Unison: A Rede Social do Futuro
2 - o garoto de terno
O nome dele era Ambrose Truax, e seu dia estranho havia começado logo depois do amanhecer, com uma batida seca na porta do quarto e uma voz chamando-o.
– Senhor? Está na hora.
Ambrose emergiu do sono, afastando-se do sonho que vinha tendo quase toda noite desde que fizera 15 anos, seis meses antes. Nesta manhã, tinha sido como um slideshow de impressões: metal frio, escuridão, a voz de seu pai.
Ele estremeceu e piscou para afastar o sono dos olhos pela última vez. Depois do procedimento de modificação de hoje, ele nunca mais dormiria de novo.
Detectando seu despertar, o quarto clareou a janela aos poucos, até o ambiente ficar imerso na luz solar suave e amarelada.
Outra batida na porta.
– Senhor?
Ambrose sentou-se enquanto o Fluxo de Processo matutino padrão ajustava-se em sua mente, com algumas alterações aqui e ali por conta da importância do dia que tinha pela frente. Alguns preparativos adicionais seriam necessários.
– Te encontro no saguão em sete minutos – gritou na direção da porta.
Ouviu os passos que se afastavam.
Aos 15 anos, Ambrose era o mais jovem Associado da UniCorp. O segundo mais jovem, um gênio em Mapeamento de Dados da Expansão da Grande Londres, tinha 21 anos. Ambrose até mesmo chefiava sua própria equipe de Fluxo de Processo, e era o responsável por seguir as Linhas de Amizade e prever o comportamento dos usuários dentro da rede social Unison. Isso garantia que cada login no Unison fosse uma experiência plenamente satisfatória, agradável e eficiente.
Mais da metade da população mundial pagava bem caro para ter um Perfil Unison, e era atribuição de Ambrose fazer com que todos quisessem ficar logados para sempre.
O fato de ser filho de Martin Truax, Presidente da UniCorp, e mais rico do que Mistletoe jamais poderia imaginar, nunca foi um grande problema para os Associados mais velhos, por uma razão: ele era excelente em seu trabalho. Os bons administradores sabiam que os Associados realmente talentosos para trabalhar com Fluxo de Processo tinham uma espécie de sexto sentido para seguir múltiplas Linhas de Amizade e Linhas de Pensamento até seu destino mais provável.
Para Ambrose, seu trabalho era só uma extensão do modo como sua mente sempre funcionava. Ele já sabia que levaria exatos sete minutos para se aprontar, antes mesmo de ter qualquer pensamento concreto sobre o que ia fazer em primeiro, segundo ou terceiro lugar. De fato, fazia tempo que ele tinha entendido que poderia mudar sua rotina em qualquer ponto – olhar pela janela, tomar um segundo copo de suco sintético de grapefruit – e ainda assim levaria os mesmos sete minutos.
Como se quisesse demonstrar isso, pulou da cama e foi direto para a janela. Ambrose morava com o irmão mais velho, Len, no 298o andar do Condomínio Grandes Planícies, chamado assim porque os atmoedifícios que o formavam eram, em sua maioria, prédios de pastagens. De sua janela, quase dois quilômetros acima da cúpula da Cidade Litorânea do Leste, Ambrose viu o sol se erguer sobre os campos.
A manhã começava com um calor escaldante, e a luz alaranjada banhava os telhados verdes bem cuidados. Ele comprimiu de leve a palma da mão contra a janela para que o vidro escurecesse, atenuando a luminosidade, e observou um grupo de vacas – pontinhos manchados de preto e branco – pastando em um dos campos.
Elas o faziam se lembrar da fazenda na periferia da Expansão da Nova Inglaterra, que visitara com a família anos antes. O pai deixou Ambrose e Len se divertirem por conta própria durante umas duas horas, e os dois ficaram incomodando as vacas de laboratório, forçando-as a chegarem até a borda do pasto. Este era cercado por um escudo acrílico quase invisível, que impedia as vacas de caírem e arrebentarem a cúpula lá embaixo à velocidade de uma reentrada atmosférica, mas Len conseguira encontrar um orifício.
– Ambrose! Vem cá! – Len entregou-lhe uma bola de gude e deu um sorriso malvado.
– O que foi?
– Deixa cair.
– Da borda?
– É, a não ser que você... Ai, caramba, você tá é com medo. Você é certinho como um podcast.
– Não sou, não! Eu faço isso, só que... aqui tá bom?
O olhar de Ambrose cruzou o pasto. Lá do outro lado, seu pai conversava com o gerente da fazenda genética GenFarm, e apontava para a câmara central de irrigação, um cilindro reluzente que atravessava todo o edifício de alto a baixo. Ambos estavam ocupados e longe demais para distinguir detalhes. O garoto hesitou alguns segundos, tomou impulso com o braço e lançou a bolinha pelo buraco, a mão espalmando-se com força contra o acrílico. A bolinha cruzou o espaço vazio, rodopiou, pairou por um milissegundo, e sumiu antes que pudessem registrar sua queda. O acrílico impedia-os de se debruçarem para ver.
Len agarrou o ombro do irmão, parecendo muito sério.
– O que é que você foi fazer?
– Para, Len.
– E se você...
– Cala a boca!
– Estamos tão alto que a bolinha vai pegar fogo e explodir a cabeça de alguém. Quem sabe uma família inteirinha, assim... – Len pôs as mãos nos lados da cabeça e então as afastou num gesto rápido. – Pchhhhhhhhhhhhh!
Ambrose mordeu o lábio e olhou por cima da borda. Estavam pouco acima do centésimo andar. Com certeza não era alto o suficiente para...
Len deu uma risadinha.
– Vamos embora.
– Mas...
– Você fez um bom trabalho hoje, soldado. Eu mesmo vou fazer o relatório para o Alto Comando e recomendar que você receba a medalha de coragem e uma promoção para sair da Brigada Podcast.
Len se virou e saiu correndo pelo campo orvalhado. Ambrose gritou Peraí! e tentou alcançá-lo, mas seu irmão mais velho, como sempre, conseguiu manter a dianteira.
Em seu quarto, Ambrose se deu conta de que estava com a testa encostada na janela. Não importava se um evento de sua breve infância fosse divertido ou assustador; uma parte de si sempre queria revivê-lo, de novo e de novo, num contraponto à sua crescente responsabilidade como adulto. Havia um motivo pelo qual só tinha amigos na casa dos 20 anos: mais ninguém de sua idade aguentaria a pressão constante daquela vida de decisões empresariais.
Já os sonhos eram outra história: odisseias alucinantes que o deixavam sem fôlego, exausto. Não conseguia se livrar deles. E estavam piorando: vívidos, detalhados, repetindo-se a cada noite nas últimas semanas. Seu pai dizia que era o centro do sono no cérebro que, percebendo sua extinção iminente, estava saindo de controle antes de ser desligado.
Ambrose pousou a mão na mesa sintetizadora, uma reluzente bandeja prateada que saía da parede, perto da janela.
– Torrada de canela.
Daí a pouco, a parte de cima da bandeja abriu-se, deixando à mostra uma fatia de
BetterToast[6] coberta com manteiga e uma camada uniforme de canela. Ambrose
devorou-a enquanto encostava a mão no closet para abri-lo. Os produtos BetterFood[7] (Um Gostinho do Unison no Mundo Real!), da UniCorp, constituíam uma simulação deliciosa, enriquecida com os nutrientes apropriados e uma etiqueta sensório-ofuscante, que dava ao estômago a sensação de estar cheio. Devido ao enriquecimento, produtos BetterFood eram muito mais nutritivos que a comida de verdade, e nunca estragavam ou tinham um gosto diferente do esperado.
Ambrose terminou depressa de comer e espanou do peito as migalhas; o sublimador de partículas na unidade filtradora do quarto vaporizou-as antes que chegassem ao piso. O garoto pensou na bolinha de gude, caindo da borda da fazenda, imaginando se algum dia a Câmara Municipal da Cidade Litorânea do Leste (da qual seu pai fazia parte) instalaria grandes sublimadores para desintegrar objetos em queda antes que rompessem a cúpula e matassem um monte de gente na Pequena Saigon ou em Rio II. Um Fluxo de Processo instantâneo informou que não valeria a pena, mas ainda assim...
Ele entrou no closet, que continha um só traje moldável, de espuma viscoelástica negra, pendendo de um cabide. Encostou a palma da mão no traje, para externalizar a vasta gama de opções de roupa, e no mesmo instante o cômodo ficou repleto de holomoda de grife. Ambrose foi e voltou entre as fileiras de calças e camisas transparentes que flutuavam, fantasmagóricas, e por fim decidiu-se por um terno azul-marinho e gravata vintage do século XXI. Com um gesto da mão, fez as demais roupas desaparecerem, e a seguir vestiu o traje. Este ajustou-se suavemente a seu corpo e assumiu a exata aparência externa de um terno azul-marinho.
Virou-se então para a porta do closet.
– Reflexo – disse.
A porta tornou-se opaca e depois espelhada. Diante dela, ele ajeitou o fino cabelo louro. Era o dia mais importante de sua vida, e queria parecer não um adolescente, mas o empresário que seu pai o criara para ser. Desativou o espelho e voltou para o quarto,
onde colocou na boca uma pastilha BetterMint[8] UniCorp e deu uma última olhada ao redor. Era a primeira manhã, em muitos anos, em que ele não se projetava para dentro do
Workspace[9] da companhia no Unison, pronto para começar o dia.
Sentiu uma pontada funda de ansiedade na barriga, ao pensar em tudo o que estava a ponto de perder, e juntou as palmas das mãos. Os receptores de código fixo fecharam o circuito de login e enviaram uma comichão familiar para as pontas dos dedos. Pensou em sua senha – LenOtário – e sentiu os sintomas da projeção: o sabor de ácido de bateria que a maioria dos usuários disfarçava mascando BetterMints, a coceira no fundo da garganta como num começo de gripe, a breve sensação de falta de peso. Então uma alegria pura fluiu através dele.
Emocionalmente, projetar-se era como passar de um funeral a uma viagem de férias num piscar de olhos. Ambrose sempre notava primeiro a luz mais forte, que tornava mais definida a silhueta dos móveis e deixava o quarto num foco perfeito e refulgente. Era como se a vida real fosse vivida por trás de uma lente embaçada, que o Unison limpava por completo. Muitos usuários descreviam a experiência como se estivessem vendo pela primeira vez o lugar onde estavam. Outros diziam que era como ser um recém-nascido totalmente consciente.
O quarto não sumiu nem se transformou numa sala virtual impessoal; os primeiros testes de qualidade do Unison tinham determinado que se projetar para um lugar muito diferente era desagradável e deixava as pessoas desorientadas. Em teoria, os usuários gostavam da ideia de fazer login em casa e subitamente aparecer nos Alpes suíços. Na prática, isso induzia vômitos, dores de cabeça e a sensação de ter água entrando pelo nariz.
Como um Associado de alto escalão, Ambrose poderia ter escolhido projetar-se
para locais restritos aos Administradores, como o Workspace ou Greymatter[9], a propriedade de seu pai. Mas nesta manhã ele só tinha tempo para uma rápida atualização. Um espelho surgiu em sua mente, separando sua percepção em dois setores diferentes: o mundo interior de sua Plataforma de Administração e o mundo exterior do Unison. Filtrou toda a informação que não dizia respeito à UniCorp – incontáveis pedidos de Amizade e convites para eventos que nunca tivera tempo de examinar – e acessou o Feed Empresarial. Era como se sua mente tivesse sido aberta e organizada para que ele a examinasse; filtrar aquela carga brutal de informações era tão simples quanto fechar uma porta e abrir outra. Seu Feed Empresarial listava toda atividade ocorrida no Unison desde que ele se projetara para fora dele, na noite anterior. Ambrose analisou as atualizações:
43.987 Novas Contas
3.499 Contas enviadas ao purgatório por falta de pagamento
Ele acessou as Contas novas e instruiu a Plataforma para ordená-las por lucro potencial. Uma das vantagens em ser filho de Martin Truax era que sua equipe de Fluxo de Processo tinha prioridade para lidar com os usuários novos mais ricos. A número um hoje era Lori Frederick-Smith, de Boston Heights, magnata do aço plástico. Ela estava logada naquele instante. Ele virou o espelho para fora e exibiu a informação do Perfil dela em seu quarto.
De imediato, ele se viu cercado por um redemoinho de detalhes da vida dela. Tinha 64 anos, mas havia atualizado sua Conta para parecer jovem e linda. Ele observou o avatar alto e louro aceitar Amigos num brunch deboas-vindas para novos usuários da alta sociedade. Ela se movia entre eles com graça e confiança, apertando mãos e distribuindo beijinhos. Ele acessou a Linha de Pensamento dela:
Lori Frederick-Smith acha que não se importaria em ficar aqui para sempre.
Ambrose sorriu. A população idosa mundial tinha hesitado em aceitar a nova tecnologia das redes sociais radicais, até a recente campanha de marketing Juventude Eterna no Unison, voltada para pessoas de 60 a 100 anos de idade. Novos usuários nessa faixa etária agora representavam uma bela fatia da receita anual da UniCorp. Os lucros, como diria seu pai, foram maximizados com eficiência.
Ambrose encaminhou à sua equipe as informações do Perfil da Srta. Frederick-Smith, com instruções de que lhe apresentassem inúmeros Amigos jovens e ricos que fossem quase – mas apenas quase – tão atraentes quanto ela. O Unison já começara a analisar seus gostos e aversões, adaptando-se a eles; sua equipe faria o resto. Em poucos dias, os primeiros 64 anos da vida dela desapareceriam no esquecimento, à medida que ela penetrasse num mundo projetado apenas para sua felicidade.
Sentiu um cutucão na perna. Lincoln, seu cão UniPet, encarava-o.
– Desculpa, garoto – disse Ambrose, acariciando a cabecinha marrom do animal. – Preciso ir andando.
Lincoln abriu as asas e voou até o teto, onde ficou pendurado de cabeça para baixo como um enorme morcego peludo. Ambrose fez uma careta. De onde tinha tirado a ideia de que um cachorro voador seria legal? No mesmo instante, Lincoln desapareceu do teto e reapareceu cutucando sua perna com o focinho. As asas tinham desaparecido.
– Bom menino. – Ambrose juntou as mãos e projetou-se para fora do Unison. Piscou os olhos. No mundo real, seu quarto parecia sem graça, bagunçado. Sentia-se desconectado da humanidade, distante da interminável torrente de informações vitais. A solidão apertou seu peito. O desejo urgente de projetar-se de volta para dentro era imenso, mas ele percebeu que era só um sintoma do logout e respirou fundo.
– Vou ficar fora dez horas – avisou ao quarto, que em silêncio programou um delicado equilíbrio climático para conservar energia durante a ausência do rapaz. Daí a pouco ele se juntaria ao fluxo de pessoas de carne e osso que rumavam para seus trabalhos, aquilo que seu irmão Len chamava de Desfile dos Corpóreos. Respirou fundo e imaginou se sua vida pareceria diferente quando vista através de olhos que nunca dormiam. Então foi até a porta, que se abriu ao toque da palma de sua mão.
Hora de ir trabalhar.
A sede da UniCorp ocupava os últimos 25 andares do Edifício UniCorp, um atmoedifício de 375 andares. Esse era um dos primeiros prédios revestidos com um polímero de aço plástico/tijolo vermelho, de modo que sua fachada de quase dois quilômetros ficasse parecida com uma imensa pilha de mais de cem quartéis de bombeiros, um em cima do outro.
Quando Ambrose nasceu, a UniCorp ocupava todo o prédio. Logo depois o Unison Versão 2.0 entrou no ar, e a partir daí cada vez mais escritórios vazios eram convertidos em apartamentos de luxo, à medida que milhares de Associados trocavam a vida de escritório pelos confortos de trabalhar somente dentro do Unison.
Por segurança, o Edifício UniCorp só tinha estacionamento no térreo. O Sr. Danielson, um Associado já de idade, que estava com a família Truax desde sempre e trabalhava como motorista e acompanhante de Ambrose, desceu suavemente do fluxo de tráfico elevado e estacionou em sua vaga. Ambrose olhou para cima e viu os arabescos branco-azulados traçados no céu pelos propulsores iônicos dos carros que passavam colados uns aos outros em perfeita harmonia. Danielson abriu-lhe a porta do carro e sorriu.
– Pronto para o grande dia, senhor?
Ambrose encolheu os ombros. Tinha passado por tantos testes e exames preliminares durante o último ano que era difícil enxergar o dia de hoje como o ponto final. Mas era também difícil negar que o procedimento de hoje tinha um peso diferente. Todos os testes tinham sido feitos no Unison. Agora invadiriam o corpo físico, de carne e osso, alterando em definitivo seu hipotálamo, região cerebral que abrigava o impulso do sono.
Ele saiu para o ar matinal, quente até mesmo na sombra densa do atmoedifício da UniCorp.
– Acho que já nasci pronto – disse com sua voz meio séria de homem de negócios. O sorriso de Danielson ficou congelado por um instante, e então ele deu um tapinha no ombro de Ambrose.
– É assim que se fala. Me faz lembrar... Sabe, joguei futebol quando tinha sua idade. Não o antigo futebol americano. Não sou tão velho assim, apesar do que seu pai diz.
– Ele diz que o senhor tem idade para ser o pai dele.
Danielson estendeu a mão e virou a palma para cima. Dela projetou-se sua homepage, que ficou visível no ar entre eles. Era translúcida, e parecia iluminada por trás, em ambos os lados. Danielson navegou pelo site flutuante, cutucando-o com o dedo e fazendo o conteúdo deslizar; o navegador de código fixo seguia suas instruções. Parou numa wiki chamada Filhos Notáveis da Cidade Litorânea do Leste.
– Tudo bem, Sr. D., eu acredito – disse Ambrose.
Danielson virou a mão para baixo e o site se desvaneceu.
– Esta é uma época emocionante, senhor.
Ambrose assentiu com a cabeça e seguiu Danielson por um jardim de arbustos bem cuidados e através de portas de vidro. A habilidade de Fluxo de Processo, sempre sussurrando em piloto automático no fundo de sua mente, indicava que o procedimento inauguraria uma nova fase de sua vida, na qual o Unison suplantaria facilmente o aço plástico como a invenção humana mais importante de todos os tempos. Os preparativos cuidadosos de seu pai não podiam dar noutra coisa.
Os códigos fixos de segurança de ambos abriram outro par de portas, e os dois entraram num saguão lotado de gente. Ambrose estacou, assombrado. Fazia anos que não visitava a sede da Unicorp, e as coisas com certeza tinham mudado. A sala imensa era um museu que continha cada inovação sofrida pelas redes sociais até a versão atual do Unison 2.0, cuja demonstração era projetada vários metros acima de suas cabeças. E as demonstrações eram funcionais de fato; ele viu um professor cansado reunir um grupo de crianças em volta de duas telas – telas! – que exibiam o Facebook e o MySpace, ou como Martin Truax os chamava, os bisavôs do Unison. O professor clicou um antiquíssimo mouse e surgiu uma infinidade de rostos dentro de quadradinhos. Ambrose ficou imaginando se os criadores dessas redes tinham chegado a pensar em Fluxo de Processo e sentiu um arrepio. Como maximizavam o lucro sem saber exatamente o que as pessoas iam fazer com suas Contas?
– Engraçado, não é? – perguntou Danielson.
– O quê?
– Como as pessoas aceitavam ficar presas a uma tela e um teclado. Parece ignorar um fato básico dos seres humanos.
– Que fato?
– Somos animais, e animais odeiam ficar presos.
Enquanto percorriam o saguão, Ambrose deteve-se na exposição do U-Space, a primeira grande transição para além das redes sociais presas a telas. Foi bem antes do seu tempo, e tinha uma aparência tão primitiva que ele deu uma risada. Avatares que se moviam aos trancos e barrancos – meras projeções – olhando textos que flutuavam, adicionando Amigos manualmente a suas listas. Era constrangedor, e ele se sentiu grato por ter nascido neste lugar e nesta época.
O U-Space durou pouco. Era mais parecido com um jogo do que com o mundo real. As pessoas queriam algo que fosse familiar, uma versão melhorada da realidade, onde tudo corresse bem. Mas o U-Space acertou numa coisa: preparou o caminho para um jovem gênio chamado Martin Truax, que apareceu do nada com o revolucionário modelo de rede social BetterLife.
Martin Truax proibiu seus programadores de simplesmente retrabalhar códigos já existentes. O Unison seria construído do zero, cada peça criada por pequenas equipes de Associados dedicados à filosofia que Danielson acabava de repetir pela milionésima vez: seres humanos são animais, e animais odeiam ficar presos. As ideias independentes seriam então analisadas e integradas nos estágios iniciais de desenvolvimento, ou rejeitadas depois de as partes utilizáveis serem aproveitadas. O resultado foi algo radicalmente novo mas que dava a sensação de um velho amigo logo no primeiro login.
Ambrose caminhava pouco à frente de Danielson, com uma sensação crescente de irrealidade, quando passou pela exibição do Unison 1.0. Era uma imitação razoável do mundo real: uma vez logado, podia-se percorrer sua casa, sua vizinhança, sua escola, mas tudo parecia melhor; não havia filas, a informação fluía livre e fácil, Amizades e Atividades eram predeterminadas a partir de Fluxos de Processo e pré-filtragens. Os problemas do mundo real evaporavam. A satisfação geral se tornou a regra em vez de exceção. Ambrose esquadrinhou a demonstração da Versão 1.0 até as falhas ficarem evidentes: o design pesadão, os defeitos e a lentidão quando as pessoas entravam em lugares lotados. Ele viu um shopping (em escala reduzida para caber dentro da área de exibição isolada por cordas) piscar, congelando centenas de pessoas durante as compras. Sacudiu a cabeça. Os perigos do 1.0.
Danielson estava em algum lugar atrás dele, no meio da multidão da hora do rush. À sua frente estava uma das muitas fontes que decoravam o saguão. Um dos lados da fonte estava oculto por uma parede bem inclinada, na qual Ambrose se apoiou para observar a Versão 2.0 lá no alto. Era uma projeção verdadeira, em tempo real, de eventos reais do Unison. Como seria estar vendo isso pela primeira vez? Imaginou-se como um garoto normal numa excursão escolar, parando no meio do saguão e olhando para cima para...
– Sr. Ambrose.
Uma voz suave vinda da esquerda. Ele se virou. Um segurança do prédio, vestindo a jaqueta preta da UniCorp, com um bastão atordoador pendendo do cinto e o disruptor atravessado nas costas. Ambrose sorriu.
– Não tenho caneta.
As pessoas que o abordavam fora do Unison para pedir autógrafo gostavam de fazê-lo à moda antiga. Eram sempre bem mais velhos, e a novidade de ter um menino prodígio entre eles tornava-os reverentes de forma até constrangedora.
O homem estendeu a mão.
– Bem-vindo a seu edifício, senhor. É um prazer poder conhecê-lo. – Seu sorriso ficou ainda mais amplo.
Ao apertarem-se as mãos, Ambrose sentiu o pequeno choque que alertava para uma transferência não autorizada de mensagem, que os receptores da palma de sua mão deviam ter bloqueado, uma vez que ele não dera permissão para aceitar. O guarda sorridente sequestrara seus filtros de e-mail.
– Carpe somnium – o guarda disse, baixando a mão.
– O quê? – Ambrose tentou identificar o rosto do homem, sua voz, seu aperto de mão. Em vão. – Espera aí!
Tarde demais. O segurança se misturou à multidão e sumiu. Ambrose tentou segui-lo, mas o movimento de turistas e de pessoas que começavam o dia de trabalho se intensificara. O garoto viu-se cercado, e logo empurrado de novo rumo à fonte. Danielson não estava à vista. Ambrose esfregou a palma da mão, que latejava depois do sequestro. A transferência de mensagem o surpreendera por completo; talvez fosse apenas a emoção daquele dia interferindo na capacidade do seu Fluxo de Processo. Qualquer mudança significativa da rotina diária costumava levar ao caos todo o sistema.
– Danielson? – chamou.
Uma garotinha o encarou com enormes olhos verdes, ajustados para intensificar a cor, até sua mãe puxá-la para longe. Seria outro teste de seu pai? Ou uma das brincadeiras de Len? Ele poderia tentar desvendar esses Fluxos de Processo em particular, e descobrir direitinho o que sua família podia ter planejado para ele. Ou podia simplesmente acessar a mensagem. Por que não? Só levaria um segundo.
Ele procurou um canto afastado, mas havia hordas de turistas e de Associados por todo lado. Ali perto, um Embaixador UniCorp de chapéu roxo conduzia por baixo da projeção 2.0 um grupo de crianças admiradas. Para além deles estava a cafeteria, e mais adiante uma série de portas que levavam ao pátio. Avançando meio que de lado, ele abriu caminho pela multidão, rumo à cafeteria lotada, e dali para o amplo pátio central, programado para ter sempre um clima oposto ao da atual estação do ano. Lá fora fazia um dia de verão de céu limpo, e portanto no pátio havia uma tempestade de neve. Sua pele formigou quando o traje se ajustou ao frio, e ele parou para olhar o espaço quase deserto a seu redor. Era uma área destinada a exibições públicas de arte, e no momento exibia enormes esculturas de aço plástico de pratos da cozinha mexicana. Ele se arrastou através da neve que chegava aos tornozelos, e se escondeu detrás de uma enchilada imensa, onde externalizou seu log de transferência de mensagens. Uma caixa de entrada branca simples flutuou acima da palma de sua mão. Uma nova mensagem, um arquivo de áudio com o título SONHOS = VERDADE.
Ele cobriu a orelha direita com a mão em concha, e ouviu uma voz de mulher, com leve sotaque do leste europeu.
– Carpe somnium, Ambrose Truax. Primeiro: disfarcei este arquivo, mas você sabe como a UniCorp pode traçar vestígios de informações. Então ouça com atenção porque ele vai rodar uma vez só. Desculpe a emboscada. Há tempos quero conhecê-lo, mas meus colegas não concordavam. – Ela fungou, fez uma pausa, e deu um espirro violento.
Ambrose piscou. Ela prosseguiu.
– Queria ter mais tempo, mas quem não quer? Assim, eis o que deve fazer. Saia do prédio já. Pegue carona, roube um carro, faça o que for preciso para escapar. Você não é dono de sua vida enquanto está acordado, não permita que ele roube seus sonhos também. Ele quer destruir a sua única parte que conhece a verdade, e então se apossará de você por completo. Não deixe que isso aconteça, Ambrose. Posso ajudá-lo. Vá para a Pequena Saigon, e vá até o...
Ambrose afastou bruscamente a mão do ouvido, apagou a transmissão e limpou o histórico do log de transferência. Boa tentativa, pensou. Esses chamados terroristas eram mais patéticos do que perigosos. Como seu pai sempre dizia, quando você está no topo, todos querem um pedaço seu. E se não podem conseguir, querem arrastar você pra baixo com eles. Roubar um carro? Quem eles pensavam que ele era?
Na verdade, a mensagem reforçava a necessidade do procedimento de hoje, disse a si mesmo. Dirigir a UniCorp exigia vigilância constante. Uma vez que se acostumasse à vida sem sono, ele poderia ficar de olho no Unison 24 horas por dia, trabalhando sempre para garantir o crescimento e lucro contínuos do império que um dia pertenceria a ele e ao irmão.
Ele se encolheu para evitar um torvelinho de neve e ficou pensando em como os terroristas tinham conseguido infiltrar o falso guarda. Aquilo era um pouco mais preocupante que as perturbações normais anti-Unison, que em geral consistiam em sequestros de ID e exclusão de Contas. E como é que eles sabiam sobre o procedimento?
Bem, não tinha importância. Numa corporação tão gigantesca, havia dezenas de formas de vazamento de informações sigilosas. Ele acabaria descobrindo como isso tinha acontecido.
Mas primeiro seu pai o esperava.