A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 22 de 34

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A Caçada dos Elfos

O preço da palavra

 

O céu da primavera era de um azul tão límpido que os olhos de Mandred inundaram-se de lágrimas à sua visão. Finalmente livres de novo! Sem distinguir o dia da noite, era difícil dizer quanto tempo estiveram dentro da caverna. Mas era possível que somente poucos dias tivessem passado. Além disso, provavelmente havia algum feitiço em ação, pois de que outra forma poderiam ter entrado na gruta durante o inverno e deixá-la agora na primavera?

O olhar de Mandred seguiu uma águia que voava bem alto, com suas asas majestosamente abertas, em grandes círculos sobre a clareira.

Ali em cima das montanhas, o inverno nunca partia. Mas o sol iluminava os seus rostos enquanto andavam no gelo, descendo até o fiorde.

Seus companheiros estavam calados. Naquela manhã sepultaram Vanna e o lobo morto em uma pequena caverna afastada do Vale de Luth. Os elfos entregavam-se silenciosos aos seus pensamentos. E Svanlaib... O construtor de barcos tinha algo de estranho. É claro que até certo ponto o seu comportamento podia ser explicado pela reverência que sentia pelos elfos. Afinal, que outro mortal já tivera a chance de encontrar em pessoa os personagens cujas sagas emocionantes eram cantadas pelos bardos? Mas ainda havia algo mais no comportamento de Svanlaib. Algo latente. Mandred sentia o olhar cerimonioso do homem sobre as suas costas. Svanlaib lhe fizera algumas perguntas estranhas. O construtor de barcos parecia conhecê-lo.

Mandred sorriu satisfeito. Isso não era de se admirar! No fim, havia abatido sete homens sozinho em nome do rei e prendido o até então invencível devanthar no alto das montanhas, atravessando-o com sua lança. Olhou para o cabo destroçado da arma, que levava na mão direita. Um pesado e sanguinolento saco pendia debaixo da longa lâmina da lança. Fora cortado da pele da fera, e guardava o seu fígado. “Manterei a minha palavra”, pensou Mandred, feroz.

A descida das montanhas até o fiorde durou três dias. Cada passo que davam os levava cada vez mais para dentro da primavera. O verde-claro e fresco enfeitava os galhos dos carvalhos. Era arrebatador o aroma das florestas, mesmo que as noites ainda fossem muito frias. Svanlaib fizera a Farodin e Nuramon inúmeras perguntas sobre a Terra dos Albos. Mandred estava feliz por ser poupado da tagarelice do construtor de barcos. Mas o homem o seguia com o olhar. Sempre que achava que Mandred não perceberia, encarava-o insistentemente. “Se esse cara não tivesse nos tirado da caverna, já teria sido apresentado a meus punhos há muito tempo”, pensava Mandred de quando em quando.

Quando finalmente saíram dos bosques e apenas um extenso pasto os separava de Firnstayn, Mandred começou a correr. Seu coração batia selvagem como um tambor quando chegou ao cume de onde podia ver o fiorde ao longe. Bem acima dele estava o rochedo com o círculo de pedra. Lá homenagearia os deuses, mas só depois de apertar Freya em seus braços...

E seu filho! Sonhara com ele na Gruta de Luth. No sonho, era um jovem rapaz que vestia um longo traje de malha de ferro. Um espadachim, cujo nome era conhecido em todas as terras dos fiordes. Mandred sorriu. Essa história de espada era certamente um engano. Um verdadeiro guerreiro lutava com machados! Logo ensinaria isso a seu filho.

Mandred estava admirado com a dedicação com que se havia trabalhado na aldeia. Três novas casas comunais haviam sido erguidas e o píer fora prolongado um pouco mais para dentro do fiorde. Ainda havia mais de uma dúzia de cabanas menores. A paliçada fora derrubada e substituída por um muro de terra batida bem mais abrangente.

Durante o inverno, algumas novas famílias deviam ter chegado ao vilarejo. Talvez a fome os tivesse expulsado de seus lugares de origem. O punho de Mandred fechou-se com mais força em torno do cabo da lança. Aparentemente haveria luta. Um homem não é um jarl por herança de sangue. Esse era um título que era necessário conquistar e certamente havia na aldeia vários rapazes de sangue quente que gostariam de disputar a sua posição. Mandred olhou para os seus companheiros, que nesse meio-tempo haviam cruzado o pasto. Se voltasse para casa com dois elfos a seu lado, talvez isso faria muitos pensarem bem antes de comprar briga com ele. A presença de Nuramon e Farodin em seu átrio era necessária por pelo menos uma noite. A maior quantidade possível de homens deveria vê-los. Dessa forma, até o fim do verão a história da caçada ao devanthar se espalharia e ecoaria mesmo nos vales mais remotos das terras dos fiordes.

Nuramon olhou para cima, para o círculo de pedras, cheio de saudade. Mas Mandred disse:

— Sejam meus hóspedes ao menos por uma noite, camaradas! Vamos beber ao pé da lareira em memória a nossos amigos mortos. — Hesitou por um momento antes de completar: — Assim vocês me farão um grande favor. Gostaria que todos os homens e mulheres da aldeia os vissem.

Os elfos trocaram um olhar. Foi Farodin quem concordou com a cabeça. E juntos iniciaram a descida até o fiorde.

Desde que revira a aldeia, Mandred estava tomado de uma agitação sem fim. Será que Emerelle já viera? Não, não podia ser! Um ano, ela dissera. Ainda lhe restava tempo. Encontraria um jeito de salvar o seu primogênito.

A aldeia... Havia algo de errado com Firnstayn. Crescera rápido demais. Embora tivessem feito muitas provisões para o inverno, elas nunca teriam sido suficientes para alimentar tantas bocas. E os telhados das casas novas... Sua madeira estava escurecida e dos cumes desciam caminhos brancos de excrementos de gaivota. As ripas de madeira pareciam já ter visto mais de um inverno chegar e partir.

Mandred lembrou-se de seus sonhos na Gruta de Luth. Eram sombrios e repletos de ruídos de armas. Neles havia encontrado trolls e guerreiros poderosos para, por fim, ver-se cavalgando sob um suntuoso estandarte branco, no qual se via um brasão que estampava um verde carvalho. Os homens que o seguiam estavam armados de forma estranha. Vestiam armaduras feitas totalmente de chapas de ferro e seus rostos estavam escondidos sob pesados elmos. Aos olhos de Mandred, pareciam um muro de aço. Até os cavalos estavam vestidos com o metal. Mandred também vestia uma armadura como essa. O guerreiro sorriu e tentou insistentemente afastar do pensamento essa atmosfera obscura. Essa história de armadura era um bom agouro! Para poder pagar por tanto aço, um dia ele seria muito rico. O futuro então prometia coisas boas. E, em pouco tempo, teria Freya em seus braços!

Ao alcançar a margem do fiorde, Mandred acenou com os braços e gritou em alto e bom som, para chamar a atenção para si.

— Ei, venham nos buscar! Aqui estão três heróis e um peregrino, e temos a garganta seca!

Naquele ponto o fiorde ainda tinha mais de cem passos de largura. Alguém no píer reparou neles e acenou de volta. Então um dos barcos usados pelos pescadores foi preparado. Dois homens remaram para atravessar o fiorde, mas pararam ainda a uma boa distância da margem. Mandred jamais vira qualquer um deles.

— Quem são vocês? E o que querem em Firnstayn? — perguntou o mais jovem deles, desconfiado.

Mandred contara com isso — que os elfos talvez os pusessem medo. Esguios e bem armados, eles não pareciam viajantes habituais. O fato de sequer serem humanos não era mesmo perceptível à primeira vista.

— Diante de vocês está Mandred Torgridson, e estes são meus companheiros Nuramon, Farodin e Svanlaib Hrafinson.

— Você tem o nome de um morto, Mandred! — A voz ressoou sobre a água. — Se isso é uma piada, Firnstayn não é o lugar certo para brincadeiras assim.

Mandred gargalhou.

— Não foi a besta que acabou com Mandred... Eu aniquilei o monstro. — Ergueu a lança bem acima da cabeça, para que pudessem ver bem o saco ali preso. — E aqui está o meu troféu. Vocês dois não devem ser daqui! Vão buscar o Hrolf Dentes Negros ou o velho Olav. Eles me conhecem bem. Ou tragam Freya até mim, a minha mulher. Ela vai partir a cabeça de vocês com a colher de pau se a deixarem esperando mais tempo.

Os dois homens trocaram algumas palavras e então levaram o barco até a margem. Ambos o olhavam de forma esquisita.

— Você é mesmo Mangred Torgridson? — perguntou respeitosamente o mais velho dos dois. — Estou reconhecendo você, mesmo que não pareça ter envelhecido nenhum dia desde a última vez que o vi.

Mandred encarou bem o homem. Nunca o tinha visto na vida.

— Quem é você?

— Sou Erek Ragnarson.

Mandred franziu a testa. Conhecia uma criança com esse nome. Um moleque atrevido de cabelo vermelho. Filho de seu amigo Ragnar, que o devanthar assassinara.

— Leve-nos até o outro lado — disse Svanlaib, entrando na conversa. — Vamos continuar essa conversa na frente de uma boa caneca de hidromel. A minha garganta está seca como um rio na estiagem, e este não é um bom lugar para acolher viajantes cansados. Pelo menos de mim vocês se lembram, não? Estive aqui na aldeia há um par de dias.

O pescador mais velho abanou a cabeça afirmativamente. Então fez um sinal para que entrassem no barco. Quando Nuramon e Farodin embarcaram, Mandred viu Erek furtivamente fazer o sinal do olho protetor. Teria reconhecido o que eram?

A travessia sobre o fiorde transcorreu em profundo silêncio. Erek olhava sobre os ombros a todo instante. Em uma das vezes pareceu querer dizer algo, mas então sacudiu a cabeça e virou-se novamente.

Anoitecia quando o barco atracou no píer. Saía fumaça de baixo das vigas das casas comunais. O cheiro era de peixe assado e pão fresco. Mandred ficou com água na boca. Finalmente comer direito de novo! Assado e hidromel em vez de amoras e água de nascente!

Mandred percorreu o píer com passos decididos. Sentia como se tivesse uma grande gaivota no estômago, batendo as asas com força. Esperava conseguir conter as lágrimas quando Freya viesse ao seu encontro.

Um grande cão bloqueava o caminho no fim do píer. Rosnava em sinal de alerta. Outros cães também vieram da aldeia, seguidos de homens que carregavam lanças.

Mandred desamarrou o saco de pele pendurado em sua lança e atirou aos cachorros a sangrenta bola de carne.

— Aqui, meus caros. Trouxe algo para vocês.

Então olhou para cima. Não conhecia ninguém.

— Mandred Torgridson está de volta! — anunciou o velho pescador com voz solene. — Foi uma longa caçada. — Com um gesto autoritário, afastou os moradores armados para o lado. — Abram caminho para o jarl Mandred.

“É um bom homem”, pensou Mandred consigo mesmo. De fato não o conhecia, mas Erek lhe dizia algo.

Cada vez mais pessoas se aglomeravam para ver os visitantes. Mandred jogou pedaços de fígado aos cães, que faziam algazarra a seus pés, e por fim atirou-lhes o pedaço de pele que servira de saco.

Estranhou um pouco que Freya ainda não tivesse vindo. Com certeza tinha algum trabalho urgente para terminar. Quando cozinhava ou fazia pão, nada a tirava da frente do seu fogão.

Sua casa comunal atravessara bem o inverno. Mas alguém substituíra as duas cabeças cortadas de cavalo que havia no frontão por duas cabeças de javali.

Mandred abriu a pesada porta de madeira de carvalho, afastou a cortina de lã para o lado e acenou para que seus dois companheiros entrassem. Na sala sem janelas da casa comunal reinava uma turva meia-luz. No meio da sala havia um braseiro onde chamejavam brasas. Uma jovem mulher girava um espeto com um ganso. Ela ergueu os olhos, surpresa.

— Mandred Torgridson voltou — anunciou Erek, esmagando-se entre Nuramon e Farodin para entrar pela porta.

— Você devia ter vergonha de já estar bêbado antes de o sol se pôr, Erek — gritou a mulher. — E leve os seus parceiros de bebedeira com você. Não há lugar para eles na minha sala.

Mandred olhou em volta, admirado. Não viu Freya em nenhum lugar.

— Onde está minha mulher?

O pescador baixou a cabeça.

— Traga-nos hidromel, Gunhild — bradou num tom que não admitia protestos. — Depois reúna os idosos aqui. Busque Beorn, o coxo, Gudrun e Snorri. E traga hidromel para todos, mas que droga! Esta é uma ocasião de que nossos bisnetos um dia vão falar.

Mandred percorreu apressadamente com os olhos a parede com os nichos de dormir e abriu com força a última cortina. Ali Freya também não estava. Ao lado de onde ela dormia ainda estava o berço que ele construíra no início do inverno. Estava vazio.

— Sente-se, jarl. — O pescador tomou-o cuidadosamente pelo braço e conduziu-o para perto do braseiro.

Mandred deixou-se cair sobre um dos bancos, com as pernas abertas. O que estava acontecendo ali? Ficou com tontura.

— Você se lembra de quando deu uma velha faca de presente ao pequeno Erek Ragnarson e passou a tarde toda mostrando a ele como destripar uma lebre? — A voz do pescador tremia. Seus olhos tinham um brilho úmido.

Gunhild pôs uma caneca de hidromel entre eles, sobre o banco, junto com um pão de cheiro delicioso. Mandred rasgou um pedaço do pão e meteu-o na boca. Ainda estava quente. Então deu um grande gole de hidromel.

— Você se lembra? — insistiu o velho pescador.

Mandred chacoalhou a cabeça.

— Sim. Por quê?

— O menino. Era... Era eu, jarl.

Mandred pousou a caneca.

— Pensamos que estivesse morto — disse Erek. — Nós os encontramo... o meu pai e os outros. Só você que não... nem o monstro. Há muitas histórias sobre o que aconteceu naquele inverno. Alguns acreditam que você cercou a besta no gelo e despencou com ela nas profundezas geladas do fiorde. Outros pensavam que você tinha ido até as montanhas. E dizem que Luth, de luto por você, fez crescer uma cortina gelada diante de sua caverna. Freya nunca quis acreditar que você estivesse morto. Em todas as primaveras seguintes sempre enviou homens para procurar por você. E ela sempre foi junto até o filho nascer. Um menino forte. Só ele deu paz a ela. Oleif, esse era o seu nome.

Mandred suspirou profundamente. O tempo havia passado, ele sabia. E era primavera, embora, pela sua percepção, ainda devesse ser inverno. Na caverna sempre estivera claro. Apenas a luz por trás do gelo oscilava continuamente, mais forte e mais fraca. Fez força para se acalmar.

— Onde está a minha mulher? E o meu filho... — O guerreiro ergueu os olhos. Três homens com lanças haviam adentrado a sala, e encaravam-no. Novos desconhecidos atravessavam a todo momento a baixa porta de carvalho. Apenas Nuramon e Farodin não olhavam para ele. E Svanlaib. O que eles sabiam que Mandred ainda desconhecia?

Erek pôs a mão sobre seu ombro.

— Mandred, eu sou o menino que você presenteou com a faca. Você esteve desaparecido por quase trinta invernos. Você se lembra? Quando eu ainda era pequeno e mal conseguia andar, um dos cães de Torklaif me atacou. — Erek arregaçou a manga esquerda de sua rude camisa. Seu antebraço era coberto de cicatrizes profundas. — Eu sou o menino. E agora me diga: por que você não é um ancião, Mandred? Você tinha mais que o dobro da minha idade. E não estou vendo nenhum fio grisalho na sua barba, e nenhum cansaço em seus olhos. — Apontou para a porta da casa comunal. — Você ainda é o homem que há quase trinta anos deixou esta casa para ir atrás daquela ameaça. Foi por isso que pagou com o seu filho?

Uma fúria gelada apoderou-se do guerreiro.

— O que você está dizendo? O que tem o meu filho?

Deu um pulo e empurrou a caneca de hidromel do banco. Os curiosos recuaram de sua frente. A mão direita de Farodin tocou o cabo da espada. Observava atentamente os lanceiros.

— O que aconteceu com Freya e com o meu filho? — gritou Mandred com a voz esganiçada. — O que está acontecendo aqui? Por acaso a aldeia toda está enfeitiçada? Por que vocês estão todos tão diferentes?

— Você está diferente, Mandred Torgridson — gritou uma velha mulher. — Não me olhe assim! Antes de escolher Freya, você gostava de me ter nos braços. Sou eu, Gudrun.

Mandred encarou aquele rosto desgastado.

— Gudrun?

Naquela época ela era linda como um dia de verão. Podia ser verdade? Esses olhos... Sim, era ela.

— O inverno seguinte ao surgimento do monstro foi ainda mais severo. O fiorde congelou e certa noite eles vieram. Primeiro ouvimos somente os clarins ao longe, então vimos uma fileira de luzes. Cavaleiros. Centenas deles! Eles vinham do penhasco do outro lado do fiorde. Do círculo de pedras. E cavalgavam sobre o gelo. Ninguém dos presentes jamais se esqueceu daquela noite. Eram como espíritos, mas vivos. A luz das fadas flutuava no céu e tingia a aldeia de uma sinistra tonalidade verde. Os cascos de seus cavalos mal remexiam a neve, embora a fria rainha dos elfos Emergrid e a sua corte fossem de carne e osso. Eram belos e assustadores, pois os olhos refletiam o gelo de seus corações. No cavalo mais magnífico cavalgava uma elfa graciosa, com um vestido que parecia feito de asas de borboleta. Embora o clima estivesse gelado, ela parecia não sentir o frio. Ao seu lado cavalgavam um homem todo vestido de preto e um guerreiro de túnica branca. Falcoeiros a acompanhavam, assim como músicos que tocavam alaúdes, guerreiros em armaduras reluzentes e elfas trajando roupas perfeitas para uma celebração de verão. E lobos, grandes como cavalos montanheses. Pararam diante da sua casa, Mandred. Desta sala aqui!

A lenha estalou no braseiro e lançou fagulhas até o teto negro de fuligem. Gudrun prosseguiu.

— Sua mulher abriu a porta para a rainha Emergrid. Freya a recebeu com hidromel e pão, como pedem as regras da hospitalidade. Mas a rainha dos elfos não aceitou nada. Exigiu somente o que você prometera, Mandred. O seu filho! O preço para que esta aldeia pudesse continuar viva, para que a besta fosse afastada de nós.

Mandred escondeu o rosto nas mãos. Ela viera! Como pudera fazer essa promessa!

— Mas... E quanto a Freya? — balbuciou ele, sem forças. — Ela...?

— Além do seu filho, os elfos tiraram dela a vontade de viver. Ela gritou e implorou clemência pelo bebê. Ofereceu sua vida em troca, mas a rainha Emergrid não se compadeceu. Com os pés descalços, Freya correu pela neve e seguiu os elfos até o penhasco. Foi lá que a encontramos na manhã seguinte, no meio do círculo de pedras. Tinha rasgado o vestido e chorava sem parar. Nós a trouxemos até a aldeia, mas Freya não queria mais ficar conosco sob o mesmo telhado. Ela subiu no túmulo do seu avô, Mandred, e lá pediu vingança aos deuses e aos sombrios espíritos da noite. Sua mente foi ficando mais e mais perturbada. Sempre a viam com uma trouxa de trapos nos braços, como se segurasse uma criança. Trouxemos comida para ela, jarl. Tentamos de tudo. Na primeira manhã de primavera após o equinócio, nós a encontramos morta no túmulo do seu avô. Morreu com um sorriso nos lábios. Nós a sepultamos no túmulo ainda no mesmo dia. Uma pedra branca jaz sobre a sua sepultura.

Mandred sentia como se seu coração tivesse parado de bater. Sua ira selvagem se fora. As lágrimas corriam por suas faces, sem que se envergonhasse disso. Foi até a porta. Ninguém o seguiu.

O túmulo de seu avô ficava um pouco afastado do novo muro que protegia Firnstayn, bem perto do grande e branco rochedo à margem do fiorde. Foi ali que seu avô chegou e desembarcou. Havia fundado a aldeia e a nomeado inspirado

naquela pedra, tão branca como a neve do meio do inverno. Firnstayn.1

Mandred encontrou a pedra sepulcral branca no flanco da colina. Ali ajoelhou-se por muito tempo. Suas mãos acariciavam afetuosamente a pedra áspera. No momento mais escuro da noite, Mandred pensou ver uma sombra de vestido rasgado no topo da colina.

— Vou trazê-lo de volta, Freya, mesmo que isso me custe a vida — sussurrou ele. — Vou trazê-lo de volta. Juro pelo carvalho que me devolveu a vida. Meu juramento é sólido como o tronco de um carvalho!

Mandred procurou o presente de Atta Aikhjarto e, quando o encontrou, afundou a bolota na terra escura da tumba.

— Vou trazê-lo de volta para você.

A lua surgiu entre as nuvens. A sombra no cume da colina havia desaparecido.

 

1. De Firn, Senhor do Inverno, e do fiordlandês Stayn, pedra (como no alemão Stein).