Unison: A Rede Social do Futuro

Andy Marino · Capítulo 16 de 19

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Unison: A Rede Social do Futuro

16 - Filhos

M artin deu um puxão violento no cachecol amarelo e Dita desapareceu. O cachecol pendeu de sua mão e então ele o atirou na planta que apodrecia, agora marrom.

– Lamento que você tenha visto isso, Ambrose.

– Onde está ela?

– A Dita verdadeira foi vaporizada dias atrás. Ela conseguiu se explodir quando meus homens cercaram sua casa. Esta Dita era só um Perfil com I.A. básica.

– Estou falando de Mistletoe.

Martin cruzou os braços e olhou, através da porta, para a tempestade de dados. Estendeu um dedo e um Fluxo de Pensamento arremessou-se para dentro do escritório, prendendo-se a sua ponta. Martin torceu seu punho e a frase pés muito membranosos! escorreu de sua mão e caiu no chão.

– Existe uma realidade paralela, semelhante à nossa – disse Martin. Ele estava quase de costas. Ambrose ergueu as mãos, as palmas quase se tocando. Ele não poderia se transportar para fora até descobrir o que havia acontecido com Mistletoe.

– Você quer dizer que existe um número infinito de realidades paralelas – disse Ambrose. Isso era física básica de escola fundamental.

Martin virou-se e voltou para a escrivaninha. Ambrose colocou as mãos para trás, segurando o pulso.

– Mas quantas delas compartilham uma mesma rede social? – indagou Martin. – Apenas uma que eu tenha conseguido encontrar. Ou devo dizer, que me encontrou.

– A transmissão original. Nossas instruções de design – disse Ambrose. Ele desejou que sua habilidade de Fluxo de Processo funcionasse e levasse seus pensamentos para um ponto final lógico. Mas era impossível, e ele apenas podia supor. – Todos esses dados de Perfil estão fortalecendo a conexão entre nossos mundos. As redes sociais são a ponte, e isto é... – como Martin havia chamado? – ... um portal para nós mesmos.

– O próximo nível de Amizade – concordou Martin. – Agora, a questão mais importante é quanto cobrar dos usuários pela oportunidade sem precedentes...

Ambrose deu um passo atrás quando um vulto assombroso saiu pela porta.

– ... de adicionar a si mesmos como Amigos.

O vulto era um garoto que poderia ser um irmão gêmeo mais alto de Ambrose. Os ossos de sua face eram diferentes. Um tanto femininos, pensou Ambrose. E ele usava um terno marrom-claro com grossas listras horizontais vermelhas.

Ambrose e seu gêmeo se entreolharam. Então o gêmeo estendeu a mão.

– Sou Ambrose 47. Estou ansioso para começarmos nossa Amizade.

– Bacana esse seu terno.

– As diferenças entre nossas sociedades, embora sejam relativamente pequenas, vão parecer estranhas no começo. Sugiro que, para que nossa Amizade seja um sucesso, nós nos concentremos em assuntos da UniCorp e evitemos piadas e sarcasmos.

É assim que eu falo?, pensou Ambrose.

Ambrose 47 estendeu a mão de novo, caloroso.

– Por favor, Ambrose, salve sua mente – disse Martin. – Aceite a Amizade, e prepararemos o laboratório para a calibragem.

– E então o que vai acontecer? – quis saber Ambrose.

Seu gêmeo pareceu confuso e voltou-se para Martin.

– Ele não recebeu instruções detalhadas?

– Não se preocupe com isso – respondeu-lhe Martin. A planta era uma pilha de folhas marrons misturadas à poça viscosa no piso; a moldura de foto estava vazia. – A única coisa que importa agora é sua Amizade.

– Ambrose, você e eu vamos selar o vínculo entre nossas realidades deste lado do portal – explicou Ambrose 47. – As duas Annas vão fazer o mesmo do outro lado.

– Eu amo você, Ambrose – disse Martin.

– É uma honra poder manter o portal – declarou Ambrose 47. – Estaremos contribuindo para a maior margem de lucro projetada da história da UniCorp.

– Manter o portal? – Ambrose olhou para Martin, que havia se levantado e agora estava na frente da escrivaninha. – Você nos construiu para que nos tornássemos uma espécie de portal vivo?

– Os dados de Perfil dos usuários são voláteis – respondeu Ambrose 47. – Nós somos capazes de controlá-los.

– Já chega – disse Martin, indo na direção deles.

– Nosso DNA foi especialmente fortalecido para existir em ambos os mundos – prosseguiu Ambrose 47, orgulhoso, – e para absorver uma quantidade espetacular de energia.

– Você é um ser humano, Ambrose – disse Martin. – Você é meu filho.

– Se desejam um momento a sós para discutir isso, posso me transportar para fora – ofereceu Ambrose 47. – Mas, claro, vou precisar de seu corpo real, Ambrose.

– Claro – respondeu Ambrose. – Ele está em estase, junto com o de Martin.

Ambrose 47 pareceu surpreso.

– Na fazenda genética?

Martin acertou o rosto de Ambrose 47 com as costas da mão.

Ambrose bateu palmas uma vez.

De volta ao buraco onde estava o carro da segurança da UniCorp, Ambrose chutou a parede de terra. Foi invadido por uma onda imensa de vergonha e fúria. Sentia-se como o mais patético tipo de perdedor de Tetra Jack, aquele que é vencido e humilhado por jogadores mais espertos e continua voltando para perder e perder, a cada vez pensando que, finalmente, ia conseguir. O procedimento de Nível Sete tinha sido o trunfo de Martin, e ele havia jogado tão bem que Ambrose tinha praticamente implorado para ser submetido ao laser.

Ele embarcou no carro. O teto do recinto subterrâneo abriu-se, revelando um quadrado perfeito do cinzento anoitecer do norte. O carro apontou para cima, emergiu da terra e disparou através da planície na borda da floresta. Em sua fúria, Ambrose acelerou ao máximo o veículo. Os pinheiros passavam como borrões. O céu estava tingido com garras espectrais vermelhas e alaranjadas. Para banir visões indesejáveis, ele pensou em Mistletoe, perguntando-se se ela teria se tornado Amiga da outra Anna. Ele não pôde evitar imaginar os dados de Perfil ondulando sob a pele dela como vermes parasitas.

Ele pensou no que faria se encontrasse seu pai – Martin, berrou a si mesmo, batendo a mão através do brilho dos controles do painel – e torceu para ter estômago suficiente para encarar a situação.

Então esvaziou a mente e concentrou-se na corrida alucinada rumo às luzes do distrito agropecuário, nos limites da Expansão da Nova Inglaterra. Escureceu o para-brisa para bloquear o brilho das estufas dispostas em degraus, que cascateavam pelas laterais dos atmoedifícios. Na grade de trânsito perimetral, ele penetrou no fluxo no nível das ruas, inserindo-se atrás de uma fila de transportadores de laticínios em forma de projéteis. Deixou a coordenação automática conduzi-lo alguns quarteirões mais perto do distrito central, e então ligou os propulsores e juntou-se à grade do nível superior. Passou diante de longas galerias cobertas de pastagens e salpicadas com rebanhos de gado adormecido, e então deteve-se na altura do antigo pasto elevado da Gen-Farm. Ele não vinha ali desde o dia que Len o fez atirar a bolinha por cima da borda.

Passou com o carro por cima da barreira de acrílico jateado e sobrevoou o terreno suspenso. Ambrose tinha certeza de que Martin equipara o edifício com um sistema de segurança totalmente automatizado. Com os guardas humanos, mesmo Associados de confiança da UniCorp, sempre havia uma chance de que alguém revelasse a localização. Mas a área estava tranquila quando ele pousou o carro perto da câmara central de irrigação.

As vacas que pastavam ali perto nem sequer reagiram a sua presença. Ele saiu do carro e pisou no solo esponjoso. O edifício tinha mais de cem andares, e o corpo de Martin poderia estar em qualquer lugar. O primeiro passo seria conseguir penetrar em seu interior. Ambrose deu a volta à câmara de irrigação, inspecionando-a, mas era um cilindro de metal sem qualquer junta. Ele imaginou se poderia perfurá-lo com o carro de segurança.

No ponto onde estacionara, duas vacas malhadas de marrom e branco tinham se movimentado e vindo pastar a poucos metros do carro. Ambrose ficou pensando por que elas estavam pastando de noite. Seriam criaturas noturnas? Ele não sabia muita coisa sobre vacas sintéticas. E agora ele estava pensando duas vezes quanto a abalroar a câmara de irrigação.

Uma das vacas parou de pastar e ergueu os olhos sonolentos para estudar Ambrose.

– Oi, garota – disse ele.

A vaca abriu a boca, deixando cair um chumaço de capim. Uma luz brilhante alaranjada piscou dentro de sua garganta. Quando o disruptor emergiu, Ambrose já havia se jogado ao chão macio. O primeiro disparo abriu um buraco irregular no metal da câmara de irrigação. Ambrose ergueu-se e ficou agachado. O segundo tiro queimou o capim onde seu rosto estivera um momento antes. Ele deu duas passadas longas e lançou-se através do buraco, arranhando o braço nas bordas incandescentes, enquanto torcia o corpo em um mergulho desajeitado. Ele se perguntou a que distância cairia e como seria a aterrissagem.

Então o choque com a água gelada amorteceu a dor lancinante em seu braço. Ambrose ficou totalmente submerso. Uma luz fraca apareceu nos limites de sua visão. Ele nadou em sua direção, penetrando ainda mais na câmara. A luz vinha de uma janela circular, mais ou menos do diâmetro de sua cabeça, situada no centro de uma comporta estanque. Havia uma maçaneta, que ele tentou virar, sem êxito. Estava ficando zonzo. Se nadasse de volta para tomar ar, não sabia se conseguiria vir tão longe novamente. Ele ficaria preso ali, boiando na água até que seu corpo afundasse de pura exaustão.

Ele reuniu o que restava de suas forças.

Não sou humano. Fui construído para fazer coisas impossíveis.

Ele apoiou os pés contra a lateral da câmara e puxou a maçaneta. Algo estalou em seu ombro; a dor era distante e sem importância. Ele fechou os olhos e fez força, até que finalmente a maçaneta cedeu. Ele rolou através da porta. Cuspindo água, meio nadando e meio rastejando, ele foi carregado pela torrente de água até conseguir colocar-se de pé. Estava num recinto vazio e enorme. A água da câmara continuou a jorrar da porta num arco magnífico. Ela inundou o recinto, subindo acima de seus tornozelos. Ambrose respirou fundo e olhou ao redor.

Um emaranhado de canos no teto parecia destinar-se a distribuir a água da câmara. Ele chapinhou ao longo de um corredor estreito, seguindo por baixo dos canos. Para permitir ao usuário manter-se permanentemente inserido, o aparelho de estase devia manter-se refrigerado e hidratado. A fazenda genética já estava equipada para irrigação em grande escala. Era o lugar perfeito. Martin provavelmente tinha comprado o edifício inteiro.

Ambrose seguiu os canos até uma sala onde havia duas fileiras de tubos de escaneamento abertos, arranjadas como as camas de uma sala de quarentena em um hospital. Ambrose percorreu as fileiras, examinando cada tubo. Estavam vazios. Apenas o último estava fechado.

O garoto sentiu a resistência instintiva de seu cérebro às alucinações, que eram tênues e breves, antes de ser dominado por um temor crescente e pela sensação de que não haveria volta. Viu o reflexo difuso de seu próprio rosto na superfície prateada do tubo. Então deslizou a metade superior, revelando a face de Martin, congelada com a boca em um riso forçado. A carne ao redor da boca murchara, reduzindo-se a uma membrana translúcida, fina como papel, que deixava à mostra gengivas rosadas e dentes amarelados. Os olhos eram manchas negras afundadas. Uma maçaroca de fios brotava de suas têmporas e por entre os ralos fios de cabelo no alto da cabeça.

Ambrose piscou para tentar fazer o lugar desaparecer, sem sucesso.

A boca de Martin se abriu, e a carne das faces se partiu, estendendo seu sorriso até as orelhas.

Isto não é real.

– Eu queria que fôssemos felizes – engrolou a garganta de Martin. A boca inútil pendia sem se mover.

Ambrose não pôde evitar responder, embora tivesse uma vaga certeza de estar conversando consigo próprio. A visão do corpo acabado e atrofiado de Martin fez com que se sentisse mal pelo que estava a ponto de fazer.

– Eu era feliz – disse, com franqueza. – Mas a vida que você me deu era uma mentira.

Ele estendeu a mão para dentro do tubo, e o movimento liberou um cheiro nauseante, adocicado e enjoativo. Segurou o braço quebradiço de Martin. A pele era como uma gelatina espessa; se apertasse demais, ficaria viscosa e escorregadia. Um fio vermelho prendia-se ao meio da palma da mão esquelética.

– Ainda há tempo. – A voz de Martin veio de algum outro lugar, e Ambrose não tentou saber de onde. – Podemos começar de novo.

– Eu estou começando de novo – respondeu Ambrose. – Só que não aqui. Não com você.

Ele ergueu o outro braço. A palma da mão estava conectada do mesmo jeito.

Os tendões do pescoço magro de Martin contraíram-se e partiram-se. Um líquido marrom escorreu dos ferimentos, cheirando a carne podre. Ambrose tentou firmar as mãos trêmulas.

Sou mais forte que um ser humano.

Ele deixou que os braços de Martin pendessem para fora do tubo.

– Você não tem liberação de acesso para minha Plataforma Administrativa – protestou Martin. – É avançada demais para você.

– Fui concebido para absorver infinitos dados de Perfil, lembra-se?

Ambrose agarrou o pulso esquerdo de Martin e de um puxão retirou o fio vermelho. Posso fazer coisas impossíveis. Enterrou a ponta afiada na palma de sua própria mão, e a dor foi como uma garra incandescente que subiu por seu braço e alcançou o ombro.

– Você precisa de calibragem – gorgolejou Martin, lamuriando-se. – Não faça isso, fique comigo.

Com a sola do pé, Ambrose firmou o outro pulso de Martin na borda do tubo e arrancou o segundo fio.

– Estou cancelando a atualização. Vou devolver àquelas pessoas suas vidas.

– Você não está autorizado – insistiu Martin. Sua cabeça agitava-se de um lado a outro; a mandíbula abria e fechava, e os dentes amarelos partiam-se ao entrechocarem-se. – Minha Plataforma Administrativa está encriptada. Você não tem liberação de acesso.

Ambrose fechou os olhos.

Sou forte o suficiente para controlar minha mente.

– Liberação de acesso é para humanos.

Ambrose sentiu quando a vida fugiu do corpo de Martin. Fez-se silêncio na sala. O garoto abriu os olhos e fitou o corpo frágil do homem que lhe dera a vida. Então introduziu o segundo fio na mão. Acima dele, os canos prateados de irrigação dirigiam-se para cima, formando lá no alto a abóbada de uma catedral de aço. Seus sentidos estavam amortecidos, exceto pela cruel percepção de que seu coração batia alucinado. A pressão em seu peito expulsou o que restava de seu oxigênio.

Um beija-flor, pensou. Meu coração é como um beija-flor.

Ele mal podia se lembrar de seu próprio nome, e conseguiu dizê-lo apenas uma vez antes que sua mente ficasse totalmente em branco.

 

¬ ¬ ¬

Nas profundezas de um sonho fluido, Ambrose sentiu um gosto de ferrugem. Sua boca foi inundada por saliva. Ele engoliu o amargor metálico, desesperado por uma sensação que substituísse a lembrança de seu coração em disparada. O sabor era familiar, mais parecido com ácido de bateria do que com ferrugem. Uma comichão começou no fundo da garganta e espalhou-se para a base do crânio, uma coceira enlouquecedora que fazia com que quisesse partir a cabeça ao meio para aliviar-se.

Havia completado o circuito de login.

A sensação de coceira congestionava seu rosto. Quis levar a mãos para esfregar a pele, e descobriu que ou as mãos tinham desaparecido ou ele não tinha mais rosto. Teve a breve e terrível impressão de um buraco negro onde nariz e boca deveriam estar.

Quando a onda de euforia o atingiu, Ambrose percebeu novamente todo seu corpo. Sentiu suas costas se arquearem como um gato UniPet e soube que havia morrido e renascido dentro do código fixo de Martin.

A gloriosa projeção deixou atrás de si um calor interno, como se ele acabasse de tomar uma cápsula de chá. Estava em casa. E sua casa havia sido muito melhorada durante sua ausência. Viu-se sentado detrás da escrivaninha de Martin, no escritório de Greymatter. A cadeira perfeitamente calibrada fazia-o sentir-se ao mesmo tempo relaxado e cheio de energia.

Reclinou-se e examinou Ambrose 47 em seu absurdo terno marrom e vermelho, tentando enxergar em seu equivalente algo além de um amontoado insignificante de dados coloridos.

Ambrose 47 espanou algo em sua manga.

– Isto não é nada profissional – disse em um gorgolejo distante e desagradável.

Ambrose remexeu-se. Estava louco para livrar-se de seu equivalente e explorar a Plataforma Administrativa que fora de Martin e agora era sua. O Unison respondeu a seu desejo, e a Plataforma eclipsou sua percepção, de modo que o escritório recuou até se tornar uma imagem na tela de uma tela, como a gravação granulosa de alguma transmissão pré-Unison. Ambrose 47 encolheu e virou uma manchinha esganiçada, distante, enquanto Ambrose acessava o Feed corporativo de Martin, um painel centralizado de análise de dados de Unison refulgindo como a Cidade Litorânea do Leste de noite. A interface era a coisa mais bonita que ele já havia visto. Ele não tinha apenas logado de volta à rede social; ele era a rede social. Os dados se separavam sozinhos, de acordo com a capacidade do próprio Ambrose de entendê-los, obedecendo a suas ordens não verbalizadas, como um professor que silencia a classe com um único olhar. Impressões de usuários em potencial, que nem sequer haviam começado a criar seus perfis, estavam traçadas em sua mente como se o Unison tivesse se estendido ao mundo real para cutucá-los no ombro e pedir que se inscrevessem. Este universo fazia sua antiga Plataforma Administrativa parecer um brinquedo.

Dentro do agora diminuto escritório de Greymatter, a figura indistinta de Ambrose 47 ia ficando mais e mais agitada.

– ... e não apenas isso, é uma violação da confiança do Diretor-Criador! – A voz era um zumbido de mosquito dentro da orelha de Ambrose. Naquele submundo de distrações inúteis fora dos confins da Plataforma Administrativa, Ambrose 47 falava e falava. A Plataforma respondeu a esse incômodo persistente apresentando a Ambrose um painel de deletar Conta.

Ambrose consultou o Perfil de seu equivalente. A sua volta, a Plataforma estremecia de ansiedade. Deletar um usuário de uma realidade paralela com certeza era algo que nunca fora feito antes. Seria um estudo de caso bem interessante: se a deleção resultasse na morte de Ambrose 47, ao menos Ambrose teria subsídios para melhorar a segurança nas atualizações futuras do Unison. Seu dedo pairou sobre o nome de seu equivalente, piscando em letras vermelhas. Era algo tão natural estar no controle absoluto, ter suas tomadas de decisão totalmente integradas com a Plataforma. Eliminar Ambrose 47 seria mais fácil que esmagar uma mosca. Então por que seu dedo estava paralisado, recusando-se a obedecer a seu comando?

A resposta pareceu vir de uma mente à parte, que ele vagamente reconhecia como sendo a sua própria. Bem lá no fundo, ele sabia que uma deleção fatal não deveria ser mais fácil que esmagar uma mosca. Ele se forçou a olhar nos olhos de seu equivalente. Com muito esforço, ele se lembrou de que Ambrose 47 não era apenas a soma total de dados de Perfil e atualizações de Fluxos de Pensamento.

Ambrose 47 tem ideias e sonhos. Como eu.

Seu dedo estendido tremeu quando ele tentou resistir à pressão crescente dentro do crânio, por trás do nariz. Era seu dever deletar Ambrose 47 para ver o que aconteceria. O Unison era seu trabalho. Greymatter era seu escritório. A Plataforma Administrativa era seu lar.

– Não – exclamou Ambrose em voz alta. – Não é assim que eu sou.

Ele dobrou o dedo, afastando-o do nome de Ambrose 47 e dispensou o painel de deletar Conta. Sua testa parecia estar sendo aberta aos poucos por uma navalha. A Plataforma conhecia-o melhor do que ele próprio. Seria fácil livrar-se daquela dor: era só abrir de novo o painel e fazer o que o líder decidido de uma corporação, como Martin Truax, teria feito.

Ambrose respirou fundo.

– Eu não sou como ele. – Fechou os olhos e afastou uma visão horrenda de si mesmo como uma casca apodrecendo em um tubo de escaneamento irrigado. – Nunca serei como ele.

A dor reduzira-se agora a um latejar surdo.

– Do que você está falando? – a voz de Ambrose 47 de repente soou nítida e próxima.

Ambrose abriu os olhos. A percepção do escritório ficou mais clara e moveu-se para o primeiro plano de sua visão. Ele estava cercado por prateleiras de vidro e molduras vazias. Ao lado da escrivaninha, a planta era uma massa de folhas mortas e talos quebradiços. Ambrose 47 tomou uma forma definida e cruzou os braços.

– Você não prestou atenção em nada do que eu disse.

– Acabei de sacar que não vou matar você – comentou Ambrose.

Ambrose 47 olhou-o por um instante antes de dirigir-se para a porta aberta atrás da escrivaninha.

– Quando entregar meu relatório ao Diretor-Criador, não terei opção senão declarar que o teste beta da Versão 3.0 foi um fracasso.

Ambrose girou a cadeira para fitar a onda de informações de Perfil que se avolumava, e lembrou-se do que ele viera fazer.

– Espera! – chamou. Seu equivalente deteve-se junto à escrivaninha. Ele está condicionado a obedecer ordens, pensou Ambrose. Ele fez isso a vida toda. – É culpa minha que o teste tenha sido insatisfatório. Martin e eu tínhamos alguns pontos não resolvidos quanto à garantia de qualidade do lado de cá, que deveríamos ter discutido antes de sua chegada.

– Eufemismo do milênio – redarguiu Ambrose 47. – Seu Diretor-Criador me estapeou. Esperei pacientemente por uma explicação, e em vez disso ele desapareceu. Eu deveria ter ido embora de imediato.

Ambrose ergueu-se e bloqueou a porta. Sentiu os dados de Perfil em suas costas, como uma rajada violenta de vento ártico.

– Eu que devo ir – contrapôs Ambrose. – O relatório precisa ser feito por um representante do lado de cá.

Ambrose 47 ponderou sobre aquilo. Seus malares pareciam projetar-se de forma quase obscena, como protuberâncias que desejavam transformar-se em chifres.

– De acordo com meu Fluxo de Processo, seus objetivos não coincidem mais com este empreendimento.

Ambrose dividiu sua percepção igualmente entre o escritório e a Plataforma. Ele precisava manter seu equivalente do lado de cá da porta enquanto desativava a atualização.

– O que você faz em seu mundo para se divertir, Quarenta e Sete?

– Aprimoro meu conjunto de habilidades gerenciais.

Ambrose ordenou à Plataforma que exibisse os arquivos particulares de Martin, a programação da Versão 3.0 que Len estivera tentando localizar durante o último ano. A Plataforma obedeceu; já não tinha nenhuma influência sobre a consciência do garoto. Ele estremeceu ao pensar que quase havia se deixado transformar em outro Martin. Três longas hastes de dados iluminaram-se de branco no painel do centro da Plataforma: o design, a programação e a implementação da Versão 3.0.

– Eu costumava ser como você – comentou Ambrose.

– Compartilhamos o material-base.

Ambrose tentou extrair os arquivos e sentiu a encriptação de Martin pressionando-o, como uma membrana de aço plástico superaquecida, que se distende mas nunca quebra.

Liberação de acesso é para humanos.

Ordenou à Plataforma que lhe permitisse o acesso. A encriptação protestou com manchas brilhantes na periferia de sua visão. Ele fez uma careta quando ácido de bateria jorrou em sua boca, e então a encriptação dissolveu-se com um tranco que lhe embrulhou o estômago.

– Quero dizer, a rede social costumava ser minha vida – disse.

– Tenho dois milhões, trezentos e quarenta e sete mil e sessenta e oito amigos – anunciou Ambrose 47.

– Sério? Eu tenho uma. – Ambrose ordenou que a Plataforma deletasse os arquivos, e deu um rápido busca-e-destrói para o caso de haver backups. As três hastes desapareceram. – O nome dela é Mistletoe.

As paredes de Greymatter pareceram dar um profundo suspiro de alívio quando os dados de Perfil capturados reverteram seu fluxo e começaram a escorrer da porta para dentro do escritório. Ambrose 47 piscou os olhos quando uma grossa fita vermelha, branca e azul de convites para o Evento de 4 de julho passou serpenteando junto a sua cabeça.

– Eu sabia que meu Fluxo de Processo estava correto. – Ele sacudiu a cabeça, desaprovador. – Você ficou louco.

– Já me disseram isso. – Ambrose recuou um passo. As pontas de seus dedos ficaram insensíveis. – Escuta, que tal você ser o novo Presidente da Unicorp?

Nervoso, Ambrose 47 alisou as lapelas de seu terno.

– Esse sempre foi o objetivo primário de meu plano de dez anos. Mas você não pode simplesmente...

– Vamos dizer que seja seu sonho.

– O quê?

– Diga que esse tem sido seu sonho.

– O protocolo da UniCorp me proíbe de expressar...

– Apenas diga em voz alta, Quarenta e Sete!

– Sempre foi meu sonho.

– Qual?

– Um dia dirigir eu mesmo a companhia.

– Então parabéns pela promoção.

– Não estou qualificado para dirigir a UniCorp do lado de cá.

– Vai dar tudo certo. Mas sugiro que encontre um novo escritório para você.

Ambrose recuou para os restos do motor da Versão 3.0, onde foi de imediato envolvido pelos Fluxos de Pensamento que açoitavam ao redor como enguias alucinadas.

Curtindo uma salada completamente irreal.

Então contei tudo e ele ficou passado.

Divirta-se e diga a seu primo que mandei um oi.

Ambrose vislumbrou uma manga vermelha e marrom quando Ambrose 47 estendeu a mão através da porta e foi repelido pelo enxame de dados.

Seus olhos e orelhas pareciam imensos, quando a infinidade de visões e sons deslizaram pela superfície de seu corpo. A atualização estava sendo encerrada. Ele se moveu rumo à vaga silhueta de uma luz débil. Um cheiro de cabelo queimado o fez prender a respiração. Pensou em Mistletoe e tentou colocar-se em seu lugar: que faria ela ao se ver em um novo mundo que não era tão diferente do antigo? Para onde iria? Ao emergir dos escombros da vida que havia sido planejada para ele, Ambrose tinha certeza de saber onde procurar.