Unison: A Rede Social do Futuro

Andy Marino · Capítulo 15 de 19

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Unison: A Rede Social do Futuro

15 - Filhas

M istletoe tornou-se os olhos do Unison. Uma mulher idosa abraçou um homem idoso, e dois pontos de umidade apareceram na camisa dele, onde as lágrimas dela haviam sido absorvidas. Um garotinho acelerava sua scooter nova em folha, por uma encosta gramada, num parque do lado de cima. Uma multidão de pessoas felizes, usando holocamisetas da ULL, brindava com seus copos.

 

Mistletoe tornou-se os ouvidos do Unison. Pensamentos em microblogs e fragmentos de conversas amontoavam-se em sua mente. Ela ficou por dentro de bilhões de fatos insignificantes como Dia nojento! ou Atrasado graças ao perfeito sistema de controle de tráfego da Cidade.

Mistletoe tornou-se a alma do Unison. Ela ardia de inveja das pessoas mais talentosas. Ela dava duro nos estudos para realizar seus sonhos. Ela falhava. Ela tinha êxito. Ela sempre queria mais. Ela odiava seus pais, o dever de casa, seu chefe, os filhos, seus vizinhos, ela própria. Ela também amava tudo isso.

Ela chorava.

LOL!

Ela tentou gritar e descobriu que o Unison tinha tirado sua voz. Seus pensamentos moviam-se em câmera lenta, como se o cérebro estivesse debaixo d’água. Ela se debatia através do ar espesso que a cercava, repleto de vozes. Por fim conseguiu voltar à porta. O escritório estava logo ali, do outro lado.

Ela saiu para o ar normal, respirável. Sua cabeça se desanuviou. A primeira coisa que ela percebeu foi o aroma, um agradável toque de madeira defumada e laca. O mau cheiro de vinagre da planta que vazava havia desaparecido. Era como se o Unison tivesse decidido que este era o aroma de um escritório elegante.

Ela piscou para fazer desaparecer os resíduos dos dados brutos e olhou ao redor. Tia Dita também se fora. Ocorreu-lhe que Ambrose poderia estar certo. Martin Truax era o cérebro do Unison, e não teria sido difícil para ele produzir uma visão de Dita ali no escritório.

– Ambrose, vamos...

No lugar onde Ambrose estivera, havia uma garota que se parecia com Mistletoe. Espelho invisível, pensou ela. Outro truque. Martin estava sentado à escrivaninha, observando-a com expectativa.

– Bem-vinda – saudou ele. Havia algo meio errado com ele, como se durante a rápida ausência de Mistletoe ele tivesse conseguido se bronzear e engordar no rosto e no pescoço. Seu cabelo ondulado também mudara de loiro para um castanho intenso, que lhe dava uma aparência mais jovem. E o terno azul adquirira um tom turquesa vistoso e feio. A caneca sobre a mesa dizia EXECUTIVO DO ANO.

Ainda mais intrigante era o reflexo de Mistletoe. Ela usava um impecável terninho feminino, com elegantes calças pregueadas e uma blusa cinza-aço. E havia algo mais...

– Oi! – disse seu reflexo, estendendo a mão. – Sou Anna. Estou realmente ansiosa para ser sua Amiga.

Não havia trança, era isso. Esta Anna tinha um cabelo curtinho e simplesmente penteado e que parecia nunca ter sido tingido. Sua expressão viva mas severa dava-lhe uma aparência adulta, de executiva. Mistletoe sentiu-se como o alvo de uma complicada brincadeira de mau gosto.

– Onde está tia Dita? – quis saber. – Onde está Ambrose?

O sorriso de Anna vacilou.

– Com certeza você conhece a sequência de eventos. Não recebeu as instruções sobre o fluxo operacional do teste beta da Versão 3.0?

– Devo aceitar você como Amiga, e então tia Dita é libertada.

Anna abaixou a mão e olhou para o Martin Bronzeado. – Tia Dita? – perguntou-lhe, apenas movendo os lábios.

Martin Bronzeado deu de ombros e olhou de uma para a outra, antes de finalmente dizer a Mistletoe:

– Peço desculpas por qualquer confusão que meu equivalente tenha criado do outro lado. Agora, por favor, inicie sua Amizade.

– Se não me disser o que fez com eles, juro que caio fora daqui.

Martin Bronzeado olhou-a intrigado.

– Você praticamente cumpriu seu propósito. Por que se dar ao trabalho de vir até aqui se não vai iniciar uma Amizade com você mesma?

– Eu nem gosto tanto assim de mim mesma.

– Você sabe quem somos... quer dizer, você e eu... certo? – perguntou Anna.

Mistletoe ignorou-a e examinou o escritório. As prateleiras eram de cerejeira, e não mais de vidro. E em vez de fotos emolduradas, continham esculturas de aves feitas com arames.

– Que lugar é este?

Cada parte de Mistletoe rugia FUJA DAQUI. A repentina avalanche de coisas que ela não entendia estava deixando-a zonza. Mas ela havia usado sua última cápsula de login. Se saísse agora, Ambrose talvez se fosse para sempre.

– Somos a mesma – informou Anna. Seu sorriso ansioso fez Mistletoe ter vontade de estapeá-la. – No nível genético, há partes iguais de mim em você e de você em mim. Somos equivalentes. Homólogas genéticas. Gêmeas híbridas. – Seu sorriso aumentou. – Como preferir.

– Você trabalha para esse cara? – perguntou Mistletoe, apontando com o polegar para Martin Bronzeado.

– O Diretor-Criador Truax? – disse Anna, confusa. – Claro.

– Então não tenho nada em comum com você.

– Não é o que nosso DNA indica.

Mistletoe sentia-se febril, coberta por uma camada viscosa de suor. Estava num pesadelo. De algum modo tinha sido infectada pela doença mental de Ambrose, e estava tendo alucinações. Mecanicamente, ela ergueu as mãos para os lados da cabeça e posicionou as palmas a dois centímetros das têmporas.

Fuja.

– Anna, fique Amiga dela agora! – berrou Martin Bronzeado, saltando por cima da escrivaninha.

A planta desenrolou um tentáculo cheio de folhas na direção dos tornozelos dela. Anna parecia amedrontada e perplexa.

Mistletoe lembrou-se do cachecol amarelo sufocando tia Dita. Isto não é real, disse a si mesma. Ambrose está certo. Além do mais, Martin Bronzeado nem sabia do que ela estava falando. Ela tinha que sair, ou perderia o que restava de sua mente.

Martin Bronzeado ergueu-se ameaçador sobre ela, com um ar de desespero feroz em sua cara gorducha, artificialmente infantil. Ele segurou os pulsos dela no mesmo instante em que ela colocava as palmas das mãos sobre as têmporas, fechando o circuito de logout.

A sala afastou-se, formando um único ponto distante.

Sentia na boca um gosto quente e metálico, como uma moeda pré-Unison.

Abriu os olhos. Estava escuro dentro do tronco de fios de Magnus e Ivor. O piso era muito mais confortável do que ela se lembrava. Ficou ali sentada um instante, aliviada por estar de volta à realidade que ela compreendia, na subcúpula; então tossiu uma grande massa de muco.

Se algum dia voltasse a ver Deirdre O’Hanlon de novo, ela faria questão de dizer-lhe que concordava com Pyotr: eles estavam muito melhor sem o Unison. A maior rede social da história não passava de um ciclo interminável de confusão e frustração. Ela havia tentado fazer o que Martin exigira dela para salvar Dita, mas aí Dita tinha sumido e Martin estava diferente, e não tinha ideia do que ela estava falando. Para que tudo isso?

Ela decidiu que pegaria Nelson e sairia. Voltaria para a casa bombardeada de tia Dita, para buscar evidências. Talvez então pudesse determinar se Martin de fato a sequestrara ou se ela apenas se fora.

Ambrose teria de se virar sozinho até que ela bolasse um jeito de logar de novo. Talvez Sliv conhecesse alguém que pudesse inserir código fixo nas palmas das mãos dela.

Quando ela se levantou, uma luz branca agradável se iluminou à sua volta. O tronco de fios havia desaparecido. E o laboratório subterrâneo dos dois irmãos tinha se tornado a sala de estar de um apartamento chique do lado de cima. Sua fúria explodiu, repentina e ardente.

– Ainda estou nesta droga de Unison! – ela berrou.

– Reconheço as palavras-chave, mas não o comando – respondeu a sala, numa voz tranquilizadora, de gênero neutro. – Por favor, reestruture a frase ou permita que um escaner de pensamento determine sua intenção.

– Se mata – disse Mistletoe.

– Entrando no modo offline – informou a sala. – Até logo, Anna. Tenha um bom dia.

Mistletoe cerrou o punho e olhou ao redor procurando algo para esmurrar. Uma mesa circular no meio da sala projetava uma enorme imagem externalizada de Martin Bronzeado com os braços ao redor dos ombros da gêmea executiva de Mistletoe e um garoto que parecia uma versão mais alta, mais bonita de Ambrose, com malares salientes, quase femininos.

– Espera aí! – ordenou Mistletoe. – Onde estou?

– Na sua moradia UniCorp designada – respondeu a sala. – Apartamento 1763X, no nonagésimo oitavo andar de um atmoedifício de luxo quatro estrelas adquirido pelo Diretor-Criador Truax, e redirecionado para a cúpula administrativa.

– Então não estou no Unison?

– Você voltou do Unison exatamente dois minutos e quarenta e um segundos atrás.

Uma das paredes da moradia era um painel inteiriço, do piso ao teto, de vidro escurecido com um tom esfumado. Mistletoe pressionou as palmas das mãos contra o vidro, e o esfumado dissolveu-se para revelar uma estonteante vista panorâmica da Cidade Litorânea do Leste. Do apartamento eram avistados alguns prédios vizinhos mais baixos – um deles com um telhado feito de areia amarela salpicada de tendas vermelhas e brancas – e o quadriculado de ruas vazias lá embaixo. À distância, o quadrado verde do campus da ULL interrompia a sequência constante de atmoedifícios. Elevando-se além do campus, o topo curvo do Projetódromo Nove reluzia ao sol da tarde. Ela nunca havia visto a cidade de tão alto, e levou um instante para perceber o que havia de errado: as ruas estavam quase vazias.

Ela havia passado quase toda sua vida olhando através da cúpula lá para cima, para o fluxo de tráfego, e tinha uma certeza: ele nunca se interrompia. Mas agora – ou aqui – havia uns poucos carros percorrendo as vias. Onde estavam os padrões sobrepostos de tráfego elevado? A cena deveria estar cheia de movimento e geometria, de linhas alimentando linhas e ramificando-se em mais linhas. Mas a Cidade Litorânea do Leste era uma cidade fantasma. Impossível!

Ela teve um pensamento perturbador.

– Preciso de um espelho.

A sala obedeceu, e a porta que dava para a cozinha transformou-se em uma lâmina opaca de vidro. Mistletoe tinha a exata aparência da ansiosa patricinha Anna, sua gêmea no lado de cima. A trança desaparecera. Ela usava aquele terninho horroroso de executiva.

– Quem sou eu?

– Anna 53. Associada da UniCorp. Departamento: confidencial.

Ela havia se transportado para dentro do corpo real de sua gêmea. Era verdade: elas partilhavam o DNA. Ela beliscou a pele do braço, tocou o estômago por baixo da blusa. Parecia ela mesma.

– O que aconteceu aos carros?

– O transporte corpóreo na Cidade Litorânea do Leste é ilegal sem uma permissão. Noventa e oito por cento da interface entre humanos é realizada via Unison.

– Não. Existem milhões de carros. Eu os vi. Estive em um táxi.

– O transporte corpóreo na Cidade Litorânea do Leste é ilegal sem uma permissão.

– Certo. Valeu. – Ela se afastou do espelho.

– Você parece desorientada. Gostaria que eu tocasse uma música destinada a estimular suas funções cerebrais?

Ela ignorou a voz. Pela janela, olhou através da cidade. Pensou em tudo que estava diferente quando ela atravessou a porta: a decoração do escritório, a aparência de Martin, o fluxo de trânsito na Cidade. Era como se alguém tivesse construído um modelo detalhado do mundo para uma grande exibição de museu, sem no entanto conseguir fazer nada certo. Nesta versão de museu, Anna 53 – eu, pensou Mistletoe – era uma participante ativa na atualização do Unison. Isso significava que, aqui, Anna tinha crescido lado a lado com Ambrose e se tornado uma feliz e ambiciosa integrante do Unison. Não tinha havido nenhum resgate audacioso. Ela não havia sido armazenada sob a cúpula. Ela não tinha ficado escondida nem ouvido mentiras. Ela não havia atrapalhado tantas vidas. E quanto a Jiri e Dita? Estariam vivos neste lugar?

– Ei! – gritou para a sala.

– Por favor, escolha um compositor dentre os seguintes: Mozart. Debussy. Bach. Beetho...

– Mostre-me como chegar à Pequena Saigon.Em seu bairro, só havia falsas percepções e visões fugazes. Ela caminhou atordoada, com medo de tocar alguma coisa e ver sua mão passando através dela, provando a imaterialidade deste mundo... ou do mundo dela. A cada poucos minutos, seu coração disparava e ele tinha de parar, fechar os olhos e respirar fundo. As pontas de seus dedos formigavam e perderam a sensibilidade.

Ruas que deveriam levar para a esquerda viravam de repente para a direita, e mesmo assim levavam-na para o mesmo lugar. Ela reconheceu uma barbearia antiquada, e até os rabiscos pichados na porta, mas a pessoa que atendia era uma mulher gorda e não o homem com nariz de batata que era dono do lugar desde que ela era menininha. A maçã que ela roubou de um vendedor de rua tinha o gosto exato de um pêssego maduro demais; ela deu uma mordida e jogou o resto fora.

Mistletoe parou ao avistar o garotinho gorducho que correu para trás de uma carreta estacionada, carregada de pneus velhos. Um cartaz pendurado anunciava BORRACHARIA DO CHUCK. Ela seguiu o menino até um beco, onde ele se juntou a três crianças que jogavam holodados de onze lados contra a parede de tijolos. Ela ficou fora de vista, escutando até que o garotinho espirrou.

– X-x-xam-puuuuu!

Ela entrou no meio do jogo. Xampu deteve-se, os holodados brilhando numa das mãos.

– Ei, qual é?

– Eu só queria pedir desculpas por ter te assustado da última vez que a gente se viu.

Xampu olhou-a de canto de olho. Não estava tão sujo como de costume, e seus olhos tinham cores diferentes – um verde, outro azul. Ele limpou o nariz com as costas da mão que segurava os dados.

– Vai logo! – reclamou outro garoto.

Mistletoe viu que Xampu examinava seu rosto.

– Hã, acho que você tá falando com a pessoa errada – disse, por fim.

– No outro dia você me viu na entrada da loja de velharias de Jiri. Você gritou meu nome, mas eu estava tentando me esconder e fiquei brava com você.

Ele mudou o peso do corpo de um pé para o outro, desconfortável.

– Não me lembro disso.

– Tá, tudo bem. Eu me enganei. – Ela revirou o bolso de Anna 53 procurando algo para dar a ele e encontrou um broche de U dourado.

– Você quer?

Xampu a olhou desconfiado.

– Pega. É seu.

Ele estendeu a mão e pegou o broche.

– Valeu.

– Limpa o rosto – disse ela, e afastou-se dos garotos que continuaram jogando.

Era verdade: neste lugar, Mistletoe era uma estranha. Era bem triste saber que este mundo quase familiar da subcúpula existia sem ela. Enquanto percorria as ruas apinhadas rumo à favela vertical de Dita, seus pensamentos começaram a vaguear.

Estaria Anna 53 tentando desesperadamente se transportar de volta para seu corpo? Mistletoe estava aliviada por estar fora do alcance do sinal. Ela imaginou as duas disputando espaço no cérebro. Ficar presa junto com aquela garota seria um inferno em vida. Mas talvez Martin Bronzeado apenas a dispensasse. Talvez ele tivesse outras. Neste mundo ela era Anna 53. Será que isso queria dizer que em algum lugar viviam da Anna 1 à Anna 52?

Ao pé de uma viela estreita que subia sinuosa até o alto da favela, Mistletoe passou por duas garotas que jogavam uma para a outra um grande caramujo verde-brilhante. Quando virou na rua de Dita, ficou tão aliviada em ver a casa ainda intacta que quase abraçou um dos arbustos em forma de lágrima. Ao aproximar-se da porta marrom (que sempre fora azul) ela olhou para o final da rua sem saída. Na lateral do bar de absíntio, um pôster rasgado na parte de baixo dizia: dois por um.

Ela subiu os degraus da entrada e deteve-se quando estava a ponto de bater, a mão fechada a um centímetro da porta. Imaginou o que teria acontecido se tivesse adicionado Anna como Amiga. Qual seria a fase seguinte da Versão 3.0? O que exatamente ela estaria testando como usuária beta? Se viesse se esconder aqui, talvez nunca soubesse seu verdadeiro propósito. Ficou pensando nisso por um segundo.

Então bateu na porta.