A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 10 de 34

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A Caçada dos Elfos

A despedida

 

A sala do trono raramente era tão movimentada quanto nesta manhã. Noroelle estava ali de pé, próxima a uma das paredes pelas quais a água fluía. Ao seu lado estava Obilee, em quem tanto confiava; tinha só quinze anos de idade e um porte gracioso. Seus gestos denunciavam sua timidez, e as expressões de seu rosto, a sua curiosidade. Ela vinha de Alvemer como Noroelle e parecia ser a irmã mais nova que ela sempre quisera ter. De cabelos louros e olhos verdes, Obilee mal tinha algo em comum com ela, mas eram íntimas como irmãs. Assim como Noroelle, tinha saído cedo da cidade de origem. Mas se Noroelle viera um dia com seus pais, Obilee fora entregue aos cuidados de Norolle por sua avó.

— Veja, Noroelle — sussurrou Obilee. — Todos estão olhando para você. Todos estão curiosos para saber o que seus amados levarão de você no caminho. Seja cuidadosa! Eles prestarão atenção em cada gesto e palavra. — Aproximou-se da orelha de Noroelle. — É neste momento que nascem os novos costumes.

Noroelle olhou em volta rapidamente. Sentir tantos pares de olhos sobre si causava-lhe mal-estar. Embora estivesse sempre na corte, ainda não se acostumara a isso. Respondeu baixinho:

— Você está enganada. É o vestido que eles estão olhando. Você se superou desta vez. Podem até achar que você tem mãos de fada.

— Talvez sejam os dois — disse Obilee, sorrindo. Então olhou por trás de Noroelle, e seu rosto foi tomado pela admiração.

Noroelle seguiu o olhar de sua fiel amiga e viu mestre Alvias, que se aproximava acenando amigavelmente com a cabeça.

— Noroelle, a rainha está no trono e quer vê-la.

A elfa percebeu vários olhares curiosos, mas escondeu a sua insegurança.

— Vou com você, Alvias. — E virando-se para Obilee: — Venha comigo!

— Mas ela só quer...

— Venha comigo, Obilee. — Noroelle agarrou a jovem elfa pela mão. — Ouça bem: agora vamos ver a rainha, e ela vai perguntar quem é você.

— Mas a rainha me conhece, não é? Ela conhece todos que estão aqui.

— Mas você ainda não foi apresentada a ela. Depois que eu indicar o seu nome, você pertencerá à sociedade da corte.

— Mas o que eu devo dizer?

— Só responda o que a rainha perguntar.

Alvias ficou calado; não se via em sua fisionomia nem um sorriso nem qualquer desconfiança. Noroelle e Obilee seguiram o mestre. As pessoas que Noroelle encontrou saudaram-na com palavras e gestos respeitosos. Ao chegarem diante da soberana, mestre Alvias pôs-se de lado, enquanto Noroelle e Obilee fizeram uma reverência.

— Minha saudações, Noroelle. — Emerelle olhou para Obilee e perguntou: — Quem é essa que você trouxe até mim?

Noroelle virou-se um pouco e apontou para a jovem elfa, num gesto elegante:

— Esta é Obilee, filha de Halvaric e Orone, de Alvemer.

Emerelle sorriu para a jovem elfa.

— Então você descende do clã da grande Danee. Você é bisneta dela. Todos nós observaremos o seu caminho. Com Noroelle você está em boas mãos. Noroelle, chegou aos meus ouvidos que um laço liga você à Caçada dos Elfos.

— É isso mesmo.

— Você é aquela que Farodin e Nuramon cortejam.

— Sim, é verdade.

— Uma Caçada dos Elfos em que a rainha e a amada não estejam de acordo está fadada ao fracasso desde o começo. Então lhe pergunto: na sua posição, você permite que seus amados participem da Caçada dos Elfos?

Noroelle não pôde evitar pensar no medo que preenchera seus sonhos na última noite; ela vira Farodin e Nuramon sofrerem. Apesar do orgulho que tinha deles, preferiria que eles não precisassem participar da caçada. Mas a pergunta da rainha era apenas uma formalidade. Noroelle não era livre para ir contra o desejo de Emerelle. Se a rainha pediu a ajuda de seus amados, Noroelle não podia impedi-la. Ela suspirou baixo e percebeu que o silêncio tomara conta da sala. O barulho da água era tudo o que se ouvia.

— Eu os cedo a você para a Caçada dos Elfos — disse por fim Noroelle. — No que você contar com eles, eles o farão por mim.

Emerelle levantou-se e aproximou-se de Noroelle. Disse:

— Então a rainha e a amada estão de acordo. — Ela tomou Noroelle e Obilee pela mão e conduziu-as degraus acima, ao lado do trono, para sentar-se novamente.

Noroelle ficava ali em pé com frequência, mas como em todas as outras vezes, sentia-se no lugar errado. Nos olhos de muitos dos presentes havia admiração, mas em outros via um ligeiro ar de deboche. Nenhum dos dois a agradava.

Com um gesto, a rainha pediu a Noroelle que se curvasse diante dela.

— Confie em mim, Noroelle — sussurrou em seu ouvido. — Já mandei muitos para a caçada. Farodin e Nuramon retornarão.

— Meus agradecimentos, Emerelle. Eu confio em você.

Mestre Alvias aproximou-se da rainha.

— Emerelle, eles estão aguardando diante do portão.

A rainha acenou com a cabeça a Alvias. Ele deu meia-volta, abriu os braços e gritou em alto e bom som:

— A Caçada dos Elfos está diante do portão. — Apontou o dedo para o outro lado da sala: — Uma vez iniciada, eles caçarão o seu alvo até cumprirem a tarefa, ou até fracassarem. Uma vez aberto este portão, não haverá mais volta para a caçada. — Ele atravessou a viela estreita que se formara no meio da sala. — Como sempre, é necessário aconselhar a rainha. — Encarou alguns dos presentes, que claramente representavam todos os demais. Então continuou: — Considerem a situação. Uma besta poderosa! Nas campinas dos humanos! Perto das nossas fronteiras! Deve a rainha manter o portão fechado e dessa forma tolerar que algo fique vagando lá fora, algo que um dia também pode nos ameaçar? Ou deve abrir o portão, para que possamos libertar dessa besta os humanos das terras do fiorde? Ambos os caminhos podem levar tanto à fortuna quanto à ruína. Caso o portão permaneça fechado, a besta pode um dia encontrar o caminho até nós. Mas, abrindo o portão, pode ser que o sangue dos elfos seja derramado em prol dos humanos. A escolha é de vocês. — Alvias apontou para Emerelle com um gesto suave. — Aconselhem a rainha sobre o que deve decidir! — com essas palavras, Alvias virou-se novamente para Emerelle e curvou-se diante dela.

Os olhares dos presentes dirigiam-se até o portão e de volta para a rainha. Logo algumas vozes se manifestaram, aconselhando Emerelle a abrir o portão. Mas havia outras que se pronunciaram contra. Noroelle viu que eram de parentes de Nuramon. Não esperava nada diferente. O medo estava escrito em seus rostos; mas não era por Nuramon, mas pelas consequências da morte dele.

A rainha perguntava a cada um deles por quais motivos se decidiam por isso ou por aquilo, e escutava pacientemente as explicações. Desta vez ela ouviu mais vozes do que jamais ouvira antes. Ao perguntar a Elemon, tio de Nuramon, por que ele queria ver o portão fechado, ele disse:

— Porque caso contrário, como Alvias disse, pode haver desventuras.

— Desventuras? — A rainha encarou-o com insistência. — Você tem razão. Isso poderia acontecer.

Então Pelveric, de Olvedes, tomou a frente. Sua palavra contava muito entre os guerreiros.

— Emerelle, pense no sangue de elfos que pode ser derramado. Por que devemos ajudar os humanos? O que temos a ver com suas dificuldades? Quando foi a última vez que nos ajudaram?

— Já faz muito tempo — foi só o que Emerelle respondeu a Pelveric. Ela finalmente virou-se para Noroelle e sussurrou: — O seu conselho é o que vou ouvir.

Noroelle hesitou. Podia aconselhar a rainha a manter o portão fechado, falando, como muitos outros, do sangue dos elfos e da ingratidão dos homens. Ela sabia, porém, que nessas palavras o que falaria era somente o amor pelos seus queridos. Mas aqui se tratava de algo maior do que ela própria. Disse baixinho:

— O meu coração teme pelos meus amados. Mas o certo é abrir o portão.

A rainha levantou-se solenemente. O barulho da água nas paredes aumentou devagar. Mais e mais água saía das fontes, descia paredes abaixo e desaguava ruidosamente no espelho-d’água. Emerelle olhava o portão. Parecia não perceber como o cintilante vapor de água se espalhava no ar, subindo para a ampla abertura no teto e lá fazendo surgir, sob a luz do sol, um grande arco-íris. De repente, as paredes por trás da água se acenderam. Um zumbido soou e uma lufada de vento atravessou a sala. As folhas do portão abriram-se para os lados, e o grupo da caçada ficou visível para todos. A água se acalmou, mas o vapor e o arco-íris permaneceram.

Os caçadores se detiveram embaixo do arco do portão por um instante, antes de entrar. À frente estava Mandred, o filho de humanos, que observava o arco-íris com muita admiração, mas cujo olhar logo encontrou a rainha. Atrás dele, à esquerda e à direita, vinham Farodin e Nuramon; mais atrás seguiam Brandan, o descobridor de rastros; Vanna, a feiticeira; Aigilaos, o arqueiro; e Lijema, a mãe dos lobos. Não era comum ver um homem participar da Caçada dos Elfos, embora seu porte fosse mais semelhante ao dos elfos que o de Aigilaos, o centauro. Entretanto, depois de todos aqueles anos, todos já haviam se habituado ao fato de que centauros podiam participar da Caçada dos Elfos. Mas um humano? Como Mandred vinha primeiro, isso tornava tudo ainda mais estranho. Sempre era um elfo quem liderava a caçada.

Nuramon e Farodin lembravam os heróis míticos. Farodin, como sempre, era uma visão imaculada, enquanto Nuramon correspondia ao ideal pela primeira vez aos olhos dos outros. Noroelle pôde reconhecer isso nitidamente nos rostos dos que os cercavam e estava feliz com isso. Mesmo que o seu prestígio pudesse durar pouco, ninguém podia privá-lo desse momento.

Os caçadores puseram-se diante da rainha. Ao chegarem diante da escada para o trono, os elfos curvaram-se sobre o joelho diante de Emerelle, e mesmo o centauro se esforçou para inclinar-se o máximo possível. Apenas Mandred permaneceu ereto, e parecia estar surpreso com a demonstração de respeito de seus companheiros. Estava a ponto de imitá-los quando a rainha dirigiu-se a ele na língua humana:

— Não, Mandred. No Outro Mundo você é o jarl da sua sociedade, um nobre entre os humanos. Você não precisa se pôr de joelhos diante da rainha dos elfos.

Mandred fez uma cara de surpresa e permaneceu calado.

— Todos os outros: levantem-se! — Emerelle disse, também em fiordlandês. Alguns dos presentes aparentemente não dominavam a língua e olharam para ela aborrecidos.

Fiordlandês! Os pais de Noroelle ensinaram-lhe muitas línguas humanas, mas ela nunca deixara a Terra dos Albos. Até agora, ela só conhecia a selvagem terra dos humanos em sua imaginação.

A rainha virou-se para Mandred.

— Das minhas mãos você recebeu uma dupla honra. Você é o primeiro filho de humanos a participar da Caçada dos Elfos. E além disso, convoquei-o como o líder. Não posso esperar de você que se comporte como um elfo. Essa escolha deixou muitos filhos de albos indignados. Mas a força de Atta Aikhjarto vive em você. Confio na sua intuição. Nenhum de nós conhece a sua terra como você, que será um bom líder para os seus companheiros. Mas, em tudo o que fizer, jamais se esqueça do que me prometeu.

— Eu mantenho a minha promessa, soberana.

Noroelle descobriu o pacto que o filho de humanos fez com a rainha. Examinava Mandred e estava surpresa com seus modos. Até então, não tivera nenhuma oportunidade de vê-lo, já que na noite anterior chegara à corte só mais tarde e não arriscara pisar na ala do palácio onde ficavam os aposentos dos caçadores. Contudo, ouvira muitos rumores sobre ele, embora provavelmente não fossem todos verdadeiros. Estava certa de que ele era largo como um urso e, à primeira vista, parecia um pouco ameaçador, com todo esse cabelo vermelho como o pôr do sol caindo de forma selvagem sobre os ombros. Algumas tranças finas se entrelaçavam ali no meio, e ele também tinha barba, como muitos dos centauros. Suas feições eram grosseiras, porém honestas. Ele lhe parecia estranhamente pálido e havia grandes anéis escuros sob seus olhos. Talvez não tivesse dormido de ansiedade? Certamente estava muito orgulhoso da homenagem da rainha. Ele agora carregava uma grande responsabilidade. Noroelle teve um arrepio só de pensar no preço que ele teria de pagar por essa ajuda. Ela jamais entregaria um filho seu, se é que um dia chegaria a ter um. Pensativa, encarou os seus dois pretendentes. A pergunta não era se, mas com qual deles ela um dia teria um filho.

Como se tivesse ouvido os seus pensamentos, Mandred encarou-a rapidamente e sorriu. Obilee agarrou a mão dela. Estava tremendo. Noroelle permaneceu calma e encarou os olhos azuis do filho de humanos. A presença dele certamente transmitia segurança, e ela podia tranquilamente confiar a ele os seus dois amados. Olhou para Nuramon e Farodin. Há vinte anos, desde que eles declararam seu amor por ela, um dos dois sempre esteve por perto. Agora ela ficaria sozinha, sem saber por quanto tempo.

— Vocês sabem o que fazer — disse a rainha. — Estão equipados e descansados. Estão prontos para partir?

Os caçadores responderam um após o outro, com as palavras:

— Eu estou pronto.

— Farodin e Nuramon, um passo adiante! — Ambos fizeram o que Emerelle ordenou. — Eu sou vossa rainha, e vocês estão sob minha proteção. Mas também estão ao dispor de uma elfa, e eu não posso falar por ela. Ela tomou a decisão. — Andou até Noroelle e conduziu-a degraus abaixo, até Farodin e Nuramon. Obilee a seguiu. — Aqui está ela.

Noroelle segurou a mão de ambos os homens e disse:

— Se estão ao meu dispor, vocês estão ao dispor da rainha.

— Então nós serviremos sempre a rainha — declarou Farodin.

— Que nossos atos tragam alegria a ambas — completou Nuramon.

Eles beijaram as mãos dela.

Noroelle sabia que agora viria a despedida. Mas era cedo demais; ela não queria dizer adeus a seus amados aqui, diante dos olhos de todos.

— A vossa amada ainda tem um desejo. Ela gostaria de acompanhá-los até o portão de Aikhjarto.

Farodin trocou um olhar com Nuramon. “Precisamos fazer o que nossa amada exige.”

A rainha sorriu e pegou a mão de Noroelle, assim como a de Obilee.

— Aqui, Mandred, trago-lhe estas duas, que estarão sob sua proteção até o portão. Trate-as bem.

— Assim o farei.

A rainha olhou para cima, como se pudesse ver algo na luz do sol coberta pelo vapor que não era visível aos olhos dos demais.

— O dia ainda é uma criança, Mandred! Vá e salve a sua aldeia!

Então Mandred colocou-se diante da Caçada dos Elfos, enquanto Noroelle e Obilee andavam no meio. No caminho, os filhos dos albos desejavam sorte aos caçadores. Noroelle virou-se e lançou um olhar para a rainha. Viu que estava de pé diante do trono e observava o grupo se distanciar com expressão preocupada. Estaria com medo de que algo os atingisse? Se era assim que se sentia, até agora Emerelle escondera bem os seus temores.

Obilee arrancou Noroelle de seus pensamentos.

— Eu também queria estar na Caçada dos Elfos — disse ela.

— Neste momento é como se você estivesse.

— Você sabe o que quero dizer — retrucou Obilee.

— É claro. Mas não ouviu o que a rainha disse? E eu também já não tinha avisado que você se parece com Danee? Um dia você também alcançará uma honra como essa, como uma grande feiticeira que também será mestre na arte da espada.

O grupo caminhou decididamente pelos salões até chegar ao ar livre. O pátio do castelo estava repleto de filhos de albos. Até os duendes e os gnomos tinham vindo para ver a Caçada dos Elfos partir. Uma caçada liderada por um humano era algo especial. Histórias sobre este dia seriam contadas por muitos e muitos anos.

Os cavalos dos caçadores estavam prontos e o equipamento já estava preparado. Apenas o centauro Aigilaos ainda amarrava algumas bolsas nas costas e reclamava baixinho da tensão que sentia na nuca. Parecia que para ele a última noite não tinha sido muito relaxante.

Enquanto mestre Alvias buscava mais dois cavalos, Noroelle observava Farodin e Nuramon. De repente eles pareciam tão inseguros... Logo os dois estariam separados dela. Que palavras ela podia dizer em tal situação? O que seria capaz de consolar os amados?

— A Caçada dos Elfos está pronta? — perguntou Mandred, como exigia o ritual. Os companheiros confirmaram com a cabeça, e o filho de humanos gritou: — Então vamos!

A Caçada dos Elfos pôs-se a caminho. Na frente cavalgava o filho de humanos e, atrás dele, Noroelle. À sua esquerda estava Nuramon, e à direita, Farodin. Atrás dela cavalgava Obilee, cercada por Brandan, Vanna e Aigilaos. Lijema fechava o pelotão. Altos gritos de despedida acompanharam-nos até o portão — os duendes eram insuperáveis nisso.

O grupo acabara de passar pelo portão e Noroelle não acreditava no que via. Na campina havia tantos filhos de albos como ela nunca vira antes. Todos queriam ver a partida da Caçada dos Elfos. No campo brilhavam sob o sol as asas das fadas das campinas; como todos sabiam, elas eram curiosas. Próximos ao caminho pelo qual o grupo seguiu estavam elfos do coração da Terra dos Albos, mas também dos lugares mais distantes do reino. Muitos não conseguiram chegar à corte no dia anterior, mas não queriam perder a partida da Caçada dos Elfos. Os companheiros esbarravam em cumprimentos por todos os lados. Mesmo nas colinas próximas ao bosque os elfos saíam das casas e acenavam para os enviados.

De repente, Noroelle viu uma pequena fada voar ao lado da cabeça de Mandred. O humano tentou acertá-la como faria com um inseto chato, mas errou o alvo. A fada gritou e veio voando até Noroelle. Mandred olhou em volta. Ele ouvira o grito, mas aparentemente não tinha visto a fada.

Aos poucos, ele foi aumentando a velocidade. Parecia estar gostando de cavalgar num cavalo de elfos. Queiram os deuses que ele não caia. Diziam que não tinha mostrado muito jeito ao cavalgar nas costas de Aigilaos.

Quando deixaram os filhos dos albos e suas saudações para trás, tendo diante de si somente as vastas campinas, Lijema ultrapassou-os à direita e logo posicionou-se ao lado de Mandred. Ele a olhou com surpresa. Mas Lijema tirou sua flauta de madeira do cinto e assoprou nela. Embora suas bochechas houvessem inflado visivelmente, não se ouviu nenhum som.

Logo a seguir Obilee gritou:

— Olhe lá! — Ela apontou para a direita. Algo branco se desprendera da sombra do bosque e se aproximava rapidamente.

— Lá estão eles! — disse Aigilaos.

— São sete! — contou Nuramon.

— Sete? — perguntou Farodin. — Inacreditável!

Mandred virou-se na sela.

— Sete o quê?

Noroelle sabia a resposta, como qualquer filho de albos. Eram os lobos brancos da Caçada dos Elfos. Ninguém sabia dizer quantos seguiriam a Caçada até que de fato se juntassem a ela. Quanto maior o número, mais importante era a ocasião e maior o perigo. Pelo menos era o que se contava por aí.

— Estes são nossos lobos! — gritou Lijema para Mandred.

— Lobos? Mas que raio de lobos imensos são esses!

Noroelle não conteve um sorriso. Os lobos de pelo branco e espesso eram do tamanho de pôneis.

— Eles são perigosos? — ouviu Mandred perguntar. Mas Lijema não entendeu, por causa do barulho do bater de cascos. — Eles são perigosos? — repetiu, mais alto.

Lijema sorriu.

— Mas é claro.

Quando os lobos os alcançaram, quatro deles colocaram-se diante da Caçada. Mais dois posicionaram-se à esquerda e à direita do grupo. O sétimo lobo corria bem ao lado de Lijema.

Logo que chegaram ao início da floresta, pararam para lançar um último olhar de volta ao castelo da rainha. Mesmo Mandred parecia estar emocionado. Farodin e Nuramon também não podiam desviar o olhar. Principalmente o rosto de Nuramon denunciava a preocupação que sentia por trás, enquanto Farodin tentava manter seus sentimentos ocultos. Mas Noroelle conseguia enxergar por trás da sua máscara de sangue-frio.

Os lobos estavam impacientes e cercaram o cavalo de Mandred. O filho de humanos parecia não saber muito bem como lidar com eles. Nunca os perdia de vista. Ele certamente já deve ter tido experiências negativas, pensou Noroelle. Talvez no seu mundo os lobos sejam um grande perigo, como os lobos de Galvelun eram para os filhos dos albos. Quando Mandred percebeu o olhar de Noroelle, abaixou-se na sela. Como se quisesse provar sua coragem, acariciou a pele do pescoço do lobo maior. O animal gostou!

— Devemos ir adiante? — perguntou o filho de humanos. O lobo rosnou e encarou Mandred.

Lijema riu.

— Ele não fala fiordlandês, mas gosta de você.

Lijema explicou aos lobos em élfico o porquê de não conseguirem entender Mandred, e então traduziu o que ele perguntara. O lobo abaixou bem a cabeça e de repente ficou inquieto. Os outros também se deixaram contagiar e andavam em círculos, para a frente e de volta para Mandred. Os lobos queriam continuar.

— Então eles entendem o que você diz?

— Cada palavra. São mais espertos que alguns elfos, pode acreditar.

— E eles? Como falam? — Mandred quis saber.

Lijema acariciou a pele do maior dos lobos brancos.

— Eles têm sua própria língua, e eu a domino.

Noroelle sorriu. Era fácil entender esse humano. Pela forma como ele observou o grande lobo, levantou uma sobrancelha e ao mesmo tempo mordeu o lábio, ele só podia estar pensando uma coisa: um lobo como esse seria um companheiro de caça perfeito.

— Eles com certeza são os melhores parceiros de caça — disse Mandred.

Noroelle precisou se controlar para não rir alto.

— Isso mesmo — respondeu Lijema ao filho de humanos.

— Eles são tão fiéis quanto cachorros?

Lijema riu animadamente.

— Não, você não pode compará-los a cães. Eles são muito mais espertos. Diga mais uma vez o que você acabou de dizer.

— Em fiordlandês?

— Sim.

— Devemos ir adiante?

E mais uma vez os animais ficaram inquietos e esperaram até que finalmente continuassem.

— Então vamos lá! — gritou Mandred, e o grupo continuou seu caminho.

O silêncio entre Noroelle e seus amados continuava. Os sete lobos aumentaram a preocupação de Noroelle com eles. Os animais intuíam o tamanho do perigo que esperava os caçadores. Eles mesmos decidiam qual seria o tamanho da matilha que se juntaria à Caçada dos Elfos. Quando Gaomee cavalgou para enfrentar o dragão Duanoc, oito lobos a acompanharam. Que criatura podia ser essa que esperava do outro lado do círculo de pedra? Noroelle de fato confiava na capacidade de seus amados, mas mesmo grandes heróis já morreram na batalha. E se acontecesse o pior? E se Nuramon estivesse enganado e as almas dos elfos que morrem no reino dos homens não renascessem na Terra dos Albos?

Passaram pelo Carvalho dos Faunos e pelo Lago de Noroelle. Ainda ontem estivera aqui com Farodin e Nuramon. Noroelle se perguntava se voltaria a ver um dia como esse.

Quando a torre de fortificação ao pé da ponte Shalyn Falah surgiu no horizonte, fizeram uma breve parada para se despedir de Aigilaos; ele não podia atravessar a ponte branca com as ferraduras em seus cascos. O centauro praguejou várias vezes contra a velha construção.

— Vejo vocês no portal — disse ele, e saiu trotando.

Noroelle seguiu o centauro com os olhos, e pensou em todas as histórias sobre ele que se ouviam por aí. Ele certamente invejava os cavalos dos elfos, que sem ferraduras e com toda a sua agilidade eram capazes de cavalgar sobre a ponte sem dificuldade.

— Mas então por que ele ferrou os próprios cascos, se é esse o motivo de não poder passar pela ponte? — perguntou Mandred.

— Dizem que os duendes da corte contaram a ele que, com ferraduras, ele conseguiria cavalgar mais rápido — respondeu Lijema. — Agora ele acha que é mais rápido, mas precisa ir pelo desvio.

Mandred riu.

— Isso parece mesmo coisa do Aigilaos!

Continuaram o caminho. Próximo à torre da Shalyn Falah, Ollowain aguardava o grupo. Mandred recebeu-o com frieza, o que o fez abrir um sorriso divertido. Atravessaram o portão rapidamente. Noroelle perguntava-se o que teria ocorrido entre Ollowain e Mandred.

Eles atravessaram a Shalyn Falah e, do outro lado, seguiram pelo largo caminho que passava pelas ruínas de Welruun. Um dia os trolls destruíram o círculo de pedras. Ela própria não presenciara o fato, mas as árvores se lembravam dele, como os espíritos da floresta. Antes, o portal de Welruun levava a um dos principados dos trolls. Ali Noroelle sentia nitidamente os poderes das sete trilhas albas, que se cruzavam formando uma grande estrela — a estrela dos albos. Os trolls haviam fechado o portal. E nenhum elfo sabia qual fora a mágica que usaram para isso.

A mata tornava-se cada vez mais densa. Noroelle lembrou-se de quando vinha com frequência a este bosque. Gostava dele. Os companheiros desceram pelo caminho entre as bétulas e finalmente chegaram à grande clareira, onde havia a colina com o círculo de pedra. Foi nas ruínas da torre que, certo dia, Landowyn dera o último golpe contra os trolls. Triste, Noroelle pensava em quantos elfos haviam morrido ali.

O grupo se deteve ao pé da colina para esperar por Aigilaos. Mandred apeou e, silencioso, distanciou-se dos companheiros. Queria ir até Atta Aikhjarto.

Noroelle ouvira dizer que o carvalho salvara a sua vida. Ela se perguntava o que Atta Aikhjarto vira em Mandred. O Carvalho dos Elfos certa vez contara a ela que o velho Atta Aikhjarto podia prever o futuro. Então o que será que o velho carvalho sabia, para decidir sacrificar a sua força para salvar um filho de humanos?

Noroelle deixou que Farodin a ajudasse a descer do cavalo. Nuramon chegou tarde demais, e por isso foi Obilee quem ele ajudou a apear. O gesto de Nuramon agradou tanto a jovem elfa que a deixou com as faces coradas. Ele conduziu-a até Noroelle.

Sentaram-se juntos sobre a grama, mas ainda era cedo demais para palavras. Logo os outros companheiros também se calaram. Até os lobos estavam estranhamente quietos.

Só quando Aigilaos chegou eles voltaram a falar.

— Demorei demais? — perguntou ele, sem fôlego. O suor brilhava no seu tronco.

— Não, Aigilaos. Não se preocupe — disse Noroelle.

O centauro estava esgotado e precisava descansar. Mais uma vez o silêncio tomou conta do grupo.

Agora era Mandred quem estava faltando, e então a Caçada dos Elfos partiria definitivamente. Mais de uma hora se passou até que o filho de humanos retornasse até eles. Noroelle daria tudo para saber o que Mandred descobrira junto a Atta Aikhjarto. Mas ele só perguntou:

— Estão prontos?

Os companheiros confirmaram com a cabeça. Noroelle sentia-se um pouco culpada. Sabia que o silêncio do grupo era sua culpa e agora queria consertar a situação.

— Venham, eu os acompanharei até lá em cima, até o círculo de pedras.

No caminho até o topo, Noroelle sentiu o poder da estrela alba como uma lufada de vento que ia de encontro a ela. O lugar não perdera nada de sua magia. Recostado em uma pedra, ali estava Xern, olhando para dentro do círculo, cujo centro estava tomado de névoa. Sem se voltar, ele perguntou:

— Quem vai entrar? — como falou em fiordlandês, aparentemente sabia que era Mandred.

O filho de humanos tomou a dianteira e respondeu:

— A Caçada dos Elfos!

Xern virou-se para eles.

— Então o portal está aberto para vocês. Mandred, você chegou a este mundo quase sem nenhuma fagulha de vida. E você o deixa com a força de Atta Aikhjarto. Que os poderes dele protejam você e o seu grupo! — Mostrou com a mão a cortina de fumaça.

Farodin e Nuramon encararam Noroelle, cheios de expectativa. Ela finalmente quebrou o longo silêncio.

— Lembrem-se de que estão fazendo isso por mim. Lembrem-se de que os amo muito, os dois. Cuidem um do outro; é o que peço a vocês.

— Cuidarei de Farodin com a minha vida — disse Nuramon.

Farodin confirmou:

— O sofrimento de Nuramon será o meu próprio. O que afetá-lo afetará a mim também.

— Por todos os albos! Suplico a vocês: não descuidem de vocês mesmos para proteger os outros. Não tomem conta só dos outros, mas também de vocês mesmos. Eu não quero que o destino tome minha decisão por mim de forma dolorosa. Retornem os dois!

— Farei de tudo para que ambos retornemos — disse Farodin.

— E eu prometo que nós dois retornaremos — acrescentou Nuramon.

Farodin parecia surpreso de ver seu companheiro prometer algo que não podia. Afinal, quem sabia o que aconteceria lá fora? Mas era justamente essa promessa que Noroelle queria ouvir.

Ela fez um sinal a Obilee e voltou-se novamente para seus amados.

— Gostaria de lhes dar um presente que os fará lembrar de mim durante a viagem.

Obilee trouxe duas bolsinhas. Noroelle apanhou-as e entregou uma a Farodin e outra a Nuramon.

— Abram! — pediu ela.

Ambos obedeceram o seu desejo e olharam o conteúdo. Enquanto Nuramon só sorriu, Farodin disse surpreso:

— Amoras!

— Elas carregam um feitiço — explicou ela. — Darão força a vocês e enchem a barriga mais do que podem imaginar. Pensem em mim quando comerem!

Os dois trocaram um breve olhar. Nuramon então disse:

— Faremos isso. E não só quando as comermos.

Noroelle abraçou Farodin primeiro e deu-lhe um beijo de despedida. Ele queria dizer algo, mas ela pôs os dedos sobre seus lábios.

— Não. Sem palavras de despedida. Sem doces juras de amor. Eu sei o que você sente. Sua língua não precisa dizer o que já vejo no seu rosto. Uma só palavra e você vai me fazer chorar. E eu ainda estou sorrindo. — Ele se calou e acariciou os cabelos da elfa.

Noroelle soltou-se de Farodin e abraçou Nuramon, beijando-o também. Ele tomou-lhe o rosto entre as mãos e olhou-a longamente, como se quisesse guardar a sua visão na memória nos mínimos detalhes. Sorriu pela última vez e soltou-a.

Os caçadores montaram em seus cavalos, exceto Aigilaos, que não precisava fazer isso, e já observavam a cortina de fumaça. Mandred então gritou:

— Sigam-me, companheiros!

E a Caçada dos Elfos adentrou o círculo de pedras.

Farodin e Nuramon cavalgavam atrás dos lobos, no fim do grupo. Olharam para trás, para Noroelle, uma última vez... e então também desapareceram na névoa.

Xern afastou-se do círculo de pedras e começou a caminhar lentamente. Obilee agarrou a mão de Noroelle. Quando a névoa se dissipou, um grande medo se apoderou da elfa. Tinha a sensação de ter visto Farodin e Nuramon pela última vez.