A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 6 de 34

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A Caçada dos Elfos

O despertar

 

Surpreendente este calor, Mandred pensou assim que acordou. Ouvia o gorjeio dos pássaros, mas certamente não adentrara o átrio dos heróis. Lá não havia pássaros... E jamais haveria o forte odor de hidromel que pairava no ar, muito menos o aroma doce da resinosa madeira de pinheiro que queimava na fogueira.

Só precisaria olhar para cima para saber onde estava. Mas Mandred adiava esse momento. Estava deitado sobre algo macio. Nada doía. Suas mãos e pés formigavam de leve. Não queria saber onde estava. Queria apenas aproveitar o momento, já que se sentia tão bem. Então assim era estar morto.

— Sei que está acordado — a voz soava como se tivesse dificuldade de formar as palavras.

Mandred levantou o olhar. Estava deitado sob uma árvore, cujos galhos se arqueavam sobre ele como uma cúpula. Um estranho estava de joelhos ao seu lado e apalpava o seu corpo com mãos fortes. Os galhos chegavam até bem perto da cabeça dele, e seu rosto permanecia oculto sob uma dança de luz e sombra.

Mandred piscou para poder ver melhor. Havia algo de errado. As sombras pareciam girar em torno do rosto do estranho como se quisessem escondê-lo intencionalmente.

— Onde estou?

— Em segurança — respondeu sucinto o estranho.

Mandred queria se levantar. Então percebeu que suas mãos e pés estavam amarrados ao solo. Conseguia apenas erguer a cabeça.

— O que você pretende fazer comigo? Por que estou preso?

Dois olhos lampejaram brevemente entre as sombras. Eram cor de âmbar-claro, como o que às vezes encontravam na costa do fiorde após fortes tempestades.

— Quando Atta Aikhjarto tiver curado você, poderá ir. Há algum tempo já não confio muito na sua sociedade, então achei prudente mantê-lo assim. Foi ele quem insistiu que cuidássemos de suas feridas... — O estranho fazia um ruído estranho, uma espécie de estalo. — O seu idioma dá um nó na minha língua. Ele não tem qualquer... beleza.

Mandred olhou em volta. Não havia ninguém além do estranho, oculto à meia-luz de forma sinistra. Folhas caíam dos galhos mais baixos da árvore imponente, como num dia de outono sem vento, e mergulhavam suavemente e balançantes até chão.

O guerreiro olhou para cima, para a copa da árvore. Estava deitado sob um carvalho. Sua folhagem brilhava num forte tom de verde-primavera, e seu cheiro era de terra boa e escura, mas também de decomposição; de carne estragada.

Um raio de luz dourado atravessou a copa de folhas e iluminou sua mão esquerda. Agora podia ver o que o mantinha preso: eram as raízes do carvalho! Elas enlaçavam o seu pulso, nodosas e grossas como um dedo. E os seus dedos estavam cobertos por uma delicada e branca teia de raízes. Era dali que vinha aquele cheiro podre.

O guerreiro tentou se erguer, forçando contra as raízes que o prendiam, mas qualquer resistência era em vão. Elas o detinham com mais força que correntes de ferro.

— O que está acontecendo comigo?

— Atta Aikhjarto se ofereceu para curá-lo. Sua morte era certa quando atravessou o portal. Ele ordenou que eu o trouxesse até aqui. — O estranho apontou para cima, para os galhos que se destacavam ao alto. — Ele está pagando um alto preço para acabar com a sua intoxicação pelo gelo e para devolver à sua carne a cor das pétalas de rosa.

— Por Luth, onde estou?

O estranho fez um ruído de reprovação, que de longe lembrava uma risada.

— Você está onde os seus deuses já não têm mais poderes. Você provavelmente os irritou, porque normalmente eles protegem vocês, filhos dos homens, de atravessar esses portais.

— Portais?

— O círculo de pedras. Nós ouvimos como você rezou para os seus deuses. — Novamente, o estranho emitiu o ruído de reprovação. — Você agora está na Terra dos Albos, Mandred, com os filhos dos albos. Aqui estamos muito longe dos seus deuses.

O guerreiro se assustou. Aqueles que atravessavam os portais para o Outro Mundo eram amaldiçoados! Já tinha ouvido histórias suficientes sobre a busca por homens e mulheres no reino dos filhos dos albos — e nenhuma delas teve final feliz. Mas... quando alguém corajosamente os cruzava, às vezes podia pedir favores. Será que eles sabiam sobre o homem-javali?

— Por que o Atta Aik... Atta Ajek... o carvalho está me ajudando?

O estranho ficou um tempo calado. Mandred queria conseguir ver o seu rosto. Aquilo que o protegia de seu olhar de forma tão persistente devia ser um feitiço.

— Atta Aikhjarto deve achar que você é importante, guerreiro. As raízes de algumas árvores muito velhas são tão profundas que estão presas ao seu mundo, humano. O que Atta Aikhjarto sabe sobre você deve ter tanto significado para ele que está sacrificando uma boa parte de suas forças por você. Ele está absorvendo o seu veneno e lhe oferecendo em troca a sua seiva da vida. — O estranho apontou para as folhas que caíam. — Ele está sofrendo no seu lugar, homem. E de agora em diante você tem a força de um carvalho no seu sangue. Você já não é mais como os outros da sua espécie, e vai...

— Chega! — Uma voz aguda interrompeu a fala do estranho. Os galhos da árvore se abriram e um centauro se aproximou do leito de Mandred.

O guerreiro observou a criatura, perplexo. Nunca ouvira nada sobre aquilo antes. O “homem-cavalo” tinha o tronco musculoso de um homem, que crescia do corpo de um cavalo! Seu rosto era emoldurado por uma barba torcida em cachos. O cabelo era cortado curto e um cordão de ouro descansava sobre sua testa. Trazia nas costas uma aljava cheia de flechas, atravessada entre os ombros, e na mão esquerda tinha um arco curto de caça. Poderia se passar por um imponente guerreiro, não fosse o corpo castanho de cavalo.

O centauro fez uma rápida reverência a Mandred:

— Meu nome é Aigilaos. A soberana da Terra dos Albos deseja vê-lo, e concedeu-me a honra de conduzi-lo até a corte real — disse com voz grave e melodiosa.

Mandred sentiu a força de ferro das raízes se afrouxar, até libertá-lo totalmente. Mas ele só tinha olhos para o centauro que, não sem motivo, recordava-lhe o homem-javali. Ele também era metade homem e metade animal. Como seria então a aparência da soberana a quem esse homem-cavalo obedecia?

Mandred apalpou a coxa. A ferida profunda se fechara sem deixar sequer uma cicatriz. Experimentou estender as pernas. Nenhum formigamento desagradável, nada de dor! Parecia totalmente curado, como se nunca tivesse sido mutilado pela fera e pelo frio.

Levantou-se cuidadosamente, ainda sem confiar na força de suas pernas. Através da sola de suas botas podia sentir o macio chão do bosque. Isso era mágica! Uma mágica poderosa que nenhuma bruxa das terras do fiorde seria capaz de fazer. Seus pés e pernas estiveram mortos. Agora a sensibilidade retornara a eles.

O guerreiro aproximou-se do imenso tronco do carvalho. Nem cinco homens conseguiriam juntos, de braços esticados, abraçar a árvore. Devia ter séculos de idade. Mandred ajoelhou-se respeitosamente diante dele e tocou com a testa a sua casca irregular:

— Agradeço a você, árvore. Devo-lhe a minha vida — pigarreou, então, constrangido. Como se agradece a uma árvore? A uma árvore com poderes mágicos, a qual o estranho sem face tratava com tanto respeito, como se fosse um rei. — Eu... Eu retornarei e darei uma festa em sua honra. Uma festa como as que fazemos nas terras do fiorde. Eu... — Ele abriu os braços. Era lamentável agradecer àquele que salvara sua vida assim, com o nada como promessa. Precisava ser algo sólido...

Mandred rasgou uma tira de tecido de sua calça e amarrou-a em um dos galhos mais baixos:

— Se houver algo que possa fazer por você, envie-me um mensageiro e peça-lhe que me entregue este pedaço de tecido. Eu juro pelo meu sangue impregnado nele que, de hoje em diante, o meu machado se colocará entre você e todos os seus inimigos.

Um ruído fez Mandred erguer os olhos. Uma bolota, fruto do carvalho, soltou-se da copa da árvore, tocou o seu ombro e caiu sobre as folhas secas.

— Fique com ela — disse o estranho em voz baixa. — Atta Aikhjarto raramente dá presentes. Ele aceitou a sua jura. Guarde bem a bolota. Ela pode ser um grande tesouro.

— Um tesouro que todos os anos ganha milhares de irmãos, que crescem nos galhos de Atta Aikhjarto — zombou o centauro. — Tesouros com os quais legiões de esquilos e ratos enchem suas barrigas. Você foi realmente presenteado com muita riqueza, filho de humanos. Venha agora, ou vai deixar a nossa soberana esperando?

Mandred examinou desconfiado o centauro e curvou-se para apanhar a bolota. Aigilaos tinha algo de suspeito.

— Tenho medo de não conseguir acompanhá-lo.

Dentes muito brancos reluziram no meio da barba espessa. Aigilaos sorriu largamente.

— Isso não será necessário, filho de humanos. Suba nas minhas costas e segure com força a tira de couro da minha aljava. No quesito força, eu não perderia para um cavalo de guerra do seu mundo, e aposto minha cauda que venceria uma corrida contra qualquer equino que encontrasse. Ao mesmo tempo, meu trote é tão leve que nenhum capim se dobra sob meus cascos. Eu sou Aigilaos, o mais rápido dos centauros, enaltecido por...

— ... uma língua ainda mais rápida — caçoou o estranho. — Dizem que os centauros têm a língua solta. Ela é tão rápida que às vezes ultrapassa até a verdade.

— E você, Xern, dizem ser tão rabugento que só as árvores o aguentam — retrucou Aigilaos, rindo. — E isso provavelmente só é assim porque elas não conseguem sair correndo de você.

As folhas do grande carvalho se remexeram, embora Mandred não tivesse notado nem uma brisa. Folhas murchas caíram como neve de primavera.

O centauro olhou para cima, para o vigoroso carvalho. O sorriso desaparecera de sua face.

— Com você eu não brigo, Atta Aikhjarto.

Uma corneta soou ao longe. O centauro de repente pareceu aliviado.

— As cornetas da Terra dos Elfos chamam. Devo levá-lo à corte da rainha, filho de humanos.

Xern saudou Mandred com a cabeça. O feitiço que escondia seu semblante desapareceu por um momento. Ele tinha o rosto estreito e belo, exceto pelos grandes chifres que brotavam de seus cabelos grossos. O guerreiro ficou sem ar. Recuou assustado. Então ali só havia homens-animais?

De repente todos os fatos se juntaram num quadro nítido diante de Mandred. Era dali que viera o homem-javali! Ele o poupara durante a caçada. Não foi por acaso o único a se livrar de ser morto por ele. A perseguição... Teria sido parte de um plano traiçoeiro? Será que tinha sido levado até o círculo de pedras? Talvez tenha sido presa daquela fera, fazendo justamente o que ela queria. Ele entrou no círculo de pedras...

O centauro bateu, inquieto, os cascos no chão.

— Venha, Mandred!

O guerreiro agarrou então o cinto da aljava e lançou-se sobre as costas do centauro. Ele encararia o que o esperava! Afinal, não era nenhum covarde. Essa misteriosa soberana podia fazer soar mil cornetas que ainda assim ele não se curvaria diante dela. Não, ele a encararia de cabeça erguida e cheio de orgulho, e exigiria uma indenização pela desgraça que a sua criatura bizarra causara nas terras do fiorde.

Aigilaos afastou com suas fortes mãos a cortina protetora de galhos e saiu para uma campina pedregosa. Mandred olhou em volta de si, admirado. Ali reinava a primavera e o céu parecia muito mais amplo do que no fiorde! Mas, então, como uma bolota madura podia ter caído da árvore?

O centauro iniciou um galope veloz. As mãos de Mandred se agarravam fortemente à aljava. Aigilaos não mentira. Corria sobre as colinas rápido como o vento. Passou pelas ruínas de uma enorme torre. Atrás dela se erguia um monte coroado por um círculo de pedras.

Mandred nunca fora um bom cavaleiro. Tinha cãibras nos músculos, de tão forte que pressionava as pernas contra os flancos equinos da criatura. Aigilaos ria. Divertia-se às suas custas! Mandred, é claro, jurou para si mesmo, em silêncio: jamais pediria ao centauro que galopasse mais devagar.

Atravessaram um ralo bosque de bétulas. O ar estava repleto de sementes douradas. Todas as árvores cresceram havia pouco e seus troncos brilhavam como marfim. Nenhum deles tinha a casca caindo aos pedaços as árvores que conhecia nas terras do fiorde. Rosas selvagens subiam por rochas erráticas solitárias. Era quase como se na mata reinasse uma ordem estranha e selvagem. Pois quem desperdiçaria o seu tempo para cuidar de um pedaço de floresta que não produzia nenhuma colheita? Certamente não um ser como Aigilaos!

O caminho subia continuamente e logo tornava-se pouco mais que uma estreita trilha selvagem. As bétulas se alternavam com faias de copas tão espessas que a luz mal conseguia atravessá-las. Para Mandred, os troncos altos e esguios se pareciam com colunas cinzentas. Tudo estava estranhamente calmo. Ouviam-se somente as batidas dos cascos, abafadas pelo grosso tapete de folhas. De vez em quando, Mandred notava nas copas ninhos esquisitos, que pareciam grandes sacos de linho branco. Luzes brilhavam em alguns desses ninhos e o guerreiro sentia-se observado. Havia algo lá em cima que os acompanhava com seu olhar curioso.

Aigilaos ainda voava em seu galope vertiginoso. Cavalgaram uma hora ou até mais pelo bosque silencioso, até finalmente subirem por um largo caminho. O centauro sequer suava.

O bosque então tornou-se mais ralo. Grossas faixas de cascalho cinzento e coberto de musgo cortavam o chão escuro. Aigilaos diminuiu o passo. Olhava atento em torno de si.

Mandred avistou outro círculo de pedras, meio escondido entre as árvores. As pedras erguidas estavam cobertas de heras. Uma imensa árvore estava caída, atravessando o círculo. O lugar parecia estar abandonado há muito tempo.

O guerreiro sentiu os cabelos de sua nuca se arrepiarem. Ali, o ar era um pouco mais fresco. Oprimia-lhe a sensação de que algo estava à espreita um pouco fora de seu campo de visão, algo estranho até para o centauro. Por que ergueram este círculo de pedras? O que teria acontecido naquele local?

O caminho os levava ao topo de um rochedo. A vista sobre as terras que os cercavam era de tirar o fôlego. Logo diante deles havia um amplo desfiladeiro que Naida, a amazona das nuvens, parecia um dia ter criado ao rachar o chão pedregoso com um raio violento. Um estreito caminho esculpido na pedra levava a uma ponte que formava um acentuado arco sobre o abismo.

Do outro lado do desfiladeiro havia suaves colinas que, na direção do horizonte, iam se transformando em montanhas cinzentas. Naquela margem do rochedo desaguava para dentro do abismo uma porção de pequenos riachos espumantes.

— Shalyn Falah, a ponte branca — disse Aigilaos respeitosamente. — Dizem que foi feita a partir do dedinho da gigante Dalagira. Quem a cruza adentra o coração da Terra dos Albos. Já se passou muito tempo desde que um filho de humanos teve a oportunidade de ver este lugar.

O centauro se aproximou da descida para o desfiladeiro. A água espumante molhava o chão de cascalho liso. Começou a descer cuidadosamente, tateando com os cascos e praguejando em uma língua que Mandred não compreendia.

Ao chegarem a uma ampla borda de pedra, Aigilaos pediu a Mandred para descer. Estavam diante da ponte. Tinha apenas sessenta centímetros de largura e as bordas eram levemente curvadas para fora, para que os respingos de água pudessem escoar em vez de se acumular em poças. Não havia corrimão.

— Uma maravilhosa construção, de fato — murmurou Aigilaos, mal-humorado. — Os construtores só não pensaram que por acaso pudesse haver criaturas com ferraduras nos cascos. É melhor para você que atravesse a ponte com seus próprios pés, Mandred. É esperado do outro lado. Vou por um desvio e só devo chegar ao castelo à noite, mas a soberana não deve esperar tanto — sorriu. — Espero que não tenha vertigem.

Ao observar a ponte lisa como um espelho, Mandred sentiu uma fraqueza. Mas não demonstraria medo diante do centauro!

— É claro que não tenho vertigem. Sou um guerreiro do fiorde. Sou capaz de escalar como uma cabra.

— Pelo menos não é peludo como uma cabra — Aigilaos sorriu, insolente. — Nos vemos na corte da soberana. — O centauro deu-lhe as costas e logo galgou a íngreme trilha na borda do desfiladeiro.

Mandred fitou a ponte. Nas lendas da terra das fadas, os guerreiros mortais sempre precisavam passar por provações. Seria essa a sua prova? Teria sido enganado pelo centauro? Não fazia sentido quebrar a cabeça com isso! Pisou na ponte, decidido. Surpreendeu-se que suas botas de inverno lhe davam bom apoio. Seguiu cautelosamente, pé ante pé. Os respingos d’água escorriam pelo seu rosto e o vento agarrava sua barba com mãos invisíveis. Logo estava em pé, bem no meio do abismo. A água espirrava sobre a ponte em nuvens cada vez mais densas. Era assim que os pássaros deviam se sentir nas alturas, entre o céu e a terra.

Curioso, examinava o chão de pedra. Não descobriu junções em nenhum lugar. Realmente parecia que a ponte havia sido recortada de uma única rocha. Ou teria mesmo sido feita do dedinho de uma gigante, como afirmara Aigilaos? Era lisa como marfim polido. Mandred afastou esse pensamento. Se uma gigante como essa caísse, sepultaria sob si toda a terra do fiorde. Essa história só podia ser uma lenda.

Quanto mais longe ia, mais seguro se sentia. Finalmente pisou do outro lado. Olhou para o abismo. As profundezas pareciam ter algo que o atraía e despertavam nele o desejo de pular; de se entregar à liberdade da queda. Quanto mais olhava, mais forte ficava o desejo de ceder a esse chamado.

— Mandred? — Do véu de vapor saiu um vulto alto e esguio. Estava todo vestido de branco. Sua mão esquerda repousava sobre o cabo da espada presa ao seu cinto. Por reflexo, a mão direita de Mandred buscou o lugar no cinto que abrigava o machado. Foi nesse momento que soube que estava desarmado.

Seu acompanhante percebeu o movimento.

— Não sou seu inimigo, filho de humanos. — Afastou o cabelo do rosto com um movimento displicente. — Meu nome é Ollowain. Sou o guardião da Shalyn Falah. Minha rainha me incumbiu de acompanhá-lo neste último trecho até o castelo.

Mandred examinou o homem. Ele se movimentava com a destreza de um gato. Não parecia muito forte, mas uma aura de autoconfiança o cercava, como se fosse o herói de muitas batalhas. Seu rosto era estreito e pálido. Orelhas pontudas espetavam o cabelo louro-claro, desgrenhado pelo respingar da água. Os olhos de Ollowain não revelavam o que estava pensando. Seu rosto era como uma máscara.

Mandred pensou nas histórias que contavam nas longas noites de inverno. Não havia dúvida: aquele deveria ser um elfo! E ele também sabia o nome de Mandred...

— Por que todos me conhecem nesta terra? — perguntou, desconfiado.

— As notícias correm rápido na Terra dos Albos, filho de humanos. Nossa rainha não deixa passar nada que acontece nos seus domínios. Ela envia a seus filhos mensageiros que viajam com o vento. Mas agora venha. Temos uma longa viagem diante de nós, e não permitirei que deixe minha soberana esperando. Siga-me! — O elfo virou-se sobre o patamar e pisou sobre a pequena ribanceira que havia depois da ponte.

Mandred seguia o elfo com os olhos, espantado. Mas o que era aquilo? Não é assim que se trata uma visita, pensou ele, irritado. E irritava-se ainda mais com o fato de que Ollowain aparentemente não duvidava em nenhum momento de que era acompanhado. Mal-humorado, seguia atrás do elfo pela ribanceira. As paredes vermelhas de pedra eram transpassadas por veios cinza-azulados e negros. Mas Mandred não tinha olhos para a beleza das cores. Continuava pensando que seguia o elfo como um cão segue o seu dono.

Se fosse tratado dessa maneira por um habitante do fiorde, o teria abatido sem hesitar. Em sua terra natal ninguém ousaria tratá-lo de forma tão desrespeitosa. Estava fazendo algo de errado? Talvez fosse falha sua? O elfo certamente era suscetível a elogios. Todo guerreiro gostava de falar sobre suas armas.

— Você leva uma espada magnífica, Ollowain.

O elfo não respondeu.

— Eu prefiro lutar com machados.

Silêncio.

Mandred cerrou os punhos. Mas que cara metido! Era o guardião de uma ponte e serviçal da rainha. De que isso valia? Para um guerreiro autêntico, o elfo era franzino demais.

— Na minha terra, só os homens mais fracos carregam espadas. O rei das lutas é o machado. Para lutar com um machado é preciso ter coragem, força e habilidade. Somente poucos guerreiros têm essas três virtudes na mesma medida.

O elfo continuava sem esboçar nenhuma reação. O que mais teria de dizer para tirar esse lacaio do sério?

As íngremes paredes de pedra finalmente começaram a recuar e deram em uma muralha alta e branca. Era construída em forma de semicírculo, como se recuasse diante do abismo. Mandred sabia qual era o sentido oculto disso: a muralha ficava mais longa. Dessa forma haveria lugar para mais arqueiros, caso um inimigo fosse louco o bastante para atacar o centro da Terra dos Albos por este caminho.

No meio da muralha havia uma torre estreita. Um grande portão de bronze se abriu quando se aproximaram.

— Se aquela torre ficasse no fim da ponte ou, melhor ainda, lá em cima, na trilha íngreme, seria mais fácil proteger a área central. Dessa forma um punhado de homens seria capaz de deter uma tropa inteira — disse Mandred casualmente.

— Não se pode derramar sangue sobre a Shalyn Falah, filho de humanos. Você realmente acha que é mais esperto que os construtores do meu povo? — Ollowain sequer se deu ao trabalho de se virar enquanto falava.

— De fato não tenho muito respeito por construtores que se esquecem do corrimão ao construírem uma ponte — retrucou Mandred, afiado.

O elfo parou de caminhar.

— Você é mesmo ingênuo assim, filho de humanos, ou está confiando demais na proteção da rainha? Sua ama não lhe contou o que os elfos fazem com os humanos que os desrespeitam desse jeito?

Nervoso, Mandred passou a língua sobre os lábios. Tinha ficado completamente louco? Seria melhor ter ficado com o bico calado! Mas seria humilhante não responder agora, seria... Ele sorriu. Ainda havia uma saída.

— Você mostra mesmo muita valentia ao zombar de um homem desarmado, elfo.

Ollowain virou-se, girando a sua capa. Sua espada ergueu-se no ar, com o cabo para a frente, a menos de um dedo de distância do peito de Mandred.

— Você acha que com uma arma na mão é perigoso para mim, filho de humanos? Pois então tente!

Mandred sorriu de forma insolente.

— Estaria lutando contra alguém desarmado.

— O primeiro sinal para reconhecer um covarde é a sua língua solta — replicou Ollowain. — Espero que agora não molhe as calças.

A mão de Mandred fez um movimento rápido e agarrou a espada de Ollowain. Em seguida, deu um salto para trás. Isso estava passando dos limites! Na verdade, não faria nada de mais contra esse cara arrogante, mas queria golpeá-lo com o lado largo da espada e mostrar-lhe que se metera com a pessoa errada. Lançou um olhar rápido para o merlão da muralha, e viu que ninguém os observava. Melhor assim, pensou. Certamente não seria o próprio Ollowain que sairia contando por aí que tinha levado uma surra.

Mandred examinou o oponente. Estava vestido de forma suntuosa, era verdade, mas herói ou mágico ele certamente não era. Que pessoa com a cabeça no lugar seria colocada como guardiã de uma ponte que ninguém cogita atravessar? Um babaca arrogante! Um zé-ninguém! Esse convencido agora ia aprender a ter respeito. Mesmo que fosse um elfo.

Deu alguns golpes rápidos no ar para soltar os músculos. A arma era estranhamente leve, muito diferente de uma espada humana. Era afiada dos dois lados. Precisaria ter cuidado se não quisesse ferir Ollowain por engano.

— Você vai me atacar agora ou vai precisar de mais uma espada? — perguntou o elfo, entediado.

Mandred lançou-se para a frente. Levantou a espada como se quisesse rachar o crânio de Ollowain. No último segundo mudou a direção do golpe, para acertar com as costas da mão o ombro direito do elfo. Mas sua espadada perdeu-se no vazio.

Ollowain se afastara o suficiente para que Mandred errasse o golpe por algumas polegadas. O guerreiro vestido de branco riu com petulância.

Mandred tomou distância. O elfo tinha a estatura de um menino, mas ainda assim queria lutar. Mandred tentaria o seu melhor truque: uma artimanha que custara a vida de três inimigos seus.

Pisou para a frente com o pé esquerdo como se quisesse dar uma sonora bofetada em Ollowain. Ao mesmo tempo, deu um golpe de espada dobrando a mão direita, mirando o joelho do oponente. Esse golpe de espada, dado com movimentos mínimos, só foi percebido por seus inimigos quando a lâmina já os atingira. Mas um soco desviou sua mão para o lado. E um pontapé atingiu a ponta da espada, fazendo-a errar o alvo. O elfo então cravou-lhe o joelho entre as pernas.

Mandred viu estrelas, e não conseguia respirar de tanta dor. Um empurrão no peito tirou-lhe o equilíbrio, e uma segunda pancada o fez tropeçar. Ele piscava para tentar voltar a enxergar melhor. Mas o elfo era tão rápido que seus movimentos sumiam, como espectros sobrenaturais.

Sem forças, Mandred deu um giro para se afastar do adversário. Algo atingiu sua mão direita. Seus dedos adormeceram de dor. A lâmina de Mandred agora só era guiada por seus instintos de guerreiro, e desenhou um semicírculo no ar. Sentia-se desamparado, enquanto Ollowain parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Então um empurrão arrancou a arma de sua mão. Um golpe de ar atingiu o guerreiro no lado direito da face. E a luta então acabou.

Ollowain recuara alguns passos. Tinha a espada na bainha, como se nada tivesse acontecido. Aos poucos, Mandred voltava a enxergar com clareza. Havia muito tempo que ninguém lhe dava uma sova como essa. O traiçoeiro elfo evitara acertá-lo no rosto, assim ninguém na corte perceberia o que aconteceu.

— Você deve ter ficado com muito medo — disse Mandred, ofegante —, já que precisou usar magia para me vencer.

— Então, se os seus olhos são lentos demais para me acompanhar, trata-se de magia?

— Nenhum humano é capaz de se mover tão rápido sem mágica — insistiu Mandred.

Os lábios de Ollowain esboçaram um sorriso:

— Isso mesmo, Mandred. Nenhum humano. — Ele apontou para o portão da torre, que agora estava bem aberto. Ali dois cavalos selados esperavam por eles. — Você me daria a honra de me seguir?

Todos os ossos de Mandred doíam. Com as pernas rígidas, andou até o portão. O elfo mantinha-se ao seu lado.

— Não preciso do apoio de ninguém — resmungou Mandred, mal-humorado.

— Caso contrário faria papel de coitado também na corte. — Um olhar amigável suavizou a acidez das palavras de Ollowain.

Os cavalos aguardavam pacientemente sob o arco do portão. Não se viam servos que os tivessem trazido até lá. Uma entrada abobadada penetrava na forte torre como um túnel. Ela estava vazia. Atrás dos merlões da muralha também não se via ninguém. De repente, Mandred mais uma vez se sentia observado. Será que os elfos queriam esconder algo, tão forte era a guarnição que guardava o portão para a área central? Será que o tomavam por um inimigo? Por um espião, talvez? Mas, se fosse assim, por que o carvalho o teria curado?

Dois cavalos, um branco e outro cinzento, esperavam por eles. Ollowain dirigiu-se ao garanhão branco e afagou seu focinho, brincalhão. Mandred teve a impressão de que o cavalo cinza o encarava com expectativa. Não entendia muito de cavalos. Estes animais eram de baixa estatura; tinham juntas magras e pareciam frágeis. Mas ele já se deixara enganar pela aparência de Ollowain. Eles provavelmente eram mais fortes e resistentes que qualquer outro cavalo que cavalgara até agora. Com a exceção de Aigilaos. A lembrança do centauro presunçoso fê-lo sorrir.

Mandred gemeu ao se lançar sobre a sela. Quando estava sentado mais ou menos ereto, o guerreiro elfo sinalizou que o seguisse. O pisar dos cascos sem ferraduras ecoava surdo nas paredes do túnel do portão. Ollowain seguiu por um caminho que subia pelas verdes colinas levemente inclinadas. Foi uma longa cavalgada até o castelo da rainha dos elfos, passando por bosques escuros e por uma infinidade de pequenas pontes. Às vezes via-se ao longe casas com telhados de abóboda muito curvados. Colocadas na paisagem com muito cuidado, lembravam a Mandred pedras preciosas, trabalhadas e engastadas de forma muito especial.

As terras que cruzava com Ollowain eram de primavera. Mais uma vez Mandred se perguntava quanto tempo teria dormido sob o carvalho. As lendas diziam que na terra dos elfos a primavera reinava eternamente. Certamente não se passaram mais que dois ou três dias desde que cruzara o círculo de pedras. Talvez até um só! Esforçava-se para organizar os pensamentos, para não se colocar diante da rainha como um tolo. Nesse meio-tempo se convenceu de que o homem-javali viera dali, do mundo dos elfos. Pensava em Xern e em Aigilaos. Aqui não parecia ser nada incomum que homens e animais se fundissem — justamente como no caso da criatura que o atacara.

Quando os nobres das terras dos fiordes se encontravam para falar de justiça, cabia a Mandred representar Firnstayn. Ele sabia o que era necessário fazer para cortar um conflito pela raiz. Se ocorresse um assassinato que vitimasse um homem, a família do assassino tinha de arcar com uma indenização à família da vítima. Feito isso, não havia mais motivos para vingança e derramamento de sangue. A criatura viera daqui. Por causa dela, Mandred perdera três companheiros e a rainha dos elfos tinha responsabilidade sobre isso. Firnstayn era tão pequena que a perda de três homens robustos poderia prejudicar a sua posição. Por isso exigiria uma alta indenização! Só Luth sabia quantos homens de outras aldeias foram mortos pela fera. Os filhos dos albos causaram o prejuízo, e agora precisavam se responsabilizar por ele. Nada mais justo!

Certamente os elfos não temeriam um conflito contra a sua aldeia. Mas, por seus amigos mortos, era seu dever se pronunciar diante da rainha para exigir justiça. Será que a soberana da Terra dos Albos pressentia isso? Sabia ela da culpa que tinha? Foi por isso que ordenou que o buscassem com tanta pressa e o levassem até a corte?

No fim da tarde avistaram pela primeira vez o castelo da rainha dos elfos. Estava ainda um pouco distante, sobre uma colina íngreme do outro lado de uma ampla região de bosques e campinas. A sua visão fazia Mandred perder a fala. O castelo parecia crescer diretamente da pedra e querer perfurar o céu com o topo das torres mais altas. As muralhas eram de um branco reluzente e contrastavam com o verde-azulado das torres — que lembrava o tom do bronze velho. Nenhum dos senhores das terras do norte tinha um domicílio que pudesse ser comparado à menor das torres deste castelo. Mesmo o átrio dourado do rei Horsa pareceria insignificante em comparação a todo esse esplendor. Quão poderosa devia ser a senhora que reinava nestas terras! E quão rica parecia ser... Tão rica que só precisaria estalar os dedos para mandar que cobrissem de ouro todas as casas comunais de sua aldeia. Ele precisava refletir sobre o valor que estabeleceria como compensação pela morte de seus companheiros de caça.

Embora não tivesse dito nada, Mandred estava surpreso com o quão lentamente se aproximavam do castelo. Os cavalos voavam sobre a terra, rápidos como o vento, mas no horizonte o castelo mal aumentava de tamanho. Passaram por uma árvore que parecia tão velha quanto as montanhas. Seu tronco era robusto como uma torre e havia coisas esquisitas em seus ramos amplamente espalhados. Era como se a madeira viva tivesse produzido cabanas redondas nas junções entre os galhos. Havia pontes de corda que se esticavam ligando as cabanas entre si. Entre os galhos, Mandred conseguia ver silhuetas semiocultas. Seriam elfos como Ollowain? Ou ainda um outro povo estranho?

De repente, uma revoada de pássaros levantou voo da árvore, como se obedecendo a um comando inaudível. Suas plumagens brilhavam em todos os tons do arco-íris. Passaram voando sobre Mandred, muito próximos, traçando um amplo arco no céu, e então deram voltas sobre os dois cavaleiros. Pareciam ser milhares. O ar se encheu do farfalhar das asas. A dança das cores das penas era tão maravilhosa que Mandred não conseguiu desviar o olhar, até que o bando aos poucos se dissipou.

Ollowain ficara em silêncio durante todo o percurso. Parecia estar absorto em pensamentos, e indiferente às belezas das terras centrais. Mandred, em contrapartida, não se fartava de admirá-las.

Passaram então por um lago raso. No fundo reluziam pedras preciosas. Que tipo de seres eram aqueles que simplesmente jogavam tesouros como esses na água? Bem, ele próprio já tinha feito oferendas aos deuses. Numa calma noite de lua cheia, levou o machado do primeiro homem que venceu à Fonte Sagrada, nas profundezas das montanhas, e com ele presenteou Norgrimm, deus das batalhas. Freya e as outras mulheres prestaram homenagens a Luth, trançando os galhos da tília da aldeia com tiras de tecido feitas artisticamente. Mas nada que se comparasse àquilo.Já que o povo élfico parecia tão rico, parecia apropriado oferecer pedras preciosas a seus deuses. No entanto, tanta riqueza irritava Mandred. Ele não sabia como chegara aqui, já que este reino não podia estar tão distante assim das terras do fiorde. E aqui havia tudo em abundância, enquanto seus semelhantes passavam necessidades no inverno. Apenas uma pequena porção destes tesouros já seria capaz de acabar com a fome para sempre. Qualquer valor que exigisse como reparação por seus companheiros mortos certamente seria insignificante para os elfos.

Em vez de ouro e pedras preciosas, ele queria outra coisa. Queria vingança. O corpo daquela fera, o homem-javali, teria de ser entregue sem vida a seus pés!

Mandred observou Ollowain. Um guerreiro como ele certamente seria capaz de derrotar o monstro com facilidade. Suspirou. Agora tudo parecia mais fácil.

Chegaram a um ralo bosque de faias. O som das flautas dançava no ar. Em algum lugar das copas das árvores soava uma voz tão pura que iluminava os corações. Embora Mandred não entendesse uma palavra sequer, a sua ira evaporou. O que sobrou foi somente o luto pelos amigos perdidos.

— Quem está cantando ali? — perguntou a Ollowain.

O guerreiro vestido de branco olhou para a copa das árvores.

— Uma donzela do povo da floresta. É um povo solitário e sua vida é muito ligada às árvores. Se não querem ser vistos, então ninguém consegue encontrá-los, a não ser os seus semelhantes, talvez. São conhecidos por seu canto e por sua habilidade com o arco e movem-se pelos ramos como sombras. Tenha cautela ao adentrar uma de suas florestas se tiver diferenças com eles, filho de humanos.

Aflito, Mandred levantou os olhos para as árvores. Vez ou outra acreditava ver sombras lá em cima, e estava satisfeito que logo deixariam o bosque novamente. O som morno das flautas ainda os acompanhou por um tempo.

O sol já tocava as montanhas no horizonte quando alcançaram o amplo vale sobre o qual o castelo da rainha se impunha. Ao longo de um pequeno riacho havia um acampamento. Estandartes de seda tremulavam ao vento e as barracas pareciam competir umas com as outras em suntuosidade. Nas colinas viam-se casas com corredores ladeados por colunas. Algumas delas eram ligadas entre si por longos caramanchões cobertos de rosas e heras. As construções em torno da encosta eram tão variadas que não era possível desviar o olhar. Porém, o que mais impressionava Mandred era o fato de não haver nenhuma muralha cercando a colônia dos elfos e nenhuma torre de observação nas colinas ao seu redor. Eles pareciam totalmente seguros de que este vale jamais seria atacado. Nem mesmo o castelo da rainha, com suas tão impressionantes torres da altura do céu, funcionaria como uma poderosa estrutura de defesa. Muito ao contrário: ele alegrava o olhar de um observador pacífico, em vez de intimidar conquistadores sedentos.

Mandred e Ollowain prosseguiram até o portão por um largo caminho, totalmente coberto pelas copas de árvores e iluminado pelo brilho dourado da luz de lampiões a óleo. O túnel do portão era mais curto que o outro, na fortificação no desfiladeiro após Shalyn Falah. Guerreiros elfos cobertos até os tornozelos por cotas de malha recostavam-se sobre seus escudos. Seguiam Mandred com o olhar — atentos, porém discretos. No amplo pátio aglomeravam-se nobres ricamente vestidos que o examinavam sem qualquer pudor. Seus olhares faziam Mandred se sentir sujo e insignificante. Todos ali vestiam túnicas luxuosamente bordadas, a ponto de refletir a luz dos candeeiros. Os trajes eram repletos de pérolas e pedras que Mandred sequer conseguia nomear. Ele, em contrapartida, estava vestido de trapos: uma calça rasgada e manchada de sangue, um colete de pele puído. Precisava passar por eles como um mendigo. Mas o fez altivamente, de cabeça erguida. Vestira, na falta de algo melhor, o seu orgulho!

Ollowain saltou da sela. Só então Mandred notou um fino rasgo na capa do guerreiro. Teria o atingido durante o duelo? Era certo que Ollowain jamais vestiria uma peça de roupa rasgada sem necessidade.

Mandred também apeou. Um rapaz com pernas de bode aproximou-se apressado e agarrou as rédeas do cavalo. Mandred observou abismado o cuidador, que fedia como um bode velho. De novo um homem-animal! Eles eram aceitos até mesmo neste magnífico castelo!

Do grupo de cortesãos veio um elfo bem alto. Vestia uma longa túnica negra, com a bainha ornada de bordados de prata em forma de folhas e flores entrelaçadas. Tinha cabelos grisalhos como prata até a altura dos ombros e uma coroa de folhas prateadas muito macias descansava sobre suas têmporas. Seu rosto era pálido, quase sem cor, e os lábios eram apenas linhas finas. Nos seus olhos queimava um azul frio e claro. Ollowain curvou-se rapidamente diante dele. A diferença entre os dois não poderia ser maior: para Mandred, eles eram como luz e sombra.

— Minhas saudações, mestre Alvias. Como nossa soberana Emerelle desejava, trouxe o filho de humanos em segurança até o castelo. — O tom de voz de Ollowain não deixava dúvidas de que o desejo de sua rainha era uma ordem.

Ambos os elfos trocaram olhares, e a Mandred pareceu como se conversassem em silêncio. Finalmente, mestre Alvias deu a entender com um gesto que deveria segui-lo.

O guerreiro sentiu-se como se estivesse preso em um pesadelo quando, seguindo mestre Alvias, começou a subir uma larga escada que levava a um corredor com colunas. Tudo ao seu redor era de uma beleza opressora e impregnado de uma estranha aura mágica — um lugar tão perfeito que causava medo.

Atravessaram dois amplos átrios. Cada um deles poderia abrigar toda uma aldeia. Do teto pendiam largos estandartes, enfeitados com águias e dragões estilizados, mas também havia figuras de animais que Mandred nunca vira antes. Embora não percebesse nenhuma corrente de ar, eles se movimentavam como se embalados por uma suave brisa. Ainda mais incomuns eram as paredes. Ao se aproximar, via-se que eram feitas de pedra branca, assim como a ponte de Shalyn Falah e a fortificação do outro lado do desfiladeiro. A pedra do castelo, contudo, parecia enfeitiçada: dela irradiava uma luz pálida e feminina. A poucos passos de distância desaparecia a impressão de se estar cercado de pedra. Quem ali estava então tinha a sensação de se mover por um átrio de luz.

Sempre que se aproximavam de uma porta, suas folhas se abriam como se movidas por uma mão invisível. No meio do segundo átrio havia uma fonte cujas águas saíam da garganta de um monstro para desaguar em um lago pequeno e redondo. A besta estava cercada de guerreiros petrificados. Aflito, Mandred sentia seu coração bater mais rápido. Se precisava de mais uma demonstração dos poderes mágicos da rainha, já a tinha. Se a aborrecesse, ela o transformaria num enfeite de pedra para o seu castelo!

Outro portão alto abriu-se diante deles. Adentraram um salão de paredes ocultas por uma cortina de água prateada e cintilante. Não tinha teto: em vez disso, era o brilho avermelhado do céu noturno que se arqueava sobre eles. Uma música baixa pairava no ar. Mandred não sabia dizer quais instrumentos seriam capazes de emitir tão lindos sons. A música dissipou o medo que crescera em seu peito desde que pisara no pátio do castelo. Este certamente não era um lugar feito para humanos. Ele não deveria estar aqui.

Cerca de três dúzias de elfos já esperavam no salão, cujos olhos pousaram todos sobre Mandred. Era a primeira vez que o guerreiro via elfas. Eram altas e magras, tinham quadris mais masculinos que as fêmeas humanas e os seios eram miúdos e rígidos. Quando se tratava de humanos, Mandred não gostava de mulheres assim, quase infantis. Mas as elfas eram diferentes. Tinham rostos de uma beleza capaz de fazer esquecer todo o resto. Não sabia dizer se era culpa de seus lábios curvos, dos traços sem idade ou dos olhos que atraíam para abismos que prometiam prazeres desconhecidos. Ao esconder as qualidades de seus corpos magros, realçavam-nas ainda mais. Mandred não conseguia tirar os olhos de uma das elfas. Vestida de forma mais provocante que as demais, o tecido de sua túnica deixava transpareceer as aréolas rosadas de seus seios e uma sombra atraente destacava-se entre suas coxas. Nenhuma humana ousaria vestir-se assim.

Defronte do portão, sete degraus subiam até o trono do povo élfico: uma cadeira lisa de madeira escura, com incrustações de pedras pretas e brancas no formato de duas serpentes entrelaçadas. Ao lado do trono havia uma coluna baixa com uma tigela rasa de prata. Diante do assento do soberano estava uma jovem elfa. Era um pouco mais baixa que as outras na sala. Seu cabelo louro-escuro caía em ondas sobre os seus ombros nus e brancos como leite. Seus lábios tinham a cor das amoras silvestres e seus olhos eram castanhos-claros como a pele de um filhote de corça. Trajava um vestido azul, com fios de prata entrelaçados. Foi diante dela que mestre Alvias se curvou.

— Emerelle, soberana, este é o filho de humanos Mandred, que adentrou o vosso reino sem ser chamado.

A rainha fitou Mandred com um olhar penetrante. Ele não conseguia decifrar em seu rosto o que ela estava pensando e permanecia inerte, como se talhado em pedra. Esse momento pareceu durar uma eternidade. A música foi baixando até sumir, e agora reinava apenas o suave murmúrio da água.

— Qual é o seu desejo, Mandred Filho de Humanos? — Finalmente soou a clara voz da rainha.

A boca de Mandred estava seca. Durante a cavalgada pensara muito no que deveria dizer quando estivesse de frente com a rainha dos elfos. Mas agora sua cabeça estava vazia, sem nada além da preocupação com os seus e da ira pela morte de seus companheiros.

— Exijo uma indenização pelo assassinato que um de seus súditos cometeu, soberana. Essa é a lei do fiorde! — Deu um passo adiante.

O barulho da água tornou-se mais alto. Atrás de si Mandred ouviu murmúrios de indignação.

— Qual de meus súditos teria cometido tal assassinato? — perguntou Emerelle com voz calma.

— Não sei o nome, mas é um monstro metade homem, metade javali. Vi muitas criaturas como ele ao longo do caminho para vosso castelo.

Uma ruga profunda surgiu entre as sobrancelhas da rainha.

— Não conheço nenhum ser como o que você descreve, Mandred Filho de Humanos.

Mandred sentiu o sangue subir até suas faces. Que mentira insolente!

— Vosso mensageiro foi um centauro, e no pátio do castelo um homem-bode levou os cavalos. De onde mais poderia ter vindo um homem-javali senão de vosso reino, rainha? Eu exijo...

A água agora corria retumbante parede abaixo.

— Você ousa chamar nossa rainha de mentirosa! — indignou-se Alvias. Uma multidão de elfos cercou Mandred.

O guerreiro cerrou os punhos.

— Eu sei exatamente o que vi!

— Mantenham a hospitalidade! — A rainha mal levantou a voz, mas foi ouvida por todos. — Fui eu quem convidou o filho de humanos a esta sala. Aquele que tocá-lo também cutucará a minha honra! E você, Mandred, segure a sua língua. Eu lhe digo: não existe na Terra dos Albos uma criatura como a que se referiu. Conte-nos o que esse homem-javali fez. Sei muito bem que vocês, homens, evitam o círculo de pedras. Por que você fugiu para cá?

Mandred contou sobre a caçada em vão e sobre a força da criatura. Quando terminou, viu que a ruga entre as sobrancelhas de Emerelle tornara-se ainda mais profunda.

— Lamento pela morte de seus companheiros, Mandred. Que eles sejam bem acolhidos nos átrios de seus deuses.

O guerreiro encarava a rainha, surpreso. Esperava que ela prosseguisse, que lhe fizesse uma proposta. Isso não podia ser tudo! O silêncio continuava. Mandred pensou em Freya. Cada hora perdida colocava-a ainda mais em perigo — isso se a fera já não tivesse se lançado sobre Firnstayn há tempos.

Envergonhado, baixou o olhar. De que valia o seu orgulho se fora pago com o sangue dos seus?

— Rainha Emerelle, eu... eu peço a vossa ajuda na caça a esse monstro. Eu... peço perdão se a ofendi. Sou só um homem simples. Lidar com palavras não é o meu forte. Eu falo com o coração.

— Você vem a meu castelo, Mandred, ofende-me diante de minha corte e agora pergunta se eu arriscaria a vida de meus caçadores para cuidar de um problema seu? Você só pode mesmo estar falando com o coração, filho de humanos. — A mão de Emerelle fez um movimento circular sobre o recipiente de prata, e ela lançou um rápido olhar sobre a água. — E por minha ajuda, o que me oferece em troca? O seu povo não paga sangue com sangue?

Mandred surpreendeu-se. Os soberanos das terras do fiorde sempre expressavam abertamente suas exigências, sem pechinchar como comerciantes. Pôs-se de joelhos:

— Liberte a minha pátria daquele monstro e vossa majestade reinará sobre mim. Estarei ao vosso dispor.

Emerelle riu baixo.

— Mandred, na verdade você não é exatamente um homem que eu gostaria de ver perto de mim todos os dias. — Ela se calou e voltou a olhar dentro da tigela prateada. — Eu exijo o que Freya, sua esposa, carrega no ventre. O primeiro filho que dará a você, Mandred Filho de Humanos. Não se consegue a amizade do povo élfico apenas com palavras vazias. Mandarei buscar a criança daqui a um ano.

Era como se Mandred tivesse sido atingido por um raio.

— O meu filho? —Voltou o olhar para os outros elfos, como que pedindo ajuda. Mas em nenhum dos rostos havia compaixão. Como dizia mesmo a história infantil? Os corações dos elfos são gelados como as estrelas de inverno... — Crave-me um punhal no peito, rainha. Minha vida termina aqui e agora. Pagarei esse preço sem hesitar se vossa majestade ajudar os meus semelhantes em troca.

— Grandiosas palavras, Mandred — replicou a rainha com frieza. — Mas de que serviria derramar o seu sangue diante dos degraus do meu trono?

— E de que serviria uma criança? — protestou Mandred, em desespero.

— Essa criança será um elo entre os homens e os elfos — retrucou calmamente. — Ela deverá crescer entre o meu povo, e terá os melhores mestres. Quando o seu filho tiver idade suficiente, poderá decidir se quer ficar conosco para sempre ou se deseja retornar para os seus irmãos humanos. Se quiser voltar, lhe daremos ricos presentes para levar consigo, e estou certa de que conquistaria o seu lugar entre os mais importantes do seu povo. Mas a dádiva mais importante que levaria para o mundo dos homens seria a amizade do povo élfico.

Mandred tinha a sensação de que a graciosa elfa segurava e apertava o seu coração com mão de ferro. Como poderia prometer aos elfos o filho que ainda não nascera? Mas, se recusasse, então a criança poderia sequer chegar a nascer. Quanto tempo duraria até que aquela besta adentrasse o pequeno povoado no fiorde? Já teria chegado lá?

— Freya, minha esposa, ainda está viva? — perguntou tristemente.

A rainha passou a mão suavemente sobre a tigela de prata.

— Alguma coisa está escondendo a criatura que você chama de homem-javali. Mas ela ainda parece estar próxima do círculo de pedras. Não atacou o seu vilarejo. — Ela ergueu os olhos e o encarou diretamente. — Qual é a sua decisão, Mandred Filho de Humanos?

“Ainda terei outros filhos com Freya”, Mandred tenta convencer a si mesmo. Talvez ela tenha no ventre uma menina, e a perda então não seria tão difícil. Ele era o jarl de sua aldeia, o responsável por todos. O que era uma vida se comparada a todas aquelas outras?

— Você terá o que exige, rainha. — A voz de Mandred não era mais que um sussurro. Seus lábios queriam trancar as palavras, mas ele se obrigava a falar. — Se os seus caçadores matarem o homem-javali, então o meu filho pertencerá a vós.

Emerelle acenou com a cabeça na direção de um elfo vestido de cinza-claro e pediu-lhe que desse um passo à frente.

— Farodin do clã Askalel, você já provou sua coragem muitas vezes. Sua sabedoria e experiência tornarão a caçada bem-sucedida. Convoco-o agora para a Caçada dos Elfos.

Mandred sentiu um arrepio subir por suas costas. A Caçada dos Elfos! Quantas histórias já ouvira sobre essa sociedade cercada de segredos!

Dizem que esses caçadores extraordinários não deixam passar nenhuma presa. E o seu alvo sempre encontra a morte. Lobos tão grandes quanto cavalos são seus cães de caça e, nas veias de seus cavalos, corre fogo líquido. Eles cavalgam pelo céu noturno, escondidos sob a luz das fadas, e se atiram sobre as presas como águias. Apenas os mais nobres e valentes podem participar da caçada. Todos são tanto guerreiros quanto feiticeiros e tão poderosos que os trolls escondem-se em seus castelos quando eles saem para caçar. Até os dragões os temem. Eu consegui colocá-los na pista daquela aberração, pensou Mandred, exultante. Eles destroçariam a fera numa vingança sangrenta por seus amigos mortos!

A rainha ainda chamou mais alguns nomes, mas os que foram chamados pareciam não estar na sala do trono. Finalmente indicou uma figura vestida de marrom, que à primeira vista parecia assustadora.

— Nuramon do clã Weldaron, a sua hora chegou.

Um murmúrio tomou conta dos elfos aglomerados.

Uma elfa se destacou de um dos grupos, dando um passo à frente. Parecia mais surpresa que os demais.

— Minha soberana, você gostaria mesmo de expô-lo a esse perigo? Você conhece a sua sina!

— Foi por isso mesmo que o escolhi.

Mandred encarou furtivamente o elfo de cabelos castanhos. Ele parecia inseguro. Certamente não era um caçador experiente!

— Amanhã cedo a Caçada dos Elfos deve partir para matar o monstro de que nos contaram. E você, Mandred Filho de Humanos, será o líder, pois conhece a fera e as terras que ela assola.

O murmurar na sala cessou repentinamente. Mais uma vez, Mandred sentia todos os olhares pousarem sobre ele. Ele não podia acreditar no que Emerelle acabara de dizer. Ele, o menos nobre aos olhos dos presentes, fora escolhido para liderar a Caçada dos Elfos! Queria apenas que Freya estivesse ao seu lado agora.