A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 9 de 34

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A Caçada dos Elfos

A noite no castelo dos elfos

 

Mandred recostou-se no corpo de Aigilaos. Essa birita vermelho-rubi que o centauro trouxe era realmente boa. Vinho! Mandred já ouvira falar dela, mas em Firnstayn bebia-se somente hidromel e cerveja.

Ergueu cambaleante o pesado copo dourado.

— À nossa amizade, Aigil… Ailalaos! Esse seu nome é impossível!

— Porque você ainda não ouviu os dos caolhos da montanha de pedra — retrucou o centauro, gaguejando. — Os trolls de Dailos, eles são pirados. Eles são tão malucos que arrancam um olho em homenagem ao seus heróis mais aclamados.

Mandred estava impressionado. Isso é que era lealdade! Algo assim certamente não havia entre os elfos! Eles eram tão... Não lhe ocorria nenhuma palavra apropriada. Frios, afetados, petulantes... Eles com certeza não sabiam celebrar! Foi para isso que trouxeram as taças e ofereceram esta pequena sala de festas para passar a noite. Mas quando ele e Aigilaos começaram realmente a se animar, então os elfos despediram-se um a um. Frouxos!

— Um homem que não sabe beber não é um homem de verdade!

— Sim, senhor! — concordou o centauro, com a voz rouca.

Vacilante, Mandred recuou um pouco para brindar mais uma vez com Aigilaos. Mas as taças douradas não eram muito boas para isso. Tudo o que os elfos faziam era bonito, mas não muito robusto. Sua taça já tinha amassado há muito tempo. Isso não teria acontecido com os chifres de hidromel. Por um momento, Mandred teve a preocupação de que se aborrecessem com ele. Mas os elfos tinham lhe dado ricos presentes. Se encrencassem por causa da taça, era só devolver algum deles.

O guerreiro observou-os, enfileirados no banco de pedra ao lado da porta. Um traje de malha de ferro que nem os nobres das terras do fiorde possuíam. Um elmo folheado a ouro com uma malha de ferro que chegava até a nuca. Uma aljava de couro ricamente bordada, repleta de flechas muito leves. Uma lança de lâmina azulada e reluzente. Uma suntuosa sela junto com ferraduras de prata. E a rainha lhe prometera que amanhã mandaria trazer um cavalo de seu próprio estábulo. Um que estivesse disposto o bastante para carregar até um filho de humanos, ela dissera. Mandred bufou, irritado. Como se um mero cavalo pudesse lhe causar aborrecimentos! Se o animal não se comportasse, ele simplesmente daria socos na sua cabeça, isso sempre funcionava. Ninguém gostava disso, nem mesmo cavalos teimosos.

— Você parece contrariado, amigo. — Aigilaos passou o braço pelos ombros de Mandred. — Logo vamos acabar com esse monstro. Você vai ver. Amanhã à noite vamos atravessar a cabeça dele com uma estaca e pendurá-la no meio da aldeia.

— Não é prudente cantar vitória antes da hora — disse uma voz familiar.

Mandred voltou-se. Na porta estava Ollowain, vestindo uma roupa impecavelmente branca. O elfo saltou um monte de estrume que sujava os mosaicos coloridos que enfeitavam o chão.

— Vocês conseguiram dar o charme de um estábulo a este quarto de caçador — disse ele, dando um sorriso de lábios finos. — Não vi ninguém conseguir essa proeza em todos esses séculos, desde que existe a Caçada dos Elfos.

Mandred colocou-se no caminho do elfo, com as pernas bem abertas.

— Pelo que entendi, a caçada também nunca foi conduzida por um humano antes.

Ollowain abanou a cabeça afirmativamente, pensativo.

— Mesmo os poderosos às vezes cometem erros. — Agarrou o cinturão que trazia no quadril e soltou-o. Embrulhou-o cuidadosamente em torno da bainha da espada e estendeu a arma a Mandred. — Eu não devia ter batido em você.

Mandred observou admirado a espada estreita, mas não a pegou.

— Por quê?

Não teria agido muito diferente de Ollowain. O que havia de desonroso em bater em alguém burro o suficiente para desafiar um oponente superior?

— Não é apropriado. Você é hóspede da rainha. — O elfo mostrou o rasgo em sua túnica. — Você não me acertou por um triz. Você, um humano! Isso me irritou... Mas, como disse, eu não devia ter batido em você. Você foi bem... para um humano.

Mandred pegou a espada. Era a arma que usara para lutar com Ollowain. Uma espada que parecia a de um rei.

— Na verdade não sou muito bom na luta de espada — retrucou Mandred, com um sorriso irônico. — Você devia ter me dado um machado.

As sobrancelhas de Ollowain tremeram um pouco, mas o resto de seu rosto permaneceu imóvel como uma máscara inexpressiva. Enfiou a mão por baixo de sua túnica e apanhou uma trança da grossura de um dedo. — Isso é seu, filho de humanos — seus olhos brilharam.

Mandred demorou um instante para entender o que era aquilo que Ollowain lhe estendia. Assustado, apalpou seu próprio cabelo. Ollowain segurava pouco acima de sua testa os curtos e destruídos restos de uma trança. Foi tomado pela fúria.

— Você... Você me mutilou, seu idiota dissimulado! Aberração! Elfo canalha! — Mandred quis puxar a espada, mas o cinto estava enrolado na guarda e na bainha, e ele não conseguiu puxá-la mais que uma polegada. Furioso, jogou a espada para longe e ergueu os punhos. — Vou socar esse seu lindo nariz até virar mingau!

O elfo desviou do golpe com um passo balançante.

— Vamos dar uma surra nele! — berrou Aigilaos, erguendo-se sobre as pernas de trás.

Ollowain mergulhou por baixo de suas patas da frente, que se agitavam no ar, ergueu-se novamente sobre as pernas com um movimento ágil e acertou um golpe no quadril do centauro.

Aigilaos deu um grito furioso. Ao baixar os cascos de volta para o chão liso de mosaico, escorregou em uma poça de vinho derramado.

Para desviar do centauro em queda, Mandred quis pular, mas o amigo tinha aberto os braços numa tentativa desesperada de se segurar nele. Então ambos caíram juntos no chão. A força do choque deixou Mandred sem ar. Ofegou por um instante, tentando recuperar a respiração. Com metade do corpo esmagada debaixo do centauro, ele mal conseguia se mexer.

Ollowain agarrou-o pelo braço e puxou-o para a frente por baixo de Aigilaos, enquanto este último tentava inutilmente se reerguer.

— Respire devagar! — ordenou o elfo.

Mandred arfava como um cão, e logo ficou tonto. Mas pouco a pouco finalmente recobrou a respiração.

— Como alguém se atreve a se embebedar uma noite antes de uma caçada perigosa? — Ollowain balançou a cabeça. — Todas as vezes que nos vemos, você consegue me fazer perder o autocontrole, Mandred Filho de Humanos! Se você não pensa em você mesmo, pense naqueles que o escoltarão. Amanhã você será o comandante, e responsável por eles! Vou mandar alguns duendes para cá para limpar toda esta sujeira, tirar o vinho de vocês e deixar aqui alguns baldes de água. Espero que até amanhã de manhã vocês tenham recuperado pelo menos um pouco da razão.

— Filhinho da mamãe — balbuciou Aigilaos. — Uma pessoa como você não é capaz de entender um homem de verdade.

O elfo sorriu.

— De fato, eu nunca tentei imaginar como um cavalo deve pensar.

Mandred permaneceu calado. Queria ter derrotado Ollowain, mas agora via que nunca teria chance contra ele. E o pior: lá no fundo, sabia que o elfo estava certo. Era estúpido se embebedar. Fora seduzido pelo doce e saboroso vinho e anestesiado pelo medo. Medo de que Freya já não estivesse mais viva; medo de enfrentar o homem-javali mais uma vez.