A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 25 de 34

Páginas do PDF

A Caçada dos Elfos

Três faces

 

A porta para a sala do trono estava aberta. Na outra ponta, Nuramon viu a rainha de pé ao lado da tigela de prata. Queria entrar, mas mestre Alvias colocou-se no caminho.

— Aonde quer ir, Nuramon?

— Quero falar com a rainha sobre Noroelle e pedir clemência.

— Você não deve pisar nesta sala assim alterado!

— Você teme que eu erga a mão contra Emerelle?

Mestre Alvias olhou para baixo.

— Não.

— Então saia do meu caminho!

Alvias olhou para a rainha, que consentiu com a cabeça.

— Ela irá recebê-lo — disse ele, contrariado. — Mas domine os seus sentimentos! — Com essas palavras, afastou-se.

Enquanto Nuramon seguia em direção a Emerelle, ouviu o portão se fechar atrás de si. A rainha desceu até os degraus diante do trono. Seu semblante era de calma e bondade. Nunca vira ela personificar tão bem a mãe de todos os filhos dos albos.

Nuramon sentiu sua ira esvanecer. A rainha continuou ali, em silêncio, olhando-o como naquela noite em que o visitara em seu quarto e lhe dissera palavras encorajadoras. Era inevitável pensar na fala do oráculo que ela compartilhara e que para ele tanto significava.

— Eu sei o que está pensando, Nuramon. Aprecio em você que ainda não tenha aprendido a ocultar os seus sentimentos.

— E até agora sempre apreciei o seu senso de justiça. Você sabe que Noroelle jamais poderia fazer algo abominável.

— Obilee contou o que aconteceu?

— Sim.

— Esqueça por um momento que Noroelle era sua amada, e diga-me que ela não tem culpa!

— Ela é o que mais amo. Como poderia me esquecer disso?

— Então você não é capaz de entender o porquê de precisar ter feito isso.

— Eu não vim aqui para entender. Eu vim aqui para implorar misericórdia.

— A rainha nunca voltou atrás de uma sentença.

— Então também vou me exilar no lugar em que Noroelle está. Conceda a mim ao menos esse ato de misericórdia.

— Não, Nuramon. Não vou fazer isso. Não posso banir um filho de albos inocente.

E o que era Noroelle? Ela não era mais vítima que culpada? Ela fora enganada e estava sendo castigada por isso. Emerelle não deveria reunir suas forças para punir o verdadeiro malfeitor?

— Onde está o devanthar?

— Ele fugiu para o mundo dos humanos. Ninguém é capaz de dizer com que aparência ele se disfarçou. Só sabemos de uma coisa: ele é o último de sua espécie. E ele quer o nosso declínio. Sua essência é a vingança.

— A culpa de Noroelle será abrandada se formos capazes de exterminá-lo?

— O devanthar jogou o seu lance. Agora está só esperando para ver no que vai dar.

Nuramon estava em desespero.

— Mas o que podemos fazer? Não é possível que não possamos fazer nada!

— Há uma coisa... Mas a pergunta é se você está pronto para isso.

— Você pode pedir qualquer coisa... Prometo fazer tudo para libertar Noroelle.

— Uma promessa ousada, Nuramon. — A rainha hesitou. — Eu aceito a sua palavra. Consiga companhia e encontrem o filho de Noroelle. Lembre-se que agora ele já é adulto. Muitos já procuraram por ele em vão. Então você não é o primeiro a partir. Talvez tenha mais sorte, pois você tem a motivação necessária para encontrar o filho de um demônio.

— Noroelle temia pela vida de seu filho. Não devemos temer também?

Emerelle fez um longo silêncio e encarou Nuramon.

— Noroelle tinha escolha. Ela escolheu a condenação quando decidiu proteger o filho de um devanthar.

— E como posso ser capaz disso se não era o que ela queria?

— Suas promessas duram assim tão pouco? — objetou Emerelle. — Para que eu liberte Noroelle, você e seus companheiros precisam matar o filho do devanthar.

— Como você pode me infligir uma dor como essa? — retrucou Nuramon em voz baixa.

— Pense na sua culpa e na de seus companheiros. Porque vocês falharam, o devanthar conseguiu vir até Noroelle. Ele assumiu a sua forma, aproveitou-se de Noroelle e gerou esse filho. Por isso Noroelle não pôde desistir: por achar o tempo todo que você fosse o pai da criança, e que por isso ela carregava a sua alma. Ela até mesmo deu a ele o seu nome. Você não estará fazendo isso somente por Noroelle, mas também por você e por seus companheiros.

Nuramon hesitou. Não conseguia ficar alheio à verdade que havia em suas palavras. Ele tinha certeza de que jamais conseguiria matar uma criança. Mas o filho de Noroelle já seria há muito tempo um adulto. Certamente já haveria revelado sua verdadeira essência.

— Encontrarei o filho de Noroelle e o matarei — sentenciou.

— E eu escolherei os melhores guerreiros para acompanhá-lo. Farodin certamente o acompanhará.

— Não. Aceitarei a ajuda de seus guerreiros, mas não vou pedir a Farodin que me acompanhe. Se Noroelle voltar, ela tem o direito de me odiar por ter matado o seu filho. As mãos de Farodin, contudo, não estarão cobertas de sangue. Ela encontrará o amor que merece nos braços dele.

— Está bem, a decisão é sua. Mas ao menos você não rejeitará os cavalos do meu estábulo, tenho certeza. Escolha os mais apropriados para você e seus companheiros.

— Assim o farei, rainha.

Emerelle aproximou-se dele. Agora observava-o cheia de compaixão. O aroma que a cercava trazia calma.

— Todos nós devemos seguir o nosso destino até onde ele nos levar. Mas escolhemos como trilhar esse caminho. Acredite nas palavras com as quais o aconselhei naquela noite. Elas ainda valem. O que quer que digam sobre você no futuro, jamais poderão dizer que traiu o seu amor. Agora vá e descanse no seu quarto. A Caçada dos Elfos retornou, e vocês devem se recuperar em seus aposentos. Decida você mesmo quando quer partir. Dessa vez vocês não cavalgarão como a Caçada dos Elfos, mas somente a serviço da rainha.

Nuramon lembrou da armadura que Emerelle lhe concedera.

— Gostaria de lhe devolver a armadura, o casaco e a espada.

— Estou vendo, a armadura de dragão e o casaco lhe prestaram bons serviços. Deixe-os no seu quarto, como manda a tradição. Mas a espada é sua. É um presente. — Emerelle ergueu-se nas pontas dos pés e beijou-o na testa. — Agora vá e confie na sua rainha.

Nuramon obedeceu às suas palavras. Olhou para trás mais uma vez antes de deixar a sala. Ela sorria amigavelmente. Ao chegar lá fora e juntar-se aos outros, não conseguia entender a mudança de rumo que a conversa tomara. Emerelle o recebeu como uma mãe benevolente, julgou-o como uma rainha de coração gelado e dispensou-o como uma velha amiga.