A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 27 de 34

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A Caçada dos Elfos

Partida noturna

 

Era tarde da noite e tudo no castelo tornara-se calmo. Lá fora se ouvia o leve barulho do vento. Nuramon olhou a noite clara através da janela aberta. Tinha parado de nevar. O luar era refletido pela neve e emprestava a tudo um brilho prateado. Logo o sol do amanhecer transformaria a prata em ouro. Não conseguia imaginar momento mais apropriado para a sua partida.

Tinha já tudo preparado. Seu olhar deslizou para a armadura e o casaco, que novamente descansavam sobre o suporte. Tinham sido de grande serventia no mundo dos homens. Mas agora Nuramon vestia a roupa com a qual Noroelle o vira pela última vez. Era um traje simples de couro macio que quase não lhe oferecia proteção no caso de uma eventual batalha, embora duvidava que fosse precisar de alguma. Afinal, não se tratava de enfrentar uma besta, mas de matar um homem provavelmente desarmado. Não havia nada de brilhante nessa tarefa. Ele se envergonharia disso para sempre.

Observou a espada. A rainha, com efeito, lhe presenteara com a espada de Gaomee. Era evidente que queria que a tarefa fosse executada com aquela lâmina. Desde que pegou a arma na mão, parecia haver uma maldição presa a ela. Por isso, não abriria mão dela. Afinal, quem ia querer carregar essa arma depois de seus infelizes dedos a terem tocado?

Alguém bateu na porta.

— Entre — disse Nuramon, esperando que fosse alguém a serviço da rainha, um companheiro que ela lhe destinou e a quem ele podia ter imposto a obrigação de ficar em silêncio. Mas essa esperança aparentemente não se cumpriria.

Mandred e Farodin entraram. Tinham semblantes aflitos.

— Que bom que você ainda está acordado — disse Farodin, que parecia comovido.

Nuramon tentou não deixar transparecer nada. Era melhor esconder de seus companheiros a qualquer preço a missão vergonhosa que aceitara.

— Não estou conseguindo dormir. — Isso até era verdade. Naquela noite mal conseguira pregar um olho.

Farodin apontou para o filho de humanos.

— Mandred me disse que você falou a sós com a rainha. Então ela o recebeu.

— Sim, ela me recebeu.

— Também tentei ser ouvido por ela, mas, desde que você esteve lá, ela não aceitou ver mais ninguém. Rumores estranhos estão correndo por aí.

— Que rumores? — perguntou Nuramon, esforçando-se para esconder sua agitação.

— Alguns dizem que a rainha o acalmou e que você aceitou a sentença dela. Outros afirmam que ela lhe deu consentimento para procurar por Noroelle.

— Isso Emerelle não me permitiu. Mas aceitei sua sentença.

A suspeita tomou conta do rosto de Farodin.

— Não esperava isso de você.

Finalmente Farodin demonstrava alguma emoção! Talvez o melhor fosse atrair o ódio dele para si. Assim, Farodin conseguiria encarar Noroelle com a consciência limpa.

Mandred fez uma cara desconfiada. O filho de humanos parecia ter percebido que Farodin entendeu errado as palavras de Nuramon.

— Como você pode duvidar de Noroelle dessa forma? — prosseguiu Farodin, decepcionado. — Você realmente a amou um dia?

Mesmo que as palavras do amigo não tivessem justificativa, elas doeram.

— Eu a amo mais do que nunca. E por isso machuca tanto saber que não podemos fazer mais nada. Não podemos obrigar a rainha a libertar Noroelle. — Para Nuramon era difícil omitir a verdade.

Agora Farodin parecia também ter ficado desconfiado. O companheiro o encarava como se pudesse ver o que se passava dentro dele.

— O que o garoto está dizendo é balela — afirmou Mandred secamente.

— E ele é um péssimo mentiroso — completou Farodin.

Mandred viu as bolsas sobre o banco de pedra.

— E eu estou quase suspeitando que ele quer partir para encontrar a amada sem nós.

— O que a rainha disse? — insistiu Farodin. — Você pediu para também ser banido? Você tem permissão para ir onde Noroelle está?

Nuramon sentou-se no banco, ao lado das bolsas.

— Não. Eu tentei de tudo. Mas a rainha não se deixou convencer por nada. Não quis me mandar para o exílio. Mesmo que matássemos o devanthar de vez, isso não mudaria nada.

— E então você quer partir sozinho para procurar Noroelle.

Nuramon olhou Farodin longamente. Era impossível esconder dele o seu plano.

— Queria que fosse tão fácil. Queria poder pegar minhas coisas, partir e procurar qualquer forma de ajudar Noroelle. — Fez uma pausa. — Se eu pedir para simplesmente me deixar partir sem fazer perguntas, você faria isso?

— Ainda tenho uma dívida para saldar. Você me buscou de volta da morte... Mas penso que o destino ligou nós dois. E acho que Noroelle ainda não fez a sua escolha. Por isso o nosso destino é procurá-la juntos.

— Poucas horas atrás poderia ter sido assim, da forma como você diz.

A conversa com a rainha tinha mudado tudo.

— O que a rainha disse a você? — perguntou Farodin novamente. — Tanto faz no que você se meteu, não vou odiá-lo por isso. Mas agora fale!

— Então está certo — disse Nuramon, levantando-se. — Ela disse que não havia jeito de salvar Noroelle. E eu prometi que faria tudo o que ela exigisse.

— Isso foi um erro. — Farodin sorriu piedoso. — Será que você nunca vai aprender?

— Você me conhece, Farodin. E sabe como é fácil me induzir a fazer besteiras. Emerelle também sabia disso.

Mandred se meteu novamente na conversa.

— E o que ela exigiu de você?

Nuramon desviou o olhar do filho de humanos. De todos eles, era quem havia pago o preço mais alto.

— O que ela quer de você agora? — insistiu Farodin.

Nuramon hesitou em responder, pois logo que seu companheiro soubesse a verdade também não haveria mais sorte em sua vida.

— Diga, Nuramon!

— Você tem certeza de que quer ouvir, Farodin? Às vezes é melhor não conhecer a verdade. Se eu disser, nada será como antes para você. Se ficar em silêncio, você pode ser feliz... Eu imploro! Deixe-me partir sem arrancar mais nada de mim e sem me seguir! Por favor!

— Não, Nuramon. Qualquer que seja esse fardo, nós temos de carregá-lo juntos.

Nuramon suspirou.

— Foi você quem quis assim. — Mil pensamentos passaram por sua cabeça. Será que lhe faltavam forças para cometer aquele assassinato sozinho? Será que no fundo ele queria dividir a culpa com Farodin, por isso estava cedendo? Não era presunçoso querer decidir sozinho? Farodin não tinha direito de saber o que a rainha exigira? — Vou partir para procurar o filho de Noroelle e matá-lo — disse Farodin baixinho.

Farodin e Mandred olhavam-no fixamente como se ainda estivessem esperando por suas palavras.

— Deixem-me ir sozinho! Você ouviu, Farodin? Espere aqui até Noroelle voltar.

— Ele sabia o que aconteceria agora. Não havia mais volta.

Como se estivesse anestesiado, Farodin sacudiu a cabeça.

— Não, não posso fazer isso. Você acha que vou ficar aqui sentado esperando por Noroelle? O que direi a ela quando voltar? Que o deixei partir sabendo que iria matar seu filho? Não, agora que eu sei, tenho só duas possibilidades: posso detê-lo ou acompanhá-lo... Se eu o impedir, Noroelle não receberá ajuda. Então preciso compartilhar do seu destino de salvá-la.

Mandred balançou a cabeça, perplexo.

— Oh, Luth, mas em que trama você foi meter esses elfos!

— Parece que os seus deuses não estão do nosso lado — confirmou Nuramon. — Mas, no fundo, a culpa é nossa. A rainha me lembrou do nosso fracasso na caverna. — E contou a seus companheiros a repreensão de Emerelle.

— E por acaso é nossa culpa que não sejamos albos? — indignou-se Mandred.

— Se é assim, então nascemos com essa culpa. Toda a nossa existência está marcada por esse estigma. Parece que há trilhas ainda mais sombrias diante de nós. Vamos partir!

Nuramon voltou-se para o filho de humanos.

— Nossos caminhos se separam aqui, Mandred. Você encontrou o seu filho. Dedique seu tempo a ele e seja ao menos agora o pai de que o destino o privou. Você não está condenado como nós. Trilhe o seu caminho e deixe-nos seguir o nosso soturno destino.

O filho de humanos fez uma cara aborrecida.

— Tolices de elfo! Se a rainha diz que nós devíamos ter vencido o demônio, então eu também falhei. A partir de agora, nossos caminhos estão entrelaçados.

— Mas, o seu filho! — intrometeu-se Farodin.

— Ele nos acompanhará. Preciso mesmo ver se ele serve para alguma coisa. Não me levem a mal, mas não posso imaginar que seja bom para um rapaz crescer numa corte de elfos. Os perfumes daqui... As camas macias, a comida fina... Aparentemente, ele nunca aprendeu como estripar um antílope, e não sabe que depois deixamos a carne pendurada alguns dias para que fique bem tenra. Então nem tentem me impedir de levá-lo conosco. A partir de agora, a regra é: aonde vocês vão, Mandred também vai!

Nuramon trocou um olhar com Farodin. Já conheciam aquele cabeça-dura o bastante para saber que não conseguiriam dissuadi-lo de sua decisão. Farodin acenou de forma quase imperceptível com a cabeça.

— Mandred Aikhjarto! — começou Nuramon. — Você tem a solidez do velho Atta. Se é esse o seu desejo... É uma honra para nós tê-lo ao nosso lado.

— Quando partimos? — perguntou Mandred, ansioso para agir.

Antes que Nuramon pudesse responder, Farodin disse:

— Imediatamente. Antes que percebam alguma coisa.

Mandred riu, satisfeito.

— Então vamos lá! Vou preparar as minhas coisas. — E com essas palavras, deixou o quarto.

— O filho de humanos é tão barulhento que não vamos conseguir escapar despercebidos — disse Farodin.

— Quantos anos Mandred tem? Quanto tempo vive um humano?

— Não sei direito. Talvez cem anos?

— Ele está disposto a sacrificar o seu curto tempo de vida para nos ajudar. Será que ele tem ideia de quanto tempo a nossa busca pelo filho de Noroelle pode durar?

Farodin deu de ombros.

— Não sei dizer. Mas tenho certeza de que ele está falando sério. Não se esqueça do poder de Atta Aikhjarto. O velho carvalho mudou-o quando o salvou. Ele não é mais como os outros homens.

Nuramon concordou com a cabeça.

— Será que ainda dá para ficar pior? — perguntou Farodin subitamente.

— Se fizermos o que a rainha exige, vamos de fato libertar Noroelle, mas para isso teremos de conviver para sempre com o seu desprezo. O que pode ser pior que isso?

— Vou pegar as minhas coisas. — Foi tudo o que Farodin respondeu. Deixou o quarto sem fazer barulho.

Nuramon aproximou-se da janela e olhou para a lua. O desprezo de Noroelle, pensou com tristeza. E, sim, ainda era possível piorar. Podia ser que ficasse desesperada ao saber que seus amados mataram seu filho. O destino, ou Luth, como Mandred o chamava, os conduzira por um caminho doloroso. Em algum momento a sorte tinha de surgir.

Não demorou até que Farodin voltasse. Esperaram em silêncio pelo filho de humanos, até que soaram vozes no corredor.

— ... Isso é vingança — disse Mandred.

— A vingança não vai mudar nada. Minha mãe está morta. E o que o filho de Noroelle tem a ver com isso?

— Ele também é filho do devanthar. A dívida de sangue do pai dele foi transmitida a ele.

— Isso tudo é loucura! — retrucou Alfadas.

— Então foi isso o que os elfos ensinaram a você! No meu mundo, o filho obedece a palavra do pai. E é exatamente o que você vai fazer agora!

— Senão, o que acontece?

Nuramon e Farodin se entreolharam. De repente o silêncio diante da porta era mortal.

— O que eles estão fazendo? — perguntou Nuramon num murmúrio.

Farodin deu de ombros.

A porta se abriu de repente. Mandred estava com a cara vermelha.

— Eu trouxe o meu filho. Para ele é uma honra nos acompanhar.

Farodin e Nuramon apanharam as suas trouxas.

— Vamos! — disse Nuramon.

Alfadas esperava diante da porta. Esquivou-se do olhar de Nuramon, como se estivesse com vergonha do pai.

Devagar, puseram-se a caminho até os estábulos.

As baias estavam iluminadas, apesar das altas horas da noite. Um servo de pernas de bode abriu o portão para eles, como se os estivesse esperando. E não estava sozinho. Quatro elfos vestidos de longas túnicas cinzentas estavam de pé ao lado dos cavalos, equipados como se quisessem ir para a guerra. Todos vestiam trajes de malha de ferro e estavam bem armados. Seu líder virou-se com um sorriso estreito no rosto e olhou para Mandred.

— Ollowain! — gemeu o filho de humanos.

— Bem-vindo, Mandred! — respondeu o guerreiro, e dirigindo-se a Nuramon: — Estou vendo que encontrou parceiros de armas. Isso fortalecerá nosso poder de luta.

— Mestre! — Alfadas estava surpreso.

Mandred fez uma careta, como se tivesse levado um pisão de cavalo nas partes baixas. Nuramon sabia o que Mandred achava de Ollowain. Era uma terrível peça que o destino lhe pregava, que seu filho tivesse sido treinado justamente por esse guerreiro elfo.

Ele deu um passo à frente.

— Foi a rainha quem os escolheu? — perguntou a Ollowain.

— Sim. Ela disse que devíamos aguardar aqui, a postos. Ela sabia que você não perderia tempo.

— Ela também disse qual é a missão?

O sorriso de Ollowain desapareceu.

— Sim. Nós devemos matar o filho do demônio. Não posso imaginar o que se passa dentro de vocês, mas sou capaz de ver o quão amargo esse caminho deve ser. Noroelle sempre foi boa para mim. Temos de ver na criança não o seu filho, mas o do devanthar! Só dessa forma seremos capazes de vencer nossa tarefa.

— Nós vamos tentar — disse Farodin.

Ollowain apresentou-lhes seus acompanhantes.

— Estes são meus sentinelas, os melhores guerreiros da Shalyn Falah. Yilvina é um verdadeiro furacão na luta com duas espadas curtas. — Apontou para a elegante elfa à sua esquerda. Tinha cabelos curtos e louros e retribuiu o olhar de Nuramon com um sorriso maroto.

A seguir Ollowain apresentou Nomja, uma guerreira esguia. Devia ser muito jovem; seus traços finos eram quase infantis. Estava apoiada em seu arco como um soldado experiente, mas o gesto parecia estudado.

— E este é Gelvuun.

O guerreiro tinha uma espada longa afivelada às costas, cujo punho se podia ver debaixo da túnica. Retribuiu o olhar de Nuramon de forma inexpressiva. Isso não surpreendeu o elfo, que já ouvira falar dele. Era conhecido como um brigão rabugento. Alguns diziam existirem trolls mais sociáveis que ele. Mas, na sua presença, as zombarias cessavam.

Ollowain aproximou-se de seu cavalo e apanhou um machado de cabo longo que estava pendurado na sela. Virou-se com destreza e lançou-o para Mandred.

O coração de Nuramon deu um pulo, mas sentiu alívio ao ver Mandred pegá-lo no ar. O filho de humanos alisou a lâmina dupla da arma quase carinhosamente, e admirou os retorcidos nós élficos que a enfeitavam.

— Belo trabalho. — Mandred dirigiu-se a seu filho: — É assim que é uma arma de homem.

Quis devolvê-lo a Ollowain, mas ele sacudiu a cabeça.

— É um presente, Mandred. No mundo dos homens devemos estar sempre preparados para aborrecimentos. Estou ansioso para ver se você luta melhor com o machado do que com a espada.

Mandred brincou com o machado, fazendo-o rodopiar no ar.

— É uma arma bem balanceada. — De repente ficou imóvel e aproximou o ouvido da lâmina do machado. — Ouviram? Ela está pedindo sangue.

Nuramon sentiu o estômago encolher. Será que Ollowain presenteara o humano com uma arma com algum tipo de maldição? Nuramon conhecia algumas histórias sombrias sobre espadas que precisavam derramar sangue toda vez que eram puxadas. Eram armas coléricas, forjadas nos piores dias da primeira Guerra dos Trolls.

Um silêncio incômodo instaurou-se no grupo. Ninguém além de Mandred ouvia o grito do machado, mas isso não queria dizer nada.

Finalmente, Alfadas foi até um dos boxes bem no fundo do estábulo e selou um cavalo. Isso quebrou o encanto do silêncio.

Nuramon perguntou ao servo do estábulo:

— A rainha preparou cavalos para nós?

O pernas de bode apontou para a direita.

— Lá estão eles.

Nuramon não acreditou no que seus olhos viram. Era o seu cavalo branco!

— Felbion! — gritou, indo até ele.

Farodin também estava surpreso de rever o seu cavalo castanho. Até Mandred disse:

— Por todos os deuses, esse é o meu cavalo!

Conduziram os animais até Ollowain.

— Como isso é possível? — perguntou Nuramon. — Tivemos de deixá-los para trás no Outro Mundo.

— Nós os encontramos perto do círculo de pedras do fiorde. Estavam esperando por vocês — esclareceu Ollowain. Ele olhou para o rapaz do estábulo. — Ejedin cuidou bem deles. É verdade, não é?

— Com certeza — respondeu o fauno. — Até a rainha veio ver os cavalos algumas vezes.

Nuramon achou que esse era um bom presságio. Até o ânimo de Farodin pareceu melhorar. Nuramon reparou que Farodin se comportava de forma reservada diante de Ollowain. Não era antipatia, como no caso de Mandred. Talvez Farodin já não confiasse na rainha tanto quanto antes e, como Ollowain era um criado dela, devia também desconfiar dele.

A manhã se aproximava com suas asas prateadas quando o grupo saiu com seus cavalos para o pátio. O castelo ainda estava silencioso. Ninguém os veria partir além dos guardas do portão. A diferença em relação à última partida não poderia ser maior. Naquela vez se puseram a caminho à luz do dia, como heróis. E agora saíam assim, furtivamente, esquivando-se como capangas.