A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 29 de 34

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A Caçada dos Elfos

O milagreiro de Aniscans

 

Três anos se passaram desde que os guerreiros deixaram a Terra dos Albos. Ainda assim, todos os dias havia algo de novo para Nuramon descobrir no mundo dos humanos. As línguas humanas o interessavam em especial: já havia aprendido muitas delas. Por isso se surpreendia com o quanto era difícil para Mandred aprendê-las. Alfadas, que Mandred sempre chamava de Oleif, embora esse nome humano lhe fosse estranho, tinha as mesmas dificuldades com isso. A esse respeito, pouco parecia servir-lhe o fato de ter crescido entre elfos. Que estranhos eram os humanos!

A busca pelo filho de Noroelle não dera resultado até então. Tinham cruzado as grandes florestas de Drusna; passado pelo Reino de Angnos, devastado pela guerra; procurado durante muitas luas nas esparsas Ilhas Aegílicas e, por fim, chegado ao Reino de Fargon. Era um lugar verde e fértil; um lugar que queria ser conquistado pelos humanos, como Mandred sempre repetia. Muitos refugiados de Angnos chegaram ali nos últimos anos, trazendo suas crenças. Alguns dos poucos humanos que já viviam ali há gerações recebiam os estranhos com curiosidade, enquanto outros os viam como uma ameaça.

Os companheiros tinham seguido muitos rastros. Sua única esperança era que o filho de uma elfa com um devanthar possuísse poderes mágicos. Se ele fizesse uso desse dom, destacaria-se entre os demais. Os humanos falariam dele. Então, os guerreiros iam atrás de cada história sobre feitiços ou milagres contada entre os homens. Até então tinham se decepcionado todas as vezes.

Enquanto os elfos e Alfadas mostravam-se caçadores resistentes, com o passar dos anos faltava a Mandred cada vez mais paciência. Frequentemente se embebedava, como se quisesse esquecer que uma vida humana podia ser curta demais para a busca pelo filho do demônio.

Nuramon se surpreendia que Alfadas, ao contrário do pai, mantinha a calma como um elfo. Suportava até as horas de lições com Mandred com uma paciência que beirava a abnegação. Alfadas parecia ter herdado muito pouco do pai, exceto talvez pela cabeça-dura, pois mesmo depois de três anos continuava se recusando a reconhecer o machado como rei de todas as armas, o que visivelmente dava muito prazer a Ollowain.

Uma nova primavera irrompera. Eles desciam as montanhas para seguir uma pista na cidade de Aniscans. Nomja, Yilvina e Alfadas já tinham se tornado amigos havia tempo e isso fazia com que às vezes lhes faltasse a seriedade necessária durante a busca. Gelvuun seguia sendo um lobo solitário, que mal separava os dentes. Um dia, Farodin revelou que certa vez os trolls quebraram todos os dentes de Gelvuun. Por isso ele não abria a boca. Até hoje Nuramon não sabia se isso era só uma brincadeira.

Ollowain era o único a não perder de vista o dever que fora imposto a eles. Fazia-os ficar pouco tempo em cada lugar e seguir viagem rápido sempre que uma pista não dava em nada.

Farodin, em contrapartida, deixava o grupo toda vez que podia. Era ele quem se dispunha voluntariamente a explorar o caminho. A Nuramon às vezes parecia que Farodin não buscava a criança, mas procurava alguma outra coisa em segredo. Talvez também estivesse tentando protelar a viagem para não ter de cometer o assassinato contra o filho de Noroelle.

Mandred cavalgava ao lado de Nuramon; juntos, conduziam sua pequena tropa ao longo da descida por entre as colinas. O filho de humanos, cuja amizade Nuramon aceitara na caverna de gelo, sempre os divertia com suas palavras e atos, fazendo os elfos se esquecerem por um tempo do motivo pelo qual viajavam. Mesmo quando o juízo retornava logo depois da alegria — a consciência de que o objetivo deles poderia ser o começo de uma existência marcada por sofrimentos da alma —, Nuramon estava contente de que Mandred tivesse o dom de diverti-los.

— Você ainda se lembra da vez em que encontramos aqueles ladrões? — perguntou Mandred, sorrindo. A noção de tempo que o filho de humanos tinha era diferente da de um elfo. Um ano se passava e ele já se regalava com lembranças. O mais estranho era que Nuramon também se contagiava com a sensação de terem vivido muita coisa e, por isso, de muito tempo ter se passado.

— De que ladrões você está falando? — Tinham encontrado alguns. E a maioria fugira deles imediatamente.

— Os primeiros. Os que realmente se defenderam.

— Sim, eu me lembro. — Como ele poderia esquecer os saqueadores de Angnos? Ele e os outros elfos tinham vestido seus casacos de capuz e não foram reconhecidos num primeiro momento como filhos dos albos. Foi uma descoberta ruim para os ladrões. Não queriam se render, pois se achavam infinitamente superiores. Então, tiveram de descobrir de forma dolorosa a diferença entre força e poder.

— Aquela, sim, foi uma luta! — Mandred olhou ao redor. — Bem que eu queria que alguns ladrões de galinhas estivessem agora à nossa espreita.

Nuramon ficou em silêncio. Esse desejo de Mandred só podia significar uma coisa: hoje à noite Alfadas tinha de estar pronto para mais uma prova. Mandred não desistia de tentar entusiasmar seu filho pela luta com o machado. Mas Alfadas provava uma vez depois da outra que era capaz de se igualar a ele, mas na luta com a espada. Quando Mandred era superado por seu filho, Nuramon nunca entendia muito bem os sentimentos do guerreiro. Ficava orgulhoso ou ofendido? Certa vez, Nuramon até suspeitou que Mandred estivesse secretamente se refreando no exercício de luta, preocupado que pudesse ferir Alfadas.

Chegaram à crista de uma colina e agora tinham visão livre sobre o amplo vale do rio lá embaixo. Nuramon apontou para a cidade na margem oeste.

— Aniscans! Finalmente deixamos as terras selvagens.

— Finalmente vamos entrar de novo em uma taverna e receber algo razoável para beber. Meu estômago já está pensando que alguém cortou a minha cabeça. — Mandred estalou a língua. — O que vocês acham? Eles têm hidromel lá embaixo?

Parecia que o filho de humanos quase se esquecera de seu desgosto por Freya. Mas Nuramon olhou por trás das aparências e viu um homem que queria ocultar e anestesiar a sua dor.

Desceram vagarosamente a encosta. Ao pé da colina passava uma estrada que levava diretamente até a cidade. Uma ponte se esticava sobre o largo leito do rio com sete arcos rasos. O degelo da neve aumentara a corrente, trazendo restos de madeira das montanhas. Sobre a ponte havia homens com longas varas, que com elas evitavam que os troncos que desciam o rio ficassem presos, atravessados nos pilares da construção, e represassem a água.

A maioria das casas de Aniscans era feita de pedras de alvenaria castanhas. Eram construções altas e robustas, amontoadas bem perto umas das outras. Seus únicos ornamentos eram as ripas do telhado, de um vermelho bem vivo. Vinhedos haviam sido plantados ao redor da cidade. Mandred com certeza teria chance de se embebedar, pensou Nuramon amargamente.

— Uma terra cheia de tolos — esbravejou de repente o filho de humanos. — Vejam isso! Uma cidade tão rica e eles sequer têm uma muralha. Firnstayn é bem melhor fortificada.

— É que eles não contavam com a sua visita, pai — disse Alfadas, rindo. Os demais companheiros caíram na gargalhada. Até Gelvuun sorriu.

Mandred ficou vermelho.

— A inconsequência é a mãe de muitos infortúnios — disse então, com seriedade.

Ollowain riu.

— Parece que o sol de primavera derrete a crosta de gelo do bárbaro-mor. E, que milagre! Debaixo dessa crosta surge um filósofo.

— Eu não sei que tipo de insulto é esse, mas você pode ter certeza de que o bárbaro-mor vai enfiar o machado na sua goela logo mais!

Ollowain enlaçou os braços um sobre o outro e fez como se tremesse.

— E, de repente, o inverno retorna e faz os lindos botões de primavera congelarem.

— Você acaba de me comparar com botões de flores? — trovejou Mandred.

— Só uma alegoria, amigo.

O filho de humanos franziu a testa. Então abanou a cabeça.

— Aceito as suas desculpas, Ollowain.

Nuramon precisou morder os lábios para não rir alto. Ficou contente que, no momento seguinte, Alfadas tenha começado a cantar para interromper a infeliz disputa. O jovem tinha a voz linda demais... para um humano.

Eles seguiram a estrada que margeava o rio, passando por estábulos e pequenas fazendas. O gado pastava ao longo do caminho. A paisagem ali parecia estranhamente desordenada. Mesmo depois de todo aquele tempo nos reinos dos humanos, Nuramon não conseguira se acostumar às diferenças deste mundo. Mas, de fato, havia aprendido a ver beleza no desconhecido.

As casas da cidade apinhavam-se ao redor de uma colina, sobre a qual havia um templo. Suas paredes estavam cercadas de andaimes e era possível ouvir as marteladas dos pedreiros bem além do rio. A construção era simples, com muros tão grossos como os de uma torre de fortificação, mas havia um encanto próprio em sua simplicidade rústica. Parecia querer gritar ao observador distante que ali não havia nada para distrair os fiéis, pois nenhuma obra de arte se compara à beleza da fé verdadeira.

Nuramon lembrou-se do velho pregador itinerante que encontraram nas montanhas alguns dias antes. Com brilho nos olhos, o homem contara sobre Aniscans e sobre o sacerdote cujo nome aparentemente estava na boca de todos no vale do rio: Guillaume. Ele falava com tanto fervor sobre o deus Tjured que a força de suas palavras contagiava os ouvintes. Dizia-se que os aleijados conseguiam voltar a andar quando prestavam atenção nele, quando ele tocava seus membros com as mãos. Seus poderes mágicos pareciam curar qualquer dor e vencer qualquer veneno.

Quantas vezes seguiram rumores como esse nos últimos três anos, todas em vão! Procuravam um homem de cerca de trinta anos que pudesse operar milagres. Essa breve descrição batia com a de Guillaume, como já batera com a de uma dúzia de outros homens, dos quais nenhum sequer possuía mesmo poderes. Os homens eram ingênuos demais! Estavam sempre prontos a acreditar em qualquer charlatão que fingisse de forma mais ou menos convincente ser capaz de fazer magias.

O pregador itinerante afirmara que, em sua infância, o lugar onde agora estava a cidade não passava de um pequeno círculo de pedras, onde os humanos se encontravam nos dias de solstício para prestar homenagens aos deuses.

Nuramon olhou para cima. Aparentemente, o círculo de pedras estivera na pequena colina onde agora se construía o templo.

O bater de cascos dos cavalos soou como tambores sobre o pavimento da ponte. Alguns dos trabalhadores se voltaram. Vestiam jalecos simples e chapéus de abas largas, feitos de palha trançada. Inclinaram a cabeça humildemente. Guerreiros tinham muito valor naquele reino.

O olhar de Nuramon vagueou sobre as casas da cidade. Suas paredes eram de pedra rústica e pareciam brutas e sólidas. Levando em conta o que os homens costumavam construir, de fato não era um trabalho ruim. Quase todos os muros eram retos e somente poucos telhados curvavam-se sob o peso de suas vigas.

Antes de deixarem a ponte, Mandred e Alfadas assumiram a ponta do pequeno grupo de cavaleiros. Quem via os dois provavelmente imaginava que fossem nobres do norte selvagem com sua misteriosa comitiva. Os habitantes os observavam cheios de admiração, mas logo retomavam suas tarefas diárias. Aparentemente, as pessoas dali estavam habituadas a forasteiros.

Na cidade, porém, reinava uma inquietação que nada tinha a ver com eles. Quanto mais os companheiros se aproximavam do templo, mais perceptível ela se tornava. Algo acontecia em Aniscans bem diante deles. A cidade inteira parecia estar na rua. As pessoas se espremiam nas vielas estreitas, a caminho do topo da colina. Logo eles já não conseguiam mais passar com os cavalos. Precisaram apear. Levaram os animais até o pátio de uma taverna, onde ficaram sob a vigilância de Nomja. Os restantes prosseguiram em fila pelo meio de toda aquela gente que fluía em massa até o templo. Reinava uma atmosfera que a Nuramon lembrava um casamento de duendes: todos corriam numa alegre confusão.

Nuramon conseguia ouvir pedaços de conversas. Falavam sobre o curandeiro milagroso e seus lendários poderes, que no dia anterior salvara uma criança que por pouco não morrera sufocada, e que cada vez mais forasteiros chegavam à cidade para ver Guillaume. Um velho senhor contava com orgulho que o rei convidara Guillaume para ir à corte e permanecer nela, mas que o sacerdote negou-se a deixar a cidade.

A pequena tropa finalmente chegou à praça diante do templo. No meio da multidão era difícil estimar quantas pessoas se aglomeravam ali, mas deviam ser centenas. Preso entre os humanos espremidos e suados, Nuramon sentia-se cada vez pior. Tudo fedia a suor, roupas sujas, gordura rançosa e cebola. De canto de olho, o elfo viu Farodin apertar um lenço perfumado contra o nariz. Nuramon também gostaria de uma forma de alívio como essa. Humanos e asseio, essas eram duas coisas que simplesmente não andavam juntas — como ele já sabia há muito tempo por causa de Mandred. Nos últimos três anos, Nuramon tornara-se um pouco menos sensível a essa abundância de cheiros que se sentia, principalmente, nas cidades. Mas, ali, no meio da multidão de humanos, o fedor era realmente insuportável.

De repente uma voz soou bem à frente. Nuramon esticou o pescoço, mas não conseguiu reconhecer quem falava no meio do aglomerado. Parecia estar de pé perto do grande carvalho que ocupava o meio da praça. A voz era harmoniosa e seu dono dominava todos os recursos da retórica. Cada sílaba era refletidamente entoada, como faziam os filósofos de Lyn, que se exercitavam há séculos em disputas para levar suas possibilidades vocais à perfeição. Era daí que vinha a arte, que alguns dominavam, de convencer não por argumentos, mas dizendo as palavras de forma a fazer o espírito sucumbir totalmente à voz. O que esse humano realizava ali adiante era quase comparável a um feitiço.

As pessoas ao redor de Nuramon e seus estranhos companheiros não os observavam mais, tão absorvidas estavam pelas palavras do homem.

Farodin se espremeu até chegar ao lado de Nuramon.

— Você está ouvindo essa voz?

— Magnífica, não é?

— É isso o que me preocupa. Talvez estejamos perto do alvo.

Nuramon calou-se. Tinha medo do que precisaria ser feito caso fosse realmente o filho de Noroelle quem falava ali na frente.

— Ollowain — disse Farodin —, você dá a volta com Yilvina e Gelvuun pela esquerda. Mandred e Alfadas, vocês vão pelo meio. Nuramon e eu contornaremos pela direita. Primeiro vamos somente observá-lo. Aqui no meio da multidão não podemos fazer nada.

Os companheiros se separaram. Nuramon foi à frente de Farodin. Apertavam-se cuidadosamente entre as inúmeras pessoas que ouviam, em pé, como se estivessem sob encanto. A voz do sacerdote encobria nitidamente o murmurinho na praça.

— Aceite a força de Tjured — disse ele, mansamente. — Ela é um presente dele que entrego a você.

Logo a seguir alguém gritou:

— Vejam! Ele está curado! A ferida cicatrizou!

— O júbilo tomou conta da praça.

Uma velha senhora agarrou Nuramon pelo pescoço e beijou-lhe a face.

— Um milagre! — gritou ela, exultante. — Ele fez outro milagre! Ele é a bênção desta cidade!

Nuramon encarou a velha sem entender. Devia ser realmente um milagre para beijar um estranho assim.

Então o sacerdote subiu no muro baixo da ponte, ao lado do carvalho, e falou com os humanos. Mas Nuramon mal prestava atenção nas palavras. Estava absorto pela postura e pelos gestos do homem. Guillaume tinha cabelos negros que lhe caíam até os ombros. Como todos os sacerdotes de Tjured, vestia um hábito azul-escuro. Tinha o rosto oval, o nariz estreito, o queixo suave e a boca curvilínea. Se Noroelle tivesse um irmão gêmeo, ele se pareceria com esse sacerdote.

Esse homem era filho dela!

Nuramon observou Guillaume voltar-se para um homem de cabelo grisalho e desgrenhado, agarrar a mão dele, que parecia rígida e fazer uma prece. Pulou de susto. Era como se algo tivesse invadido o seu íntimo, como se uma mão poderosa tocasse a sua alma. Essa sensação sinistra durou só um piscar de olhos. Perturbado, o elfo cambaleou para trás e topou com uma jovem.

— Você não está se sentindo bem? — perguntou ela, preocupada. — Você está muito pálido.

Ele sacudiu a cabeça e se espremeu até chegar ao fim da multidão, que formara um círculo bem ao redor da fonte.

O homem que fora até Guillaume ergueu a mão. Fechou-a e voltou a esticar os dedos.

— Ele me curou! — gritou ele, com a voz esganiçada. — Curou! — O homem grisalho atirou-se aos pés do sacerdote e beijou a barra de sua túnica.

Guillaume pareceu constrangido. Segurou o velho pelos ombros e ajudou-o a se levantar.

“Ele faz feitiços como a mãe dele”, pensou Nuramon. A rainha se enganara. O filho de Noroelle não era um demônio. Ele curava.

De repente um grito soou na multidão.

— Guillaume! Guillaume! Alguém desmaiou aqui!

— Ele está morto! — gritou uma mulher de voz estridente.

— Tragam-no até mim! — ordenou calmamente o sacerdote.

Dois homens troncudos de aventais de couro carregaram uma figura magra até a fonte. Era um homem vestindo túnica cinza. Guillaume tirou-lhe o grande capuz. Diante do milagreiro estava Gelvuun.

Desnorteado, Nuramon olhou para Farodin, que disse com um gesto que deveriam esperar. Então sussurrou:

— Espero que Mandred não faça nenhuma besteira.

Agora, um murmúrio se espalhava nas primeiras fileiras. Guillaume afastara o cabelo de Gelvuun para trás, de modo que seria possível reconhecer as orelhas pontudas. Gelvunn, sempre tão rabugento, agora parecia em paz como uma criança adormecida.Guillaume curvou-se sobre ele. O sacerdote parecia perturbado. Se era só a visão do elfo ou alguma outra coisa, Nuramon não era capaz de dizer. Então Guillaume olhou em volta, fazendo com que Nuramon sentisse seu olhar o tocar. Um calafrio percorreu suas costas. Os olhos do curador eram de um azul brilhante.

O capelão ergueu-se e disse:

— Este homem não está sob a proteção de Tjured. Ele é um filho de albos, não um humano. Ninguém mais pode ajudá-lo. Ele chegou tarde demais. Não consigo reconhecer a doença de que sofria. Parece que seu coração simplesmente parou de bater. Dizem que para os filhos dos albos também está reservada a existência do outro lado da vida. Então rezem por sua alma. Sepultarei seu corpo com todas as honras, mesmo que ele nunca tenha rezado para Tjured. É grande a misericórdia do nosso Senhor. Ele também se compadecerá deste elfo.

Mais uma vez, o olhar de Guillaume encontrou o de Nuramon. Havia algo de paralisante naqueles magníficos olhos azuis.

— Venha, Nuramon — murmurou Farodin —, nós precisamos ir.

O companheiro agarrou-o e arrastou-o consigo pelo meio da densa multidão. Nuramon não conseguia tirar aquele rosto e aqueles olhos da cabeça. Era o rosto de Noroelle; eram os olhos de Noroelle os que esse homem tinha.

De repente, foi sacudido.

— Acorde! — disse Farodin, áspero.

Nuramon olhou em volta, admirado. Haviam deixado a praça e agora estavam de novo em uma das estreitas vielas. Ele não percebera quão longe tinham ido.

— Era o rosto de Noroelle! — disse ele.

— Eu sei. Venha!

Encontraram Nomja e os cavalos. Mandred e Alfadas chegaram ao pátio poucos momentos depois, levando Yilvina entre eles. A jovem elfa estava pálida e parecia mal ter forças para se aguentar nas próprias pernas.

Mandred estava totalmente fora de si.

— Vocês viram isso? Maldição! O que aconteceu?

Farodin olhou em volta.

— Onde está Ollowain?

Alfadas apontou para a entrada do pátio.

— Lá vem ele!

O medo estava estampado nos olhos do mestre da espada.

— Venham! Não estamos mais seguros aqui. — Olhou de volta para a rua. — Vamos ganhar distância desse filho do demônio. Vamos! Subam nos cavalos e vamos para fora da cidade!

— O que aconteceu com Gelvuun? — perguntou Nomja.

Nuramon ficou calado. Pensou no estranho poder que o invadira por dentro, nos olhos azuis e no quanto Guillaume lembrava Noroelle. Agora Gelvuun estava morto e Yilvina parecia tão mal como se tivesse escapado da morte por pouco.

— O que aconteceu? — Agora Ollowain também perguntava, virando-se para a elfa pálida.

Yilvina tomou fôlego com esforço.

— Ele foi empurrando e chegou até a frente... Quase até o fim da multidão. No momento em que o sacerdote pegou a mão do velho... — Ela olhou para o céu, com lágrimas nos olhos. — Não sei como descrever. Foi como se uma garra entrasse no meu peito para rasgar o meu coração — disse e começou a soluçar. — Foi... Eu pude sentir a morte... A morte eterna, sem esperança de renascer ou de ir para o luar. Se não tivesse ficado alguns passos para trás... — Ela não conseguiu continuar.

— Ele reparou em vocês e atacou imediatamente? — perguntou Nomja.

Ollowain hesitou.

— Não tenho muita certeza... Não acho que isso foi um ataque. Aconteceu no momento em que ele curava o velho. Eu pude sentir o seu poder... Yilvina tem razão. Eu também senti a morte de repente.

Mandred voltou-se para Nuramon.

— Como ele fez isso?

O filho de humanos pensava que as habilidades de Nuramon eram maiores que as de fato. Só porque uma vez o elfo se superou para curar Farodin, sempre pedia o seu julgamento sobre tudo, por menos que tivesse a ver com magia.

— Não faço ideia, Mandred.

— Mas eu faço! — intrometeu-se Ollowain. — A magia do filho do demônio é totalmente maligna! Ela pode nos matar imediatamente. Um simples feiticeiro que cura humanos pode nos aniquilar. Agora está claro para mim qual é o perigo que a rainha vê no filho de Noroelle. Precisamos matá-lo.

— Não vamos fazer isso! — disse Nuramon resoluto. — Vamos levá-lo até a rainha!

— Esse falso curandeiro é capaz de nos executar com um mero feitiço! — disse Ollowain. — Está claro para você?

— Sim, eu sei.

— Como você vai obrigá-lo a deixar a cidade?

— Não vou obrigá-lo. Ele virá conosco por livre e espontânea vontade. Ele não sabia o que suas mãos curadoras estavam fazendo com o nosso companheiro. Ele não é o filho do demônio que a rainha esperava.

— Você quer se virar contra a rainha? Ela nos enviou para matá-lo!

— Não, Ollowain. A rainha ordenou a mim que o matasse. Só eu preciso me justificar perante ela.

— Não sei se posso permitir isso — disse Ollowain devagar. — Por que, Nuramon? Por que você mudou de opinião?

— Porque tenho a sensação de que matar Guillaume será um erro desastroso. Isso não resultará em nada bom. Temos que levá-lo para a rainha. Então ela poderá vê-lo cara a cara e decidir a seu respeito. Deixem-me falar com ele. Se eu não voltar até meio-dia de amanhã, então vocês podem matá-lo.

Ollowain sacudiu a cabeça.

— Você quer levar um filho do demônio, cuja magia é fatal a nós, elfos, para a corte de Emerelle? Vá, então! Fale com ele! Nós não vamos vê-lo novamente com vida! Você tem tempo até o crepúsculo de amanhã, e aí vou pegá-lo do meu jeito. Até lá estaremos acampados fora da cidade.

Nuramon buscou apoio nos rostos dos outros. Mas ninguém se opôs a Ollowain, nem mesmo Mandred. Montaram os cavalos ao sinal do mestre da espada. Alfadas levava os cavalos de Gelvuun e Nuramon pelas rédeas.

Farodin foi o último da pequena tropa de cavaleiros a deixar o pátio. Abaixou-se na sela na direção de Nuramon.

— Você tem certeza de que quer correr esse risco? E se acontecer com você o mesmo que ocorreu com Gelvuun?

Nuramon sorriu.

— Então nos vemos de novo na próxima vida.