Unison: A Rede Social do Futuro

Andy Marino · Capítulo 11 de 19

Páginas do PDF

Unison: A Rede Social do Futuro

11 - Aprendendo no mundo de cima

Era noite na Cidade Litorânea do Leste. Mistletoe estava à beira de uma rua de quatro pistas. Os carros articulados passavam na procissão perfeita e interminável, que ela conhecia de todas as tardes que passara olhando pelas aberturas de ventilação. O murmúrio coletivo não era muito mais alto que o ruído distante que se filtrava para baixo da cúpula. Ficou levemente vesga, de forma que o farol único de cada carro se fundia com o seguinte e as pistas viravam linhas contínuas de luz branca. Em volta dela, atmoedifícios se erguiam entre os rios de tráfego como dedos maciços saindo de uma luva.

Ela desejou ter alguém ali para compartilhar a visão, mas até Nelson ficara para trás. Sentia-se muito só, e não da forma que sempre desejara. Ansiava poder segurar a mão macia de Ambrose. Ela o imaginava de pé a seu lado, aconchegando-a junto a si em meio àquele ofuscante jogo de luzes.

Do outro lado da rua, a entrada para a câmara estanque emergia do chão, um elegante cilindro de acrílico com teto negro em domo, uma luz verde no alto. Imaginou que ela informava às pessoas que a câmara estava funcionando. Mas que pessoas? Olhou de um lado para outro. Carros sem fim. Nenhum pedestre.

Seguiu pela calçada deserta até chegar à primeira fachada de loja, que consistia em inúmeras caixas prateadas saindo de um painel levemente fosforescente na parede. Cada caixa estava identificada com um U bem visível. Um letreiro flutuava sobre as caixas: DELICIE-SE COM BETTERFOOD! Comida? Só de ler aquilo ela sentiu uma pontada de fome. Tentou se lembrar quanto tempo fazia que tinha comido. Que tipo de comida haveria nas caixas? Olhou por cima, por baixo e entre elas, mas não viu como poderia pedir comida. E, de qualquer modo, ela não tinha dinheiro. Não tinha nem uma ID de código fixo. Será que algum alarme ia disparar caso abrisse uma caixa?

A fome atroz a fez ir em frente. Ergueu a mão para a caixa mais próxima e imobilizou-se. Havia alguém atrás dela.

– Ei! Garota!

Mistletoe virou-se. Um táxi amarelo pairava meio por cima da calçada. Era mais quadrado que os carros em forma de gota que a maioria das pessoas daqui dirigia. Havia alguém no assento do motorista, oculto nas sombras. Ela apertou o punho. O disruptor deslizou de sua manga.

– Que foi?

A voz dela soou alta e dura, destacando-se em meio ao suave rumor do trânsito. Ela percebeu que ainda tinha os óculos laranja pendurados no pescoço e sentiu-se totalmente deslocada.

– Precisa de uma carona?

A garota se adiantou, cautelosa, disruptor em riste. O motorista tinha cabelo preto fino penteado de lado e piscava através de óculos grossos equilibrados na ponta do nariz. Um par de holodados embaçados pendia do espelho retrovisor.

– Está bem longe de casa, guria – ele sorriu, mostrando uma fileira de dentes dourados.

Ela pousou o polegar no painel lateral da arma. A ponta brilhou. Seu braço formigou com a vibração.

O taxista mostrou as mãos vazias. As mangas de sua camisa azul-neon estavam decoradas com plantas tropicais.

– É assim que você trata um cara que te oferece uma carona?

– É assim que eu trato todo mundo.

Ele empurrou os óculos mais para cima do nariz, e depois coçou o canto da boca.

– Beleza. Então boa sorte.

Mistletoe pensou rápido. Essa podia ser sua única chance.

– Espera aí. – Tirou o polegar do painel e desarmou a arma.

Ele inclinou a cabeça com educação.

– Só preciso de uma informação. Não tenho grana pra pagar uma corrida.

– Pra onde você está querendo ir?

– Para a Universidade Litorânea do Leste.

Ele acenou devagar com a cabeça.

– É bem longe.

– Quanto tempo daqui?

– A pé? Dois dias.

Os braços e pernas de Mistletoe já estavam doloridos depois da escalada pelo poço de acesso. E ela não podia desperdiçar dois dias inteiros percorrendo as ruas. Ela abriu o punho e o disruptor sumiu de vista.

– Tenho isto – disse, levando a mão à nuca para abrir o fecho da gargantilha. Segurou-o à vista do taxista. As três engrenagens prateadas giraram no ar. Ela pensou em Sliv, parado no meio do lixo nojento, junto à porta da escada.

– Acho que dá pra pagar a corrida – respondeu o taxista, com um sorriso dourado.

Ela hesitou.

– Se tentar alguma coisa, eu mato você. Sem pensar duas vezes.

– Entendido.

A porta traseira se abriu e Mistletoe acomodou-se no banco, estofado com pele de leopardo. Havia um cheiro doce demais, de purificador de ar barato. Ela fechou a porta. O motorista se virou e estendeu o braço.

– Vai uma pele de panda aí?

Ele lhe ofereceu algo listrado de branco e preto, cheirando a cebola. Mistletoe afundou-se no assento. Estava faminta, mas a pele de panda embrulhou seu estômago.

– Não. Podemos ir?

O taxista pôs a palma da mão em um dispositivo no painel, e os propulsores pegaram com muito mais potência do que Mistletoe teria esperado num carro tão velho. O táxi ergueu-se, e partiu por cima do tráfego de nível de rua. O motorista enfiou a coisa malcheirosa na boca e mascou-a produzindo ruídos altos e satisfeitos. Teria sido um tremendo erro aceitar a carona? Então a garota olhou por uma janelinha acima de sua cabeça e se esqueceu de tudo a não ser o mundo novo lá fora.

O céu estava tão negro quanto o poço de acesso. Na Pequena Saigon era sempre dia, um dia de luz fraca e doentia, dependendo da qualidade das luzes da cúpula. Ela nunca vivera num mundo de fato regido pelas leis da aurora e do pôr do sol.

O táxi circundou veloz um atmoedifício. Por um momento, um fluxo de trânsito foi substituído por outro, antes de o mundo desaparecer por completo.

– Aonde você... – Mistletoe disse, mas as luzes da cidade voltaram quando eles saíram de debaixo de um curto viaduto. Ela foi jogada contra a porta quando o veículo deu uma guinada brusca para se juntar à fila indiana de carros que subiam pela lateral de uma grande redoma translúcida, cujo interior era iluminado por uma luz amarela suave.

– Atalho – explicou o taxista.

Ao chegarem no topo, Mistletoe ajoelhou-se no banco para olhar pela janela lateral. Lá embaixo, sob camadas de acrílico limpíssimo, viu uma vasta colmeia de camas brancas. Em cada cama, uma pessoa dormia de mãos postas. Guardas da UniCorp patrulhavam os corredores. Pequenos drones de I.A. percorriam os níveis superiores.

– Que lugar é esse?

– O Projetódromo Nove. Você paga pelo privilégio de ocupar uma dessas caminhas confortáveis por quanto tempo quiser ficar no Unison. Com isso você fica protegido, e ninguém vem te encher se você quiser ficar conectado por semanas.

– Então toda essa gente está logada.

– Curtindo BetterLife neste exato momento.

Pareciam estar numa paz tremenda. Tão diferentes de Ambrose, preso dentro do tronco de fios com todos os dados externalizados girando em volta. Engraçado, ela pensou. Estou aqui em cima no mundo dele, e ele lá embaixo no meu.

Desceram pelo outro lado da redoma e seguiram por algumas quadras o fluxo de trânsito elevado, antes de mergulharem para o nível da rua. Aqui, alguns pedestres conversavam sob um letreiro em forma de pirâmide, que proclamava DRINQUES ESPECIAIS COM ID DE ESTUDANTE. O taxista guinou à esquerda e entrou num beco estreito. Emergiram num campo cercado de atmoedifícios e iluminado por milhões de luzes incandescentes suspensas no ar como estrelinhas.

O táxi parou. Estavam rodeados de verde. Cercas vivas luxuriantes e pinheiros enormes, que fariam os arbustos anêmicos da subcúpula sentirem vergonha. Aqui e ali, um telhado de pedra aparecia acima da folhagem.

– Chegamos, guria.

Ela olhou pelas janelas.

– Onde?

– ULL.

– Parece que ainda não foi construída.

Ele deu de ombros.

– Não fui eu que projetei o lugar, tá?

Ele apoiou a mão aberta sobre o divisor de assentos e agitou os dedos. Ela deixou a gargantilha cair na palma da mão do homem, que a pendurou no retrovisor.

A porta se abriu, e ela pisou na grama macia. O táxi sumiu na noite. Ela se esticou e tocou uma das luzes que pendia baixa, uma faísca brilhante no céu noturno, não maior do que a unha de seu polegar. Uma débil badalada soou. Lá no alto, outra respondeu. Ela não conseguia parar de olhar para cima. Sem cúpula! Seu coração batia forte. O estômago torceu-se de fome. Será que alguma dessas plantas era comestível? Ela andou pelo terreno, na esperança de encontrar uma trilha. Quando a vegetação se adensou em torno dela e as raízes retorcidas começaram a machucar seus pés, desistiu de andar e sentou-se embaixo de uma árvore, apoiando as costas no tronco áspero. Balançou-se para a frente e para trás, ouvindo o suave badalar das luzes.

Logo estava deitada, olhos fechados, respiração calma. Sentia-se exausta. O estranho novo mundo de luz e velocidade recuou para um ponto distante e desapareceu. Sozinha num bosque tranquilo em meio à cidade mais agitada do mundo, Mistletoe adormeceu.

Algum tempo depois, um dedo cutucou seu ombro. Acorda. O toque se tornou mais insistente. Acorda. Ela ergueu-se de repente, encostando-se à árvore, e moveu o disruptor num amplo arco lateral enquanto apertava os olhos para espantar o sono. A luz brilhante que penetrava pela copa das árvores formava manchas sobre a moça assustada que a acordara. Mais velha que Mistletoe, vestia uma saia longa que a recordou do terno de Ambrose, pela quase transparência e pelo modo como agitou-se numa brisa imperceptível. Do ombro pendia uma bolsa de contas, de aparência mais sólida que a saia. Mantinha as mãos levantadas bem alto.

– O que você quer? – Mistletoe perguntou com voz rouca.

– Eu queria saber se você estava bem. Só isso. Juro pela minha ID!

Mistletoe se deu conta do aspecto que devia ter, com as roupas sujas e a trança azul ensebada. Aprumou-se e limpou a garganta.

– Estou bem. – Desarmou de forma ostensiva o disruptor e o guardou. – Desculpa.

A moça baixou os braços e brincou com uma mecha do longo cabelo ruivo, nervosa.

– Então, você se perdeu de alguma visita guiada ou...? – Ela examinou Mistletoe dos pés à cabeça. – Tenho algo para comer, se estiver com fome.

Mistletoe teve vontade de gritar EU QUERO!, mas apenas acenou de leve com a cabeça. A moça abriu a bolsa e retirou uma barrinha enrolada em papel alumínio.

– Não é BetterFood – desculpou-se. – É feita com leite de verdade, então pode ter um sabor meio estranho.

O estômago de Mistletoe rugiu de fome. Na Pequena Saigon, chocolate ao leite de verdade só existia no mercado negro, uma delícia para comer uma vez no ano. Agarrou a barra e arrancou sua embalagem, mal percebendo o pequeno raio emitido por baixo de um arbusto próximo, que vaporizou o alumínio brilhante antes que pudesse sujar o chão. O chocolate tinha um gosto forte, doce e delicioso, com apenas uma leve ponta de amargo. Comeu de olhos fechados. Maravilhoso.

– Também tenho chá, se estiver com sede. – A garota ofereceu-lhe uma pílula vermelha.

Mistletoe limpou a boca. O efeito instantâneo do açúcar de verdade fez sua cabeça girar. Olhou a pílula.

– Não, obrigada. Estou procurando a professora Deirdre O’Hanlon.

– Ah, eu não sabia que você era aluna daqui. Já checou o diretório?

Mistletoe encolheu os ombros. A moça ficou confusa.

– Tudo bem. – Ela virou a palma da mão. Uma esfera azul pálida surgiu no ar entre elas, orbitada por um anel fino rotulado DIRETÓRIO ULL. Mistletoe piscou e tentou não ficar fascinada, embora nunca tivesse visto a informação externalizar-se assim. Lembrou-se de Ambrose tentando em vão conseguir sinal na subcúpula. Aqui em cima, todo mundo devia virar a mão daquele jeito umas cem vezes por dia.

– Professora Deirdre O’Hanlon – disse a moça. Cutucou a esfera, e ela mudou de forma, tornando-se a imagem de uma mulher sorridente mais ou menos da idade de tia Dita. – Freelancing Aplicado de Unison e Análise Aplicada de Mercado. É ela?

– Hum – disse Mistletoe.

– Ela tem uma sala real aqui no campus. Com sorte, hoje tem horário de atendimento. – A garota fez desaparecer o diretório e esticou a mão. – Se você me autorizar, posso transferir.

Mistletoe cruzou os braços.

– Transferir o quê?

– As instruções sobre como chegar na sala dela, ora.

– Só me diz como eu chego lá.

Quinze minutos depois, Mistletoe estava junto a um grande monumento cinzento de pedra. Era um cubo simples, sem enfeites, um pouco mais alto que as árvores e da largura do casebre dela na subcúpula. Não tinha portas nem janelas.

– Oi? – chamou. Na frente dela, à altura de uma maçaneta, notou um escaner de mão embutido na pedra. Colocou a mão nele. Nada aconteceu; precisaria de uma ID com código fixo para prosseguir. Pensou por um instante, e então recuou até misturar-se à multidão que percorria o caminho que corria ao longo do cubo. Ela ficou indo e vindo, sem dar atenção aos olhares curiosos dos alunos em holomoda. Seriam todos tão ricos como Ambrose?

Quando um rapaz com longos dreadlocks atados num grosso rabo de cavalo abriu o cubo com a palma da mão, ela correu e entrou atrás dele. Deu dois passos, atravessou um arco estreito de pedra e então teve um choque, ao se ver no saguão de um enorme prédio de sala de aula. A floresta e os atmoedifícios circundantes haviam desaparecido. Passarelas reluzentes se cruzavam acima dela. No meio do recinto havia uma grande caixa de vidro, tomada por poltronas e camas cheias de alunos imóveis, as mãos juntas. Outros alunos percorriam o saguão e se juntavam em volta de fileiras de caixas prateadas, como as que ela tinha visto na noite anterior.

Mistletoe cruzou o saguão até chegar a uma longa fileira de portas azuis: as salas dos professores, segundo a garota no bosque. Foi de porta em porta, lendo os nomes nas placas retangulares, até encontrar o de DEIRDRE O’HANLON.

Ela bateu na porta e uma voz abafada mandou entrar. Claro que, em vez de maçaneta, havia outro leitor de mão. Ela deu um suspiro de irritação e bateu de novo. Sua mão doeu. Portas reforçadas com aço plástico não foram projetadas para tratar bem os nós dos dedos. Logo depois, a porta deslizou para o lado, abrindo-se. Ela entrou.

A sala era pequena e continha apenas duas poltronas vermelhas. Uma delas estava ocupada por uma mulher magra vestindo holorroupas vintage: jeans boca de sino e uma blusa justa, de mangas longas e estampa floral. O ar estava repleto de diagramas externalizados, com detalhes de plantas esquemáticas cheias de linhas se cruzando e pequenas legendas brancas. Um dos diagramas saía da palma da mão dela. A mulher deslizou um bloco de texto de um lado da imagem a outro, depois o pegou da palma da mão e lhe deu um pequeno impulso para que se juntasse a vários outros esquemas reunidos contra a parede. Ela se virou e deu um sorriso neutro para Mistletoe.

– Perdão, mas não me lembro de tê-la visto em minhas aulas aqui. Você é aluna pelo Unison?

– Você é Deirdre O’Hanlon?

Os olhos da professora varreram o rosto e as roupas de Mistletoe. Ela ainda sorria.

– Se quer solicitar uma bolsa de estudos, deve projetar-se para o centro administrativo.

Mistletoe tirou do bolso o banco de dados meio queimado e o estendeu sem dizer nada. Deirdre riu, encantada.

– Incrível. Não vejo um desses há anos. Onde o conseguiu?

– Presta atenção. Jiri morreu. Acho que tia Dita também. Não quero... – Os olhos de Mistletoe se encheram de lágrimas e ela lutou contra a vontade de chorar. – Não quero que mais ninguém morra por causa do que eu sou.

Deirdre permaneceu imóvel, em choque, a boca aberta. Os diagramas externalizados desapareceram. As duas ficaram se olhando na sala vazia.

– E quem é você? – sussurrou Deirdre, pálida e hesitante, como alguém que sabia muito bem a resposta, mas que ainda assim não podia crer.

– Quinze anos atrás, você, Jiri, Dita e sei lá mais quem, me tiraram de um laboratório da UniCorp. Ainda sonho com isso. Houve tiros.

– Ma buh... – Deirdre engoliu em seco e indicou a cadeira. – Por favor, sente-se.

– Prefiro ficar de pé.

Mistletoe sentiu uma onda de hostilidade contra a mulher, pelo simples fato de ela estar viva e confortável, enquanto outras pessoas lutavam e morriam debaixo da cúpula.

– Você tem que entender – disse Deirdre, com cautela. – Faz tanto tempo que fiz parte daquele mundo. São nomes que não ouço há muito tempo. Jiri...

Ela sacudiu a cabeça como se estivesse espantada com as duas sílabas do nome.

– Ele morreu bem na minha frente – disse Mistletoe, fria.

– Então ainda estamos pagando com sangue. – Deirdre olhou para a parede atrás de Mistletoe. – Um de nós nem sequer chegou a sair vivo do laboratório.

– “P”.

Os olhos de Deirdre voltaram a se fixar em Mistletoe.

– Sim. Pyotr era meu marido. Como você sabia?

– Pelas anotações de Jiri.

– Ele guardou anotações? Com nomes?

– Só as iniciais. Eu destruí tudo. – A voz de Mistletoe suavizou-se. – Sinto muito pelo seu marido.

Os olhos de Deirdre voltaram a se fixar na parede.

– Há quinze anos, eu era tão idealista. Todos éramos, sobretudo Pyotr. Ele era um sonhador. Dita sempre dizia que ele vivia parte neste mundo e parte no mundo que ele sonhava, aquele onde a cúpula nunca existiu, onde o Unison era aberto para todos. O resto de nós era um pouco mais pragmático. – Ela deu uma risada. – Mas o Pyotr...

Mistletoe viu o rosto de Deirdre contrair-se e relaxar, enquanto ela relembrava algum pequeno detalhe há muito enterrado. Um leve sorriso formou-se em seus lábios.

– O que ele dizia de você, Anna...

– Agora é Mistletoe.

– Mistletoe... Bonito nome. Pyotr dizia que deveríamos todos estar dispostos a morrer para garantir a sua liberdade. Foi exatamente o que ele fez.

– Não pedi que ele... Não pedi nada disso.

– Mas aqui está você. – Agora foi Deirdre quem endureceu o tom de voz. – Não pude nem enterrá-lo, sabe. Nós fugimos, e Jiri levava você nos braços. Pyotr tinha certeza de que o outro alvo, o menino, estava em algum lugar lá dentro. Os Associados vieram atrás de nós. Tínhamos perdido nossa única vantagem, a surpresa. Quem sabe se um de nós tivesse ido com ele... – ela apertava os joelhos com força, o sangue fugindo de seus dedos longos e elegantes. – Mas eu corri. Não queria morrer.

Ela virou a palma da mão. A imagem do rosto de um homem surgiu no ar. Tinha longos cabelos negros que pendiam em frente aos olhos, um nariz pontudo e lábios pequenos e sérios franzidos em contemplação profunda.

– É ele – disse Deirdre, empurrando a imagem para a frente. – Meu marido.

Mistletoe imaginou aquele homem junto com Jiri, Deirdre e tia Dita, todos sentados em um lugar apertado, discutindo, rindo, escutando música. Era estranho pensar em Jiri como um jovem com amigos.

– Vocês eram o que, algum tipo de gangue?

Deirdre desfez a imagem.

– Estávamos interessados em bombas. Éramos jovens o bastante para achar que, se abríssemos um buraco na cúpula, poderíamos começar uma revolução. – Ela ergueu os braços, imitando empolgação. – Então Magnus e Ivor nos procuraram com uma informação secreta sobre a UniCorp, o grande símbolo de poder no lado de cima. Duas cobaias. Claro que eles não podiam nos contar o porquê de vocês terem sido feitos, só que eram importantes para Martin Truax. E para nós, naquela época, isso bastava.

– O menino está livre agora – disse Mistletoe. – Seu nome é Ambrose.

Pensou em acrescentar, portanto seu marido não morreu em vão, mas achou que isso soaria barato e não seria nenhum consolo.

Deirdre assentiu. Então, escolhendo as palavras, disse:

– Acho... acho que ele veio me ver.

Mistletoe precisou controlar-se para não agarrar Deirdre pelos ombros e sacudi-la.

– Ele veio aqui?

– Não. – Ela começou a torcer os dedos. – Não deveria contar a você, nunca revelei a ninguém. No Unison, costumo alternar entre várias IDs diferentes, mas tenho uma específica para negócios. Uma jovem, adolescente como você. Essa gente da indústria de aplicativos baixa a guarda quando acha que está lidando com alguém jovem e inocente. E é... bom ser uma menina de novo, mesmo que por pouco tempo.

Ela fez uma pausa antes de prosseguir.

– Bom, um jogador com quem tenho contato me trouxe um novo usuário, Adam Trevor, com umas perguntas bem profundas. Ele gosta de design de móveis e de cantar música pop.

– Não é ele. O nome dele é Ambrose e o único interesse que tem é o emprego idiota dele.

Deirdre ergueu a mão.

– É aí que quero chegar: estava óbvio que ele não era quem dizia ser. Login falso, Perfil falso, exatamente como o meu. E estava atrás de informações sobre o Unison 3.0.

– Ele disse para onde ia?

– Para lugar nenhum. Ele surtou. Sua Linha de Pensamento estava sofrendo, como se tivesse sido sobrecarregada com um milhão de novos Amigos de uma só vez. E a expressão dele... Era como se estivesse preso num pesadelo. Isso foi suficiente para me convencer a ficar desconectada por um tempo. Deixe a atualização se resolver sozinha, deixe o Martin fazer seja lá o que ele vai fazer. Voltarei quando tudo se estabilizar.

– Mas Ambrose precisa de ajuda.

– E o que você espera que eu faça? Sou professora agora. Tenho uma vida aqui do lado de cima.

– Então me ajude a logar.

– Você quer ajudar seu amigo? A melhor coisa que pode fazer é sumir. Saia da cidade e fique fora do Unison.

– Se eu fugir e ele morrer, então serei... – ela se interrompeu de repente.

– Termine a frase.

– Deixa pra lá.

A voz de Deirdre estava gélida.

– Termine o que você ia dizer.

Mistletoe colocou as mãos nos quadris.

– Se eu fugir e ele morrer, então serei igual a você, falando das coisas que devia ter feito quando tive uma chance.

A boca de Deirdre tremeu. Ela assentiu de maneira quase imperceptível, depois se virou e deslizou a palma da mão na parede a seu lado. Um painel retangular deslizou revelando vários recipientes alaranjados. Deirdre escolheu um e destampou-o. Tirou uma cápsula de gelatina transparente, do tamanho de seu polegar, e jogou-a para Mistletoe.

– Que é isso?

O interior da cápsula fervilhava com formas de vida, bichinhos pretos e prateados que se moviam como versões minúsculas da câmera-inseto de Sliv.

– É o protótipo de um artefato de login de código não fixo que estou ajudando a desenvolver.

Mistletoe examinou a diminuta colônia de bichinhos.

– Que nojo!

– É nossa primeira tentativa, de modo que é um login bem básico, de uso único. Você poderá se mover pelo Unison, mas não terá um Perfil nem uma Linha de Pensamento. A rede não responderá à sua presença. Não vai poder fazer Amigos. Aperte as palmas das mãos contra as têmporas quando estiver pronta para se transportar de volta. É assim que deve funcionar, em teoria.

– Você quer dizer que não sabe? – A cápsula quase caiu de sua mão.

– Nunca foi testada.

– E você vai enterrar essa coisa na minha mão?

– Não, nada disso – Deirdre a tranquilizou. – É só você engolir.