A Caçada dos Elfos
O infortúnio
Farodin bateu a porta com pressa e empurrou a trava de madeira.
— Guarde essa espada, senão vai matar o único amigo que ainda tem na cidade. — E olhando depressa ao redor: — Há outra saída?
Guillaume o encarava como se fosse um fantasma.
— O que está acontecendo lá?
— Homens armados. Ocuparam todas as estradas que saem da cidade e invadiram o templo. Parecem ter pouca paciência com sacerdotes como você. — Farodin aproximou-se da janela que dava para a praça do templo e abriu somente uma fresta. — Veja!
Os guerreiros estavam muito bem armados. Quase todos vestiam trajes de malha de ferro e elmos com caudas negras de cavalo. Cerca de metade deles estava munida de machados ou espadas. Nos escudos redondos e vermelhos estava estampado um brasão de armas com uma cabeça branca de touro. Os demais homens estavam equipados com bestas. E mesmo que tivessem arrancado os sacerdotes do templo sem nenhum respeito, estava claro que não eram simples saqueadores. Eles avançavam disciplinadamente. Os besteiros cercavam a praça enquanto os soldados com machados empurravam os sacerdotes até o grande carvalho.
Por ordem de um enorme guerreiro louro, um dos sacerdotes, um homem corpulento e já um pouco mais velho, foi separado de seus companheiros de sofrimento. Amarraram-lhe uma corda ao redor dos pés, lançaram a outra ponta sobre um galho forte e puxaram-no pelas pernas. Desesperado, o religioso tentava puxar o hábito, que insistia em escorregar, exibindo suas partes íntimas.
— Pai Ribauld! — murmurou Guillaume, atemorizado. — O que eles estão fazendo?
— Ouvi dizer que os homens armados perguntaram por seu nome, Guillaume. — Farodin examinou o jovem sacerdote da cabeça aos pés. Certamente não era um guerreiro. — Parece que você acaba de fazer inimigos mortais em dois mundos. O que você fez para que esses homens estejam procurando por você?
O sacerdote afastou o cabelo do rosto, pensativo. Foi só um pequeno gesto, mas Farodin foi invadido por uma dor profunda. Dessa mesma forma Aileen e também Noroelle tiravam o cabelo da testa quando estavam mergulhadas em pensamentos. O sacerdote tinha traços admiravelmente delicados. Farodin via Noroelle no rosto dele, como num espelho distante. Nele, ela continuava viva.
Farodin seguira Nuramon porque temia que seu companheiro pudesse ajudar o sacerdote a fugir. Nos três últimos anos, Farodin fizera as pazes consigo mesmo. Aceitara a ordem da rainha. No dia anterior, na praça do templo, estava pronto para matar Guillaume. Mas, agora... Precisava desviar o olhar, de tanto que Guillaume lembrava Noroelle. Se erguesse uma arma contra ele, seria como se estivesse a apontando contra sua amada.
Ollowain o alertara quando deixou o acampamento para seguir Nuramon em segredo. As palavras do mestre da espada ainda soavam nitidamente em seus ouvidos: “Não se esqueça de que ele também é filho de um devanthar, um mestre no embuste. Ele abusa dos traços de Noroelle como uma máscara que esconde o mal que há por trás dele. Um devanthar é, em carne e osso, o ódio contra os albos e contra nós, seus filhos. Tudo o que pode haver de bom nele já está há muito tempo envenenado pela herança do pai. Você viu o que aconteceu com Gelvuun. Não podemos levá-lo prisioneiro. Na realidade seríamos nós os seus presos. Mesmo que o colocássemos em correntes, poderia matar todos nós apenas com a palavra. E ainda pior: imagine o que uma criatura como essa poderia provocar na Terra dos Albos! Como poderíamos combatê-lo? Temos de cumprir a ordem de Emerelle. Na tarde de hoje, na praça do templo, reconheci a sabedoria da rainha”.
— Eles vieram por algo que eu não fiz — respondeu Guillaume à pergunta de Farodin.
— O quê? — disse Farodin, arrancado de seus pensamentos.
Enquanto isso, os guerreiros na praça batiam com longas varas em Ribauld. Desvalido, o homem balançava para lá e para cá. Seus gritos ressoavam por toda a praça e provavelmente também podiam ser ouvidos ao longe, na cidade. Mas nenhum dos cidadãos correu até ali para ajudar o sacerdote.
— Você está vendo as cabeças de touro nos escudos? — perguntou Guillaume. — Esses são os homens do rei Cabezan. Sua guarda pessoal. Cabezan os mandou atrás de mim. Dizem que seus membros estão apodrecendo com ele ainda vivo, e que está morrendo de forma lenta e dolorosa. Ele ordenou que eu fosse curá-lo. Mas não posso fazer isso. Se eu salvar a vida dele, centenas morrerão, pois Cabezan é um tirano cruel. Ele assassinou seus próprios filhos porque tinha medo de que cobiçassem o seu trono. Ele é dominado pela loucura... Só permite que todos se apresentem nus diante dele, de medo que possam esconder armas nas roupas. Aquele que quer pertencer à sua guarda pessoal precisa assassinar um recém-nascido com os próprios punhos diante dele... Ele só aceita homens sem remorsos ao seu redor. Com Cabezan, o mal reina em Fargon. Por isso não vou curá-lo... Não posso fazer isso. Quando ele finalmente morrer, a maldição que há sobre estas terras terminará. — Os gritos do sacerdote ainda ecoavam na praça. — Eu não posso... — Guillaume tinha lágrimas nos olhos. — Ribauld é como um pai para mim. Eu cresci em uma família pobre de camponeses. Quando meus pais... quando meus pais adotivos morreram, ele me adotou. Ele é...
Um dos sacerdotes mais jovens dos que foram arrancados do templo pelos soldados apontou para a casa de Guillaume.
— Há outra saída? — perguntou Farodin novamente. Em seguida, dois guerreiros atravessaram a praça na direção deles.
O sacerdote disse que sim com a cabeça. Apanhou uma longa faca de pão da mesa e escondeu na manga do hábito.
— Eu vou, assim eles não os matarão também. Mas o rei Cabezan não me verá vivo.
Nuramon colocou-se no caminho.
— Não faça isso. Venha conosco!
— Então você acha que seria mais esperto segui-lo até uma rainha que o mandou para me matar? — Nas palavras de Guillaume não havia nenhuma provocação; ele soava infinitamente triste. — Eu sei que você não quer o meu mal. Mas, se eu sair agora, talvez salve a vida de meus irmãos de ordem e a de vocês. E se você informar minha morte à sua rainha, então ela talvez perdoe minha mãe.
Ele abriu a tranca da porta e saiu para a praça.
Farodin não compreendia por que Nuramon não faria mais nenhuma tentativa de deter o sacerdote. Correu para a porta, mas já era tarde demais. Guillaume já havia sido agarrado pelos guerreiros.
— Cavaleiros do rei — gritou com voz vibrante. — Deixem meus irmãos em paz. Vocês me encontraram.
O líder louro fez um sinal para que seus homens baixassem as bestas. Foi até Ribauld, agarrou o velho homem pelos cabelos e puxou sua cabeça para trás.
— Então você diz ser o curandeiro milagroso! — gritou o guerreiro. Puxou uma faca do cinto e passou-a pela garganta de Ribauld. — Então nos mostre do que você é capaz.
Farodin prendeu a respiração. Guillaume ainda estava muito perto da casa. Se usasse os seus poderes de cura, Nuramon e ele morreriam.
O velho sacerdote balançava para lá e para cá na corda, pendurado na árvore como gado de corte no gancho de um açougueiro. Agora tinha as mãos agarradas ao redor da garganta.
Farodin abriu com força as folhas da janela, que bateram contra a parede da casa com estrondo. Agarrou com ambas as mãos no friso da janela, soltou-se dela e saltou para fora, mostrando sua elasticidade ao aterrissar diante da casa.
— Tire as mãos da minha presa, filho de humanos! — Sua voz era como gelo.
O guerreiro louro pôs a mão sobre o cabo da espada.
— Você já fez a sua entrada triunfal. Agora escape disso aqui.
— Você vai empunhar a arma? Quer um duelo? — Farodin sorriu. — Eu sou o primeiro guerreiro da rainha da Terra dos Albos. Pense bem se quer comprar briga comigo. Estou aqui para buscar o sacerdote Guillaume. Como você vê, eu estava em sua casa. Eu o descobri antes de você. E não vou deixar que arranquem minha presa de mim. Ontem à tarde, ele matou um elfo, e vai responder por isso.
— O primeiro guerreiro da rainha da Terra dos Albos — repetiu o guerreiro louro em tom de zombaria. — E eu sou Umgrid, rei da Terra dos Trolls. — Os homens ao seu redor riram.
Farodin puxou o cabelo para trás, para que pudessem ver suas orelhas pontudas.
— Então você é Umgrid? — O elfo inclinou a cabeça. — Você é mesmo feio o bastante para ser um troll. — Deu meia-volta e olhou para os telhados das casas que cercavam a praça.
— Quem não é troll deve ir embora agora. Esta praça está cercada de elfos. E não vamos deixar que tirem Guillaume de nós.
Alguns dos guerreiros olharam para cima com medo, e ergueram seus escudos.
— Palavras! Nada mais que palavras! — O líder já não soava tão confiante como antes.
— Você deve pedir nossa permissão antes de deixar qualquer um desses avarentos partir — soou a voz de Nuramon. O elfo sacara sua espada e agora estava em pé na porta da casa de Guillaume.
— Matem eles! — O líder dos guerreiros apanhou uma das flechas da besta e apontou-a para Farodin.
O elfo lançou-se para a frente com um salto mortal. Apoiou-se sobre as mãos no pavimento rústico, rolou sobre o ombro esquerdo e chegou à fonte em um instante. Uma flecha atingiu sua face de raspão, deixando um risco de sangue.
Farodin saltou para não se tornar um alvo imóvel para os guerreiros. Parou diante dos pés de um lutador de machado, que aplicou-lhe um golpe com seu escudo redondo que fez Farodin perder o equilíbrio. Cambaleou e chocou-se contra a beirada da fonte. Ainda assim conseguiu desviar do golpe de machado que mirava sua cabeça.
Farodin chutou o escudo do humano para o lado e puxou a espada. Com um golpe de revés, rasgou a barriga do guerreiro e arrancou o machado da mão do moribundo. De todos os lados vinham guerreiros. Na porta da casa, Nuramon já se defendia de dois inimigos. Não havia esperanças para a sua causa. Os homens ganhavam deles em número — eram quase dez para um.
Farodin pulou da beirada da fonte e atirou o machado contra um dos besteiros que o mirava. A arma encontrou seu alvo, que emitu um som terrível.
O elfo desviou de mais um golpe de machado, esquivou-se de uma espada e feriu um dos agressores no ombro, por cima do escudo. Os guerreiros agora formavam um grande círculo ao seu redor.
— E agora, quem é o próximo de vocês a agonizar? — provocou Farodin.
Enquanto isso, o gigantesco líder havia colocado um elmo e afivelado um escudo no braço.
— Vamos pegá-lo! — disse, avançando e erguendo o machado duplo.
Farodin era atacado por todos os lados. O guerreiro elfo ficou de cócoras para desviar dos golpes raivosos. Fez um giro baixo com a espada. Como uma faca quente na cera, sua lâmina de aço élfico cortava as pernas de todos que se aproximavam.
Algo roçou o braço esquerdo de Farodin, e sangue encharcou sua camisa. Com uma calma mortal, deteve um golpe de machado que mirava seu peito. A espada destroçou o cabo de madeira da arma. Os humanos moviam-se desajeitadamente. Farodin já observara isso em Mandred antes. Eles eram valentes e fortes, mas, comparados a um elfo que treinara a luta de espada ao longo de séculos, eram como crianças. Mas quanto ao resultado da luta, dificilmente haveria dúvidas. Eles simplesmente eram numerosos demais.
Como um dançarino, Farodin movimentava-se entre as fileiras de adversários, abaixando-se sob os golpes para reagir imediatamente em contra-ataque.
De repente estava diante do comandante louro.
— Vou fazer um colar com suas orelhas — provocou o homem. Ele atacou com um golpe impetuoso, mirando o braço de Farodin que segurava a espada, mas mudou de direção no meio do ataque.
Com um passo dançante, Farodin esquivou-se e chutou o gigante com toda a força sob a borda do escudo. Com um ruído repulsivo, a borda de cima do escudo, revestida de ferro, chocou-se contra o queixo do agressor. O gigante mordeu com força o lábio inferior e cuspiu sangue.
Farodin fez uma rotação e aplicou outro pontapé no escudo, que caiu para o lado. Com o lado plano da espada, atingiu o rosto do líder em cheio.
O gigante tropeçou. Farodin o agarrou, arrancou-lhe o elmo da cabeça e pôs a lâmina sobre sua garganta.
— Parem de lutar ou o seu líder morre! — gritou o elfo.
Os guerreiros recuaram. Um silêncio lúgubre baixou sobre a praça, interrompido somente pelos gemidos baixos dos feridos.
Nuramon saiu da casa do sacerdote. Sua camisa de couro estava suja de sangue.
— Vamos recuar para dentro do templo! — gritou Farodin para ele.
— Vocês jamais sairão vivos de Aniscans — disse o líder dos humanos, de forma ameaçadora e alto o suficiente para que seus homens pudessem ouvi-lo. — A ponte está ocupada. Todas as ruas estão bloqueadas. Estávamos preparados para o caso de o curandeiro criar dificuldades. Entreguem-se e prometo a vocês uma morte rápida.
— Nós somos elfos — retrucou Farodin friamente. — Você realmente acha que seria capaz de nos deter? — Fez um sinal para Nuramon, e seu companheiro foi com dois sacerdotes até a porta do templo.
Guillaume estava pálido como um cadáver. Durante a luta ficara simplesmente ali em pé, observando. Estava claro que era totalmente incapaz de infligir dor a alguém.
— Você está sangrando, elfo — disse o guerreiro louro. — Você é de carne e osso como eu. E pode morrer, assim como eu. Antes que o sol se ponha, beberei vinho no seu crânio.
— Para um homem com uma espada na garganta, é notável como você parece confiar no futuro. Farodin andou lentamente de costas na direção da alta porta do templo.
Os besteiros ao seu redor recarregavam suas armas.
Farodin pensou em Mandred e nos demais companheiros que havia deixado para trás na montanha do vinhedo. Será que viriam? Eles provavelmente viram o templo ser atacado.
Ele empurrou seu prisioneiro rapidamente para o chão e pulou através da porta do templo. Flechas dos besteiros zuniam ao seu redor. Nuramon bateu a pesada porta de carvalho e colocou a barra atravessando a porta. Farodin observou preocupado a camisa de Nuramon, empapada de sangue.
— Está muito ruim?
O elfo olhou para baixo.
— É mais sangue de humanos do que o meu próprio.
Estava escuro e frio dentro do templo. Sólidas vigas de madeira atravessavam o teto, suportado por fortes colunas. O templo inteiro era composto de uma só sala. Não havia móveis, nem um púlpito onde um orador pudesse subir. O único adorno era um menir, uma pedra de mais de dois metros de altura com alguns caracteres gravados. As paredes eram caiadas de branco e divididas em duas galerias, que iam até o fim das paredes internas. Ainda acima das galerias havia janelas altas, através das quais a luz pálida da manhã cintilava. Lâmpadas a óleo queimavam em nichos ao longo das paredes e, em torno do menir, erguiam-se incensários de cobre, dos quais subia uma fumaça pálida.
A construção como um todo lembrava a Farodin mais uma torre de fortificação que um templo. Que tipo de deus seria Tjured? Um guerreiro certamente não era, tão desamparados estavam seus criados. Ambos os sacerdotes ajoelharam-se diante do menir, no meio do átrio redondo do templo. Rezavam submissos, agradecendo por terem sido salvos.
— Guillaume? — gritou Nuramon, que ainda estava em pé perto da porta. — Onde você está?
O curador saiu de trás de uma das colunas. Parecia estranhamente calmo, quase absorto.
— Vocês deviam ter me cedido a eles. Depois do banho de sangue na praça do templo, eles não descansarão até que estejamos todos mortos.
— Será possível que você esteja ansiando por sua própria morte? — perguntou Farodin aborrecido.
— Mas vocês não foram enviados para me matar? Que sentido faz disputar o privilégio de ser meu carrasco?
Farodin fez um gesto de desdém.
— O que rumina sobre a morte durante uma luta é o que deixará a vida. É melhor que você tenha alguma utilidade. Leve-nos até a saída dos fundos. Talvez possamos escapar por lá.
Guillaume abriu as mãos num gesto de desamparo.
— Isto é um templo, não uma fortaleza. Não há saída traseira, nenhum túnel escondido nem portas secretas.
Farodin olhou em volta sem acreditar. Ao lado do portal, uma escada em caracol subia até ambas as galerias. Sob as vigas do teto, os muros eram cortados por altos vitrais arqueados e coloridos. Eles mostravam imagens de sacerdotes vestindo os hábitos azuis-escuros dos veneradores de Tjured. Confuso, o elfo observava os vitrais. Um deles exibia um sacerdote sendo jogado em um caldeirão sobre uma fogueira. Em outra imagem, um sacerdote tinha os braços e pernas cortados e, em uma terceira, um homem de hábito azul era queimado em uma fogueira por selvagens que vestiam peles de animais. Quase todos os vitrais retratavam cenas de assassinatos. Agora Farodin entendia o motivo de Guillaume permanecer tão sereno. Ter um fim terrível era aparentemente a maior realização de um sacerdote de Tjured.
O som de um trovão arrancou o elfo de seus pensamentos. Poeira fina penetrou por entre as fendas da porta do templo. Outro trovão se seguiu, e as pesadas folhas da porta rangeram em seus ângulos. Farodin praguejou baixo. Parecia que os guardas do rei haviam encontrado algo para servir de aríete.
— Parem de rezar e façam alguma coisa de útil — bradou o elfo a ambos os sacerdotes, ajoelhados diante do menir. — Recolham todas as lâmpadas de óleo dos nichos. Nuramon, tente encontrar uma tocha. Então subam até a galeria superior. Depois vou tirá-los de novo dessa armadilha e trazê-los para baixo.
Com um estalo, uma das grossas tábuas de madeira da porta se partiu. Logo ela não conseguiria mais detê-los.
Inclemente, Farodin obrigou os sacerdotes a se apressar. Para subir a escada em caracol sem tropeçar, precisavam segurar seus longos hábitos, como se fossem saias. Da segunda galeria era possível chegar às janelas do templo. Por causa da espessura dos muros, elas ficavam em nichos profundos. Ao esticar os braços, Farodin conseguia agarrar diretamente a beirada inferior dos nichos. De um só golpe, ele puxou-se para cima e subiu diante da imagem de vidro de um dos sacerdotes, cujos membros destroçados eram trespassados pelos raios de uma roda. Os rostos dos torturadores pareciam impassíveis; o artista também não refletira sobre a combinação das cores do vidro com a luz da manhã. Era uma obra de arte inferior, que mesmo alguém sem talento conseguiria criar em um ou dois anos de trabalho razoável e ambicioso. Esse trabalho malfeito sequer podia ser comparado aos vitrais do castelo de Emerelle, feitos juntando milhares de fragmentos de vidro. Naquelas janelas trabalharam os mais talentosos artistas da Terra dos Albos ao longo de décadas, para conseguir criar uma combinação perfeita do vidro com a luz de cada hora do dia.
Farodin puxou a espada e golpeou o sacerdote no vitral bem em seu rosto deformado de dor. A vidraça quebrou-se com grande ruído. Com poucos golpes, o elfo arrancou as armações de chumbo dos fragmentos de vidro para que pudessem pisar no nicho da janela e observar os agressores na praça do templo.
Farodin ouviu os sacerdotes se lamentarem na galeria. Escutou nitidamente a voz de Guillaume:
— Por Tjured, ele destruiu o retrato de São Romuald. Estamos perdidos!
Farodin recuou um pouco no nicho para que não pudesse ser visto da praça. A torre do templo estava cercada por um andaime de madeira. Pouco mais de meio metro abaixo da janela, havia uma plataforma estreita para os trabalhadores. De lá era possível subir mais pelo andaime. Desconfiado, Farodin examinou as escoras de madeira. Para ele, tudo parecia inacabado.
Lateralmente à torre do templo havia uma casa para peregrinos. Sua fachada era dividida por nichos onde havia estátuas de santos. Era mais enfeitada que a torre onde os humanos rezavam para Tjured. Com um pouco de ousadia, era possível pular do andaime sobre o telhado. A partir dali podiam passar para outros telhados e escapar dos enviados do rei.
Farodin atravessou a janela, voltando para dentro. Os sacerdotes o aguardavam de cara fechada. Sem poder fazer nada, Nuramon deu de ombros:
— Eu não os entendo.
— Mas o que há de tão difícil para entender? — perguntou um sacerdote jovem e ruivo. — Vocês destruíram um retrato de São Romuald. Ele era um homem colérico, que encontrou tarde o caminho para Tjured e que foi assassinado pelos pagãos nas florestas de Drusna. Amaldiçoou todos que levantaram a mão contra ele. Em poucos anos, seus assassinos estavam mortos. Os pagãos ficaram tão impressionados com isso que passaram a crer em Tjured aos milhares. Dizem que sua maldição ainda vigora. Quem profana um de seus retratos tem de contar com o pior. Mesmo como santo, Romuald continuou um homem colérico.
Farodin não acreditava no que ouvia. Como podiam crer numa loucura dessas?
— Vocês não fizeram nada. A maldição de Romuald só vai atingir a mim. Não precisam se preocupar, nós... — A porta do templo arrebentou sonoramente.
— Nuramon, vá na frente. Conduza os sacerdotes. Precisamos escalar o andaime, um a um, e então saltar para a casa vizinha. Assim damos menos na vista. E não devemos sobrecarregar o andaime com muito peso.
Lá embaixo, no átrio, soavam os gritos dos guerreiros.
— Joguem o óleo das lâmpadas no andaime depois de fugir.
— Por que eu? — perguntou Nuramon. — Você conhece o caminho...
— E eu luto melhor com a espada.
Nuramon encarou-o ofendido.
— Vá! Eu vou segurá-los.
Ouviam passos pesados na escada em caracol. Farodin agarrou as lâmpadas e jogou-as degraus abaixo. Então rasgou uma manga de sua camisa e a embebeu em óleo. Pôs fogo no tecido com o pavio de uma lâmpada. O óleo não era de boa qualidade e o fogo demorou para pegar; uma fumaça densa e escura subiu quando o pano finalmente começou a queimar. O elfo lançou a manga escada abaixo e observou como as chamas queimaram rápido o óleo derramado e o fogo consumiu o tecido num instante... e se apagou.
Perplexo, Farodin examinou os degraus. A qualidade do óleo era mesmo terrível! Um primeiro guerreiro surgiu na beirada da escada. Amedrontado, escondia-se detrás de seu escudo. A visão do elfo o fez hesitar. Então foi empurrado pelos guerreiros que o seguiam e obrigado a prosseguir.
Farodin esticou-se, alongando os músculos. Estava decidido a ter uma boa luta contra os humanos. De canto de olho, viu um grupo mirar suas flechas no átrio inferior. A direção dos tiros foi péssima. As flechas bateram no revestimento de madeira da galeria e uma das grandes janelas quebrou-se com ruído.
Impulsionado pelos gritos enfurecidos de seus companheiros, o escudeiro deu mais um salto para a frente e escorregou nos degraus cobertos de óleo. Caiu pesadamente pela escada e levou vários de seus camaradas consigo.
— Venha! — Guillaume estava de pé no nicho da janela, acenando para Farodin. — Os outros já estão no telhado.
O elfo embainhou a espada. Guillaume agarrou seu braço e o puxou para cima, para o nicho da janela. Apesar de ser magro, o sacerdote era surpreendentemente forte. Só com uma mão ajudara Farodin a subir. Seria essa força uma herança de seu pai?
Uma flecha atingiu ruidosamente o topo arqueado do nicho da janela. Ouvia-se a voz do líder dos guerreiros na praça do templo. Tinha descoberto a rota de fuga.
— Vá na frente! — disse Farodin.
O sacerdote hesitou.
— O que você está esperando?
— Eu... eu tenho medo... de altura. Se olhar para baixo fico paralisado. Eu... eu não consigo. Deixe-me para trás!
Farodin agarrou Guillaume rudemente pelo braço.
— Então nós vamos juntos!
Arrastou-o até a beirada do nicho. Juntos pularam sobre a plataforma de madeira sob a janela. O andaime tremeu com o impacto. Com o coração batendo forte, Farodin espremeu-se contra a parede de pedra. Um golpe surdo soou, e o andaime inteiro balançou novamente. Em algum lugar embaixo deles uma viga de madeira se soltou e despencou sonoramente nas profundezas.
Quando o andaime tremeu uma terceira vez, Farodin curvou-se sobre a borda e viu com horror o que acontecia. Lá embaixo, diante da porta, um grupo de guerreiros agarrara uma barra grossa e batia-a continuamente contra a viga de sustentação do andaime. Aqueles tolos pareciam não perceber que eles mesmos seriam enterrados sob os escombros, se o andaime de quase quinze metros de altura desmoronasse!
Algo partiu-se sob eles. Sentiram um solavanco quando uma das plataformas de construção se inclinou e despencou nas profundezas, destruindo algumas vigas de sustentação.
Farodin sentiu seu estômago encolher dolorosamente. Só mais alguns instantes e todo o andaime viria abaixo.
— Cuidado! — soou a voz do sacerdote.
O elfo deu meia-volta. No mesmo momento o guerreiro que escorregara degraus abaixo pisou sobre o estrado. Um som de estilhaços acompanhou o impacto da subida do pesado homem. Atacou com seu pesado machado, num golpe rápido.
Farodin deixou-se cair para desviar do golpe. Queria enganchar um pé por trás do calcanhar do agressor, quando a plataforma cedeu. Por reflexo, o elfo agarrou-se em um pilar de madeira enquanto seu oponente despencou, agitando os braços. Naquele momento pareceu que a pesada plataforma encontrara um equilíbrio instável. Estava inclinada para baixo num ângulo íngreme.
O coração de Farodin batia como um trovão. Precisavam ir adiante e sair do andaime. Como se quisesse enfatizar esse seu pensamento, uma seta disparada por uma besta cravou-se na madeira a um palmo de sua cabeça. O sacerdote se salvara sobre uma tábua estreita que dava em uma escada, pela qual era possível descer até o nível seguinte do andaime. Guillaume enlaçara os braços ao redor dos joelhos e espremia-se o quanto podia contra a parede da torre. Nuramon e os dois sacerdotes de Tjured estavam no telhado da casa dos peregrinos, para fugir da mira dos besteiros da praça do templo. Farodin viu o líder da guarda enviar pequenas tropas de homens para cercar a casa. A tentativa de fuga falhara.
Com muito barulho, o aríete chocou-se contra a pilastra do andaime. Chiados e rangidos percorreram a frágil construção de madeira. A plataforma ao lado de Farodin inclinou-se. Angustiado, o elfo olhou para baixo. Como uma gigantesca lâmina de machado, várias vigas transversais se romperiam assim que se soltasse.
Farodin pendurou-se em uma viga ao longo da tábua onde Guillaume estava agachado. O sacerdote tinha os olhos fechados e rezava em voz baixa.
— Precisamos sair daqui — gritou Farodin. — Tudo vai despencar a qualquer momento.
— Eu não consigo — gemeu Guillaume. — Não consigo me mover nem mais uma polegada. Eu... — ele soluçou. — Meu medo é mais forte que eu.
— Você tem medo de cair? Se você não se mexer, então vamos morrer os dois!
Como se quisesse reforçar as palavras de Farodin, um novo solavanco percorreu o andaime. A plataforma danificada balançava para a frente e para trás. De repente ouviu-se um estampido agudo. O último suporte cedera sob o peso, e a plataforma despencou no vazio.
Farodin agarrou o sacerdote e empurrou-o para a frente. Como um enorme machado, a plataforma de obras rompeu madeiras e vigas. Um pedaço inteiro do andaime soltou-se da parte principal e inclinou-se lentamente na direção do carvalho na praça do templo.
O pânico deu a Farodin uma força inimaginável. Ele levantou o sacerdote e carregou-o nos braços como uma criança grande. Apavorado, Guillaume se agarrava a ele. O elfo mal era capaz de ver onde pisava.
Agora tudo no andaime parecia estar em movimento. A tábua em que andava tremia cada vez mais forte. Horrorizado, Farodin viu os ganchos de fixação no muro do templo se quebrarem. Não conseguiriam mais descer a escada até a plataforma que os levaria com um pequeno salto até o telhado da hospedaria. Precisariam tentar um pulo de uma altura maior!
Então, correu como raras vezes correra na vida. Vigas e hastes de madeira choviam do alto sobre eles. O andaime chacoalhava para lá e para cá. O elfo sabia que carregando Guillaume era difícil conseguir dar um salto muito longo. Como alguém que se afoga e, com medo, puxa seu salvador para baixo junto consigo, o sacerdote não largava o elfo.
Sem aviso prévio, a tábua em que estavam vergou-se. Mais dois passos e alcançariam o ponto certo para saltar... Na queda, Farodin agarrou uma corda que estava enroscada ao redor da viga de sustentação, que igualmente curvou-se para o chão.
Algo pesado como o punho de um troll atingiu Farodin nas costas. Sentiu várias costelas se partirem. A corda de suporte balançara na direção da casa de peregrinos e agora oscilava de volta.
Semiconsciente, Farodin soltou a corda que segurava. Guillaume deu um grito estridente enquanto caíam. Despencaram com força sobre o telhado. Ripas de madeira se despedaçaram com o choque. Farodin foi jogado em outra direção e, sem força, rolou seguindo a inclinação da superfície, escorregando sobre a beirada do telhado. Com a mão esquerda, ainda conseguiu segurar-se em uma viga horizontal diante dele. Seu corpo balançou e bateu com força contra o muro da construção.
— Ali está um deles — gritou alguém de baixo.
Farodin segurava-se firmemente com ambas as mãos na viga, mas suas forças já não eram suficientes para lançar-se para cima. Flechas de bestas cravaram-se ao seu redor.
Com um estrondo ensurdecedor, o andaime junto ao templo veio abaixo. Uma imensa nuvem de poeira cobriu a praça.
Uma pancada atingiu a coxa direita de Farodin. O elfo berrou de dor. Uma flecha transpassara sua perna e fincara-se, suja de sangue, na parede da construção.
Lentamente, os dedos de Farodin escorregavam da beirada da viga. Sua vontade se despedaçara. Não era mais capaz de lutar.
— Segure a minha mão.
Farodin encarou os olhos azuis arregalados de medo de Guillaume que, debruçado no telhado, estendia-lhe a mão.
— Eu não consigo mais...
— Tjured, afaste o meu medo — murmurou o sacerdote.
Sua face brilhava de suor quando avançou um pouco mais e agarrou o pulso de Farodin. Com um tranco que quase deslocou seu braço, o elfo foi puxado para cima do telhado.
Farodin arfava. Estava com frio. Seu ferimento na coxa sangrava muito.
Guillaume, que enroscara um pé entre os caibros para encontrar apoio, ergueu metade do corpo. Olhava a ferida com preocupação.
— Vou amarrar sua perna para fazer um torniquete. Senão você vai...
Uma última fagulha de vida acendeu-se em Farodin. Assustado, rastejou para se afastar do sacerdote.
— Não me toque. Você... Não tente me...
Guillaume riu cansado.
— Amarrar. Não falei de cura. Eu só queria... — Ele tossiu. Sangue escorreu de seus lábios. O sacerdote apalpou a boca e olhou para os dedos ensanguentados. Uma mancha escura crescia rápido em seu hábito. Uma flecha de besta o atingira sob as costelas e atravessara o seu tronco.
De repente Guillaume tombou para o lado como uma árvore. Farodin tentou agarrá-lo, mas tudo foi rápido demais. O sacerdote despencou pela beirada do telhado. Farodin pôde ainda ouvir o filho de Noroelle estatelar-se contra o chão da praça do templo.