio esperando que o cabelo branco se tornasse loiro, e que o narigão torto se transformasse num triângulo perfeito. Mas Ivor ainda era Ivor. Ambrose observou enquanto ele esfregava o tornozelo por cima do roupão cinzento.

– Que aconteceu com sua perna?

O animal ganiu e Ivor estremeceu.

– Um acidente, enquanto você estava fora.

De repente, Ambrose sentiu uma pontada simultânea de proximidade e de repulsa. Era a mesma sensação que sentia na infância, uma emoção de profundo conflito que ele nunca conseguira compreender. Mas tinha um único significado: seu irmão estava por perto. Ele quase podia sentir o cheiro de BetterMint extraforte.

Ambrose deu um passo na direção do velho.

– O que você fez, seu mentir...

– Não é culpa dele, irmãozinho. – Len surgiu por uma porta aberta à direita, junto a um antigo carro a gasolina que jazia de rodas para cima, dissecado. Ele entrou no laboratório, cercado por oito corpulentos Associados de Segurança, com as jaquetas negras da UniCorp, atordoadores na cintura, disruptores de assalto atravessados nas costas.

Os olhos de Len desviaram-se para os curativos nas mãos do irmão e depois de volta para o rosto dele.

– Está na hora de voltar para casa.