Unison: A Rede Social do Futuro

Andy Marino · Capítulo 10 de 19

Páginas do PDF

Unison: A Rede Social do Futuro

10 - Calibragem

– Len, seu filho de um rato sintético – praguejou Ambrose.

Ele sempre tivera sentimentos conflitantes quanto ao irmão, mas naquela hora, quilômetros abaixo de seu lar e a anos-luz de distância da antiga vida como colegas na UniCorp, Ambrose tinha a certeza de que odiava Len. Que significaria a infância que passaram juntos, o sofrimento, o deboche, os momentos isolados de ternura inesperada, agora que ele sabia que não eram parentes?

– Impressionante seu domínio da gíria local, irmãozinho – respondeu Len. – Ia ficar mais convincente se você pusesse mais raiva na entonação.

– Não sou seu irmão.

– Eu sei. Só achei que nossa nova relação podia começar de um jeito mais suave.

Rodeado pela carrancuda equipe de segurança da UniCorp, Len parecia um pouco com um Martin Truax jovem e sincero: o cabelo claro e os traços bem marcados eram iguais, mas faltavam o sorriso de galã de cinema e a presença magnética. Era pouco provável que Len estivesse aqui para matá-lo, pois Martin ia querê-lo vivo, mas os disruptores-padrão da UniCorp tinham efeitos não letais muito eficientes. Se Ambrose tentasse correr, viraria um monte trêmulo de gelatina no chão antes de dar três passos.

– Quanto tempo faz que você sabe o que eu sou?

– Mais ou menos um ano.

Uma cena absurda surgiu na mente de Ambrose: Len e Martin brindando com taças de vinho, rolando de rir com a piada que compartilhavam, enquanto Ambrose perseguia às cegas suas funções, como um rato num labirinto.

O garoto deu um passo à frente. Oito Associados de Segurança tocaram seus atordoadores ao mesmo tempo. Ambrose mostrou as palmas das mãos, vazias e enfaixadas, e se virou para Ivor.

– Com que ele te comprou? Um escritório com vista panorâmica na UniCorp? Acesso Administrativo Total?

O velho sacudiu a cabeça, cansado, e esfregou a nuca de sua cadela-cabra.

– Len, por favor, conte a ele a verdade antes que ele tenha um ataque.

Um gesto de Len, com as palmas das mãos para baixo, fez os membros da equipe de segurança darem um passo atrás e tomarem posição de descansar.

– Dita me contatou faz um ano, Ambrose – disse Len, assumindo o tom caloroso que usava em apresentações para os acionistas da UniCorp. – Ela sequestrou minha caixa de entrada e invadiu meu log de transferência, como fez com o seu. Carpe somnium, tudo aquilo. No início não dei atenção, mas alguma coisa na mensagem inicial me impediu de mostrá-la ao papai.

Ambrose estava em choque.

– Mentira.

– Me escuta. Em parte foi por causa do comportamento dele próprio. Você começou a trabalhar só um pouco antes da inserção permanente dele, e assim tudo o que você conhece dele como empresário é o cara isolado em Greymatter. Mas eu me lembro de quando ele era corpóreo, e era bem diferente. Ele já não é mais o mesmo. A transmissão me inspirou a fazer minhas próprias investigações. Foi um desafio, já que os arquivos pessoais dele não existem, por assim dizer. E o que me deixou desconfiado foi o que eu não consegui acessar. Greymatter costumava ser transparente, ou pelo menos acessível, para os Associados de alto escalão. Podíamos entrar lá. Lembra que uma época tínhamos reuniões de produto lá às sextas? Agora, é uma fortaleza. Algo está acontecendo lá, e é alguma coisa gigantesca. Seja o que for, ele está operando isso fora dos limites da UniCorp. Esses caras – ele acenou com a cabeça para Ivor, cuja atenção se voltava toda para a canela machucada – pelo menos ofereceram o começo de uma explicação.

Ambrose examinou o jovem de 19 anos que sempre considerara seu desagradável irmão mais velho. Era difícil aceitar um mundo em que Len era seu aliado secreto. Ele disse:

– Então você já sabe a verdade sobre minha...

– ... criação.

– ... faz um ano, e nunca passou pela sua cabeça me contar nada?

A cadela latiu alegremente.

– Agora percebemos que foi um erro não contar a você – afirmou Ivor.

Ambrose não podia acreditar.

– Desculpas recusadas.

– A gente achou que você seria mais eficiente como agente infiltrado – disse Len. – Assim que papai revelasse qual o seu propósito, extrairíamos você. Infelizmente, isso quis dizer tirar você do jogo. E esperar.

– Fala sério, Len, agente infiltrado? Você estava me usando, da mesma forma que papai... – ele sacudiu a cabeça. – ... da mesma forma que Martin. Você ficou na sua e me deixou ir em frente com o procedimento.

– Qual, aquele que você pediu de joelhos para fazer? A gente achou que ele o tornaria um agente mais eficiente.

– Para de me chamar assim.

– Esses caras – Len apontou para Ivor – são parecidos com a UniCorp numa coisa: eles topam correr riscos a curto prazo, com a expectativa de ganhar muito no futuro. Dita não concordou, e passou a transmissão a você sem contar a ninguém. Isso pegou todo mundo de surpresa. Tive que mandar alguém interceptar você.

– Jiri – disse Ambrose, a cabeça a mil, acompanhando a explicação de Len. Agradeceu em silêncio a Dita, por ter sido a única pessoa a achar que ele merecia saber a verdade.

– O que nos traz ao problema central de sua fuga desabalada – afirmou Len. – A calibragem.

A palavra provocou em Ambrose a mesma ansiedade que apertava seu peito sempre que adiava por muito tempo uma responsabilidade no trabalho. No turbilhão alucinante dos últimos dois dias (tinham sido só dois dias?), ele se esquecera da segunda parte do procedimento. A modificação hipotalâmica fora bem-sucedida – ele não havia dormido e não estava cansado –, mas as calibragens pós-procedimento eram necessárias para prevenir efeitos colaterais. Sem a válvula de segurança dos sonhos, começaria a processar acontecimentos como alguém com insônia. O subconsciente começaria a se impor na vida desperta e, com o tempo, iria fragmentar-se sem esperança de reparo. Ambrose terminaria como as primeiras cobaias: um louco furioso e paranoico à deriva num mundo de alucinações.

O rosto sorridente de Martin no corpo do dragão lhe veio à mente.

Já havia começado.

– Ai – exclamou, sentindo-se de fato um irmão caçula assustado e inseguro.

– Isso mesmo. Ai – disse Len. – Por isso precisamos voltar ao escritório.

– Esse é um plano muito mal elaborado.

– É o único lugar equipado para lidar com o pós-operatório de um Nível Sete. Ambrose, você sabe disso.

– É que parece... – um truque, ele pensou. O tipo de coisa que Martin faria para conseguir que ele voltasse à UniCorp com um mínimo de incômodo. Então voltou-se para Ivor. – Onde está Mistletoe?

– Sua encantadora companheira caiu fora. Veja o presente de despedida que ela deixou. – O velho levantou a barra da túnica para mostrar um hematoma feio na canela.

– Preciso encontrá-la – disse Ambrose. A ideia de perdê-la para sempre o fez sentir uma solidão profunda. Além dele, era a única pessoa que sabia como se sente alguém ao descobrir que não é de fato humano.

– Primeiro temos que fazer sua calibragem – disse Len. – Em teoria, a nova ID de código fixo que Ivor colocou em você funciona lá em cima. Assim, se usarmos minha entrada particular para o laboratório, em vez de entrar pela porta da frente...

– Eu nunca soube que havia uma entrada particular.

– Existe. É minha.

Ambrose ainda queria fugir. Queria encontrar Mistletoe e fugir de Cidade Litorânea do Leste com ela. Mas Len estava certo quanto à necessidade urgente de calibrá-lo. Imaginou um mundo cheio de dragões-Martin sorridentes e estremeceu.

– Tudo bem – disse a Len. Os seguranças ficaram em posição de sentido, com cara de poucos amigos. Ondearranjam esses sujeitos? Ambrose imaginou uma sala de espera silenciosa cheia de brucutus. – Vamos acabar logo com isso.

Eles emergiram do sistema de metrô para as ruas da Pequena Saigon, indo apressados rumo a um transportador preto, longo e cilíndrico, do outro lado da rua. Os seguranças baixaram as abas das jaquetas, escondendo as insígnias da UniCorp. Na lateral do transporte estava escrito BEBA CHÁ ESQUILO VERMELHO, em letras vermelhas brilhantes. Sob os dizeres havia uma imagem das cápsulas verdes, pretas e laranja da marca.

– Entrega de chá? – Ambrose indagou enquanto entravam no transporte. Viu o nono membro da equipe de segurança, que estivera à espera no assento do motorista.

– Lamento que não aprove o disfarce – Len disse. – Não tive tempo de conseguir nada melhor.

A voz de Len podia parecer unhas arranhando aço plástico. Ambrose se encolheu.

– Eu só estava tentando ter certeza de que não estou delirando.

– Não posso confiar em ninguém da UniCorp. Não dá exatamente para solicitar pessoal e condução de luxo pra levar você à sede.

Ambrose olhou desconfiado para os guardas.

– Esses são de minha confiança – disse Len. – Reportam diretamente a mim, sem que papai fique sabendo.

– Isso é o que você acha.

– É o que eu sei. Então, o que você descobriu quando estava logado?

O transportador se juntou ao tráfego e de imediato ficou parado no congestionamento. Os propulsores foram acionados e o veículo deslizou por sobre as scooters e carroças detidas.

– É, isso com certeza não vai chamar a atenção – disse Ambrose, imitando a voz de Len.

– Se prefere ficar parado no engarrafamento da subcúpula, posso dizer ao motorista para descer.

Ambrose suspirou

– Tá bom. Antes de mais nada, pode me devolver a Plataforma de Administração?

Len sacudiu a cabeça.

– Talvez eu consigo restaurar alguns privilégios de backend enquanto você está sendo calibrado, mas não posso lhe dar poderes de Administrador. Eles vão rastrear a nova presença de alto nível um segundo depois de você se projetar.

– Então o que você espera que eu faça? Admire a mobília? Em teoria, estou tentando descobrir por que existo.

– O que você já descobriu? – Len insistiu. Será que aquela insistência se devia a Martin estar na escuta? Então Ambrose lembrou-se de que paranoia era um dos efeitos colaterais do procedimento de Nível Sete.

– Quem é essa gente com quem você está trabalhando, Len?

– Na verdade, papai tem razão sobre eles: são basicamente sabotadores da pior espécie.

– Terroristas.

– Tá bom. Eles me disseram a verdade; papai parou de fazer isso há muito tempo.

– O que eles querem?

– Magnus e Ivor querem acertar as contas com a UniCorp desde que foram despedidos há quinze anos. Tinham aliados que, com o passar dos anos, ou morreram ou se afastaram. Para eles, finalmente terem você e a menina é uma grande vitória.

– Ninguém me tem. E Mistletoe sumiu.

– Ótimo. Estamos melhor sem ela. Minha prioridade é você.

– Eu mesmo vou procurá-la, se for preciso.

– E onde? Na Pequena Saigon? Vai sair gritando o nome dela pelas ruas?

Ambrose assentiu com a cabeça.

– Se for preciso.

– Não seja idiota.

– Você já não me diz o que fazer, Len.

O segurança sentado ao lado de Len lutou para controlar um sorriso, a boca tremendo. Ambrose desejou poder ver sua aparência quando tentava ser enérgico e confiante. Pelo visto era cômica. Teriam seus colegas da UniCorp rido dele por anos? Teria estado ofuscado demais por sua própria reputação para perceber o desprezo de todos ao seu redor?

Paranoia.

Ambrose se virou e sua atenção desviou-se para uma cena do lado de fora da janela. A entrada de uma câmara estanque para o lado de cima estava cercada de policiais da subcúpula, que abriam caminho para um par de técnicos vestindo roupas térmicas brancas e capacetes. Alguém na multidão jogou uma casca de banana que acertou o ombro de um policial e deslizou por suas costas. Os outros policiais empunharam seus atordoadores. Então o transporte virou a esquina e a cena foi ocultada por uma favela vertical.

– De qualquer forma, você conhece o funcionamento do Unison melhor do que ninguém – continuou Len. – Você deveria conseguir transformar suas habilidades numa linguagem de consulta para filtrar os boatos e definir seus próximos passos na investigação. Se fosse eu, a primeira coisa que faria é...

– Len, sério, para de falar por um segundo. Encontrei uma criadora de Aplicativos freelancer e ela contou que aboataria sobre Greymatter anda fora de controle ultimamente. Por exemplo, a Versão 3.0 do Martin pode já estar em operação. Perguntei quando começou, e ela disse “ontem”.

– Bom, isso faz sentido. Assim que você fugiu, ele precisou agir. E você também deve ter feito com que ele se apressasse. Isso significa que ele está fazendo duas coisas: correndo para lançar o projeto e procurando você.

O transporte tomou a rua de acesso que circundava Rio II e prosseguiu lado a lado com grande variedade de veículos comerciais, longos e desajeitados, que rumavam para as docas do mundo de cima. Ambrose viu os transportadores na fila diante deles serem abordados e vasculhados por policiais de capacete em scooters negras. Quando um dos guardas emparelhou com o veículo, o motorista baixou a janela e lhe disse algumas palavras. O policial fez uma continência e os deixou em paz.

– Chá Esquilo Vermelho, né? – disse Ambrose.

Len fez um entusiasmado sinal de “positivo”.

– As pessoas adoram.

Ao chegarem à superfície, o interior do transportador se iluminou quando Len e os seguranças externalizaram suas caixas de entrada pessoais. Ambrose desfez suas bandagens e estremeceu. Um furinho marcava o centro da palma de cada mão, onde Ivor havia reiniciado sua ID de código fixo. As feridas ainda estavam em carne viva mas já não sangravam. Ambrose sempre se curava rápido: arranhões e hematomas muitas vezes desapareciam no mesmo dia. A comida sintética rica em vitaminas cuidava disso. Ou será que Martin e os Associados do laboratório o haviam feito assim? Perguntou-se se teria vastas reservas de poderes desconhecidos. Se os humanos comuns só usavam uma fração de seus cérebros, quanto haveria ainda a explorar no seu?

Ele virou a palma da mão e externalizou sua página padrão de boas-vindas, algo que não via há tempos. Sentiu um aperto no coração quando viu que todas suas configurações tinham sido zeradas. Bom, e daí? Ambrose Truax também tinha sido uma espécie de ID fals a. Mistletoe é que fez certo, pensou. Pelo menos ela mesma escolheu seu nome. Imaginou onde estaria a garota, e por alguns segundos sua mente vagueou pela cidade de

cima. Ele a visualizou mergulhando entre atmoedifícios, arrancando uma BetterPear[14] de um sintetizador móvel, vagueando assombrada no interior de um dos amplos projetódromos cobertos, onde as pessoas curtiam sua experiência Unison do conforto de cadeiras reclináveis e de camas, seus corpos imóveis protegidos por guardas que patrulhavam os corredores quilométricos.

Mas isso era impossível; ela não podia nem vir ali em cima. Onde quer que se encontrasse, ele torcia para que estivesse a salvo. E por mais que quisesse encontrá-la, parte dele sabia que ela estaria melhor longe dele.

– Chegamos – anunciou Len, tenso e sério.

Ambrose fez desaparecer a agradável página verde de boas-vindas.

Um dos Associados de Segurança jogou-lhe uma bandagem limpa, que ele rasgou ao meio e enrolou com duas voltas ao redor de cada mão.

– Vou conseguir um novo traje moldável para você no laboratório – disse o irmão.

Ambrose se deu conta de que seu traje estava rasgado em vários lugares, resultando numa projeção débil e fragmentada do elegante holoterno azul que ele vestira para o procedimento, em outra vida.

– Não vou mais usar trajes moldáveis – decidiu de supetão.

Len suspirou.

– Tudo bem, Ambrose, use o que quiser.

Ambrose sentiu um frio na barriga. O rosto de Len se projetou da cabeça e se alongou formando um focinho. A pele se esticou para cobrir a forma não humana do crânio. Longos vergões vermelhos surgiram, como feridas de um açoitamento medieval, depois começaram a vazar e se abriram para revelar uma nova pele de escamas verdes. Os olhos viraram fendas amarelas.

Ambrose gritou.

Len sorriu, exibindo os dentes branquíssimos de Martin. O sorriso se ampliou. Ambrose via fileiras e mais fileiras de dentes, recuando a perder de vista. A boca escancarada ocultou o interior do transportador. Um vento forte uivou em seus ouvidos, como se estivesse parado no meio de um campo vazio. Sentiu, ainda que não pudesse ver, uma língua pegajosa se enrolar em todo seu corpo. Ela começou a apertar, sufocando-o cada vez mais, até que uma de suas costelas estalou como um fino graveto. Tentou gritar de dor, e o ar ficou preso em sua garganta. Tinha a sensação de que o empurravam debaixo d’água. Então tudo terminou.

Abriu os olhos, apesar de não se lembrar de tê-los fechado.

Estava sentado em frente ao irmão no transportador. Seu coração batia forte. Len olhava-o com atenção, um olho mais apertado que o outro. Não parecia chocado nem perturbado. Os seguranças passaram por eles, saindo do transporte estacionado.

– Este foi o primeiro incidente?

Ambrose piscou para se livrar da imagem da cara do dragão, gravada em sua memória como o contorno de uma luz brilhante. O medo bateu de uma só vez: estou ficando louco. Respirou fundo e apertou as costelas com cautela. Nenhuma dor.

– Vamos logo.

Saiu do veículo passando para um recinto escuro, sem janelas, com um cheiro úmido e subterrâneo.

– Estamos dentro da própria cúpula – Len explicou. – Parte da velha rede de laboratórios de pesquisa e desenvolvimento sob o prédio da UniCorp.

Ele tocou um ponto da parede cinzenta e uma porta oculta se abriu. Ambrose seguiu seu irmão e entrou num elevador tão luxuoso quanto o do saguão. Os guardas rodearam os dois. Ambrose sentiu um disruptor pressionar suas costas.

– Desculpe – murmurou um dos Associados. Foi a primeira vez que Ambrose ouviu algum deles falar.

Enquanto o elevador subia sem ruído, Ambrose tentou um breve Fluxo de Processo. Sua habilidade rateou, girando em falso e deixando-o tonto. Pensou ter sentido uma progressão indistinta de eventos, como palavras esquecidas que estivessem na ponta da língua. Entreviu um único ponto final: a probabilidade de encontrar Mistletoe aumentava no Unison.

Não fazia sentido. Ela nem tinha uma ID de login. Sua habilidade ainda estava fora do ar.

– Tricentésimo septuagésimo quinto andar – Len avisou. Os seguranças ajustaram sua formação muito sutilmente. Dois ou três limparam as gargantas.

Ambrose teve uma súbita lembrança de um wiki de história americana que havia estudado anos atrás: soldados magros e de faces sombrias, não muito mais velhos que Len, apinhados a bordo de um barco primitivo que não era mais que uma caixa de aço, esperando uma rampa baixar para desembarcarem nas praias da França. E então recordou a imagem seguinte na série, a pilha compacta de corpos imóveis que momentos antes haviam sido jovens.

– Espera – disse a Len, mas era tarde. As portas se abriram para o laboratório mal iluminado e vazio. Ambrose soltou a respiração. Len olhou-o, preocupado, enquanto os seguranças entraram no recinto e fizeram uma varredura eficiente, disruptores estendidos. Por fim um dos Associados sinalizou, com um rápido aceno, para avançarem.

– A barra está limpa – disse Len, e saiu. Ambrose o seguiu.

A porta se fechou e desapareceu na parede. Estavam atrás da plataforma do tubo de escaneamento. Ambrose subiu os degraus e deslizou a mão pelo aço suave e frio do tubo fechado, o instrumento que mudara para sempre sua vida.

Carpe somnium, Ambrose.

Voltar para a UniCorp o fazia relembrar tudo o que tinha deixado para trás. E se tivesse escolhido ignorar a transmissão de Dita?

– Me dá uma mão aqui, Ambrose – disse Len, acenando para que ele descesse da plataforma.

Mas Ambrose demorou-se ao lado do tubo de escaneamento, a máquina que era tão pai dele quanto Martin Truax. Lembrou-se das reuniões de produto em Greymatter. No que dizia respeito à companhia e à rede social, Martin estava a par de tudo, até o mais ínfimo detalhe. Não fazia sentido que Len e Ambrose tivessem chegado até aqui sem serem detectados. Ambrose olhou para os tubos de escaneamento enfileirados nas sombras do laboratório escuro. Algo vago e desagradável o incomodava.

– Len?

Len estava ocupado externalizando uma fileira colorida de gráficos, scans cerebrais e documentos de Fluxo de Processo.

– Quê?

– Tem algo errado.

– Me dá um minuto.

– Não – disse Ambrose, descendo da plataforma e atravessando um tronco encefálico que girava.

– Sai de dentro da sua cabeça. Estou tentando trabalhar.

– Isso está fácil demais.

Len o empurrou para o lado.

Ele também está perturbado, Ambrose pensou. Então teve a sensação irreal de que o tempo desacelerava, a mesma que tivera na rua de Dita, pouco antes da casa dela explodir. Lembrou-se das folhas caindo devagar, a última tocando o chão justo antes de...

– Corre!

Temo que não possa deixar você fazer isso, uma voz sussurrou em seu ouvido.

– Ele está aqui! – berrou Ambrose.

Len apertou os olhos.

– Entra no tubo de escaneamento.

– Não estou maluco, Len. É o papai!

Len fez sinal para dois seguranças.

– Coloquem ele no tubo.

Em vez disso, um dos Associados jogou um disruptor extra para Len e apontou para a porta do laboratório, que se abria. Len lutou para encaixar no braço a arma grande demais. Seu punho tremia.

Bem-vindo ao lar, Ambrose, sussurrou a voz.

Associados de segurança da UniCorp, estes verdadeiros, invadiram a sala pela porta aberta, um batalhão de botas pesadas e disruptores reluzentes. A equipe do Chá Esquilo Vermelho buscou abrigo, agachando-se por trás dos tubos menores em frente da plataforma. Len puxou Ambrose para baixo.

– Você me trouxe de volta para ele – Ambrose disse, sentindo-se um tolo que aprendeu tarde demais a não confiar em ninguém. Len apertou a mão dolorida do irmão.

– Não vou deixar ele te pegar, irmãozinho.

A voz de Martin ressoou.

– Aos Associados de Segurança que no momento protegem meus filhos: o primeiro que entregá-los a meus homens ficará rico. Os demais morrerão.

– Entra ali. – Len apontou aflito para um tubo no centro da fileira. – É uma saída, Ambrose. Confia em mim.

Ambrose hesitou. Por ter confiado ele estava preso aqui, na sala onde tudo começara, à mercê do homem que o criou.

– Versão 3.0, o que quer que seja, faça o impossível para que ele não consiga levar adiante a atualização. – Por fim Len conseguiu ajustar o disruptor. Então fez um gesto amplo com a mão baixa, sinalizando para os homens escondidos em volta dele. Cada um respondeu com um breve aceno de cabeça.

– Agora! – Len comandou enquanto ele e os homens viravam as palmas para cima. Um escudo de luz ultravioleta surgiu como uma parede de luz branca, do chão ao teto. Ambrose apertou os olhos com o brilho quase intolerável. O outro lado, ele bem sabia, era ofuscante como um sol.

O crepitar dos disparos dos disruptores ecoou pelo laboratório. O segurança ao lado dele gritou, seu corpo sacudindo em convulsões no ar, suspenso pelo pulso que o envolveu. Seus braços se dobraram para trás num ângulo impossível antes que ele fosse atirado ao chão.

O escudo de ultravioleta servia como uma distração, mas era tão penetrável quanto fumaça. Com um empurrão de despedida dado por Len, Ambrose rastejou com dificuldade até o tubo de saída. A equipe Esquilo Vermelho devolveu fogo, seus disruptores enchendo a sala com sons de tunc tunc tunc totalmente automáticos.

A voz de seu pai era audível por sobre a cacofonia.

– Deixem vivo o mais jovem. – Ao mesmo tempo, ela sussurrava em seu ouvido, Você não sofrerá nenhum mal, Ambrose. Você é parte de mim. Parte do Unison.

Quando Ambrose chegou ao tubo de saída, olhou para Len, que atirava, alucinado, através do escudo externalizado, ignorando os pulsos inimigos que passavam logo acima de sua cabeça.

Ambrose se agachou e levantou a tampa do tubo. Um Associado da UniCorp atravessou a parede de luz e saltou sobre o guarda Esquilo Vermelho próximo a Ambrose. Os dois caíram atracados. Uma longa faca brilhou. Ambrose enfiou-se como pôde dentro do tubo, usando a tampa para aparar os disparos da UniCorp. Enquanto a fechava, viu um pulso verde acertar o ombro de Len e fazê-lo rodopiar. Um clarão laranja atingiu-lhe o pescoço, e apertou-o como uma forca luminosa. Len levou as mãos à garganta e caiu de joelhos. Enquanto o tempo se desacelerava de novo, Ambrose pensou na bola de gude que havia jogado da borda da GenFarm, para impressionar seu irmão tantos anos antes; lembrou dela girando por um milissegundo interminável no ar entre os atmoedifícios, antes de cair através das nuvens e sumir de vista.

Daria qualquer coisa para voltar àquele dia, para correr pelos campos rindo com Len e espantando o gado clonado e as cabras sintéticas.

Quando a tampa se fechou, os sons da batalha ficaram distantes. Abaixo dele, o tubo de metal prolongava-se, descendo em ângulo como um pequeno túnel. Seu irmão tinha razão: era a única saída.

Como sempre, Len estava um passo à frente.