Unison: A Rede Social do Futuro

Andy Marino · Capítulo 4 de 19

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Unison: A Rede Social do Futuro

4 - Procedimento de nível sete

Ambrose abriu caminho através do pátio nevado da sede da UniCorp, retraçando suas pegadas já meio indistintas. No saguão, olhou ao redor buscando o guarda que sequestrara seu receptor palmar. Ele poderia acessar num instante sua base de dados pessoal e bloquear todo o edifício. Poderia exigir o que quisesse de qualquer Associado de Segurança, e seria atendido na hora, sem perguntas. Mas talvez fosse o que os terroristas queriam: um incidente que paralisasse a sede da UniCorp.

 

– Sr. Ambrose! – Danielson surgiu do outro lado da fonte e entregou-lhe uma pequena cápsula cor de bronze. – Achei que gostaria de uma xícara de chá antes de subirmos. Nos perdemos um do outro no meio do grande rebanho corpóreo, hein?

Deu uma piscadinha enquanto Ambrose engolia a cápsula. Um calor imediato se espalhou do estômago para os braços e pernas. Um leve sabor de hortelã se formou em sua boca. Era um ótimo chá. O garoto começou a relaxar.

O que o incomodava, porém, era que o guarda tivesse acesso a um tipo de tecnologia pirata de transferência capaz de invadir seus receptores.

Uma invasão inesperada constituía uma quebra de etiqueta profissional, o tipo de coisa que ele esperaria de Len, para quem tudo era um assunto urgente. Mas enquanto transitava pelo saguão, sob o produto resultante da genialidade peculiar de sua família, o choque da transmissão ilegal foi perdendo importância. Ele era um Líder de Equipe de Fluxo de Processo da UniCorp, e tinha de levar em conta o futuro da empresa. Aproximou-se do elevador prateado em forma de projétil, reservado para Associados do nível da Gerência, e encostou nele a palma da mão. A porta deslizou sem ruído.

– Boa sorte, senhor – disse Danielson. Apertaram as mãos, e Danielson repetiu o lema da companhia: – Vida melhor no Unison.

– Vida melhor no Unison – respondeu Ambrose, e ficou olhando a parte de trás da cabeça de Danielson desaparecer na multidão.

Ambrose entrou no cilindro luxuoso e se sentou na poltrona viscoelástica. Balançou a cabeça ao ritmo da batida fragmentada do techno suave, enquanto o elevador subia, silencioso. Examinou seu rosto no espelho e exibiu os dentes brancos. Estava a ponto de ser a pessoa mais jovem da história a passar pelo procedimento de modificação de Nível Sete. Ambrose sabia que era considerado de nível sete porque todas as cobaias anteriores – empresários poderosos, militares, caçadores de emoções fortes – haviam enlouquecido de modo irreversível ao longo das duas semanas seguintes à modificação. Os efeitos já documentados do procedimento incluíam incoerência verbal e escrita, paranoia, automutilação, fúria homicida, alucinações vívidas, demência geral e suicídio.

O que Ambrose também sabia era que, desde que obedecesse ao regime severo de calibragem concebido e finalizado por seu pai e seu irmão – um privilégio que os demais recipientes não tiveram – ele conservaria a sanidade.

Um pequeno desvio era aceitável, pois uma vida inteira desprovida de sono não podia deixar de ter consequências imprevisíveis. Mas a calibragem obteve uma taxa de êxito de 99% nas simulações cerebrais de I.A. Além do mais, a inovação sem riscos não se enquadrava nos princípios da UniCorp.

O elevador desacelerou no 350o andar e parou com suavidade no 375o. Ambrose respirou fundo e ficou parado enquanto as portas se abriam para revelar um cômodo vazio, do tamanho de seu closet. As paredes eram prateadas e pareciam formar redemoinhos e escorrer como mercúrio derramado. Às vezes clareavam, ficando quase transparentes. Mais além ele vislumbrou o corredor de acesso ao laboratório, onde o tubo de escaneamento o aguardava.

A voz de seu irmão mais velho ecoou no recinto.

– Informe o propósito de sua visita.

Ambrose rolou os olhos.

– Sou eu, Len. Quem mais poderia ser?

– Siga o protocolo. Informe o propósito de sua visita.

Ambrose suspirou. O profissionalismo metido a besta de seu irmão tornara-se ainda mais irritante nas últimas semanas. Será que Len estava com ciúmes?

– Ambrose Truax, Líder de Equipe de Fluxo de Processo da UniCorp. Presente para modificação hipotalâmica de Nível Sete.

– Por favor, entrar pela porta no final do saguão.

– Eu sei aonde tenho que ir, Len.

As paredes líquidas prateadas desvaneceram como se nunca tivessem existido. O corredor branco e sem janelas brilhava com luz solar filtrada e reconstituída. Ambrose piscou e atravessou, decidido, uma sequência de portas fechadas, que o fizeram se lembrar de maneira incômoda de seu sonho recorrente. Sua vida enquanto está acordado não lhe pertence... Tirou o pensamento da cabeça e, com a palma da mão, fez a porta se abrir.

No recinto pouco iluminado, seu irmão estava de pé ao lado de um imenso fluxo externalizado de dados da UniCorp, um conjunto flutuante de textos e gráficos móveis. Ambrose reconheceu parte deles como sendo o Fluxo de Processo que criara com o pai: a probabilidade de cada possível resultado da operação. Sucesso: 92 por cento. Insanidade: 1 por cento. Suicídio: 1 por cento. E assim por diante. Len virou a palma da mão para cima e um modelo detalhado do cérebro humano surgiu no ar. Ambrose entrou, e a porta se fechou atrás dele.

– Cadê o papai?

– Aqui, Ambrose, desculpe.

A voz profunda e ressonante veio de uma mancha de espaço negativo que zumbia baixinho. Ela representava os padrões e personalidade de Martin Truax, que vivia exclusivamente dentro do Unison, projetando sua imagem no escritório do mundo real para grandes eventos e reuniões de diretoria. Seu eu corpóreo era mantido em estase permanente num local tão secreto que nem os filhos o conheciam.

– Qual o problema? – perguntou Ambrose, fazendo um esforço para se concentrar no borrão.

– Estou tendo alguns problemas com a largura de banda – seu pai explicou, tremulando de leve. – Precisei mandar a equipe de Chen embora ontem à noite. Realoquei recursos para tapar o buraco. A maior parte de Unison não foi afetada, mas alguns problemas de back-end ainda precisam ser resolvidos.

Ambrose concordou com a cabeça, tentando se lembrar do rosto do Sr. Chen. Associados de Programação e de Fluxo de Processo raramente se misturavam.

– Eu queria ter me livrado dele no ano passado – disse Len. – Se tivesse me ouvido, você poderia ter economizado...

– Ah! – Linhas tênues começaram a brilhar dentro do borrão cinza como raios no interior de uma nuvem. As linhas se conectaram e surgiram os contornos de uma figura humana. A sala clareou à medida que a projeção de Martin Truax atingiu cem por cento de intensidade. Dois técnicos que até então não haviam sido vistos apareceram na extremidade oposta do recinto, ocupados ao redor do tubo de escaneamento que reluzia em sua plataforma elevada. Len fez desaparecer o fluxo de dados e esperou o criador de Unison acabar de chegar.

Seu pai tinha 71 anos de idade, mas não parecia ter mais de 40. E não era só porque a imagem o favorecia: a vida toda Martin Truax se aproveitara das melhores modificações anti-idade que o mundo tinha a oferecer, viajando a cada ano para a Livre União Asiática em busca de tratamentos raros e não testados. Ambrose viu o cabelo claro do pai definir-se. Sempre parecia revolto, em completo contraste com o resto de sua aparência imaculada: terno azul, abotoaduras vinho, um U de UniCorp dourado preso à lapela. Os técnicos do outro lado da sala pararam e olharam. Mesmo como imagem, a força cinética de Martin Truax era irresistível. O homem era um dínamo de energia e ambição. Ambrose endireitou a postura quando um misto de orgulho e ansiedade tomou conta dele.

Martin Truax sorriu e estendeu a mão para o filho caçula. Ambrose a pegou, e seus receptores palmares enviaram sensações falsas que formigaram braço acima. Teve a sensação de apertar uma verdadeira mão humana. Seu pai deu uma piscadinha, e depois entrou em ação e começou a dar ordens. Os técnicos se agitaram. Ambrose seguiu o irmão até o tubo de escaneamento, que se abriu revelando um interior de aço liso, contendo apenas um orifício minúsculo por onde passava o raio do microbisturi. Ambrose fechou os olhos. De repente sentiu a boca muito seca. Ele havia analisado muitas vezes o fluxo de suas reações nervosas, e sabia com cem por cento de certeza que entraria no tubo.

– Ambrose, você não vai sentir nada – disse Len com uma suavidade surpreendente. – Você sabe disso.

Os olhos azuis de Len deixaram de lado o movimento ávido de sempre, fixando-se no irmão, que assentiu com a cabeça.

Ambrose olhou para o pai, que selecionava linhas de código de um programa externalizado, substituindo-as por fileiras de números luminosos saídos da palma de sua mão. Len tocou o ombro de Ambrose.

– Considere isto como sua promoção para sair da Brigada Podcast.

Ambrose riu. Às vezes Len era legal.

– Algum problema? – perguntou o pai.

Ambrose sacudiu a cabeça. Deviam começar.

As seis horas seguintes se passaram como um delírio febril. Dentro do tubo, não estava acordado e não estava dormindo. Seu corpo parecia suspenso num vasto espaço vazio, embora repousasse numa superfície com metade do tamanho de sua cama. A mente não chegou a parar por completo de funcionar, mas ele lutou para se agarrar às coisas básicas de sua vida: as coisas no quarto, detalhes do trabalho, os milhares de Amigos no Unison. Mas por fim estava tão desconectado que não teve escolha a não ser deixar de pensar. O último pensamento antes de sua mente esvaziar-se foi que era impossível não pensar sobre alguma coisa.

Quando estava inconsciente, o raio do bisturi penetrou-lhe o crânio e o tronco encefálico. Ao localizar o hipotálamo, ampliou-se para envolvê-lo por completo. O raio queimou através da membrana e se extinguiu.

Modificação.

Ambrose flutuou devagar de volta à superfície de seus pensamentos. Sentia-se exausto, pronto para dormir por vários dias. Mas, é claro, nunca mais voltaria a dormir. O pânico preencheu o espaço escavado pelo bisturi. Algo estava errado. Ele procurou o Fluxo de Processo correto para guiá-lo até uma conclusão reconfortante, mas não achou nada. Algo que ele nunca planejara havia mudado.

A transmissão.

Parte dela se implantara antes que Ambrose a apagasse, e agora ele estava preso dentro do código fixo. A mulher com o sotaque tinha algo mais a dizer, algo tão básico que não podia ser dito até ele estar sendo operado, seus receptores virados do avesso. Algo que ele não entenderia a menos que estivesse indefeso, incapaz de recusá-lo e de expulsá-lo da mente. A mensagem era parte dele, e não tinha escolha senão recebê-la.

A mensagem era o sonho.

A cena familiar o inundou de novo. Um bebê estava preso ao interior de um tubo de escaneamento. A tampa do aparelho abriu-se e os olhos úmidos focaram o mundo pela primeira vez. Martin Truax, em carne e osso, iluminava com uma luz azul todo o corpinho que se debatia. Havia técnicos externalizando gráficos.

Seu sonho era uma recordação.

Um dos técnicos virou para cima a palma da mão e surgiu a imagem de um bebê. Presos ao bebê havia dúzias de fios metálicos. O técnico traçou um deles com o dedo, e Ambrose sentiu o braço formigar. Os fios ligavam-se a seu corpo. Ele estava sendo construído. Ele era o bebê.

A recordação era real.

Ele aceitou isso sem resistência ou hesitação porque uma parte dele sempre soube. De algum modo a mulher também sabia.

Ele nunca havia nascido.

Seus parentes mais próximos eram os técnicos de laboratório que o tinham criado.

De repente seu cérebro abandonou a transmissão, ou o procedimento abandonou seu cérebro. De um jeito ou de outro, a lembrança onírica sumiu.

Ela estava sendo retirada.

Criado com que objetivo? Ele tentou agarrar-se à transmissão, mas ela se fora. Seria aquele o fim do procedimento, ou eles tinham entrado em pânico e queriam arrancá-lo de lá antes que pudesse descobrir toda a verdade?

À medida que a fria realidade do tubo de escaneamento se impôs, ele de novo tornou-se o único habitante de seu corpo.

O tubo se abriu, revelando o teto branco do laboratório.

– Ambrose. – Era a voz de seu pai.

– Não tente se sentar. – Agora era seu irmão.

Mas ele se sentia bem, embora um pouco tonto, como se acabasse de acordar de um cochilo. A metade de cima do tubo se inclinou, colocando-se de pé, até ele estar cara a cara com o irmão. Seus braços e pernas ainda estavam atados. Os pés apoiavam-se em pequenas plataformas. Len deu um sorriso sombrio.

– Parabéns, Ambrose.

Ambrose olhou para o irmão. Como sempre, impossível de decifrar. Teriam eles se inteirado da transmissão? Não havia como saber. Melhor ficar calado. Tentou avaliar o fluxo de um rápido processo e notou como estava lento. Não pôde chegar a nenhum resultado real. Estava diante de um novo mundo, com um conjunto desconhecido de possibilidades e resultados, e sua habilidade estava um caos. Seu coração batia descontrolado, mas manteve a voz firme.

– Como fui?

– Você não fez nada a não ser ficar deitado dentro do tubo.

– Quero dizer...

– Nós modificamos com sucesso seu hipotálamo e os padrões cefálicos correspondentes. O desejo físico de seu corpo por sono já não terá registro.

– Me tira daqui.

– Você sabe que precisamos fazer uma série de testes, que você não pode simplesmente...

– Cadê o papai?

Seu pai surgiu em seu campo visual.

– Como previsto, o procedimento foi um sucesso. Len fará os diagnósticos, e depois nós o ajustaremos ao processo de calibragem. Preste atenção, filho.

– Qual? – perguntou Len.

– Ambrose.

– Podem, por favor, me soltar? – perguntou Ambrose.

Seu pai ignorou o pedido.

– Quero que continue concentrado na tarefa. Pode achar que se sente bem, mas é importante nunca subestimar os efeitos psicológicos de um procedimento de Nível Sete.

Ambrose deu um breve aceno com a cabeça e adotou o discurso de cientista empresarial que usava com seu pai.

– Levamos tais efeitos em conta no nosso Fluxo de Processo inicial. Dezesseis resultados de médio espectro envolvendo estados oníricos expandidos logo após o procedimento. Meu próprio monitoramento interno indica que...

– Como exatamente você está efetuando esse autodiagnóstico? – debochou Len. – Checando se a garganta dói?

– Leonard – admoestou Martin. Len voltou sua atenção para uma série de gráficos externalizados que giravam devagar no ar. – Ambrose, o que seu irmão está tentando dizer é que você precisa relaxar e nos deixar trabalhar.

– Meus resultados estão pouco claros. Quando vou ter de volta a habilidade de Fluxo de Processo?

– Logo – garantiu o pai.

– Talvez você sinta uma leve pressão – disse Len, situando as palmas das mãos a centímetros da testa de Ambrose e externalizando dados no espaço entre o tubo e o teto.

– Cala a boca, Len.

Len moveu as mãos devagar em torno da testa e do rosto do irmão. Os pés de Ambrose formigaram com a sensação de quase-toque.

– Deixa ver – Len disse, e moveu os dados de forma que Ambrose pudesse enxergar a projeção de seu cérebro dividida em seções transversais e subseções.

– Viu? Estou bem.

Len grunhiu. Aquela não era exatamente a área de competência de Ambrose. Len voltou-se para os dados, penetrou no hipotálamo e o expandiu, separando-o em partes. Cutucou fundo no cérebro de Ambrose, e a lembrança da transmissão se impôs. A atual realidade de Ambrose era uma imitação de seu nascimento: atividade cerebral projetada, tubos de escaneamento, Martin Truax. Ele analisou os gráficos de padrões cerebrais em busca de alguma indicação do que estava pensando. Se Len e seu pai perceberam algo, não disseram nada. De repente a imagem do pai falhou e sumiu. A iluminação do recinto atenuou-se outra vez. Martin Truax suspirou.

– Manterei uma construção vocal aqui no laboratório. Não sei bem o que está acontecendo, mas parece que não estou conseguindo... Len, peça aos Associados Billick e Greer para se projetarem no Escritório Virtual no Unison, depois que você terminar aqui. E o outro, ali...

Len ergueu uma sobrancelha para o espaço vazio.

– Chen?

– Chen.

– O senhor despediu Chen.

– Bem, assegure-se de que ele continue despedido.

Len assentiu com a cabeça. Ambrose tentou forçar as correias que prendiam seus punhos e tornozelos.

– Gente, preciso ir ao banheiro.

– Aguenta aí.

– Ah, dá um tempo, estou preso nesse tubo faz...

As correias se abriram. Len olhou feio para o espaço vazio onde seu pai estava.

– Você tem dados suficientes para começar a análise, Len – disse a voz do pai. – E ele já volta.

Ambrose se pôs de pé, ativando a circulação.

– Estou orgulhoso de você – a voz paterna disse, enquanto o garoto se dirigia à porta. – E te amo muito.

Ambrose quase parou de todo.

– Te amo também, pai.

– Vida melhor no Unison! – gritou Len, enquanto Ambrose abria a porta e percorria o corredor silencioso até o elevador. Entrou nele e chegou bem perto do espelho, apertando as têmporas, bochechas e nuca. O procedimento não tinha mudado sua aparência externa. Passou a mão pelo alto da cabeça, procurando algum vestígio dos fios aos quais estivera conectado quando era bebê. A lembrança parecera muito real dentro do tubo de escaneamento. Por que permitira que uma transmissão terrorista lhe incutisse dúvidas no dia mais importante de sua vida?

– Seu destino, por favor – pediu o elevador.

Ele hesitou, tentando recordar a última vez que seu pai dissera “eu te amo”.

– Banheiro dos executivos – disse.

Ambrose olhou seu reflexo e tentou imaginar como seria aparecer como uma imagem projetada. Pela primeira vez se deu conta de como seria fácil e natural mentir se você nunca estivesse de fato cara a cara com ninguém. Como você poderia se acostumar com isso, se estivesse no ramo de criar mundos novos e melhores.

– Espera aí! – gritou para o elevador. – Para o saguão.

Ele era Ambrose Truax, o futuro da UniCorp. Tinha responsabilidades. O curso de sua vida fora traçado com cuidado. O que estava fazendo, agindo assim por impulso?

Num instante analisou todas as formas pelas quais o pai poderia rastrear seus movimentos: vigias do prédio, impressões vocais, os transmissores e receptores nos implantes palmares. Precisaria ter o cuidado de não externalizar quaisquer dados para evitar o sinal. Isso queria dizer ficar desconectado.

E não poderia de modo algum projetar-se para dentro de Unison. A falta de interação com seus Amigos já o afetava. Lutou contra o impulso poderoso e súbito de bater as mãos e dar uma olhadinha no que rolava no mundo virtual. Seu coração batia forte. Fechou os olhos e enquanto o elevador descia concentrou-se no frio na barriga. O que quer que descobrisse, teria que voltar rápido. Devia pensar nas calibragens, na manutenção da sanidade. E precisava dar alguma explicação ao pai e ao irmão.

A porta se abriu. Ele cruzou o saguão, os olhos baixos, tentando não pensar nas dezenas de escaners de segurança pelos quais estava passando. Pelo menos ainda havia uma multidão.

Fora do prédio, a manhã luminosa dera lugar a uma tarde quente e enevoada. Os carros de chassis articulados e tetos arredondados lotavam o nível inferior do estacionamento e pareciam vibrar no calor. Ambrose caminhou depressa, lutando contra o desejo de pedir uma limusine com a palma da mão. Em algum momento teria que acessar o sinal para consultar wikis geográficas ou mapas de trânsito, mas não enquanto estivesse perto da sede da UniCorp. Que faziam as pessoas comuns quando precisavam ir com urgência a algum lugar?

Um táxi, pensou, e olhou ao redor. Nunca usara um, mas conhecia os carros amarelos que esperavam como urubus do lado de fora dos saguões dos atmoedifícios. Estava nervoso e afogueado. Seu traje moldável excretou uma cápsula de suor que caiu no chão e rolou para baixo de um carro. Ao lado desse carro estava um táxi decrépito, um modelo da era U-Space, sem o empuxo vetorial necessário para circular nos fluxos de tráfico superiores. Tudo bem. A Pequena Saigon ficava para baixo, não para cima.

Aproximou-se do carro amarelo banana desbotado. O taxista dormia no banco da frente. Ambrose bateu na janela e o homem despertou de um salto, derramando o café que segurava no colo. Ele olhou feio para Ambrose. Seu olho esquerdo e a pele ao redor tinham sido substituídos por um enxerto de aço plástico que brilhava no sol da tarde.

A janela se abriu.

– Fora de serviço, rapaz – grunhiu o taxista.

Ambrose não conseguia desviar os olhos. Nunca tinha visto uma modificação facial tão malfeita. Talvez fosse o trabalho de algum desmanche ilegal.

– É... é uma emergência – gaguejou Ambrose.

O olho de aço plástico projetou-se de sua órbita, preso por um cabo e escaneou Ambrose de alto a baixo. Deu um chiadinho e então retornou à cara do taxista.

A janela começou a se fechar. Ambrose olhou por cima do ombro. Outra cápsula de suor caiu perto de seu pé.

– Posso pagar. Pago quanto você quiser.

A janela deteve-se. O homem passou a língua no espaço entre as gengivas e os lábios estufando a pele. Em seguida, cuspiu dentro da caneca de café vazia e a guardou debaixo do painel.

– Bom, já estou indo pra casa, então se for no meu caminho...

Ambrose ergueu a pesada porta e escorregou para o banco traseiro. A porta se fechou. Dentro do carro havia um cheiro de pinheiro sintético e cigarro real.

– Para a Pequena Saigon, por favor – Ambrose anunciou.

O taxista teve um acesso de riso seco.

Ambrose afundou no assento.

– Como eu disse, é meio que uma emergência, então se você puder...

– Claro, garoto, claro. – O táxi se elevou do solo enquanto os propulsores tossiam e pegavam. – Tem amigos lá?

– Mais ou menos.

O taxista deu de ombros, com uma risadinha, e entrou no fluxo de tráfico de nível térreo da Cidade Litorânea do Leste. O padrão fora concebido para eficiência total e risco zero de acidentes, desde que os motoristas entregassem ao sistema o controle de seus veículos. Não fazê-lo era motivo de perda da licença e prisão.

O motorista desobedeceu às regras com tanta tranquilidade que Ambrose se perguntou como ele conseguia manter aquele emprego. Então percebeu que a licença dele não estava à vista em lugar algum. Segurou-se enquanto o sujeito cruzou quatro pistas de controle estrito e começou a penetrar numa quinta, para só então ligar a turbopropulsão. O táxi subiu acima do tráfico e em seguida mergulhou num beco sem saída entre dois atmoedifícios. Elevaram-se na outra ponta, onde o motorista por um instante juntou-se ao tráfego organizado, fez outra manobra lateral, e brecou de repente diante de um cilindro de acrílico, do tamanho de um elevador.

Uma câmara estanque de acesso à subcúpula.

– Isto vai te deixar na periferia da Pequena Saigon. – O taxista virou-se para olhar Ambrose, estudando seu holoterno azul e a pele lisa e bem cuidada. – Tem certeza, guri? Não quero me meter onde não sou chamado, mas de repente seria melhor você ir procurar seu barato em alguma espelunca no Unison em vez de descer até a Pequena S.

O taxista ergueu a sobrancelha ainda presa à pele humana. “Se desse meia-volta agora, poderia voltar ao laboratório sem dar muita explicação”, pensou Ambrose.

Então lembrou-se do sonho. Pensou na mulher da transmissão e em outras coisas que ela podia saber.

– Tá tudo bem, obrigado. Quanto é?

– Só tente não morrer lá embaixo, e estamos quites.

– Quer dizer...

– Cai fora. – A porta traseira se abriu.

– Obrigado – disse Ambrose.

O motorista sorriu. A maior parte dos dentes eram tocos estragados.

– Era caminho.

Ambrose desembarcou na rua quase deserta. Ninguém olhou para ele.

Dentro da câmara, postou-se sobre a plataforma enferrujada que o levou para baixo, descendo ao longo de uma grande vitrine de acrílico. Lá dentro, redemoinhos de vapor envolviam inúmeras estátuas branco-azuladas. Observando com atenção, ele viu que eram pessoas congeladas, as bocas abertas em terror. Sentiu um calafrio. Seria algum tipo de exposição pública de arte?

Então lembrou-se de algo que o pai contara fazia tempo: havia um fluido de congelamento rápido nas câmaras. Os residentes do lado de cima que tivessem IDs de código fixo podiam ir e vir à vontade sem ativar o fluido. Mas se um morador não autorizado da subcúpula tentasse subir, ficaria preso na câmara estanque, onde primeiro seus órgãos internos se congelariam, depois o sangue, depois a pele.

Seu pai tinha rido ao comentar que, se o sujeito tivesse sorte, acabaria dentro da vitrine de exibição, como um alerta aos demais. Caso contrário, seria simplesmente descartado. Era bem eficiente.

Uma das figuras congeladas era um adolescente que cobrira o rosto com as mãos no momento final. Os olhos arregalados apareciam através dos dedos abertos. No acrílico diante dele alguém tinha rabiscado BUUU!

Que tipo de lugar era esse?

A plataforma chegou ao fundo com um baque, e a porta da câmara abriu-se deslizando para cima. Pela primeira vez na vida, Ambrose Truax saiu para as ruas da subcúpula.