A Caçada dos Elfos
O mundo dos homens
Quando a névoa se dissipou, o hálito gelado do mundo dos homens acertou os caçadores como um golpe. Nuramon murmurou algumas magias de calor para expulsar o frio ao menos de suas roupas. Olhou em volta, curioso. Eles estavam em um círculo de pedras, no topo de um alto penhasco. Bem lá embaixo havia um vilarejo.
Mandred guiou seu cavalo até a borda do penhasco, dando a impressão de querer atirá-lo profundezas abaixo. Aparentemente o vilarejo do outro lado do fiorde exercia sobre ele uma enorme força de atração. Devia ser essa a aldeia sobre a qual ele falara na corte.
— Encontrei o rastro! — gritou Brandan. — Está muito fresco, como se o tal homem-javali tivesse estado aqui agora mesmo.
O lugar era exposto ao vento e lá em cima não havia nada para comer. O que teria mantido a besta ali por tanto tempo? Teria ficado esperando? Nuramon não conteve um sorriso. É claro que era loucura.
— Mandred! — chamou Farodin, com uma voz cortante.
O filho de humanos se juntou a eles, puxando as rédeas e afastando sua égua do penhasco.
— Desculpem. Eu só precisava saber como estão os meus semelhantes. A besta parece ainda não ter atacado Firnstayn.
Ele tomou a dianteira do grupo e conduziu-o penhasco abaixo. A alcateia caminhava dispersa na frente deles. Eles também haviam encontrado a pista do homem-javali.
Embora o rastro claramente conduzisse para longe da aldeia, Nuramon tinha a impressão de que o filho de humanos ficava mais inquieto a cada momento.
— Há algo de errado, Mandred? — perguntou a ele.
— Os cavalos — murmurou o guerreiro, com a voz sufocada. — Eles são enfeitiçados, não são?
Nuramon não entendeu o que ele queria dizer.
— Por que enfeitiçaríamos os cavalos?
— Eles não afundam na neve. Não pode ser. Aqui a neve está pelo menos na altura dos joelhos.
Nuramon percebeu Farodin e Brandan sorrirem um para o outro. Sabiam de alguma coisa?
— E por que os cavalos deveriam afundar na neve?
— Porque assim é! — Mandred refreou a égua. — Se os cavalos não estão enfeitiçados, então é a neve que está — ele se jogou da sela e num instante afundou na neve até os joelhos.
Brandan riu.
— Eu não acho engraçado — interferiu Aigilaos, correndo até Mandred e deixando pegadas profundas atrás de si. — Esses orelhas pontudas estão se divertindo às nossas custas. Até hoje não entendi como eles conseguem andar sobre a neve. Feitiço com certeza não é. E também não depende de os cavalos terem ou não ferraduras.
Nuramon esperava que o filho de humanos ficasse ofendido, mas de repente um brilho reluziu em seus olhos.
— Vocês acham que a rainha me daria o cavalo de presente quando nós voltarmos?
— Se você tiver êxito, talvez, humano — opinou Farodin.
— Vocês acham que um dos meus garanhões poderia cruzar com essa égua?
Aigilaos deu uma gargalhada relinchante.
Nuramon achou a ideia bizarra. O que o filho de humanos estava pensando?
— Não podemos ficar aqui à toa, fazendo piada — advertiu Vanna. — Logo vai começar a nevar. Precisamos prosseguir, senão vamos perder o rastro.
Mandred montou e o bando pôs-se novamente em movimento, seguindo o rastro. Nuramon percorreu as terras com os olhos. Imaginara o mundo dos homens de outra maneira. Aqui a neve era rígida e áspera, e as cadeias de montanhas tinham saliências tão irregulares que era difícil gravar a paisagem na memória. Nada parecia combinar com nada. Como encontrariam o homem-javali neste caos? Mil coisas atraíam o seu olhar, por serem diferentes de como eram na Terra dos Albos.
Todas essas novas impressões deixavam Nuramon cansado. Ele esfregou os olhos. Este mundo parecia vasto demais para o olhar. Quando via uma árvore, mal conseguia observá-la como um todo, de tanto que as suas particularidades o atraíam. Também era difícil estimar as distâncias — as coisas pareciam estar mais próximas do que de fato estavam, dando-lhe a impressão de que este mundo era muito apertado. Agora entendia por que a rainha convocara Mandred como líder. Tudo isso era familiar para ele.
O grupo seguiu a pista da besta durante todo o dia. Eles cavalgavam rápido quando seguiam o rastro numa campina aberta e cautelosamente quando adentravam bosques ou passavam por terrenos pedregosos. Estavam sempre prestes a dar de cara com o alvo. Ao menos era essa a impressão que Nuramon tinha.
Nas últimas horas, Brandan enfatizara que o rastro do homem-javali lhe parecia estranho. Simplesmente tinha a impressão de ser sempre fresco demais. Era como se a neve se recusasse a cair sobre suas pegadas. Isso deixava Nuramon inquieto, e Lijema também tinha no rosto uma expressão preocupada. Os outros pareciam levar o aviso de Brandan a sério, mas nenhum deles parecia duvidar de que cumpririam a sua missão. A Caçada dos Elfos partira, e agora os lobos, que corriam com gosto, causavam em Nuramon a sensação de que nada nem ninguém poderia detê-los, mesmo neste mundo esquisito.
À tarde a neve deu uma trégua aos caçadores. As pegadas levavam para dentro de um bosque denso, onde a besta podia estar à espreita em qualquer lugar. Mandred, então, ordenou que deveriam encontrar um lugar para acampar. Brandan memorizou a direção das pegadas e então seguiu Mandred. A expressão de Farodin tornou-se estranhamente desconfiada, tanto que Nuramon não foi capaz de interpretá-la direito.
Chegaram à borda da floresta e ali montaram seu acampamento. Aigilaos estava com fome e queria caçar de qualquer jeito. Ele seguiu algumas pegadas acompanhado por Brandan.
Nuramon e Farodin apearam. Vanna, a feiticeira, fez uma pequena fogueira no meio do acampamento. Seus pensamentos pareciam estar longe. Algo a preocupava. Lijema e Mandred se ocuparam dos lobos. A mãe dos animais esclareceu ao filho de humanos tudo o que ele queria saber. Estavam calmos, o que Nuramon via como um bom sinal.
Farodin soltou uma das selas e então parou para respirar.
— Foi assim que você imaginou a Caçada dos Elfos?
— Para dizer a verdade, não.
— De fora tudo parece sempre bem mais bonito e reluzente. Nós seguimos a pista da nossa presa, a abatemos e, em seguida, retornamos até a nossa soberana. No fundo é muito simples.
— Você já esteve aqui no mundo dos homens, não?
— Sim, várias vezes. Lembro-me da última vez. Tivemos de encontrar um traidor e levá-lo até a rainha. Foi como agora. Mal atravessamos o portal, também já encontramos a pista. Poucas horas mais tarde já estávamos no caminho de volta. Mas não foi uma Caçada dos Elfos de verdade.
— E então? Para você o Outro Mundo parece tão estranho quanto para mim?
— Você está falando da sensação de aperto?
— Sim, exatamente disso.
— É por causa do ar. A rainha me explicou uma vez. O ar daqui é diferente. Não é tão puro quanto o nosso.
Nuramon refletia.
— Aqui tudo é diferente — prosseguiu Farodin. — É em vão querer encontrar a beleza e a pureza da Terra dos Albos. As coisas não combinam. — Ele apontou para um carvalho. — Aquela árvore não combina com esta aqui — disse, tocando o carvalho que havia perto de si. — Na nossa terra as coisas são diferentes, mas estão sempre em harmonia. Não é de surpreender que os homens achem os nossos campos tão lindos.
Nuramon se calou. Apesar de tudo isso, achava o Outro Mundo fascinante. Aqui havia muito a descobrir. E, uma vez conhecendo o segredo deste mundo, então talvez seria possível encontrar harmonia nele.
— Para Mandred tudo parece estar em harmonia — disse baixinho, e lançou um olhar rápido sobre o filho de humanos.
— Mas ele não tem os sentidos apurados como os nossos.
Nuramon concordou com a cabeça; Farodin tinha razão. Mas... Talvez houvesse uma ordem por trás de tudo ali, cuja compreensão exigisse sentidos ainda mais apurados — mais até que os dos elfos.
Quando todo o trabalho já tinha sido feito, Nuramon sentou-se e deixou seu olhar passear pela paisagem. Farodin juntou-se a ele, oferecendo-lhe amoras da sua bolsa.
Nuramon ficou surpreso.
— Devo mesmo?
O companheiro consentiu.
Ele aceitou a oferta de Farodin. Comeram algumas amoras juntos e em silêncio.
Quando o pôr do sol se aproximou, Lijema perguntou onde estariam Brandan e Aigilaos.
Nuramon levantou-se.
— Vou buscar os dois.
— Devo ir junto? — perguntou Farodin.
—Não. — Ele olhou para a feiticeira. — É melhor perguntar para Vanna se está tudo bem — sussurrou. — Ela está há muito tempo calada, remoendo alguma coisa.
Farodin sorriu e ergueu-se para se juntar à feiticeira. Nuramon deixou o acampamento, seguindo as pegadas de Aigilaos e Brandan.
A trilha dos dois era fácil de seguir. As marcas das botas de Brandan de fato eram difíceis de reconhecer, mas Aigilaos deixara sulcos profundos na neve. Nuramon olhou para os pés várias vezes, pensando em Mandred e em como ele afundava no chão coberto de branco. Talvez fosse mesmo um feitiço o que fazia com que ele andasse sobre a neve sem afundar. Tentou deixar pegadas nítidas, e até conseguiu. Mas precisava se concentrar e pisar da forma mais desajeitada possível. Do contrário, seus pés se recusavam a afundar.
Pouco depois, as pegadas se tornaram diferentes. Nuramon viu que ambos os companheiros começaram a seguir a pista de um cervo. Logo depois se separaram: Aigilaos foi para a esquerda, enquanto Brandan seguiu à direita. O rastro do cervo seguiu em frente. Nuramon seguiu as pegadas de Aigilaos, porque eram mais fáceis de reconhecer.
De repente ouviu algo. Deteve-se e ficou à espreita. Primeiro escutou só o vento que soprava através da floresta. Depois ouviu um ruído baixo. Não devia ser nada além de um pouco de gelo soprado sobre uma árvore. Mas o ruído se repetia o tempo todo. Às vezes era mais longo, às vezes mais curto. Talvez fosse um animal da floresta. Mas também podia ser a besta que estavam caçando.
Cautelosamente, Nuramon deslizou a mão até a espada. Pensava se devia gritar por Aigilaos e Brandan, mas decidiu não fazê-lo. O centauro, temperamental como era, certamente apontaria sua lança para ele, caso se precipitasse e espantasse a caça com seu chamado.
O barulho parecia estar bem perto. Mas Nuramon não queria confiar demais nos seus sentidos. Esse mundo os enganava tanto! Hoje seus olhos já tinham lhe pregado peças o bastante. Seus ouvidos podiam estar fazendo o mesmo.
Com cuidado, Nuramon abandonou a pista de Aigilaos para ir atrás do ruído. Logo viu uma clareira entre as árvores. O barulho parecia vir dali.
Quando chegou à borda da clareira, Nuramon fez o reconhecimento da área. Quase no meio havia três carvalhos. O vento trouxe até ele um cheiro desagradável, que perdurou por um momento. Havia algo de errado nesse cheiro. Mas, para os sentidos dos elfos, o que havia de certo neste mundo?
Adentrou a clareira cuidadosamente e olhou em volta. Não havia ninguém. Mas a cada passo que dava, o ruído ficava mais alto. Qualquer que fosse a sua origem, era certo que estava ali, atrás das três árvores. Apertou com mais força o cabo gelado da espada. Quando já estava quase junto às árvores, viu à sua esquerda um amplo rastro que vinha da floresta. Eram as pegadas de Aigilaos!
Ele se apressou na direção dos três carvalhos. O zumbido se tornara horrivelmente alto e nítido. Quebrada e caída na neve, havia uma tiara de testa. Nuramon contornou rápido o pequeno grupo de árvores — e não acreditou no que seus olhos viram.
Diante dele, na neve, estava Aigilaos! Tinha a cabeça muito inclinada para trás e a boca aberta emitia aquele som. Sua barba cacheada estava toda coberta de sangue. E, no seu pescoço, Nuramon viu quatro feridas estreitas. Se não fosse por elas, certamente os gritos do centauro teriam sido ouvidos em toda a floresta. Mas, naquele estado, mal era capaz de emitir qualquer som. Sua voz tinha sido quase arrancada. O seu grito não era nada mais que um longo e tênue sopro de ar que saía de sua garganta.
No rosto de Aigilaos estava estampada a maior dor que Nuramon já vira em um ser vivo. Tinha os olhos enormemente arregalados. A todo momento se encolhia, queria gritar, mas só conseguia soltar um ruído doloroso.
As quatro patas do centauro estavam quebradas, e uma delas tinha o osso exposto. O longo ventre estava rasgado, expondo suas vísceras. Uma grande poça de sangue congelado se formara na neve. Um dos braços estava enterrado por baixo do corpo; o outro, deslocado e quebrado como as pernas. Na pele havia grandes feridas, como se um grande predador o tivesse atacado.
Nuramon não conseguia imaginar o tamanho da dor que Aigilaos devia estar sentindo. Nunca tinha visto um ser tão destroçado como o centauro estava agora.
— Farodin! Mandred! — gritou ele, indeciso entre ir buscar ajuda ou tentar fazer algo por Aigilaos. Olhou para as próprias mãos e viu como elas tremiam. Precisava fazer alguma coisa! Com certeza os companheiros no acampamento tinham ouvido o seu chamado.
— Vou ajudá-lo, Aigilaos!
O centauro parou com seus gritos sem voz, e, trêmulo, olhou para Nuramon.
Não havia esperança. Só a ferida no ventre já era suficiente para matá-lo. E as feridas no pescoço também tinham causado muitos danos. Devia mentir para Aigilaos?
— Primeiro vou tentar aliviar as suas dores. — Nuramon pôs as mãos sobre a testa de Aigilaos e encarou seus olhos cheios de lágrimas. Era um milagre que ainda estivesse consciente. — Tente aguentar só mais um instante! — disse Nuramon, concentrando-se no feitiço.
Nuramon começou a sentir um formigamento nas pontas dos dedos. Prestou atenção na pulsação do amigo e sentiu um calafrio descer por seus braços até as mãos. Percebeu a testa de Aigilaos se aquecer sob seus dedos. Sentiu o pulso acelerado do centauro e percebeu as batidas de seu próprio coração se ajustarem às do companheiro. Então os batimentos de ambos se tornaram mais lentos, e Aigilaos se acalmou. Isso já era bastante, mesmo que não fosse mais possível salvar o centauro.
Quando tirou as mãos da testa de Aigilaos, Nuramon percebeu como sua expressão aos poucos se tornava mais relaxada. Com todo o sangue que via, continuava surpreso que o centauro ainda estivesse consciente. Decidiu arriscar e tentar impedir a morte do colega, mesmo que isso parecesse inútil. Não tinha experiência com centauros. Quem sabe ele pudesse sobreviver aos ferimentos? Pousou cuidadosamente a mão sobre a garganta aberta do ferido.
Aigilaos já não sentia mais dor e o olhava gravemente nos olhos. Então chacoalhou a cabeça e olhou para a espada do elfo.
Nuramon estava horrorizado. Aigilaos sabia que era o seu fim. E agora ele deveria erguer a espada de Gaomee para aliviar o centauro com uma morte rápida. A espada com a qual Gaomee certa vez abatera Duanoc numa luta heroica agora tinha de ser manchada com o sangue de um companheiro.
Nuramon hesitou, mas o olhar do centauro era de súplica, e ele não podia evitar. Tinha de fazê-lo. Por compaixão! Então puxou a espada.
Aigilaos consentiu com a cabeça.
— Nos vemos de novo na próxima vida, Aigilaos!
Ele ergueu a arma e deixou-a descer. Mas a ponta da espada se deteve pouco antes de acertar o peito do centauro. Aigilaos olhou para cima, sem acreditar.
— Eu não posso — disse Nuramon, desesperado, balançando a cabeça. As palavras que dissera ao se despedir do centauro repicavam em sua alma como um sino violento. “Nos vemos de novo na próxima vida!” Quem era capaz de dizer algo assim? Nuramon não tinha certeza se a alma de Aigilaos encontraria seu caminho de volta deste mundo até a Terra dos Albos. Se tirasse a sua vida aqui, poderia privá-lo para sempre da chance de renascer.
Nuramon jogou a espada de lado. Quase manchara a arma com o sangue do parceiro. Só lhe restava uma coisa: lançar mão de seus poderes mágicos para tentar salvar o colega.
Checou de novo as feridas no pescoço. Mandred descrevera o javali como uma fera boçal. Mas essas feridas foram cortadas na pele de forma tão precisa que pareciam ter sido feitas por uma faca. A besta que caçavam seria capaz de manejar armas? Ou teria sido outra fera quem estraçalhou Aigilaos dessa maneira? O que surpreendia Nuramon era que, a não ser pelo sangue do colega, não se via mais nenhuma pista, nem mesmo a continuação do rastro do cervo que Aigilaos caçava. Também não se via nada de Brandan. Talvez também estivesse caído por aí, em algum lugar da floresta, igualmente ferido.
Nuramon sufocou o desejo de chamar pelos demais companheiros. Só atrairia a besta com isso. Com muito cuidado, pôs as mãos sobre as feridas. E mal pensara no feitiço, seus dedos já voltaram a formigar — mas dessa vez sem o arrepio que há pouco sentira nos braços. Em vez disso, o formigamento virou uma dor, que veio das pontas dos dedos e se espalhou pelas mãos e por todas as juntas. A dor pela cura! Era nessa troca que consistia o seu feitiço. Quando a dor finalmente diminuiu, Nuramon soltou as mãos de Aigilaos e observou o seu pescoço. As feridas tinham fechado.
Ao observar o corte aberto na barriga, soube que suas forças ali não conseguiriam nada. Seria necessário um encanto que reanimasse todo o corpo. Abaixou-se sobre o tronco de Aigilaos.
— Aigilaos, agora você consegue falar? — perguntou ao centauro.
— Não faça isso, Nuramon! — pediu Aigilaos, rouco. — Pegue a espada e dê um fim a isso!
Nuramon pôs as mãos sobre as têmporas de Aigilaos.
— É só um pouco de dor.
Ele sabia muito bem que ferimentos maiores causavam-lhe dores maiores. Mas ainda assim tentou se concentrar e respirar calmamente.
— Desejo a você a sorte dos albos, meu amigo — disse o centauro.
Em vez de responder, Nuramon deixou seus poderes mágicos fluírem de suas mãos pelo corpo de Aigilaos. Ele pensou em todos que já havia curado. Tinham sido muitas árvores e animais e, mais raramente, até elfos.
De uma só vez, uma dor aguda atravessou suas mãos e lhe subiu pelos braços. Esse era o preço da cura, e tinha de suportá-lo! A dor então foi crescendo e tornando-se monstruosa. Nuramon fechou os olhos, tentando lutar contra ela. Mas todas as suas tentativas de dispersar a dor falhavam, e era como se um raio o estivesse atingindo na cabeça. Ele sabia que bastaria se soltar para que a dor passasse. Mas então Aigilaos estaria perdido.
Não havia apenas as incontáveis feridas e o grande dano resultante do ferimento na barriga; havia ainda algo mais — algo que Nuramon não conseguia tirar. Seria um veneno? Ou um feitiço? Nuramon tentava relaxar, mas a dor era forte demais. Sentiu suas mãos se contraírem e todo o seu tronco começar a tremer.
— Nuramon! Nuramon! — ele ouviu uma voz rouca gritar. — Por todos os deuses!
— Quieto! Ele está curando-o! — disse a voz de um elfo. — Oh, Nuramon!
A dor crescia, e Nuramon apertava os dentes. Aquele sofrimento parecia não ter fim; só aumentava mais e mais. Ele sentiu que começava a perder os sentidos. Por um momento pensou em Noroelle. E de repente a dor sumiu.
Tudo ficou em silêncio.
Nuramon abriu os olhos devagar, e viu o rosto de Farodin sobre ele.
— Diga alguma coisa, Nuramon!
— Aigilaos? — foi tudo o que saiu de seus lábios.
Farodin olhou para o lado e então de volta para ele, e chacoalhou a cabeça.
Ouviu Mandred gritar bem perto:
— Não. Acorde! Acorde de novo! Não vá assim! Diga alguma coisa!
Mas o centauro continuava quieto.
Nuramon tentou se levantar. Aos poucos, suas forças retornavam. Farodin ajudou-o a se erguer.
— Você podia ter morrido — sussurrou ele.
Nuramon baixou os olhos até Aigilaos; Mandred chorava debruçado sobre ele. Embora os traços do centauro morto parecessem relaxados, o seu cadáver ainda era uma visão pavorosa.
— Você se esqueceu do que prometeu a Noroelle?
— Não, não esqueci — sussurrou Nuramon. — E foi por isso que Aigilaos teve de morrer.
Nuramon quis se virar e ir embora, mas Farodin deteve-o com força.
— Você não teria conseguido salvá-lo.
— E se tivesse conseguido?
Farodin calou-se.
Mandred levantou-se e virou-se para eles.
— Ele disse alguma coisa? — Mandred encarava Nuramon cheio de expectativa.
— Ele me desejou sorte.
— Você tentou de tudo. Eu sei disso. — As palavras de Mandred não eram capazes de consolar Nuramon.
Ele pegou a espada de volta, observou-a e lembrou do desejo de Aigilaos. Isso ele não podia contar a Mandred.
— O que aconteceu? E onde está Brandan? — perguntou Farodin.
— Não faço ideia — retrucou Nuramon lentamente.
Mandred chacoalhou a cabeça.
— Estaremos com sorte se ele ainda estiver vivo. — Olhou para Aigilaos e suspirou ruidosamente. — Por todos os deuses! Ninguém devia morrer assim. — Então olhou em volta. — Droga! Agora está escuro demais!
— Então vamos encontrar Brandan rápido — disse Farodin.
Lançaram um último olhar sobre Aigilaos e decidiram voltar para apanhá-lo mais tarde, à noite, caso isso fosse possível de alguma forma.
Nuramon conduziu Farodin e Mandred de volta para o rastro de Brandan. A noite já havia coberto a floresta com seu manto escuro.
— Se ao menos eu tivesse trazido do acampamento as pedras de barin! — disse Farodin. A trilha já era difícil de seguir por si só, mas naquele breu era praticamente impossível. Eles não eram bons leitores de rastros.
De repente, um uivo monstruoso soou um pouco atrás deles. Os três se voltaram. Mandred então gritou:
— O acampamento! Vamos!
Eles correram de volta. Nuramon tinha a impressão de que Mandred tinha muita dificuldade para se movimentar na escuridão. Ele esbarrava o tempo todo em galhos baixos, até que finalmente recuou para correr atrás de Farodin, seguindo-o. O filho de humanos praguejava por afundar até as canelas na neve, enquanto os elfos percorriam a distância com pés leves por cima dela.
Finalmente alcançaram o acampamento. Estava abandonado. A fogueira ardia e os cavalos estavam quietos, mas Vanna, Lijema e os lobos haviam desaparecido. Enquanto Farodin se ajoelhava ao lado dos alforjes de sua sela, Nuramon deu a volta no acampamento, procurando pegadas. Mandred estava como se paralisado, pensando que tudo estava perdido.
A floresta estava silenciosa.
Nuramon encontrou o rastro dos lobos e das elfas. Seguiam pela borda da floresta. Não se viam quaisquer sinais de luta ou algo do tipo. Mal anunciou a descoberta a seus companheiros, Farodin atirou-lhe uma pedra mágica. Jogou também outra para Mandred. Elas eram claras e iluminavam o caminho com uma intensa luz branca.
Quando ouviram um uivo alto vindo da floresta, puseram-se novamente a caminho. Chamavam o tempo todo por Vanna e Lijema, mas não havia resposta.
Então encontraram um rastro de sangue. Seguiram-no. Aparentemente, os lobos, Vanna e Lijema já haviam seguido o mesmo rastro antes deles. Logo se depararam com um dos lobos. Tinha a garganta dilacerada e já não se mexia. Estava morto. Tomados pela preocupação, continuaram seguindo as pegadas. O clima era sinistro: a cada poucos passos, sempre descobriam novos rastros de sangue.
Ouviram outro uivo. De repente, viram por entre as árvores os lobos brancos saltando freneticamente. Atacavam uma sombra. Um vulto enorme, que se defendia com golpes selvagens em torno de si. O ganido de um lobo transformou-se num uivo abafado de dor. E, em seguida, um grito agudo, feminino, rasgou a floresta.
Nuramon, Farodin e Mandred chegaram a uma clareira. O brilho de suas pedras mágicas afastava a escuridão. Nuramon viu os lobos perseguirem um vulto grande e agachado e desaparecerem na floresta.
A luz de Nuramon encontrou Vanna, a feiticeira, no meio da clareira.
— Voltem! Não temos tempo para vingança! —, gritou para os lobos. Mas eles não a ouviam. A feiticeira pôs-se de joelhos e inclinou-se sobre algo.
Mandred e Farodin já estavam bem perto dela. Nuramon só ousava se aproximar lentamente, olhando em volta. Três lobos jaziam mortos na clareira, entre eles, o líder. Havia algo atravessado em suas costas. Nuramon sentiu um forte cheiro no ar. Era o mesmo fedor que sentira antes, perto de Aigilaos. Devia ser o cheiro do suor da besta.
Quando Nuramon alcançou os companheiros, viu sob a luz das pedras de barin que Vanna estava curvada sobre Lijema. Quando a feiticeira se ergueu, Nuramon pôde ver que a mãe dos lobos tinha o peito destroçado. Algo havia perfurado o seu corpo e despedaçado coração e pulmões. Seus olhos ainda brilhavam, mas a face estava paralisada numa máscara horrorizada de morte. Vanna pressionou seu rosto carinhosamente contra o dela.
— O que aconteceu? — perguntou Farodin.
Vanna continuou calada.
Farodin agarrou a feiticeira pelos ombros e chacoalhou-a de leve.
— Vanna!
Com os olhos arregalados, ela parecia olhar através de Farodin. Apontou para o lado.
— Ali atrás da árvore está Brandan. A besta o pegou...
Vanna não terminou a frase.
Nuramon pôs-se em marcha. Queria chegar a Brandan o mais rápido possível. Tinha medo, pois não podia evitar pensar em Aigilaos. Enquanto isso, Mandred e Farodin começaram a discutir. O filho de humanos queria perseguir a besta, mas Farodin não queria permitir. Como eles eram capazes de brigar por algo assim agora? Talvez Brandan ainda estivesse vivo!
Nuramon chegou aos limites da floresta e encontrou Brandan. O descobridor de rastros estava deitado no chão. Tinha leves feridas nas têmporas e na perna. De fato, estava inconsciente, mas respirava lentamente e seu coração ainda batia. Nuramon pôs suas mãos mágicas sobre os ferimentos na cabeça e na perna. Sentiu o formigamento começar e logo seguiu-se a dor. Por fim, as feridas cicatrizaram sob seus dedos. Isso devia bastar por enquanto. Mais tarde o curaria completamente.
Com esforço, Nuramon tomou Brandan nos braços e, com passos pesados, começou a voltar até os outros. Graças ao peso extra, seus pés afundavam na neve. Ouviu a voz paciente de Farodin tentando convencer Mandred.
— A fera está brincando conosco. Não devemos nos deixar levar e fazer qualquer coisa sem pensar direito. Amanhã vamos atrás dela!
— Como quiser — retrucou Mandred, contrariado.
Quando viram Nuramon, foi visível o medo que os tomou. Andaram ao seu encontro.
— Ele está...? — balbuciou Mandred.
— Não, ele está vivo. Mas precisamos levá-lo até o acampamento.
Calados, Farodin, Vanna e Mandred deixaram a clareira.
O caminho de volta até o acampamento foi cansativo. Mandred carregou Brandan, enquanto Farodin e Nuramon levaram o corpo de Lijema. Deixaram os lobos onde estavam. Durante o percurso, Mandred tentou acordar Brandan. Mas o descobridor de rastros estava profundamente inconsciente.
Chegando ao acampamento, Farodin se encarregou de Lijema, embrulhando seu corpo em um cobertor. Mandred e Vanna sentaram-se perto do fogo, atentos aos sons da floresta. Nuramon os observava enquanto a cabeça de Brandan descansava sobre suas mãos, recebendo a sua magia. A postura do filho de humanos e da feiticeira dizia mais do que qualquer palavra. Dois membros da Caçada dos Elfos estavam mortos; seus lobos que não haviam morrido estavam desaparecidos.
Nuramon observou a lua. O que sua avó disse estava certo. Só se podia ver metade do astro, e ela era muito menor do que na Terra dos Albos. Voltou a pensar na conversa que teve com Noroelle. O que acontecia quando se morria na reino dos homens? Esperava que Lijema pudesse renascer. Quanto aos centauros, ele realmente não sabia. Alguns filhos de albos dizem que eles vão direto para o luar ao morrerem. Esperava que as almas dos seus colegas mortos não estivessem perdidas.
Quando a dor se arrastou do corpo de Brandan para suas mãos, Nuramon fechou os olhos e pensou em Aigilaos. Farodin estava certo: ele já não podia ser salvo. Em seguida, pensando em em Noroelle e na promessa que fizera, questionou-se sobre a culpa pela morte do centauro. Talvez com um pouco mais de esforço tivesse conseguido salvá-lo.
A dor desvaneceu de repente e Nuramon abriu os olhos. Farodin, Mandred e Vanna estavam ao seu lado, com a preocupação estampada em seus rostos. Ele soltou Brandan.
— Não tenham medo. Está tudo bem.
Pouco depois, Brandan despertou. Todos ficaram aliviados. Ele se sentia cansado, mas conseguiu contar o que aconteceu.
— De repente a besta estava lá, com aquele fedor. Foi como se eu estivesse paralisado. Não consegui fazer nada. Nada!
Ele fora golpeado pela fera até ficar inconsciente e serviu de isca para os demais. A última coisa de que se lembrava era de um terrível grito de agonia.
Nuramon contou a Brandan e Vanna o que aconteceu com Aigilaos. Descreveu o seu fim em todos os detalhes, omitindo somente que Aigilaos suplicara-lhe a morte. Os rostos dos companheiros refletiam puro horror.
Farodin sacudiu a cabeça.
— Há alguma coisa de estranho com esse tal homem-javali. Ele é mais que uma fera grosseira.
Mandred retrucou:
— Seja o que for, só vamos conseguir acabar com ele se não nos separarmos mais. Vamos nos revezar para ficar de guarda para não sermos surpreendidos por esse porco maldito.
Antes que decidissem sobre o primeiro turno da guarda, dois lobos voltaram ao acampamento, em silêncio e com o rabo entre as pernas. Não estavam feridos. Mandred ficou feliz em vê-los e acariciou a cabeça de um deles. Vanna se encarregou do outro. Os lobos estavam esgotados e fediam como o homem-javali.
— O que é aquilo ali? — perguntou Farodin, apontando para o focinho do lobo que estava com Mandred.
Para Nuramon, parecia sangue.
O filho de humanos examinou melhor.
— É sangue congelado. Vejam como é claro!
Nuramon percebeu um brilho prateado, mas não era capaz de dizer se era por causa do gelo.
Todos observaram melhor o sangue. Mandred então disse:
— Então é possível ferir a besta. Amanhã vamos descobrir onde ela está e dar o troco!
Farodin sacudiu a cabeça, resoluto. Nuramon e Brandan também concordaram.
Só Vanna não respondeu. Observava o focinho do seu lobo, que também parecia ensanguentado.
— O que há com você?
A feiticeira ergueu-se, deixou o lobo e se colocou entre Nuramon e Farodin. Tinha uma expressão preocupada, e inspirou profundamente.
— Ouçam bem. Esta Caçada dos Elfos não é como as outras. E não estou dizendo isso porque falhamos terrivelmente e dois companheiros estão mortos.
— O que isso quer dizer? — perguntou Mandred. — Você está sabendo de algo que não sabemos?
— No início era só uma suspeita. Ela me parecia tão equivocada que não disse nada, assim descartei-a de imediato. Eu sentia uma presença diferente, que me era familiar. Quando estávamos na pista da besta, prestei atenção no seu cheiro. E de novo tive aquela sensação, mas apenas o mau cheiro não era uma prova suficiente. Quando finalmente fiquei de frente com ela e vi como os lobos a enfrentavam; quando eu olhei nos seus olhos azuis e ela lançou mão de sua magia para ferir Lijema dessa forma, então eu soube com o que estamos lidando. Eu ainda não queria acreditar. Mas agora que estou vendo esse sangue não há mais dúvida... — Ela se calou.
— Do quê? — pressionou Mandred.
— Talvez isso não diga muita coisa para você, Mandred, mas a criatura que você chama de homem-javali não é nada mais do que um devanthar, um ser demoníaco do tempo dos albos.
Nuramon estava perplexo. Não era possível! O mesmo horror que ele sentia estava estampado no rosto de Farodin e Brandan. Era verdade que Nuramon sabia muito pouco sobre os devanthares, mas diziam que eram seres das sombras que praticavam tão somente o caos e a destruição. Os albos os combateram e os exterminaram. Era o que as lendas contavam; mas nelas só havia poucas palavras dedicadas a aqueles demônios. Diziam que eles podiam mudar de aparência e que eram feiticeiros poderosos. Provavelmente só a rainha sabia realmente do que se tratava. Mas Nuramon não achava que Emerelle os enviaria se soubesse que o alvo da caçada era um ser das sombras como esse. O que Vanna disse não podia ser verdade!
Farodin encarou a feiticeira com uma expressão neutra e disse o que Nuramon estava pensando:
— Isso é impossível! Você sabe.
— Sim, foi o mesmo que pensei. Mesmo quando vi esse ser claramente diante de mim, eu não queria acreditar. Tentei me convencer de que estava enganada. Mas o sangue com esse estranho brilho prateado me abriu os olhos. Esse ser é um devanthar.
— Bom, você é a feiticeira... É você quem tem a sabedoria dos nossos ancestrais — disse Farodin, nem um pouco convencido com a constatação da feiticeira.
— O que devemos fazer agora? — perguntou Brandan em voz baixa.
O olhar de Vanna passeou por todos eles.
— Nós somos a Caçada dos Elfos e precisamos pôr um fim nisso. Então vamos lutar contra um ser que foi um adversário à altura dos albos.
O terror estava estampado nas feições de Mandred. Só agora ele parecia entender do que Vanna estava falando. Aparentemente, os albos e seu imenso poder eram conhecidos até entre os humanos. Podia ser que para Mandred eles fossem algo parecido com deuses.
— Ainda não houve um elfo que tenha conseguido matar um devanthar — desafiou Farodin.
Nuramon trocou um olhar com Farodin, e mais uma vez pensou na promessa que fizera a Noroelle.
— Então nós seremos os primeiros! — disse ele, decidido.