A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 34 de 34

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A Caçada dos Elfos

O Jarl de Firnstayn

 

Os companheiros subiram de volta as montanhas ao norte de Aniscans. Sepultaram Nomja sob um pinheiro próximo a um lago de geleira e penduraram as armas da elfa na copa da árvore.

Entre os elfos e humanos reinava uma atmosfera sombria. Apesar das forças curadoras de Nuramon, levaram quase duas semanas para se recuperar dos ferimentos. Mas as feridas em suas almas não queriam curar tão cedo. Ninguém imaginara que a ausência do calado e sempre rabugento Gelvuun deixaria um vazio tão grande. E isso sem falar em Nomja, de quem todos gostavam.

Quando não havia mais desculpas para adiar a partida, concordaram em viajar para Firnstayn, até a estrela alba no círculo de pedras bem acima do fiorde, para tomar o rumo da Terra dos Albos.

A viagem durou quase três luas. Evitaram o quanto puderam passar por aldeias e cidades para não dar na vista. Duas vezes viram ao longe tropas de cavaleiros carregando o estandarte do rei Cabezan. De mercadores, cujo carro de carga os acompanhou ao longo de um dia, ficaram sabendo dos “terríveis acontecimentos em Aniscans”. Dizia-se que a cidade fora atacada por filhos de demônios, que assassinaram o curador Guillaume e profanaram o templo de Tjured.

Nenhum deles contestou os rumores pelo bem da verdade — nem mais tarde, quando atravessaram o mar Neri em um pesado navio de carga até Gonthabu, cidade real das terras dos fiordes. Durante a semana no mar, também ouviram versões ainda mais enfeitadas da história.

Já era alto verão quando finalmente chegaram a Firnstayn. Alfadas ficou surpreso com quão pequena era a colônia à margem do fiorde. Pelo que o pai contava, imaginara-a muito mais importante. Havia nove casas comunais e três dúzias de pequenas cabanas, cercadas de uma paliçada de madeira sobre um muro de terra.

No portão da colônia havia uma torre de observação fortificada, feita de madeira. Mal haviam alcançado o cume da colina sobre a aldeia, uma corneta de alarme foi soprada. E, quando se aproximaram do portão, a paliçada foi tomada por uma tropa de arqueiros.

— Ué, em Firnstayn ninguém conhece mais as leis da hospitalidade? — gritou Mandred, raivoso. — Diante do vosso portão está o jarl Mandred Torgridson, que exige que permitam a sua entrada.

— Você, que se designa como Mandred — retrucou um jovem e imponente guerreiro —, saiba que o clã de cujo nome você se apropria se extinguiu. Eu sou o jarl eleito de Firnstayn, e digo-lhe que você e seu séquito não são bem-vindos aqui.

Alfadas olhou para o pai, esperando a qualquer momento uma daquelas explosões de temperamento que tanto temia.

— Disse bem, jarl! No seu lugar não teria feito diferente. — O pai tirou a pulseira de prata que afanara de um mercador no jogo de dados. — Eu ofereço isto aqui por um barril de hidromel e convido-o a beber comigo e com meu filho.

O jovem jarl examinou Alfadas. Então, balançou a cabeça:

— Você exagera, rei da mentira! Como um homem pode ter um filho quase da mesma idade que ele próprio?

— Se quer ouvir essa história, então beba comigo por minha conta — gritou Mandred, rindo.

— Abra logo o portão, Kalf! — Um velho homem debruçou-se sobre a paliçada e acenou para eles. — Agora você acredita em nós? Veja só, ele até trouxe os elfos de novo! — O velho fez um rápido sinal de proteção. — Não seja tolo, Kalf, e não impeça o acesso dos elfos à aldeia. Você conhece bem as histórias antigas.

— Saudações, Erek Ragnarson — disse Mandred. — Bom ver que você e o seu barco furado não foram parar no fundo do fiorde. Quer sair conosco? Quero ensinar meu filho a pescar antes de seguirmos viagem.

— Vai, abra o portão! — ordenou Erek, agora de forma decidida. E ninguém se opôs a ele.

Mandred e os elfos ficaram por três semanas. Durante elas, Alfadas aprendeu a ver o mundo dos homens com novos olhos. Ele desfrutou o respeito rude com que foi tratado e a forma como as jovens o seguiam com os olhos. A vida era fácil. Precisavam principalmente cuidar que os caminhos lamacentos da aldeia não fossem arruinados por porcos rebeldes. Não havia luxos. A lã grosseira que as mulheres fiavam arranhava a pele. Ventava nas casas e a fumaça queimava os olhos quando se sentavam até tarde da noite nas casas comunais bebendo e contando histórias. Alfadas ouviu quando Kalf contou que, no inverno anterior, viram patrulhas de trolls nas florestas da outra margem do fiorde. Por isso a paliçada ao redor da aldeia havia sido reforçada. Até os elfos levaram esse relato a sério.

Depois de passarem vinte dias em Firnstayn, os companheiros, principalmente Ollowain e Farodin, começaram a insistir para cavalgar até a estrela dos albos.

Kalf foi o único a ficar aliviado quando Erek Ragnarson, na manhã do vigésimo primeiro dia, fez a travessia da pequena tropa para a outra margem do fiorde. Alfadas, porém, sentia um grande peso no coração, pois na margem ficou Asla, a neta de Erek. Com seu jeito tranquilo, ela realmente o encantara. Qualquer uma das elfas da corte de Emerelle a superaria em beleza, mas nela ardia uma paixão que os elfos, cujas vidas duravam mais que séculos, mal conheciam. Ela não estava acostumada a ocultar seus sentimentos por trás de lindas palavras. Então seus olhos encheram-se de lágrimas ao ver Alfadas atravessar o fiorde.

O guerreiro olhava para trás o tempo todo enquanto cavalgavam na subida até o círculo de pedras. E mesmo quando eles já mal podiam ser vistos, a garota de vestido azul ainda permaneceu na margem, com os louros cabelos ao vento.

— Você deveria aceitar Kalf como jarl — disse Mandred de repente. — Ele é um bom homem.

Alfadas ficou surpreso com as palavras do pai.

— Você é o jarl de Firnstayn — retrucou Alfadas, nervoso.

— Isso foi há mais de trinta anos. Não pertenço mais a este mundo. Não seria justo perante Kalf e todos os outros que nasceram depois de mim que eu voltasse a Firnstayn. E tampouco perante você, meu filho. A sua hora chegou.

Alfadas não sabia ao certo o que dizer. Ficaram um pouco para trás dos elfos, para que não pudessem ouvir a conversa.

— Todos os anos, durante as celebrações do solstício de inverno, a aldeia escolhe o jarl para o ano seguinte. Não acho que farão você jarl neste inverno. Primeiro, você precisará se afirmar na luta, mas também na vida cotidiana. Eu vejo em você todas as características de um bom líder, meu filho. Eu sei que você encontrará o seu caminho se ficar aqui.

Mandred refreou sua égua e olhou para baixo, para a aldeia. Sua voz soou rouca quando continuou.

— Ela continua olhando para você lá de trás. Veja... Não pense demais. Uma mulher como ela você não vai encontrar na Terra dos Albos. Ela é orgulhosa e não vai dar o braço a torcer... Tenho certeza de que às vezes vai azedar a sua vida. Mas ela o ama, e vai envelhecer junto com você. Isso nenhuma elfa pode dar a você. Chegaria o dia em que uma elfa de vida longa só continuaria com você por pena ou por hábito.

— Se fosse para ficar, eu o faria principalmente por causa das histórias sobre os trolls — retrucou Alfadas com seriedade.

O pai disfarçou um sorriso.

— Claro. E preciso dizer que ficarei mais tranquilo se souber que há na aldeia um homem que foi instruído por Ollowain na luta com a espada e a quem ensinei nos últimos anos todos os truques sujos... E, caso não goste daqui, suba numa noite de lua cheia até o círculo de pedras e chame pelo nome de Xern. Tenho certeza de que vão ouvir você.

— De início, vou ficar só por um inverno — decidiu Alfadas. E ficou surpreso com o alívio que sentiu de repente.

— Exatamente. Por causa dos trolls — confirmou Mandred, olhando para a margem do fiorde como se fosse por acaso. — Ela é mesmo cabeça-dura. Ainda está esperando você.

— Você também não quer ficar? Firnstayn poderia lucrar muito com o seu machado.

— Lá não há mais ninguém me esperando. Não conseguiria suportar viver assim, à sombra do carvalho do túmulo de Freya. O devanthar arrancou minha amada de mim. Ajudarei Farodin e Nuramon a reencontrar a deles, e levarei minha disputa de sangue com o devanthar até o fim. O meu passado são cinzas, e o meu futuro é sangue. Fico aliviado que não estará cavalgando ao meu lado. Talvez... — Ele hesitou. — Quando eu tiver certeza de que o devanthar esteja morto, talvez possa viver em paz em Firnstayn. — E, sorrindo: — É claro que apenas se o jarl Alfadas Mandredson não tiver nada contra aceitar um velho teimoso na aldeia.

A sombra de uma nuvem cobriu a encosta. Os pássaros e grilos silenciaram. Num átimo, Alfadas teve a sensação de que nunca mais veria seu pai.

 

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