Unison: A Rede Social do Futuro
14 - Unison 3.0 ⠀瘀攀爀猀漀 戀攀琀愀)
O usuário conhecido por seus Amigos como Adam Trevor estava parado do lado de fora dos portões de ferro batido, olhando através das grades para as macieiras viçosas que orlavam o caminho sinuoso de pedra que levava à porta da casa magnífica. Fascinado, ele viu como da casa brotava outra ala, três andares de tijolo aparente, telhado de duas águas e uma torre adjacente. À volta dele, os dados soltos dos outros usuários fluíam em uma corrente infindável pelo portão, atravessavam os jardins e penetravam pelas paredes da casa. Um rio de alegre vozerio de Fluxos de Pensamento – palavras soltas e frases flutuantes – juntava-se a uma montanha bruxuleante de imagens de mil diferentes festas de Ano Novo, cheias de chapeuzinhos pontudos de papelão e cápsulas de champanhe. Um calendário passou raspando seu braço e desdobrando-se, soltando páginas de convites de Evento; estas pairavam acima das árvores e depois eram absorvidas pelo telhado da casa.
Adam Trevor sentiu um puxão agradável que começava detrás dos olhos e se estendia até a caixa torácica, como se alguém o massageasse suavemente por dentro. Ele estivera afastado tempo demais, fazendo coisas inúteis das quais mal podia se lembrar.
Adam Trevor está finalmente em casa!
O portão da frente abriu-se, e ele começou a percorrer o caminho, parando um instante para fechar os olhos e sentir o leve cheiro de maçã madura trazido pela brisa suave. Sob seus pés, dados perdidos preenchiam as fendas entre as pedras, impressões fugazes de momentos felizes passados com bons Amigos. Por fim, depois de um minuto ou vários dias de caminhada (era difícil ter certeza, e de qualquer modo não importava), Adam Trevor chegou a uma imponente porta dupla de madeira. O arco por cima dela era encimado por uma gárgula sentada como um cão, com feições estranhamente familiares e um chumaço de cabelo humano loiro.
Adam lançou um último olhar para trás, contemplando o paisagismo elegante dos jardins, e observou transfixado os rios ondulantes de dados, serpenteando por cima das colinas. Apoiou a mão na porta e sentiu a pulsação da vida de um bilhão de usuários. Então empurrou, e a pesada porta abriu-se. Ele entrou.
O puxão por trás da face e entre as costelas tornou-se insuportável, como se um punho se fechasse ao redor de seus órgãos e os arrancasse através da pele. Estava atordoado pela súbita traição, pela privação de toda paz e contentamento prometidos pelo jardim lá fora. Estava muito escuro ali dentro. A dor abandonou seu corpo repentinamente, como um curativo arrancado de uma só vez. Abriu os olhos. Ainda a escuridão.
Uma voz masculina soou.
– Ambrose. Vou acender as luzes.
Ele engoliu em seco. Meu nome é Ambrose Truax. Lembrou-se de quando observara Greymatter expandindo-se. Havia outra pessoa com ele.
– Mistletoe?
– Receio que não.
As luzes se acenderam com suavidade, uma dúzia de lâmpadas embutidas, providas de um dimmer. Ele estava parado em um escritório confortável, as paredes revestidas de mogno e prateleiras embutidas de vidro. Pequenos spots brilhavam por baixo de cada estante, iluminando dúzias de molduras antiquadas. Uma planta alta e suculenta crescia em um vaso ao lado da escrivaninha de carvalho maciço, escuro e polido como um espelho. Num canto da escrivaninha havia uma pilha bem arrumada de papéis, junto a uma caneca que continha canetas e um par de tesouras. A caneca dizia PAREÇO ALGUÉM QUE ACORDA CEDO?
Martin Truax sentava-se por trás da escrivaninha, parecendo eficiente e enérgico em seu terno azul de costume. Tinha nas mãos uma folha de papel, como um antigo apresentador de notícias. Lançou um sorriso brilhante a Ambrose, que estremeceu quando os dentes brancos pareceram cintilar no ar um segundo além do sorriso.
– Pareceu-me melhor dispensar sua máscara – disse Martin. – O Perfil de Adam Trevor não combina com você. Mobiliário antigo?
Ele sacudiu a cabeça e pôs de lado o papel. Algo vibrou por dentro das paredes, e Ambrose pensou ver uma orelha humana pálida brotando da planta antes de se transformar em uma espessa folha verde. Ele se concentrou em sua última lembrança nítida: Mistletoe desconectando-se de forma abrupta.
– O que você fez com ela? – perguntou.
– Nada.
– E quanto a Len? Aquilo também não foi nada?
– Eu o imobilizei de forma segura. O disruptor apenas o atordoou. Ele é meu filho, Ambrose.
– Ao contrário de mim.
– Você é o futuro.
– Eu vi quando ele morreu, pai. – Ambrose encolheu-se. Não queria chamar Martin de pai, nunca mais. E estava bravo com seu próprio cérebro por engatar automaticamente um senso de respeito profissional. Mesmo agora, parte dele sentia como se fosse sua obrigação apresentar algum relatório detalhado.
– Mas você tem visto outras coisas também – disse Martin.
A planta farfalhou e ofereceu a Ambrose uma garrafa de um líquido escuro e efervescente. A garrafa transpirava gotículas de água, como se acabasse de ser tirada do gelo. Martin juntou as mãos, entrelaçou os dedos e reclinou-se na poltrona.
– UniCola?
– Não estou com sede. E eu sei o que vi.
A garrafa recolheu-se de novo à folhagem. A planta murchou. Parecia desapontada.
– Sabe mesmo? – indagou Martin. – Relembre a rápida deterioração dos indivíduos que passaram pelo procedimento de Nível Sete antes de você. Sua mente não é diferente, Ambrose. Ela precisa ser calibrada regularmente. Deixe-me dar-lhe sua vida de volta. Habilidade plena de Processo de Fluxo, um cargo na UniCorp. Tudo.
Martin inclinou-se para diante, apoiando os cotovelos na mesa. A foto emoldurada na prateleira acima de sua cabeça mostrava a imagem de um Martin Truax mais jovem, sentado na grama da fazenda genética, na Expansão da Nova Inglaterra. A seu lado, Ambrose e Len devoravam enormes sorvetes de casquinha. Ambrose recordava-se do sabor: leite sintético de baunilha, direto da fonte.
– Já fomos uma família – prosseguiu Martin. – Sei que tenho andado muito ocupado ultimamente, mas as coisas podem voltar a ser o que eram.
– Você se lembra o que me deu de aniversário no ano passado?
O rosto de Martin era uma máscara rígida.
– Novas tarefas de Fluxo de Processo. Você dobrou minha carga de trabalho. – O coração de Ambrose batia forte. Alguns dias atrás, ele jamais teria dito essas coisas. Alguns dias atrás, ele sequer sabia que se sentia desse modo. Seus olhos foram para a imagem na prateleira. – Teria sido legal se apenas tivesse me dado um sorvete.
– Às vezes desejo poder voltar atrás – disse Martin, baixinho – e manter você longe da UniCorp. Mas havia momentos, ao longo do dia de trabalho, em que eu ficava espantado com algum pequeno gesto familiar que seu braço fazia, e isso me lembrava de que eu havia transferido para você algo meu muito profundo. Eu me sentia o pai mais sortudo do mundo, podendo trabalhar lado a lado com meu filho.
A foto da estante mudou para uma cena mais antiga: dunas de areia branca na praia no Refúgio Havaiano da UniCorp. Martin segurava um Ambrose bebê, enquanto Len chapinhava a seu lado, os pés afundados até o tornozelo na faiscante água verde-azulada.
– Ajude-me a construir o futuro desta companhia – pediu Martin. – Volte para casa.
– Primeiro olhe nos meus olhos – disse Ambrose – e diga-me, neste exato momento, que você não me construiu usando algum manual de instrução.
Os olhos de Martin encontraram o olhar fixo de Ambrose. O branco de seus olhos brilhava mais que os dentes, ofuscante e terrível. Ambrose pôs a mão diante dos próprios olhos para protegê-los. A planta farfalhou. Um Fluxo de Pensamento absorvido pelas paredes foi expelido como se fosse a rajada de vento de um furacão, e o fez cair de joelhos. Uma atualização perdida passou por sua mente.
Kelly Peterson está superfeliz hoje por ter ganhado um cachorrinho!
Ambrose ignorou a mensagem e colocou-se outra vez de pé. O alto da cabeça de Martin era uma placa ondulada de mogno, conectada por um fio fino à parede por trás dele. Os olhos eram buracos negros vazios. O nariz e a boca estavam fundidos em um focinho alongado e escamado.
O focinho sorriu. Fileiras de dentes brancos brilharam.
Ambrose ouviu a porta bater a suas costas e se virou. Mistletoe entrou no aposento.
Ela havia voltado por ele.
– Ambrose – disse ela, vindo até ele e examinando-lhe o rosto. – É você mesmo?
– Sou eu.
– E eu sou o pai dele – disse Martin. Ambrose voltou-se e viu que Martin parecia totalmente humano de novo, meio recostado na poltrona e de pernas cruzadas. – Prazer em conhecê-la, Anna. Espero que sua viagem até aqui tenha sido agradável. Fiz o que podia para tornar este lugar fácil de encontrar.
Mistletoe olhou em volta, observando as prateleiras, a planta, as molduras. Então analisou o rosto de Martin enquanto ele batia com uma unha na mesa. Ambrose contou seis batidas antes que a garota falasse.
– A gente já se encontrou – disse, e voltou-se para Ambrose. – Tive um sonho em que éramos bebezinhos. Tinha outros bebês como nós, mas eles tipo não funcionavam direito, ou algo assim, e eram jogados em uma banheira grande. Todos estavam mortos e ficavam só... flutuando. Nós fomos os únicos que sobreviveram.
Ela se virou de novo para Martin, e sua trança azul roçou o rosto de Ambrose. Ele percebeu que também teria voltado por ela.
– A inovação requer sacrifícios – afirmou Martin. Ele estendeu o braço para trás da poltrona e abriu uma porta que estivera oculta por trás do revestimento de madeira.
Uma rede densa e faiscante de atualizações de status – fitas rendilhadas de OBA!
BetterTacos[16] para o jantar! e Alguém aí conhece um bom lugar pra fazer modificação de língua?? – se entremeou com dados brutos de Perfil. Fotos das férias de alguns usuários escaparam da rede e se esborracharam contra o batente da porta. Antes de serem sugadas de volta, Ambrose viu um grande cão preto com um gorro de Papai Noel e uma grande pilha de presentes vermelhos e verdes. As imagens foram substituídas pela lista de Amigos de alguém, milhares de minúsculos rostos que se dilataram e se esticaram para sorver dados brutos, enquanto flutuavam e rodopiavam para longe.
Hipnotizado pela beleza caótica, Ambrose ficou olhando até que um padrão surgiu. Fluxos de Pensamento entrelaçaram-se e se encorparam como filamentos de DNA, trabalhando em sincronia com outros filamentos para criar dentro da rede um movimento como o de um pistão. Lembrava o funcionamento interno de um antigo motor a combustão, alimentado e abastecido pelos dados de Perfil.
Ambrose estremeceu. Aquela coisa – o motor – radiava um frio sobrenatural que corrompia o bitmapping do escritório. Pedacinhos da pele do rosto de Martin apareciam entre as folhas da planta; uma delas era toda formada por narinas. Ambrose olhou para Mistletoe; podia ver através de seu pescoço a parede atrás dela. A trança movia-se solta no ar. Ele piscou, e a garota estava inteira de novo.
– Porta idiota – disse ela.
– É uma espécie de motor – Ambrose deduziu. – Usando como combustível todas essas Contas de usuários.
– Permita-me apresentar-lhes o coração do Unison 3.0 – anunciou Martin, erguendo-se. Um fino tentáculo de espaço negativo projetou-se do centro da porta e lambeu-lhe o rosto, esticando sua boca num sorriso congelado de caveira, com um metro de comprimento. Ela voltou ao lugar num estalo. – A porta de entrada para nós mesmos. Tenho o prazer de dar-lhes a chance de serem os usuários-beta de suas capacidades.
– Usuários-beta? – perguntou Mistletoe.
– Quer dizer, ratos de laboratório – respondeu Ambrose, que depois disse a Martin: – Para mim, chega.
– Você é livre para partir – Martin deu de ombros. – Apenas lembre-se, sem calibragem, sua mente vai se fragmentar por completo em poucos dias. Por que perder por completo a sanidade quando o antídoto está a seu alcance? Não quero perder você.
Um líquido amarelado e fétido começou a vazar da planta, escorrendo pelo chão. Ambrose tentou imaginar a sensação de perder para sempre o controle da mente. Será que doía? Será que poderia lembrar-se de como era ser normal?
– Tudo o que tem a fazer é adicionar um único Amigo novo, e poderá ter sua vida de volta – informou Martin.
Mistletoe puxou Ambrose pelo braço. Só então ele notou que usava um terno azul-escuro como o de Martin, idêntico até no U dourado na lapela.
– Vamos, Ambrose.
– O mesmo vale para você, Anna – prosseguiu Martin, inabalável. – Um único Amigo novo, e sua tia Dita estará livre para viver a vida em paz.
Mistletoe congelou, ainda segurando a manga de Ambrose.
Martin estendeu a mão e pegou atrás da planta a ponta de um longo cachecol amarelo, que enrolou duas vezes na mão antes de cerrar o punho, prendendo-o. Então deu um puxão e forçou uma mulher de meia-idade a ficar de pé. O cachecol envolvia o pescoço dela, como uma coleira que a sufocava. A mulher arfava enquanto suas mãos tentavam arrancar o cachecol do pescoço.
Mistletoe largou Ambrose e correu até ela. Martin deu um puxão no cachecol e a mulher cambaleou para trás. Mistletoe deteve-se, impotente.
– Tia Dita – disse baixinho.
Dita tentou falar. Conseguiu emitir apenas sons roucos e débeis, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas.
– Pare! – gritou Mistletoe.
– Tudo o que você precisa fazer é atravessar a porta – disse Martin. – Vai encontrar uma nova Amiga e aceitar seu pedido de amizade. E sua tia Dita estará livre.
Mistletoe não disse nada. Ambrose podia sentir que a estava perdendo. A poça sob a planta começou a soltar um fedor penetrante de vinagre. Na porta, Fluxos de Pensamento se enovelavam como haicais sem sentido.
Grande Liquidação de Inauguração
Amor para Sempre
Lixo da Subcúpula
Ambrose tentou imaginar se Martin estava blefando. Este era o epicentro de Greymatter, nas profundezas do coração operacional do Unison, e Martin tinha a Plataforma Administrativa primária. Teria sido fácil forjar a presença de Dita.
– É um truque – alertou. – Não é sua tia Dita de verdade.
Mistletoe estava diante da porta, tremendo no vento gélido do turbilhão gerado pelo motor. Olhou por cima do ombro para Ambrose. Ele nunca a vira tão indefesa, e nem precisava que sua habilidade de Fluxo de Processo lhe dissesse o que a garota estava prestes a fazer.
– É ela, posso garantir – insistiu Martin. – Meus homens a apreenderam antes que conseguisse detonar a si mesma junto com sua casa.
Ele puxou a ponta do cachecol, e os olhos de Dita arregalaram-se de terror.
– Mistletoe, pare de dar atenção a ele – pediu Ambrose. – Olhe para mim.
Martin puxou o cachecol até que Dita estava a centímetros de seu rosto. Ele se inclinou e deu-lhe um beijo no rosto.
– Sugiro que vá em frente, Anna. Sua nova Amiga a espera.
Ambrose moveu-se para impedi-la. A planta de repente virou uma massa de dedos humanos, que prenderam sua pele enquanto um cipó enroscou-se em sua perna. Ele apenas podia olhar enquanto os ombros de Mistletoe eram sacudidos pelos soluços da garota. A abertura da porta parecia ondular, faminta, na expectativa.
– Está tudo bem – ele disse. – Eu vou te achar.
Mistletoe deu um sorrisinho antes de desaparecer através da porta. Sua trança pendeu como uma vírgula azul felpuda. E então sumiu.