Unison: A Rede Social do Futuro
13 - Sobreviventes
Ela fLutuava na escuridão. O tubo se abriu. Uma luz a atingiu e ela apertou os olhos. A silhueta de um homem se debruçou em frente à luz, bloqueando o foco brilhante mas não seu brilho. Quando os olhos dela se ajustaram, os ângulos bem definidos de um terno e gravata surgiram dentro do espaço escuro, e então a silhueta desapareceu. A bola de fogo brilhante voltou.
Fora de seu campo de visão, homens murmuravam e ocasionalmente soava um plof molhado. Ela se sentiu erguer para diante, com um leve zumbido mecânico, e aos poucos tomou consciência de estar num quarto cheio de grandes tubos metálicos. O tubo à sua frente estava na vertical e aberto. Dentro dele, um bebê retorcia-se, com longos fios saindo de sua cabeça. Ele olhou direto para ela e ficou paralisado. Ela tentou acenar, mas tinha os braços presos. Em vez disso, engrolou o melhor que pôde uma saudação. Ele piscou e moveu os lábios.
Outro plof.
O som vinha do fundo da sala, para além do tubo do bebê, onde dois homens com jalecos brancos e um outro, o que a olhara, debruçavam-se sobre uma longa mesa, cutucando e apertando alguma coisa. O terceiro homem endireitou-se, disse algo aos demais, e então apanhou a coisa. Fios prateados saíam dela. Então um bracinho apareceu. Era um bebê, assim como ela e o garoto no outro tubo. Mas não se mexia. O homem segurou firme o bebê, desconectou um fio e a seguir ergueu-o para que a luz o iluminasse. Virou-o e examinou-o de todos os ângulos. Sacudiu a cabeça. Os homens de jaleco ficaram imóveis enquanto ele jogava o bebê num tanque transparente, onde os corpos inanimados de uma dúzia de outros bebês flutuavam num líquido verde, seus fios emaranhados.
O bebê produziu um plof ao bater contra outro, deslocando-o para o lado.
Ela voltou o olhar indefeso para o garoto à sua frente, que a olhava de boca aberta, baba escorrendo do lábio inferior.
– Gaaa – ele disse.
Ela tentou apontar para os homens, mas não podia se mover, e de qualquer forma ele não podia se virar para ver o que acontecia. Em vez disso, ela gritou.
A cena recuou para o fim de um longo túnel e se dissolveu, dando lugar à testa alta e aos olhos verdes arregalados da professora Deirdre O’Hanlon, a centímetros dos seus.
Mistletoe tentou se mexer. Os braços ainda estavam presos. Mas como? As paredes brancas e as poltronas vermelhas da severa sala da ULL surgiram na periferia de sua visão.
– Ambrose! Não vá pra lá! – gritou a garota, lutando contra o peso que imobilizava seus pulsos. Suas têmporas estavam quentes, pegajosas de suor.
– Acalme-se – disse Deirdre. – Ele não pode ouvi-la. Você está de novo comigo.
A professora apertou mais, esfregando as palmas das mãos de Mistletoe contra as têmporas da garota até sua cabeça doer.
Mistletoe havia sido extraída. Ela se livrou das mãos da professora.
– Me projeta de novo!
– Não posso. Eles estão aqui.
Deirdre virou a palma da mão, fazendo surgir uma imagem do saguão do prédio da ULL. Associados de Segurança da UniCorp ocupavam as duas passarelas que se cruzavam acima da caixa de vidro, apontando disruptores para baixo em arcos rápidos e ágeis. No solo, um segundo grupo de Associados examinava uma fila de estudantes cujas esferas de ID de ULL externalizadas reluziam sobre as mãos viradas para cima.
– Feed de segurança do prédio – explicou Deirdre.
Mistletoe observou o vídeo sem som e viu um aluno adiantar-se e extinguir sua ID. Gritou algo para o Associado mais próximo, sua boca furiosa movendo-se em silêncio, e foi golpeado na cabeça com a ponta rombuda de um disruptor, desabando no chão. Ao lado dele, a moça ruiva que dera chocolate e informação a Mistletoe apresentou sua ID para inspeção. Um Associado de Segurança passou a mão através da esfera iridescente e passou para o aluno seguinte.
Mistletoe sentiu o peso de seu próprio disruptor em torno do braço, por dentro da manga. Lutou contra o louco impulso de fechar o punho, engatilhar a arma e irromper porta afora, atirando. Sou eu quem vocês querem?
Outro grupo de Associados surgiu e espalhou-se à volta do recinto, tomando posição diante das salas dos professores, dois homens por porta.
Deirdre fechou a imagem e tirou uma sacola marrom de trás da cadeira.
– Imaginei que um dia isso pudesse acontecer – disse, metendo os recipientes laranja e as cápsulas soltas na bolsa.
– Ninguém me seguiu até aqui – disse Mistletoe.
Deirdre pendurou a sacola no ombro, agarrou a poltrona vermelha pelo braço acolchoado e empurrou-a com força. Na parede exposta, havia mais um leitor de mão.
– A culpa é minha, por lhe dar o login. Arrisquei-me tolamente com tecnologia experimental, e agora temos que fugir.
Uma náusea fria e doída paralisou Mistletoe, desceu por seu pescoço até o peito e a barriga. Era isso o que ela era: tecnologia experimental. Ivor estava certo quanto ao risco de ser arrancado de repente do Unison: lembranças horríveis, antes sufocadas, eram revividas em detalhe.
– Você não entende – protestou Mistletoe. – Sem mim, ele está perdido lá dentro.
Deirdre encaixou a mão no escaner. Uma fenda horizontal surgiu na parede do fundo e se alargou, revelando o campus da ULL. Longos raios do sol da tarde sulcavam a floresta. Mistletoe apertou os olhos quando um deles bateu direto na sala de Deirdre.
– Minha prioridade no momento é não levar um tiro – disse Deirdre, passando a perna pela abertura retangular e deslizando o corpo para fora da sala. – Devia ser a sua também.
Mistletoe quase a alertou para a cápsula que caiu do bolso lateral da sacola. Em vez disso, apanhou-a e guardou no bolso enquanto pulava a janela e caía na grama macia, na lateral do monumento cinza. Virou-se para esquadrinhar o campus e deu de cara com a extremidade laranja brilhante de um disruptor armado. A arma era empunhada por um homem de chapéu marrom, que pairava em sua scooter do Departamento de Polícia. A seu lado, seu parceiro ruivo brandia um disruptor idêntico, em vez do bastão atordoador não letal que usara durante a caçada na subcúpula.
Mistletoe cerrou o punho. O disruptor emergiu da manga e fechou-se ao redor de sua mão. Ela o ligou, ajustando-o para força máxima e tentando manter o braço firme. Chapéu passou a língua pelos lábios rachados. Era estranho vê-lo fazer algo tão natural e tão humano. Será que esses homens tinham famílias, esposas e filhos a quem contariam a história emocionante da caçada a dois jovens fugitivos? Ela os imaginou sentados em volta de uma mesa com um belo frango assado e sabe lá mais o que a gente do lado de cima tirava daquelas caixas prateadas.
O Ruivo indicou com a cabeça o disruptor dela, que assumira um tom amarelo feio no esforço de manter a carga total.
– Pode estar na hora de recarregar.
Mistletoe esperou que Deirdre revelasse a arma de tecnologia de ponta que com certeza tinha escondida debaixo da blusa e dizer algo como Isto vai equilibrar um pouco as coisas. Deu uma olhada de lado para a professora, que estava apenas parada, com as mãos do lado da cabeça para mostrar que estavam vazias.
Chapéu farejou o ar.
– Está sentindo esse cheiro?
Mistletoe não sentia cheiro nenhum, mas teve uma breve sensação de que o tempo tinha congelado, como na rua de tia Dita segundos antes da explosão. A calmaria sinistra pareceu contagiar os policiais, e até suas scooters flutuaram imóveis no ar.
O tempo acelerou com dois rápidos lampejos prateados, seguidos de dois sons guturais:
Tchunc. Tchunc.
Ruivo levou a mão à garganta, enquanto Chapéu desabou no assento de seu veículo, ofegando e tremendo como um coelho desesperado. Mistletoe e Deirdre recuaram contra a parede de pedra. Enterrado no pescoço de cada policial havia um círculo de dentes de tubarão metálicos. Mistletoe virou o rosto. Não queria ver as expressões deles relaxarem pela última vez. Lembrava demais os momentos finais de Jiri. As folhas de uma árvore próxima farfalharam, chamando sua atenção. Viu aparecer um par de pés, as pernas, e então um garoto pendurou-se por um instante, antes de saltar ao chão.
Sliv.
O rapaz moveu-se sem ruído pelo gramado, rumo às duas. Vestia uma camisa de mangas longas manchada de verde e marrom: camuflagem vintage. Atravessada no peito tinha uma bandoleira de couro da qual pendiam vários shuriken caseiros, com lâminas curtas soldadas entre os dentes rombudos de engrenagens prateadas. Cobrira a mão ausente com uma velha luva marrom. Sorriu para Mistletoe e empenhou-se em tirar da scooter o corpo de Chapéu.
– Dá uma ajudinha? – perguntou. Mistletoe correu até o veículo e empurrou Chapéu pelo outro lado, atentando para não disparar seu disruptor, que deixara armado por cautela. Conseguiram passar Chapéu para os braços de Sliv. A camisa castanha do homem se soltou da cintura e embolou-se sob o queixo, escondendo a ferida no pescoço.
– Obrigado por não ter me ouvido – disse Mistletoe, depois de apoiarem Chapéu na parede. – Como você sabia que eu ia me encrencar aqui em cima?
Deirdre depositou o corpo de Ruivo ao lado do parceiro, apalpando seus bolsos e transferindo um bastão atordoador para sua bolsa.
– Um velho hábito – ela disse, endireitando-se. Mistletoe ficou imaginando se Deirdre estava mais próxima de seu passado do que gostaria de admitir. Deirdre montou na scooter de Ruivo e ajeitou a bolsa no colo. – Se formos para o norte, há um lar para professores aposentados perto de Montreal.
– Vão te procurar lá – disse Mistletoe.
– Não sou aposentada.
– Esquece. Tenho um lugar seguro no meu pedaço – disse Sliv, acomodando-se na scooter de Chapéu. Estendeu a mão para Mistletoe e puxou-a para o veículo.
– “Meu pedaço” quer dizer na subcúpula? – Deirdre apontou para o chão.
– É isso aí – respondeu Mistletoe. Ela se instalou entre Sliv e o painel de controle. – Eu dirijo.
Estirados na emergência do hospital abandonado de Rio II como cachorros no verão, Os Relojoeiros observaram com olhos semicerrados e curiosidade morna enquanto Sliv conduzia suas convidadas pelo esconderijo. Usando os colchões das camas do hospital, tinham criado um labirinto de leitos ao longo das paredes descascadas da sala. Alguns integrantes do grupo tinham improvisado cortinas com lençóis quadriculados e tapeçarias coloridas, enquanto outros passeavam em roupas de baixo em plena vista dos demais. Até mesmo, Mistletoe notou surpresa, algumas das moças. Indignada, perguntou-se por que Sliv nunca a convidara para se juntar a eles.
Um súbito retinir metálico perto deles fez Deirdre estacar. O inseto-câmera escalou um amontoado de cafeteiras industriais enferrujadas e focou suas lentes nas visitantes. Sliv o enxotou, e o inseto desapareceu debaixo do beliche de um garoto com impressionantes cabelos brancos que roncava.
– Não precisam ficar aqui conosco – Sliv disse. – Vou pedir que preparem um lugar decente numa das alas cirúrgicas.
Tinham demorado horas para chegar ao hospital. Primeiro Sliv as guiara por um emaranhado impossível de becos no lado de cima, como garantia de não estarem sendo seguidos. Então largaram as scooters policiais na câmara estanque, antes de descerem pelo poço de acesso. Finalmente, um percurso longo e convoluto por uma série de túneis estreitos deixou-os na sala de emergência.
– As pessoas dormem cedo por aqui – observou Deirdre.
– Somos ativos à noite – Sliv explicou. – Está quase na hora de levantar.
Nos fundos da sala de emergência, por trás de uma mesa com uma placa de POR FAVOR IDENTIFIQUE-SE, Sliv tirou a luva e desabotoou a camisa camuflada. Começou a desabotoar as calças, mas então se lembrou de que estava acompanhado.
– Licença – disse, e desapareceu numa sala para além da mesa.
– Esse lugar está OK – disse Deirdre. Parecia estar quase convencida do que dizia. – É legal. Você vai estar melhor aqui embaixo.
Um aspirador vermelho automático passou por elas, arrastando um longo cabo. Parou do lado da mesa, abaixou uma longa tromba para aspirar um montinho de sujeira cinza metálico e depois recuou corredor abaixo.
– Talvez não exatamente aqui – Deirdre disse, olhando para o ponto que acabava de ser limpo no chão de ladrilhos. – Mas abaixo da cúpula, fora do alcance dos sinais. Desde que continue fugindo.
– É o que pretendo fazer – disse Mistletoe. Observou o aspirador desaparecer detrás do esqueleto de um chassi em forma de lágrima de um carro lá de cima e imaginou se Sliv mantivera Nelson intacto, ou se o veículo já fora desmanchado e as peças recicladas.
– Então, descreva sua experiência no Unison – disse Deirdre.
– Em linhas gerais, confusa e assustadora.
– Quero mais detalhes.
– Foi fácil encontrar Ambrose, porque o nome que ele usava quando você o encontrou...
– Adam Trevor.
– ...estava em pôsteres anunciando um concerto que ele deveria dar. Mas quando o achei, ele pensava mesmo que era esse tal Adam, como se esse Perfil não fosse mais falso. Estava compondo uma música sobre uma nuvem. Consegui trazê-lo de volta, mas não durou muito. Então, a não ser que eu volte lá pra lembrar Ambrose de quem ele realmente é...
– Não posso deixar você fazer isso.
– Não é você quem tem que deixar.
– Dar a você aquele login foi um erro. Eu estava certa no início: a melhor coisa a fazer é fugir.
– Não vou abandonar Ambrose. Ele não me abandonaria.
– Como sabe? E já que passei quinze anos construindo uma carreira que você destruiu numa tarde, o mínimo que pode fazer é ouvir meu conselho.
Mistletoe olhou para o chão e viu uma mancha negra que escapou ao aspirador. Sentia-se como um demônio de conto de fadas, que entra nas vidas das pessoas para arruiná--las. Seu pulso roçou a cápsula de login dentro do bolso. Assim que conseguisse uma desculpa para se afastar da professora, iria até o único sinal que conhecia na subcúpula.
– O que mais aconteceu por lá? – Deirdre perguntou. Mistletoe olhou para ela. Notou as linhas ao redor dos olhos, as rugas de preocupação gravadas em sua testa. Os sobreviventes talvez acabassem exaustos e vazios; talvez Pyotr tivesse sido o afortunado.
– A grande mansão de Martin está crescendo.
– Você viu Greymatter?
– Não tem como não ver. É pra lá que todos estavam indo. Seus Perfis estavam alimentando a mansão, ou algo assim.
Os olhos de Deirdre fitavam o infinito.
– Sempre achei que as pessoas daqui de baixo deviam lutar pelo direito de entrar no Unison, que tínhamos a responsabilidade de ajudar todo ser humano a compartilhar o progresso que uma rede social tão grande representava. Mas, mais para o fim, Pyotr concluiu que estaríamos melhor sem a rede. Ele costumava dizer, “a UniCorp está plantando usuários como se fossem sementes, cultivando-os e esperando a colheita”.
A porta da sala se abriu, e quando Sliv entrou, Mistletoe olhou-o, agradecida. Ele vestira uma camiseta regata preta e calças cinza salpicadas de tinta amarela e verde.
– Vou acomodar vocês duas antes do café da manhã. – Fez um sinal com o braço esquerdo metálico exposto e começou a percorrer o corredor.
Deirdre pôs a mão no ombro de Mistletoe.
– Pyotr estava certo – disse.
Mistletoe afastou a mão dela e alcançou Sliv.
– Nelson ainda está inteiro?
– A gente atirou ele no incinerador pra se divertir.
– Só porque você salvou minha vida não quer dizer que eu não vou te estrangular.
Sliv apontou uma porta dupla no final do corredor, com uma placa de TRATAMENTO INTENSIVO.
– Está ali.
Mistletoe voltou-se para Deirdre, que vinha alguns passos atrás.
– Hã, pode nos dar um momento? Só queremos um tempinho para matar a saudade.
Ela pegou a mão humana de Sliv e a apertou com força, entrelaçando seus dedos aos dele e puxando-o para junto de si. Ele cheirava a gasolina.
– Ah, desculpa – disse Deirdre. – Vou me instalando por lá.
Mistletoe sorriu.
– Obrigada. Por tudo.
– A ala cirúrgica é virando o corredor – disse Sliv, enquanto Mistletoe o arrastava para o setor de tratamento intensivo. – Tem um chuveiro e camas. Escolha a sua.
Mistletoe empurrou as portas duplas. Dentro da sala, Sliv a puxou contra si e rodeou-lhe a cintura com as mãos. Ela ficou na ponta dos pés o tempo suficiente para dar um beijinho na bochecha dele, e depois se desvencilhou.
– Isso é pela ajuda com os policiais.
Sliv coçou o queixo, pensativo.
– Então aquilo agora há pouco foi encenação.
Mas Mistletoe já atravessava a sala, passando por uma dúzia de scooters em estados variados de desmanche. Nelson estava encostado numa parede, junto a um painel suspenso cheio de martelos, chaves de fenda e furadeiras.
– Eu precisava me livrar da Professora – disse, acariciando o assento rasgado de Nelson.
Sliv foi atrás dela e bateu a mão metálica na lataria de Nelson. Assustada, Mistletoe olhou para ele.
– Então é isso: meio beijo e você some de novo. – Cruzou os braços. – Sério, espero que esse cara valha a pena.
– Não tem nada de cara. O que deu em você?
Sliv parecia magoado. Ela tentou pegar a mão dele mas ele a rechaçou.
– Pra mim você não precisa mentir.
– Tudo bem. – Ela respirou fundo. – Tem um cara sim. Mas com ele não é bem assim. Ou sei lá. É difícil explicar. Ele é como uma parte de mim.
Sliv fez cara de quem tinha tomado um copo de leite azedo.
– E as garotas daqui? – ela emendou rápido. – Você alguma vez...
– Os Relojoeiros têm regras – ele respondeu com desdém. – Não somos um bando de animais.
– Eu sei. Não quis dizer que eram.
– Esquece. – Ele apontou para o pescoço dela. – Parece que você não gostou da gargantilha.
Ela pôs a mão no oco entre as clavículas.
– Tive que trocar com um taxista por uma corrida.
– Espero que tenha sido até a Islândia. Aquela corrente era de ouro de verdade.
– Ah, tá. E vai chover manga da cúpula.
– Te mostro uma saída secreta se você me prometer duas coisas.
– Quem sabe e talvez.
– Uma: que um dia você vai voltar. Duas: que não vai trocar isto por nada deste mundo.
Usando a mão humana, soltou um anel de bronze do pistão metálico de seu antebraço e o deslizou sobre o guidão arranhado e enferrujado de Nelson.Sem os Chmura Dité para guiá-la, Mistletoe seguiu quilômetros de túneis úmidos, gotejantes e malcheirosos, esbarrando em becos sem saída e estações em ruínas, cheias de catracas retorcidas. Tentou não pensar no quanto Ambrose teria mudado até que voltasse a encontrá-lo, e controlava-se para não gritar de frustração, quando viu à distância uma luz tênue sobre os trilhos. Acelerou Nelson e derrapou na curva, brecando a tempo de não bater em um dos sofás de couro, diante do laboratório dos dois irmãos.
Lá dentro, encostou Nelson num refrigerador sem porta, que cheirava levemente a mostarda, e tirou do guidão o anel de Sliv. Era grande demais para o dedo dela e pequeno demais para seu pulso. O bronze estava manchado com fungos verdes. Meteu-o no bolso, onde se encaixou direitinho ao lado da cápsula de Deirdre, e rumou para a abertura do tronco oco de fios. O balde de panos ensanguentados sumira, assim como os bancos de monitores e teclados. Os fios que haviam atravessado as palmas de Ambrose pendiam no interior do tronco. Estava aliviada por Magnus e Ivor não estarem na área. Não sabia se a UniCorp poderia rastrear seu login ali embaixo.
Esse lugar é a casa deles, lembrou a si mesma. Que direito tinha de invadir a vida das pessoas e mudá-la para sempre? Pensou em Deirdre, depois em Ambrose. Pegou um dos fios de implante pendentes e examinou a ponta, uma lâmina triangular manchada de sangue seco.
– Planejando uma pequena cirurgia esta noite?
Ela largou o fio e se voltou. Magnus e Ivor estavam sob o arco do outro lado da sala. Vestiam túnicas cinzentas, e Magnus usava um chapéu de aba larga cuja sombra escondia seu rosto. Ivor deu um passo à frente, entrando na sala.
– Engraçado como as coisas mudam – disse, com um surpreendente tom bem-humorado. Atrás dele, no espaço escuro além do arco, sombras se moviam.
– Eu sei, eu sei – disse Mistletoe. – Vocês me ofereceram isso, eu fugi e agora voltei.
Ivor disse:
– Lembre-se, quando enfiar um desses fios na mão, ainda vai ter que usá-la para furar a outra. Sugiro limpar o sangue para poder segurar melhor. – Deu um cutucão em Magnus. – Adiante, irmão.
Cruzaram o arco, seguidos pelas bestas peludas do zoológico silencioso, que bufavam sob o peso dos elaborados arreios em seus dorsos. Ao se aproximarem, Mistletoe notou que cada arreio sustentava pilhas de equipamento: monitores e teclados do laboratório, caixas repletas de livros impressos e manuais, rolos de fios. Viu Magnus tirar do bolso algo que a criatura atrás dele engoliu com uma lambida.
– Cereal de arroz – informou Magnus. – Receio que você tenha vindo em má hora, pois estamos de partida.
– Estou aqui em missão. Trouxe isto. – Mistletoe mostrou a cápsula na palma da mão. – É um login de uso único. Só preciso de um sinal.
Magnus tirou o chapéu, revelando o cabelo branco emaranhado, e se debruçou para olhar melhor. Cutucou a pílula, depois se endireitou e virou-se para o irmão.
– É, a gente ficou mesmo para trás, Ivor.
– Por isso vamos para o exílio. Quanto a você, nosso sinal se irradia. Se não precisa de código fixo, só precisa estar perto dele.
Mistletoe olhou para um e para outro, profundamente aliviada por não ter que espetar os fios nas palmas das mãos.
– Vocês estão indo embora?
Ivor secou o rosto com um pedaço de pano.
– Como eu disse, é engraçado como as coisas mudam.
Magnus recolocou o chapéu.
– Essa já não é nossa luta; já não é faz anos. É hora de sairmos de cena e abrirmos espaço para você e Ambrose.
– A mudança em meu irmão aconteceu no momento em que o paralisei com a arma policial – disse Ivor. – De qualquer forma, aconteça o que acontecer, estaremos fundo demais abaixo da terra para nos importar.
– Ele não quis dizer isso – contrapôs Magnus.
Ivor começou a guiar a manada rumo à porta que dava para os túneis do metrô.
– Quis sim – gritou ele de volta. – Estou oficialmente aposentado.
– Desculpe aquele chute – Mistletoe gritou para ele.
Ele retrucou com um assovio penetrante. A cadela-cabra saiu de algum lugar onde estivera escondida e correu pela sala, parando na frente de Mistletoe.
– Oi, Patrícia – disse Mistletoe, recebendo um leve cutucão do chifre curvo do animal. Ivor assoviou uma segunda vez. Patrícia olhou para Mistletoe com expectativa, depois correu para junto dele.
Magnus tocou a aba do chapéu num gesto de despedida.
– Eu te daria um último conselho, mas acho que você encontrará um jeito de fazer justo o contrário. Então, uma última vez, direi Carpe somnium.
Magnus seguiu o irmão pelos túneis, enquanto Patrícia pastoreava as criaturas mais lentas, conduzindo-as através da porta. Quando Mistletoe ficou sozinha na sala, ouvindo os passos que se afastavam, sentou e colocou a cápsula entre os dentes. Então fechou os olhos e mordeu com força.