A Caçada dos Elfos
As janelas muradas
O estrondo do andaime despencando pôde ser ouvido até na montanha do vinhedo. Mandred apertou os olhos na clara luz da manhã. Os guerreiros forasteiros penduravam algo no carvalho da praça do templo, mas ele estava muito distante para ver direito o que acontecia lá.
— Precisamos ir até a cidade — disse Mandred insistentemente.
— Não — repetiu Ollowain pela terceira vez. — Por acaso nós sabemos o que está acontecendo ali? Provavelmente Nuramon e Farodin estão escondidos em algum lugar esperando que esses incendiários sumam de lá.
— Provavelmente não basta para mim! — Mandred agitou-se na sela. — Pelo visto, na língua dos elfos a palavra amigo tem um significado diferente do nosso — completou ele. — Em todo caso, não vou ficar mais aqui sentado sem fazer nada. O que vocês vão fazer? — disse olhando para Oleif e para ambas as guerreiras. Das elfas, ele não esperava muito. Eram totalmente submissas a Ollowain. Mas seu filho... Cavalgaram juntos por três anos. Será que em todo esse tempo não conseguira ensinar a ele ao menos um pouco do senso de honra? É claro que Mandred sabia que sozinho não conseguiria fazer nada e, sim, mesmo em cinco eles não conseguiriam vencer os inimigos, que estavam em maior número. Mas ficar simplesmente esperando ali, com a esperança de que seus amigos fossem embora, não era como um homem deveria se portar.
Oleif lançou um olhar de interrogação para Ollowain. O filho parecia surpreso com o comportamento do mestre da espada.
— Vocês todos viram que quase cem homens atravessaram a ponte cavalgando no raiar da manhã — disse Ollowain.
Mandred acariciou o cabo do machado que pendia de sua sela.
— Essa promete ser uma luta empolgante. Pelo que estou vendo, as proporções estão quase equilibradas. — Ele puxou as rédeas e guiou seu cavalo pela trilha estreita que descia da montanha até o vale.
Ao chegar à estrada que levava à cidade, ouviu um bater de cascos atrás de si. Não se voltou, mas seu coração se encheu de orgulho. Dessa vez Oleif não agia como um elfo.
Cavalgaram calados lado a lado. Seu silêncio dizia mais que palavras poderiam expressar.
Cinco guerreiros guardavam a ponte. Mandred viu um dos homens preparar uma besta. Um rapaz corpulento, de cabeça raspada, pôs-se no caminho deles. Apontou a ponta da lança contra o peito de Mandred.
— Em nome do rei, deem meia-volta. Esta ponte está bloqueada.
Mandred sorriu simpático, e arqueou-se para a frente. Sua mão direita escorregou até o nó de couro que prendia o machado à sela.
— Negócios urgentes me trazem a Aniscans. Por favor, libere a minha passagem, amigo.
— Desapareçam daqui, ou vou rasgar sua barriga e pendurá-lo pelas próprias tripas na primeira árvore que encontrar. — A lança do guarda avançou palpitante e parou a poucos dedos da garganta de Mandred.
Mandred ergueu o machado como um raio e despedaçou o cabo da arma. Um golpe de revés destroçou o crânio do guarda.
O jarl abaixou-se rente à nuca do cavalo para dificultar a mira dos besteiros. Oleif pulara da sela e causava estragos nos guardas desprevenidos. Esquivava-se de suas lanças e girava sua espada por círculos mortais. Nem escudos nem trajes de malha de ferro ofereciam resistência ao aço élfico. Em poucos instantes os cinco guerreiros jaziam no chão.
A ponte agora estava livre. Aparentemente não estavam sendo observados da outra margem. Mandred saltou da sela e ajoelhou-se ao lado do besteiro caído. O homem não estava mais consciente. Um pisão de cavalo transformara seu rosto em uma massa sangrenta. Mandred puxou uma faca do cinto dele e cortou-lhe a garganta. Então revistou o morto. Encontrou uma fina bolsa de couro com algumas peças de cobre e um anel de prata escurecido.
— Não pode ser verdade, pai!
Mandred ergueu rapidamente os olhos para seu filho, e então foi até o careca que ameaçara pendurá-lo pelas tripas.
— Alguma coisa está incomodando? — perguntou Mandred, apalpando as vestes do homem corpulento em busca de moedas escondidas.
— Você rouba dos mortos! Isso é... repulsivo! Imoral!
Mandred virou o líder dos guardas de lado. Ele tinha orelhas grandes e carnudas e usava um único brinco com uma linda pérola. Com um puxão, Mandred arrancou o brinco, rasgando sua orelha.
— Imoral? — Ergueu a pérola contra a luz. Era grande como uma ervilha e tinha um brilho rosado. — Imoral talvez seria roubar dos vivos. Esses aqui não ficarão mais chateados se eu privá-los de seus pertences. Se eu não fizesse isso, os próprios companheiros deles iriam fazê-lo.
— Nem me fale de companheiros! Neste mesmo instante parece que para você tanto faz se aqueles que você chama de amigos estão lutando pela vida. Ollowain tinha razão!
Mandred andou até o próximo morto.
— Você poderia manter os olhos na outra margem enquanto dá o seu sermão, filho? Você certamente se daria bem com Guillaume. E no que Ollowain tinha razão?
— Ele disse que você era como um animal, que agia só por instinto. Nem bom nem ruim... Simplesmente primitivo!
Um dos lanceiros mortos usava um anel de prata com uma grande turquesa. Mandred puxou o anel, mas ele não se moveu.
— Não tire os olhos da outra margem — foi tudo o que Mandred disse.
Cuspiu na mão do morto e esfregou a saliva, para que o anel deslizasse melhor no dedo, mas isso não ajudou. Irritado, sacou um punhal.
— Você não vai fazer isso, pai.
Mandred posicionou a ponta do punhal na junta do dedo do anel, e bateu com a polpa da mão no cabo da arma. Ouviu-se o ruído do aço partindo o osso fino. O jarl apanhou o dedo, arrancou-lhe o anel e enfiou-o junto com os demais espólios em uma bolsa de couro.
— Você é pior que um animal!
O guerreiro se ergueu.
— Para mim, tanto faz o que você pensa de mim e dos animais. Mas nunca volte a dizer que meus amigos não me importam.
— Ah, entendi. É pura consideração continuarmos aqui enquanto eles lutam. Você não quer acabar com a diversão deles.
Mandred pulou sobre a sela.
— Você realmente não entende o que estamos fazendo aqui, não é?
— Entendo, sim. É óbvio que está certo. Você está enchendo os bolsos... Provavelmente para, na próxima cidade, poder encher a cara e caçar vadias por aí. Será que também foi por isso que Freya o amaldiçoou?
Mandred deu uma bofetada ruidosa em Oleif.
— Nunca mais fale da sua mãe e de vadias na mesma frase.
O jovem guerreiro encolheu-se na sela, tonto com a força da pancada inesperada. Marcas vermelhas surgiram-lhe na face.
— E agora me ouça com atenção em vez de ficar tagarelando, e aprenda alguma coisa. — Mandred falava baixo e exagerando na ênfase. Ele não podia esquecer! Talvez tivesse sido melhor dar uma bela sova nesse espertinho do seu filho. O que os elfos fizeram com o seu garoto! — A maioria dos guerreiros humanos tem medo da luta. Eles falam demais, mas quando chega a hora, ficam cheios de medo até as tripas. Eu mesmo tenho medo de que haja besteiros à espreita nas casas da outra margem, que nos matarão a tiros quando atravessarmos a ponte. Se eles estiverem posicionados lá, ficarão esperando que cheguemos perto o bastante para que não errem o alvo. Eu apeei e enchi a minha bolsa para deixá-los mais tempo com o medo. Pois eles também têm medo de nós. Eles têm medo de não nos acertarem, e de chegarmos às casas antes que consigam recarregar as armas. Quanto mais tempo eles nos virem e tiverem de esperar, maior será a probabilidade de um deles perder a cabeça e atirar. Então, pelo menos vamos saber o que nos espera.
Por alguns instantes reinou um silêncio tenso entre pai e filho. Ouvia-se somente o som dos passos nas tábuas que cruzavam os pilares da ponte.
Oleif olhou para as casas na outra margem.
— Você tem razão. Se cavalgarmos às cegas e cairmos numa emboscada, não seremos de ajuda nenhuma para Nuramon e Farodin. Nada está se movendo ali do outro lado. Você acha que podemos atravessar a ponte em segurança?
Mandred sacudiu a cabeça.
— Guerra e segurança são duas coisas que não caminham juntas. Mas agora tenho certeza de que não há guerreiros comuns esperando por nós ali do outro lado. Se houvesse, pelo menos um deles teria atirado. Mas, se em vez de fedelhos quem estiver nos esperando forem uns velhos tarados e espertalhões, veteranos que já lutaram em muitas batalhas, então eles conhecem esse truque e estão esperando com toda a calma do mundo.
Mandred curvou-se bem sobre o pescoço da égua e esporeou-a.
— Nos vemos na outra margem!
Ele observou as casas com desconfiança, mas nenhuma chuva de flechas os recebeu quando deixaram a ponte. Os cinco guerreiros pareciam ser os únicos guardas deste lado da cidade.
Mandred e Oleif refrearam os cavalos. Diante deles havia uma estrada larga e sinuosa, que passava pelo mercado e prosseguia para cima da colina, até a praça do templo. Aniscans parecia abandonada. Ninguém ousava pisar na rua. Continuaram cavalgando lentamente. Olhos assustados os seguiam através de janelas semicerradas. Da colina ouviam-se gritos. Também se podia ouvir nitidamente o som de espadas.
— Se eu estivesse no comando, entraríamos na cidade e bloquearíamos as vielas — esclareceu Oleif.
Mandred concordou.
— Parece que os elfos ensinaram-lhe algo além de dizer asneiras ou de cantarolar musiquinhas. Vamos apear. A pé somos mais ágeis.
Deixaram a rua principal e adentraram o labirinto de vielas estreitas, levando os cavalos pelas rédeas atrás de si. Mandred olhou em volta, aflito. A cidade inteira era como uma grande armadilha. Restava-lhes esperar que ninguém tivesse visto a carnificina na ponte.
Ambos atravessaram uma praça estreita de terra batida. Uma grande casa de janelas muradas ocupava um lado inteiro da praça. Com um portão alto que dava em um pátio interno, parecia quase um castelo.
— Vamos guardar os cavalos aqui — ordenou Mandred, conduzindo sua égua para atravessar o portão.
Muitas janelas davam para o pátio interno. Desconfiado, olhou ao redor. O prédio lhe parecia estranho. Em uma das janelas, viu rapidamente uma jovem com um corpete entreaberto, que então desapareceu. Ninguém saiu pela única porta da casa ou falou com eles de alguma das janelas. Para ele isso não podia estar certo.
Em frente ao portão havia um galpão aberto com uma longa bancada de trabalho. Sobre essa mesa havia uma pilha de tamancos e, ao lado dela, uma grande variedade de ferramentas de entalhe, enfileiradas de forma organizada: plainas, cinzéis e facas de lâminas estranhamente curvadas. Ali também não se via nenhuma alma viva.
Mandred amarrou as rédeas em uma argola de ferro que havia em uma das paredes da casa. Observou longamente, então, as janelas que davam para o pátio.
— Eu sei que vocês estão nos observando. Se os cavalos não estiverem mais aqui quando eu voltar, então vou subir até aí e cortar as suas gargantas. — Apanhou a bolsa de couro presa ao cinto e tirou dela uma única moeda, que ergueu para o alto. — Mas, caso os cavalos estejam alimentados e tenham bebido água, deixarei esta peça de prata aqui.
Sem esperar por resposta, Mandred pôs o machado no ombro e saiu pelo portão.
— Você tem um plano? — perguntou Oleif.
— Claro. Não se preocupe. Eu sei exatamente o que precisamos fazer. Temos de seguir os sons de luta.
O filho franziu a testa.
— E tem mais algum outro?
Mandred fez um gesto aborrecido.
— Planos demais só dão dor de cabeça e forçam as pessoas a não fazerem mais nada. Um bom líder não fica de muita conversa; ele age.
Mandred iniciou um trote rápido. Mantinha-se bem perto das paredes das casas para ser um alvo mais difícil para os atiradores. O som das espadas agora estava bem próximo.
De repente, um guerreiro saiu cambaleando de uma casa. Trazia um grande escudo redondo afivelado ao braço, com um brasão com uma cabeça branca de touro. Nuramon surgiu na porta. O elfo apertava a mão contra o lado esquerdo do quadril. Sangue escuro brotava entre seus dedos.
Um soco de Mandred derrubou o guerreiro surpreso no chão, antes mesmo que ele pudesse levantar o escudo para se proteger.
— Bom ver vocês, filhos de humanos — grasnou Nuramon. Ele deixou a espada cair e recostou-se no batente da porta, esgotado. — Venham.
Ambos seguiram o elfo para a penumbra dentro da casa. Atravessaram uma cozinha destruída e pularam por cima de dois corpos que bloqueavam a porta para a sala de jantar. Ali todas as janelas também estavam vedadas e somente filetes estreitos de luz adentravam a sala. Farodin estava deitado sobre uma longa mesa de jantar que dominava o cômodo. Havia um jovem sacerdote, de cabelos vermelhos como chamas, de pé ao seu lado, curvado sobre ele.
— É melhor não se mexer, senhor — o rapaz tentou convencer o elfo em tom de súplica. — O ferimento vai abrir de novo. E você perdeu muito sangue.
Farodin afastou o sacerdote de Tjured para o lado.
— Só vou poder ficar deitado por aí quando estivermos fora da cidade e em segurança.
— Mas você vai... — começou o sacerdote, nervoso.
Nuramon o tranquilizou.
— Mais tarde vou cuidar dos ferimentos dele.
Farodin ergueu-se e voltou-se para o filho de humanos.
— Vocês demoraram. Onde Ollowain se enfiou?
Mandred desviou o olhar do elfo.
Farodin bufou com desprezo.
— Foi o que pensei.
Em poucas palavras, ele contou sobre o ataque ao templo e de como conseguiram fugir.
— E Guillaume? — perguntou Oleif quando Farodin terminou.
O elfo apontou para as janelas bloqueadas.
— Ali na praça do templo.
Mandred e o filho atravessaram a sala e espiaram cuidadosamente por uma fresta. Havia guerreiros do rei por todos os lados. Haviam empilhado madeira do andaime destruído ao redor do carvalho sagrado. De um dos galhos da árvore pendiam, de cabeça para baixo, dois cadáveres nus e profanados. Um homem velho, de baixa estatura, e... Guillaume. Seus corpos tinham sido esfolados com golpes de vara. Flechas de besta e cabos quebrados de lanças saíam de seus torsos.
Enojado, Mandred afastou-se da janela.
— Por que estão fazendo isso? Você disse que queriam levá-lo até seu rei.
— Depois de cair do telhado, Guillaume já não estava mais apresentável — retrucou Farodin friamente. Então apertou os lábios até se tornarem um traço fino e sem cor.
— A flecha que o atingiu certamente era para Farodin — disse Nuramon com voz inexpressiva. — Eu...
— Guillaume queria a morte — interrompeu Farodin furioso. — Você sabe disso. Ele queria sair e se entregar a esses assassinos!
— Para nos salvar — retorquiu Nuramon calmamente. — Não estou repreendendo você por nada. Mas, entre Emerelle e Cabezan, Guillaume já não via mais chance de viver. Restou-lhe escolher de que forma queria morrer. Quando os guerreiros ergueram seu cadáver do chão, foram tomados por fúria cega. Eles profanaram e penduraram o seu corpo.
— E agora virão nos buscar — disse Oleif, ainda de pé à janela.
Mandred olhou para fora e praguejou. O homem que derrubara diante da porta tinha recuperado a consciência. Ele correu até a praça e gritou apontando para a casa em que se escondiam.
— Maldito falatório sobre a moral! Antes eu teria simplesmente cortado o pescoço dele.
Farodin agarrou a espada, que jazia ao seu lado sobre a mesa.
— Eles teriam vindo nos buscar de qualquer maneira. — E voltando-se para o sacerdote que cuidara de suas feridas: — Obrigado, filho de humanos. Agora procure o seu irmão de ordem e se esconda. Não poderemos mais protegê-los. — Tentou levantar-se, mas sua perna ferida não parecia disposta a carregá-lo.
Mandred segurou o elfo pelos ombros para oferecer apoio.
— Não preciso de ajuda — murmurou Farodin.
Mandred o soltou. Em pé, o elfo vacilava, mas pelo menos... Estava em pé.
— Não faz sentido lutar aqui. Vamos tentar chegar até os cavalos. Se a ponte não estiver ocupada novamente, talvez consigamos escapar. — E fazendo um gesto para Oleif: — Ajude Nuramon. Ele é menos teimoso.
— Não saiam pela porta — disse repentinamente o sacerdote ruivo. — Eu... eu também queria agradecer a vocês. Segestus, meu irmão de ordem... Eu não preciso mais procurá-lo; ele já conseguiu fugir. Há um outro caminho. Sigam-me!
Mandred olhou para Farodin.
— Não temos mais nada a perder — decidiu o elfo. — Travem as portas. Isso vai detê-los um pouco. Mas que caminho é esse que o seu irmão de ordem tomou?
O sacerdote acendeu um candeeiro e os conduziu da cozinha até uma despensa. A sala estava toda repleta de ânforas de todas as formas e tamanhos. Do teto pendiam presuntos e linguiças defumadas.
O irmão da ordem prosseguiu. Mandred ficou um pouco para trás e escondeu duas grandes linguiças defumadas debaixo da roupa. Esse era o começo de uma fuga selvagem e só Luth sabia quando seria a próxima vez que ele comeria algo razoável novamente. Também teria preferido levar uma das ânforas de vinho. O deus Tjured devia ser realmente importante para seus sacerdotes poderem manter uma despensa tão bem recheada como aquela. Estranho, pensou Mandred, ele só ouviu falar de Tjured pela primeira vez duas semanas atrás. Mas isso certamente era ignorância sua...
O jovem sacerdote levou-os até um portão baixo, atrás do qual havia uma escada que descia para as profundezas. Dali foram parar em uma sala onde estavam armazenados imensos barris. Mandred mal acreditava no que via. Nunca pensou que veria barris na vida. Eles estavam enfileirados junto às paredes, de ambos os lados. Seguindo em frente, o porão caía na escuridão. Ali estava estocado um mar inteiro de vinho!
— Pelos seios de Naida, padre, o que vocês fazem com tanto vinho? Vocês tomam banho aí dentro? — Mandred caiu na risada.
— Aniscans é uma cidade de vinicultores. O templo sempre recebe vinho de presente. Nós o comercializamos. — Ele parou, olhou para trás e contou nos dedos em silêncio os barris pelos quais passaram. Então lhes mostrou mais um pedaço de caminho e os conduziu finalmente por um vão entre dois altos barris. Oculta pela escuridão, ali abriu-se uma passagem para um túnel baixo.
— Algumas pessoas dizem que sob Aniscans há uma segunda cidade escondida. São os grandes estoques subterrâneos dos vinicultores. Muitas das câmaras são ligadas umas às outras por túneis como este. Num dia chuvoso, quem conhece os caminhos aqui embaixo consegue chegar de uma ponta a outra da cidade com os pés secos. Mas aqui também é possível se perder desesperadamente...
— Pelo menos aqui embaixo ninguém morre de sede.
O sacerdote encarou Mandred com olhar de reprovação. Então abaixou-se e desapareceu no túnel. Mandred afundou a cabeça entre os ombros, mas ainda assim bateu-a no teto uma porção de vezes durante a travessia na escuridão. A luz fraca do candeeiro era quase totalmente encoberta pelos companheiros, que andavam na frente dele, obrigando-o a seguir tateando as paredes. Ali embaixo era abafado e um cheiro azedo pairava no ar. Logo Mandred teve a sensação de o caminho estar durando uma eternidade. Ele contava os passos para se distrair. No 33 eles chegaram a um segundo estoque cheio de barris.
O sacerdote levou-os até uma escada que terminava num alçapão. Foi por aí que deixaram o túnel, chegando a um pátio ensolarado.
— Aonde vocês querem ir agora? — perguntou.
Mandred encarou a luz e respirou fundo.
— Nossos cavalos estão em um pátio interno. É uma casa grande junto a uma pequena praça, cujas janelas que dão para ela estão muradas — esclareceu Oleif. — Você pode nos dizer como chegamos até lá?
O sacerdote corou.
— Uma casa de janelas muradas? — ele pigarreou, constrangido.
— Há algo de errado com ela? — perguntou Mandred. — Eu também me perguntei por que transformaram a casa numa fortaleza.
O sacerdote pigarreou novamente.
— É que... é por causa da taverna do outro lado da praça. O taverneiro criou um ambiente especial no segundo andar. Quem quiser beber lá precisa pagar uma moeda de cobre a mais por cada caneca de vinho.
— E?
O sacerdote deu as costas de tão constrangido.
— Da sala da taverna era possível ver bem as janelas do outro lado da praça.
Mandred perdia aos poucos a paciência.
— E o que tinha lá para ver?
— Ela é... é uma casa aonde vão os homens solitários. Da taverna eles podiam ver o que se fazia nos quartos. Por isso o proprietário mandou murar as janelas.
Nuramon riu alto e logo apertou a mão contra o ferimento no quadril.
— Um bordel! Você guardou os cavalos em um bordel, Mandred?
— No pátio de um bordel — retorquiu Oleif, que também tinha ficado vermelho. — No pátio.
— Eu aposto que é o único bordel da cidade — completou Farodin. — E você o encontrou em cheio.
Mandred não entendia o que havia de tão engraçado nisso.
— Eu não sei de nada. No pátio há uma oficina de um artesão honesto, isso foi tudo o que vi.
— É claro — respondeu Farodin com um riso irônico. — É claro.
Mandred encarou surpreso os dois elfos. As lutas e a morte medonha de Guillaume — tudo isso provavelmente foi demais para eles. Não conseguia explicar de outra forma essa explosão de gracejos.
O rapaz os conduziu em caminhos furtivos por vielas estreitas e pátios internos. Várias vezes ouviram os gritos dos soldados do rei bem próximos, mas não foram descobertos. Mandred tinha a sensação de que já deviam ter chegado há muito tempo ao bordel, quando o sacerdote de repente parou e fez um sinal para que ficassem em silêncio.
— O que está acontecendo, amigo rezador? — murmurou o jarl, impelindo-se para a frente.
Pôs-se a ouvir cuidadosamente os sons da praça. Haviam chegado a seu destino, mas diante da taverna na frente do bordel havia sete guerreiros. Uma magra funcionária da taverna trazia-lhes canecas de cerveja e pratos de madeira cheios de queijo e pão.
— Luth ama tecer desenhos complicados com os fios do destino — gemeu Mandred. E virando-se para seus companheiros: — Vou distrair os soldados. Tratem de chegar até os cavalos. E quanto a você, padre? Quer fugir com a gente?
O rapaz pensou um pouco, e então sacudiu a cabeça.
— Tenho amigos na cidade. Eles me esconderão até essa corja ir embora.
— Então você não deve ser visto conosco. Agradeço a sua ajuda. Mas agora é melhor que vá embora.
— O que está planejando, pai? Você não está querendo lutar sozinho contra sete...
Mandred acariciou a lâmina do seu machado.
— Somos dois. Trate de chegar o mais rápido possível até os cavalos com Nuramon e Farodin. Quando já tiverem chegado até os limites da cidade, talvez Ollowain os ajude caso encontrem dificuldades.
— E você? — perguntou Nuramon. — Nós não podemos simplesmente deixá-lo para trás.
Mandred fez um gesto de desdém.
— Não se preocupem comigo. Vou sair daqui de algum jeito. Você sabe, nem mesmo o devanthar foi capaz de me matar.
— Você não devia...
Mandred não ouviu mais as objeções de seus companheiros. A qualquer momento, uma das tropas de busca podia aparecer por trás deles na viela. O tempo para as palavras já se esgotara. Ele agarrou seu machado mais forte e saiu para a praça, como se estivesse passeando.
— Ei, caras. Estou feliz de ver que aqui tem mais alguma coisa para beber além de suco de uva.
Os soldados levantaram os olhos admirados.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou um guerreiro de cabelo desgrenhado e barba por fazer.
— Sou um peregrino a caminho do templo de Tjured — esclareceu Mandred. — Dizem que lá há um curador que faz verdadeiros milagres. — Ele se alongou: — Meus dedos estão ficando lentamente curvos por causa da artrite.
— O sacerdote Guillaume morreu hoje de manhã tentando curar a si mesmo. — O soldado sorriu irônico e hostil: — Agora mesmo estamos no banquete do seu funeral.
Mandred já quase chegara até os soldados.
— Então vou beber à saúde dele. O homem...
— Isso no machado dele é sangue! — gritou um guerreiro.
Mandred correu e atacou com o machado o homem que estava mais à frente, enquanto cravou o ombro contra o peito de outro, fazendo-o cair. Uma lâmina de espada acertou ruidosamente sua camisa de malha de ferro, sem atravessá-la. Mandred deu uma volta, bloqueou um ataque com o machado e acertou um soco no rosto de outro guerreiro. Um machado voador errou por pouco a sua cabeça. O jarl abaixou-se e avançou. Armadura nenhuma ofereceria resistência à mortal lâmina dupla de seu machado. Ceifou um guerreiro como um lavrador faz com o milho, e foi quando um grito de alerta o cercou.
De uma das vielas laterais correram até a praça mais guerreiros com escudos de touros. Oleif se colocou no caminho, enquanto Farodin e Nuramon tentavam fugir cambaleantes até o pátio do bordel.
Mandred desvencilhou-se dos guerreiros restantes e correu para ajudar o filho. Oleif movia-se com a graça de um dançarino. Era um estilo de luta que parecia afeminado, pensou Mandred, mas que não deixava nenhum dos guerreiros interromper o sinuoso arco que sua longa espada desenhava no ar.
Lutando lado a lado, pai e filho foram lentamente recuando para a entrada do pátio. Quando estavam sob o portão e não podiam mais ser atacados pelos lados ou pelas costas, os guerreiros do rei recuaram.
Mandred e Oleif fecharam o pesado portão e o bloquearam com uma barra transversal. Respirando com dificuldade, o jarl deixou-se cair no chão. Sua mão esquerda brincava com uma de suas tranças.
— Eu esqueci de contar — murmurou, cansado.
O filho sorriu de soslaio.
— Eu diria que foram pelo menos três. Com os dois na ponte, cinco no total. Se você quiser continuar fazendo uma trança para cada morto, logo vai precisar arrumar mais cabelo.
Mandred abanou a cabeça, mal-humorado.
— Tranças mais finas. Essa é uma solução — disse, ofegante, ao erguer-se.
Nuramon e Farodin estavam perto dos cavalos. Os elfos não estavam em condições de ajudar a lutar para livrar o caminho através da cidade.
Um rapaz careca com cicatrizes no rosto surgiu na porta para o pátio. Poucas vezes Mandred encontrara um homem assim tão feio. Seu rosto parecia ter sido pisoteado por uma manada de bois.
— Os cavalos beberam água e estão alimentados, guerreiro. Ficaria agradecido se você deixasse a minha casa agora!
— Há uma segunda saída?
— Claro, mas eu não vou mostrar nenhuma. Você vai embora pelo mesmo portão que entrou. Não dou abrigo a fugitivos da guarda do rei.
Oleif deu um passo ameaçador na direção da porta, mas Mandred agarrou-o pelo braço e puxou-o de volta.
— Ele tem razão. Eu faria a mesma coisa no lugar dele.
O jarl ergueu a cabeça e olhou para as janelas. Duas jovens observavam curiosas o que acontecia no pátio.
— Aqui é mesmo um bordel? — perguntou Mandred.
— Sim — retrucou o careca. — Mas não acho que lhe resta muito tempo para se engraçar com alguma das minhas garotas, guerreiro.
Mandred soltou a bolsa de dinheiro do cinto e pesou-a na mão. Então jogou-a para o homem de cara marcada.
— Pode ser que a sua casa sofra alguns danos na próxima hora. Mas talvez isso também possa ser compensado... Você me abriria a porta se eu pedisse?
— Vocês podem contar com o meu apoio, mas só para sumir daqui.
— Então fique a postos perto do portão.
Mandred sorriu para o filho:
— Você tinha razão. Deixo mesmo todo o meu dinheiro em bordéis.
— Desculpe...
— Esqueça isso. Em vez disso, me ajude! —
Eles foram até o galpão e Mandred derrubou os tamancos da bancada com o braço. O tampo da mesa era uma tábua de carvalho de 8 centímetros de espessura. Mandred afagou a madeira manchada.
— As regras para fazer um cerco são claras, garoto. Há os que ficam atrás dos muros. Ficam sentados, esperam os acontecimentos e se defendem. E há os que ficam diante dos muros. Eles estão sempre em vantagem, pois decidem quando tudo acontece. Acho que precisamos inverter um pouco essas regras.
Oleif encarou-o sem entender.
Mandred enfiou algumas das facas de entalhe no cinto.
— Acho que até agora não disse que você se saiu muito bem, mesmo tendo sido educado por aquele Ollowain.
— Você acha que vamos morrer aqui?
— Um verdadeiro guerreiro não deve morrer na própria cama.
Ele hesitou. Ainda tinha tanto para dizer a seu filho... Mas o tempo urgia. De repente, ficou com a boca seca.
— Eu... eu queria que nunca tivéssemos pisado nesta maldita cidade. E queria ter passado um verão com você em Firnstayn. É só uma pequena aldeia... Mas, à sua maneira, ela é mais linda do que tudo o que vi na Terra dos Albos. — Ele soluçou. — Aposto que nunca o ensinaram a pescar. No fim do verão, o fiorde fica cheio de salmões... Chega de tagarelice! Não vamos dar mais tempo para que eles lá fora se aglomerem ainda mais. Talvez agora ainda consigamos atravessar. Eles estão espalhados por toda a cidade para procurar por nós. — Ele arrastou a bancada. — Muito pesada, mas que droga. — Olhou rapidamente para os dois elfos. — Eles não conseguem mais nos ajudar nas lutas. E, com dois cavaleiros na sela, os cavalos são lentos demais. — Hesitou: — Vamos ficar aqui... Vou bater nas patas traseiras da minha égua assim que estivermos lá fora. Se ela atravessar, Nuramon vai ter de se esforçar para permanecer na sela, sem fazer nenhuma loucura heroica. Desse jeito talvez ele consiga sair da cidade.
Oleif respirou fundo. Então consentiu com a cabeça.
— Vou ficar com você. Que os deuses os acompanhem em sua busca por Noroelle. A vida deles tem um objetivo... Eu sou alguém que sequer sabe a que mundo pertence.
Mandred enlaçou os braços ao redor do filho.
— Estou orgulhoso de ter lutado ao seu lado, Alfadas — disse, com a voz sufocada pela emoção. Era a primeira vez que o chamava por seu nome élfico. Ficaram ali imóveis por alguns instantes, dominados pelos sentimentos, e então saíram em direção aos cavalos.
Nuramon encarou-os, abatido.
— Vocês fazem ideia de como vamos sair daqui?
— Claro! — Mandred esperava que seu sorriso não parecesse forçado demais. — Nós vamos surpreendê-los, rachar os seus crânios e então fugir daqui a cavalo com toda a calma do mundo. Na verdade, eu acharia meio incômodo ter de cavalgar em dois na mesma sela.
Farodin riu baixo.
— Irresistivelmente simples. Um legítimo plano de Mandred.
— Não é? — O jarl foi até Nuramon e ajudou-o a subir na sela. — Tratem de ficar nos cavalos, senão só encontrarão dificuldades.
Quando ambos os elfos se sentaram, Mandred e Alfadas voltaram ao galpão para erguer a bancada e carregá-la diante de si como um grande escudo.
— Tenho um último pedido a você, meu filho.
O rosto de Alfadas estava deformado pelo esforço.
— O quê?
— Se sairmos vivos daqui, por favor, não use mais esse perfume. Isso é coisa de mulher e de elfo. E também afasta Norgrimm do seu lado. Você não deveria abrir mão da graça do deus da guerra. — Mandred esticou a cabeça para a frente. — Abra o portão, cara de cicatriz!
O dono do bordel arrancou a barra transversal e empurrou as duas folhas do portão.
— Por Freya! — gritou Mandred com toda a força enquanto avançavam.
Tiros de besta atingiram a tábua da mesa como uma chuva de granizo. Colados na prancha de madeira, os dois correram às cegas até a praça, até chegarem a um grupo de guerreiros. A pesada bancada derrubou cinco homens no chão.
Mandred olhou ao redor de si e estremeceu até a medula. Em todas as janelas ao redor deles havia besteiros, que recarregavam suas armas com toda a pressa. Nas vielas que levavam à pequena praça havia barricadas e soldados de guarda. A tropa de guerreiros sobre a qual tinham avançado recuou, apressada, para sair da linha de tiro.
De repente, ouviram o som de cascos de cavalo. Um garanhão branco pulou por cima de uma das barricadas. Uma cavaleira com os cabelos ao vento puxou a rédea fazendo o cavalo dar a volta, e apontou o seu arco. Com um movimento ágil, atirou a flecha da corda e já puxara outra da aljava. Com um grito, um dos atiradores despencou de uma das janelas da taverna ali defronte.
Agora um tropel soava de uma outra viela. Ollowain saltou por uma barricada golpeando um lanceiro. Levava consigo o cavalo de Nuramon pelas rédeas.
— Vai, filho de humanos, monte logo! Você pode ter me ensinado uma lição de honra, mas não é por isso que vou ficar muito tempo esperando.
Mandred agarrou a sela e puxou-se para cima. Viu Yilvina apear perto de uma terceira barricada e avançar como louca sobre os soldados, com suas duas espadas curtas.
De repente o ar se encheu de flechas de besta. Os cavalos deram relinchos estridentes. Algo atingiu Mandred nas costas, fazendo-o lançar-se para a frente.
Nomja continuava atirando quando uma flecha acertou seu cavalo na cabeça. Um mar de sangue esguichou sobre a sua pele branca. Como se atingido por um raio, o enorme animal caiu de joelhos. O solavanco jogou Nomja da sela, que tentou desviar dos cascos pisoteantes dos outros cavalos.
Obstinada, a elfa ergueu seu arco e atirou de volta.
— Vá até Yilvina! — gritou Ollowain. — Ela deixou o caminho livre para nós!
Mandred conduziu seu cavalo até Nomja e estendeu-lhe a mão.
— Venha!
— Só mais um! — Logo a flecha partiu do arco. Ela deu meia-volta e, de repente, sobressaltou-se. Mandred a agarrou quando ela ameaçou cair de bruços e puxou-a para cima do cavalo. Apesar de sua altura, ela parecia não pesar mais que uma criança.
Mandred arrancou com o cavalo e acertou-o com as esporas. Deram um largo salto sobre a barricada e saíram correndo pela viela, num ritmo de quebrar o pescoço. Logo chegaram à ponte. Em nenhum lugar havia soldados bloqueando o seu caminho; eles pareciam estar todos aglomerados na praça junto ao bordel.
Só quando estavam na ponte Mandred ousou olhar para trás. Seu filho, Farodin, Nuramon, Ollowain e Yilvina, todos conseguiram! Muitas flechas tinham atingido sua tropa, todos estavam feridos, mas escaparam!
Uma alegria indescritível tomou conta de Mandred. Ele tinha tanta certeza de que morreria... Ergueu triunfante o machado sobre a cabeça e chacoalhou-o:
— Vitória! Por Norgrimm! Nós escapamos deles... Vitória!
Ele agarrou Nomja, que ainda estava deitada de atravessado sobre a sela, para ajudá-la a se sentar. A cabeça dela caiu sobre o ombro.
— Nomja?
Os olhos verdes da elfa estavam arregalados, e encaravam o céu sem foco. Só então Mandred viu o talho do tamanho de uma avelã em sua têmpora.