A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 7 de 34

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A Caçada dos Elfos

Uma noite na corte

 

Nuramon estava de pé no meio do seu quarto. A rainha convocara sete elfos para a Caçada dos Elfos, e havia sete quartos. Os aposentos foram construídos para que os caçadores pudessem se equipar e descansar. Era ali que os seus parentes prestavam-lhe as honras. E ali estava ele, completamente sozinho.

O quarto tinha paredes e teto ricamente decorados com afrescos e incrustados de pedras cor de âmbar que irradiavam uma luz quente. Na parede à direita de Nuramon havia um nicho onde repousavam algumas armas e outros equipamentos, mas também enfeites e joias cujos poderes mágicos ele podia sentir. Algum dia os seus predecessores carregaram tudo aquilo na Caçada dos Elfos. Quando voltavam da caçada sempre deixavam algo nos quartos.

Por ter sido chamado, Nuramon podia se apoderar de algumas dessas peças — ao menos foi o que Farodin lhe disse. Mas ele não queria tomar para si nenhuma dessas coisas; também não queria tirar o seu brilho. Então o seu equipamento permaneceu sendo apenas o que já possuía, o que, aliás, não era muito. Os costumes exigiam que os parentes o encontrassem aqui para prestar auxílio e equipá-lo. Mas o banco de pedra diante do nicho não estava servindo de assento para nenhum parente, nem guardando qualquer presente.

A rainha não lhe prestara uma grande honra ao convocá-lo para a Caçada dos Elfos? Ele não merecia que, como era de hábito, o seu clã viesse até ele para demonstrar sua alegria? Em vez disso, todos se mostraram surpresos. Sequer se esforçaram para cochichar quando zombavam dele. Ele era um renegado, e tinha certeza de que nem mesmo a rainha seria capaz de mudar isso.

E o que mais havia neste mundo que o prendesse aqui, com a exceção de Noroelle? Seus pais já haviam partido para o luar havia muito tempo. Não tinha irmãos, somente poucos amigos. Só havia Noroelle. Somente ela parecia não se afligir com seu legado. Se tivesse ouvido a decisão da rainha, certamente teria dividido com ele a sua alegria. Teria vindo até ele neste cômodo.

Nuramon ouvira as histórias da última Caçada dos Elfos. Os companheiros afastaram um líder troll de Kelpenwall. As famílias ofereceram armas e todo o tipo de preciosidades para os guerreiros escolherem. E aqueles cujos presentes foram escolhidos pelos caçadores encheram-se de orgulho.

Neste momento, enquanto estava ali sozinho, seus companheiros certamente recebiam equipamentos nos outros quartos. Com certeza também havia algumas pessoas com o filho de humanos. Nuramon perguntou a si mesmo se um elfo já invejara um humano alguma vez antes.

O barulho de passos diante da porta tirou-o de seus pensamentos. Virou-se na esperança de que fosse algum de seus primos, primas, tios, tias ou qualquer um de sua família. Mas antes que a porta se abrisse, Nuramon ouviu uma voz feminina chamar o seu nome. A porta se abriu. Uma elfa vestida com uma túnica cinza de feiticeira adentrou o quarto.

— Emerelle — disse ele, surpreso. A soberana tinha agora um aspecto totalmente diferente. Parecia menos uma rainha e mais uma feiticeira viajante de grandes poderes. Seus olhos castanhos-claros brilhavam à luz das pedras e nos seus lábios havia um sorriso. — Você veio até mim? — perguntou ele.

Ela fechou a porta.

— E parece que sou a única. — Aproximou-se dele com tamanha elegância e autoridade que Nuramon pensou ter diante de si uma elfa dos tempos das sagas heroicas. A rainha presenciara esses grandes tempos. Ela não fora gerada de elfos; descendia diretamente dos albos e os vira antes que deixassem o mundo. Em algum lugar deste castelo Emerelle escondia a sua Pedra dos Elfos, a joia que herdara dos albos e que ela só deveria utilizar para segui-los. Mas, então, por que viera até ele como uma maga?

Como se lesse os seus pensamentos, ela respondeu:

— É uma tradição que a rainha faça uma visita a cada membro da Caçada dos Elfos. E como ouvi vozes em todos os lugares, exceto no seu quarto, decidi começar por aqui. — Permanecia de pé diante dele, e o encarava com expectativa. Um hálito de flores frescas de primavera invadiu o seu olfato. Era o perfume da rainha que o confortava.

— Desculpe-me — disse em voz baixa. — Não conheço muito bem todas as tradições. — Olhou para baixo.

— Você nunca sonhou em participar da Caçada dos Elfos? Toda criança sonha, conhece as tradições e cada um dos passos da trilha que se percorre nessa noite.

Nuramon suspirou e a olhou nos olhos:

— Uma criança que não se sente aceita em lugar nenhum sonha com coisas menores.

Lembrou o tempo que se seguiu à ida de seus pais para o luar. Ele ainda era praticamente uma criança, mas ninguém veio para cuidar dele. Seus parentes o recusaram, e ele então retornou para a casa na árvore que fora de seus pais. Lá ficou sozinho. Somente os filhos dos albos, para os quais a maldição que os elfos atribuíam a Nuramon não tinha nenhum significado, o aceitaram por perto. E não tinham sido muitos.

— Eu sei como é difícil — disse a rainha, tirando Nuramon de suas lembranças com suas palavras. — Mas a minha decisão será simbólica para os demais. Agora eles estão surpresos, mas logo verão você com outros olhos.

— Eu queria poder acreditar nisso — disse e se esquivou do olhar de Emerelle.

— Olhe para mim, Nuramon! — ela exigiu. — Não se esqueça de que sou a sua rainha. Não posso fazer com que os outros o amem. Mas vou tratá-lo como trato os demais. Você se sente solitário e se pergunta se ainda pertence aos elfos, mas logo os outros o reconhecerão como o que você realmente é. — Ela baixou o olhar. — Você superou a dor da sua tenra idade. É como se Noroelle tivesse despertado forças em você que ninguém pensava serem possíveis. Agora chegou o momento de eu lhe dar o reconhecimento que você merece por suas virtudes.

— Eu vou aproveitar essa chance, Emerelle.

A rainha olhou em volta na direção da porta.

— Já que ninguém vem e os caçadores sempre precisam estar equipados, gostaria de me encarregar de seu equipamento. Pedirei que o tragam a seus aposentos mais tarde.

— Mas...

— Não diga que isso não compete a você! Olhe para cima. — Ela apontou para o retrato de uma elfa que lutava contra um dragão. — Aquela é Gaomee. Ela derrotou o dragão Duanoc, que chegou a nossas campinas pelo portão de Halgaris.

Gaomee! Duanoc! Halgaris! Esses eram nomes do mito que remetia a grandes proezas, e que lembrava os velhos tempos heroicos.

Muitos dragões já chegaram à Terra dos Albos, mas apenas poucos encontraram seu lugar neste mundo e fizeram um pacto com os elfos. Mas Duanoc estava muito longe de aceitar um pacto desse tipo. Pelo menos era o que se contava. E a jovem Gaomee o abateu. Um arrepio subiu pelas costas de Nuramon.

A rainha continuou:

— Gaomee já não tinha mais família. Eu a escolhi, o que naquela época causou grande surpresa. Via nela algo que certa vez vi em mim mesma. — Emerelle fechou os olhos e absorveu Nuramon totalmente em seu encanto. Ele nunca vira as pálpebras da rainha cerradas. Sua aparência devia ser essa quando dormia e sonhava com coisas que somente uma elfa de poderes extraordinários seria capaz de compreender. — Vejo Gaomee com tanta clareza na minha lembrança... Ela estava aqui em pé diante de mim, e lágrimas corriam por suas faces. Ela não tinha a armadura adequada para sair com os outros para lutar com Duanoc. Então eu a equipei. Um guerreiro jamais pode estar mal guarnecido, principalmente ao adentrar o reino dos homens.

— Então eu aceito. — Nuramon olhou para cima, para o afresco de Gaomee, e perdeu-se naquela visão. A rainha lhe abrira uma porta que ele jamais acreditou que se abriria para ele. Há muito se contentava com sua posição à margem dos demais.

— Eu sei que isso é novo para você — disse a rainha em voz baixa, arrancando-o mais uma vez de seus pensamentos. — Mas esse é um momento de transição para a sua alma. Nunca alguém a quem se deu o nome de Nuramon fez parte da Caçada dos Elfos. Você é o primeiro. E como a Caçada dos Elfos também tem a ver com glória, quando você retornar, muitos terão de decidir se o receberão com escárnio ou com reconhecimento.

Nuramon não conteve um sorriso.

— Por que sorri? Divida comigo os seus pensamentos — pediu Emerelle.

— Não pude evitar pensar no medo que vi no rosto de meus parentes quando fui escolhido. Agora sou mais que uma desonra: sou um perigo. Eles devem temer que, caso eu morra, nasça uma criança com a minha alma. Deveriam estar aqui para me entregar a melhor armadura, mas a aversão que têm a mim parece ser maior que o medo de minha morte...

Emerelle encarou-o com bondade.

— Não os critique tanto assim. Agora você precisa se acostumar à sua nova posição. Apenas os poucos que atravessam os séculos acostumam-se rapidamente ao novo. Ninguém fazia ideia de que eu o chamaria. Nem mesmo você esperava.

— É verdade.

— Está claro o que vai acontecer agora?

Nuramon não sabia o que ela queria dizer. Estava falando de sua vida ou desta conversa? Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, Emerelle prosseguiu:

— Aqueles que participam da Caçada dos Elfos enfrentam perigos. Por isso a rainha dá a cada um deles um conselho para acompanhá-los nesse caminho.

Nuramon estava envergonhado por sua falta de conhecimento.

— Eu o seguirei, qualquer que seja.

— Que bom que confia em mim tanto assim. — Colocou a mão sobre seu ombro. — Você é diferente dos outros, Nuramon. Ao olhar o mundo, você vê algo diferente do que os elfos comuns veem. Você vê beleza no que os outros detestam. Você vê grandeza nos lugares que todos os outros percorrem com desprezo. E você fala de harmonia quando os outros não a podem suportar. E porque você é assim, vou repetir um conselho que certa vez ouvi o oráculo de Telmareen pronunciar: escolha a sua própria família! Não se preocupe com a sua aparência! Pois tudo o que você é está dentro de você.

Nuramon parecia estar sob o efeito de um encantamento. Tinha o privilégio de ouvir as palavras do oráculo de Telmareen da boca da rainha! Saboreou por um tempo essa sensação. Então, de repente, uma pergunta surgiu dentro dele. Hesitou, mas por fim ousou fazê-la:

— Você disse que ouviu o conselho. Mas, afinal, a quem o oráculo aconselhou?

Emerelle sorriu.

— Siga o conselho da rainha! — disse ela, beijando-o na testa. — Foi a mim que aconselhou. — Com essas palavras, ela se afastou, caminhando em direção à porta.

Perplexo, Nuramon seguiu-a com os olhos. Antes de fechar a porta atrás de si, ela disse, sem olhar novamente para ele:

— Vi Noroelle no pomar.

Quando Emerelle se foi, Nuramon deixou-se despencar sobre o banco de pedra, pensativo. O oráculo dera um dia esse conselho à rainha? Teria ela o chamado por se reconhecer nele? De repente, Nuramon tomou consciência do quanto se enganara em relação à ela. Sempre a considerara uma elfa inacessível, cujo brilho só se podia admirar da maneira como se admira uma estrela distante. Mas jamais lhe ocorrera a ideia de que pudesse haver algo em comum entre eles dois.

Emerelle era um exemplo e um ideal para todos os elfos e filhos de albos que viviam sob sua proteção. Como pudera ver-se como uma exceção? Ela tinha não somente revelado a ele um caminho que certa ver percorrera, mas também se referido a Gaomee. Durante a Caçada dos Elfos, Gaomee seria um exemplo para ele. Mas, acima disso, pairava o conselho da rainha.

As palavras dela mais uma vez vieram ao seu pensamento e então também se lembrou de Noroelle. Deixou o quarto e viu Mandred no fim do corredor, cercado por alguns elfos. Não segurou um sorriso. Ele não trocaria de lugar com Mandred ou com qualquer outro na Caçada dos Elfos, nem por nenhuma das riquezas daquele castelo.

Enquanto percorria o corredor, percebeu que não havia nenhuma elfa junto ao filho de humanos. Não se admirou com isso. Aparentemente já se espalharam pela corte os comentários sobre a forma imoral como ele olha para as elfas. Estava feliz que Noroelle não tinha sido exposta ao olhar de Mandred na sala do trono. Como alguém podia ser tão grosseiro?

Nesse momento Mandred gritou:

— Agora, meus amigos! Digam um feitiço que me faça caber nesta armadura, e então a aceitarei com satisfação... Parem! Deixem-me em paz com essas espadas e outras tralhas de criança... Eu sou Mandred! Vocês não têm um machado?

Nuramon balançou a cabeça. Uma voz rouca e um coração grosseiro! E modos que não passavam despercebidos.

No caminho até o pomar, Nuramon perguntou-se como Noroelle receberia a notícia de sua convocação. Será que o temor por ele prevaleceria sobre a alegria? As palavras da rainha incluíram um elogio a Noroelle. E aquela era mesmo a verdade: a sua amada o tinha mudado. Ela lhe dera autoconfiança e sua afeição o fizera crescer.

Nuramon logo chegou ao pomar. Ele ficava sobre uma saliência na rocha, acessível somente pelo castelo. Já anoitecera. Ele olhou para a lua. Esse era o objetivo da vida: finalmente partir para o luar! Por todos aqueles anos a lua fora sua confidente. Seus antepassados — aqueles que já carregaram sua alma e seu nome antes — provavelmente também sentiram essa conexão com a lua. Os raios de luz que o atingiam eram como um sopro refrescante de vento, que davam um pouco de frescor àquela quente noite de primavera. Nuramon avançou por debaixo das árvores.

Parou sob uma bétula e olhou ao seu redor. Fazia muito tempo que pisara neste jardim pela última vez. Diziam que cada uma das árvores dali tinha uma alma e um espírito, e que todos que lhes prestassem ouvidos seriam capazes de escutar os seus sussurros. Nuramon prestou atenção, mas não ouviu nada. Será que os seus sentidos ainda eram fracos demais?

Mas agora o que importava era encontrar Noroelle. Se este era um pomar, então ele deveria procurá-la sob uma árvore. Olhou em volta, buscando as árvores que davam frutas o ano todo. Viu maçãs e peras, cerejas e ameixas, damascos e pêssegos, limões e laranjas, mirtilos e... amoras. Noroelle ama amoras!

Quase no fim do jardim havia duas amoreiras, mas Noroelle não estava ali. Nuramon apoiou-se no muro e olhou as terras lá embaixo. À noite, as barracas diante do castelo pareciam lanternas coloridas. “Onde está você, Noroelle?”, perguntou-se Nuramon, baixinho.

Foi então que ele ouviu um sussurro que vinha de cima.

— Ela não está aqui, ela não esteve aqui!

Virou-se, surpreso, e viu apenas as duas amoreiras.

— Somos nós — ouviu dos ramos da maior das árvores.

— Vá até o pinheiro das fadas. Ele é sábio — disse a árvore menor. — Antes de ir, pegue algumas de nossas frutas!

— Mas não dizem por aí que as amoreiras que têm alma são conhecidas pela preocupação com suas frutas? — perguntou Nuramon, muito surpreso.

As folhas da árvore maior farfalharam.

— É verdade. Mas nós não somos como as nossas irmãs, desalmadas. Você irá encontrar Noroelle.

A árvore menor chacoalhou-se.

— Seria uma honra para nós que ela saboreasse as nossas frutas.

Duas amoras caíram diretamente sobre as mãos de Nuramon. A da árvore menor era vermelho-escura; a da maior, branca.

— Agradeço muito a vocês duas — disse Nuramon com a voz emocionada, pondo-se a caminho. Ele achava ter visto um pinheiro bem próximo da bétula.

Ao chegar ao pinheiro das fadas, lembrou-se delas. Quando era criança, brincava ali com as fadas das campinas. O pinheiro não era alto nem largo e na verdade era pouco vistoso. Mas era cercado de uma aura à qual nenhum frio resistia. Ele era dotado de um feitiço que o próprio Nuramon conhecia. O pinheiro tinha poderes de cura — ele sentia nitidamente.

Os seus galhos se moveram no vento.

— Quem é você que me incomoda? — sua copa sussurrou.

Um ruído instaurou-se em torno dele. Todos os lugares em que antes reinava o silêncio agora estavam tomados por sussurros.

— Quem é? — as árvores pareciam perguntar.

— Um elfinho de nada — foi a resposta.

O pinheiro das fadas pediu:

— Silêncio! Deixem-no responder!

— Eu sou só um humilde elfo — disse Nuramon. — E procuro a minha amada.

— Como você se chama, elfinho?

— Nuramon.

— Nuramon — ouviu soar de uma das copas. As outras árvores também murmuraram o seu nome.

— Já ouvi falar de você — esclareceu o pinheiro.

— De mim?

— Você mora numa casa na árvore, num carvalho que se chama Alaen Aikhwitan. A casa é feita da madeira que um dia já abrigou a alma da poderosa Ceren. Você conhece o Alaen Aikhwitan? E já ouviu falar em Ceren?

— Ceren eu não conheço, mas o Alaen Aikhwitan, sim. Sinto a sua presença quando estou em casa. A sua magia mantém a casa fresca no verão e aquecida no inverno. Foi com ele que minha mãe aprendeu a arte da cura e eu a aprendi com ela. Mas ele nunca se revelou para mim.

— Primeiro ele precisa se acostumar a você. Ainda é jovem. Os mensageiros dele me contaram... da sua solidão.

Nuramon tinha perguntas e mais perguntas na ponta da língua, mas a árvore por sua vez perguntou:

— Mas quem é a sua amada?

— Ela se chama Noroelle.

Um cochicho alegre circulou por entre as copas das árvores, e o nome de Noroelle também soou algumas vezes. Todavia, as vozes das árvores se confundiam de tal forma com o seu farfalhar característico que não era possível compreender o que diziam sobre ela.

Mas ele foi capaz de entender o pinheiro das fadas.

— Ela não está aqui, e tampouco esteve aqui esta noite.

— Mas a rainha disse que ela estava aqui no jardim.

— A rainha diz o que deve ser dito. Noroelle não está aqui, mas está perto. Vá até o terraço, ali onde há uma tília e uma oliveira lado a lado!

Nuramon gostaria de perguntar sobre Ceren, mas naquela hora era mais importante encontrar Noroelle. Ele então agradeceu à árvore e seguiu o caminho que o pinheiro indicou.

Logo viu a tília e a oliveira. Ficavam sobre a parede de pedra que alcançava até lá em cima, no terraço. Ao se aproximar, encontrou uma escada estreita que subia.

Ali estava Noroelle, de túnica branca, apoiada sobre o parapeito de pedra do terraço. Parecia um espírito que descera do luar. Ainda não o vira. Ele andou por baixo da tília. O pinheiro das fadas tinha razão: a rainha dissera o que devia ser dito. Ela teve o cuidado de trazê-lo a este lugar. Noroelle lá em cima, ele aqui embaixo! Esta situação remetia imediatamente a um poema declamado da sombra de uma tília para o alto, sob a luz da lua.

Noroelle disse alguma coisa. Estava falando com a lua? Ou com a noite? Agora ele se sentia no lugar errado, na hora errada. Ele a escutava sem que ela soubesse. Ela então virou-se para o outro lado. Ela não falava com a lua ou com a noite, mas com um elfo. Num piscar de olhos Nuramon viu para quem ela se voltara: Farodin.

Nuramon só queria ir adiante. Cambaleou da sombra da tília até a da oliveira. Recostado no tronco, deixava-se envolver pelas palavras que diziam lá em cima. Farodin falava num novo tom, e Noroelle parecia gostar. Pela primeira vez, expressava o seu amor do fundo do coração.

E então essa conversa também acabou...

Por entre os galhos, Nuramon observou Noroelle, sob a luz da lua, ceder à magia de Farodin. Nunca a vira tão feliz antes. Farodin despediu-se com um beijo e então se retirou. Noroelle permaneceu onde estava, sorridente, observando a noite. E porque Nuramon a amava, não podia evitar ele mesmo um sorriso. Não importava que Farodin tivesse vencido. A sua amada sorria, e isso o comovia.

Nuramon observou Noroelle por um bom tempo e viu o sorriso da face da sua amada desvanecer-se mais e mais, até ceder à tristeza. Seu sorriso também desapareceu. Prendeu a respiração ao ouvi-la pronunciar o seu nome na noite, em voz baixa. Farodin a fez sorrir, mas ela se afligia ao pensar nele. Ao ver as lágrimas correrem pelo rosto da feiticeira, não suportou mais. Tomou fôlego e sussurrou:

— Oh, ouça-me, graciosa filha de albos.

Noroelle se assustou.

— Ouça a voz da árvore!

Ela olhou para baixo, seus olhares se encontraram e logo ela voltou a sorrir.

— Eu a vejo aí, no vento da noite, como a fada do meu sonho.

Noroelle enxugou as lágrimas, respirou fundo e disse em voz baixa:

— Mas como um elfo pode se parecer com uma fada?

— Ora — começou ele, e logo continuou — o seu vestido é da cor das tílias. Ele brilha e me deixa cego de amor. — Foi da sombra da oliveira de volta para a da tília. — Acredite na voz de uma tília. Oh, ouça-me, graciosa filha de albos!

— Estou ouvindo, espírito da árvore. Mas é a primeira vez que ouço uma árvore recitar poesia!

Ele respondeu cochichando:

— Para mim também é difícil falar com voz de elfo para agradar a minha amada.

— Para mim foi como se também estivesse ouvindo uma oliveira falar.

— Nossas raízes são interligadas. Nós somos um espírito em dois troncos. Em nós se conectam o amor e a vida — retrucou ele.

— Não há bétulas bastantes aí embaixo? Por que você quer a mim?

— Como você está vendo, eu estou no fim do jardim, com o olhar levantado para você. A senhora deste lugar me disse que devo ficar ao lado daqueles que amam quando eles dizem palavras de amor à sua amada.

— Conheço este jardim, e sei que você só pode cochichar, e não falar. Você quebrou o seu silêncio por minha causa?

— Todos precisam em algum momento quebrar o seu silêncio. O infinito é longo e amplo.

— Então você me ama?

— Claro que sim.

Ele a viu tocar um galho.

— Você é uma árvore magnífica. E as suas folhas são macias. — Ela puxou o galho para junto de si e beijou uma folha. — Isso é bom, minha árvore?

— É como mágica. E gostaria de presenteá-la por isso.

— Um presente? Talvez uma oliva?

— Não. Todos os que pisam aí em cima pegam uma oliva, mesmo que eu não esteja de acordo. Não quero lhe presentear com algo de mim que todos podem ter. Para a minha amada é preciso que seja algo especial; nenhum custo é alto demais. Você sabe o ciúme que as amoreiras com alma têm de suas frutas?

— Sim. Por isso é mais esperto procurar as sem alma. Porque, para separar uma amoreira com alma de suas frutas, é necessário muito trabalho para convencê-la.

— Ora, mas foi exatamente isso o que fiz. Eu... Eu senti um vento soprar até as duas amoreiras cujas raízes as prendem ali no fim do jardim. Então as pedi que cada uma delas me entregasse uma fruta. De início elas se recusaram, dizendo que eu também era só uma árvore, afinal. O que é que eu podia fazer com as frutas? Mas quando elas descobriram que as frutas eram para você, então se tornaram generosas.

— Mas como elas fizeram para as amoras chegarem até você? Você está presa aqui e, como diz, estão bem longe de você.

— Ah, elas passaram de árvore em árvore e foram postas na grama, e então estiquei minhas raízes e fiz esforço o dia todo para alcançar o presente para a minha amada.

— Então você está com as amoras?

— Sim, e gostaria de entregá-las a você.

— Mas como? Quer que eu vá até você? Ou você as colocará em uma folha e as estenderá até mim com um galho?

— Nós, árvores, temos grandes poderes mágicos. Olhe aí! — Nuramon jogou a amora vermelha, que caiu sobre o parapeito do terraço, bem na frente de Noroelle. Atirou a amora branca a seguir, que Noroelle apanhou habilmente. — Chegaram as duas?

— Tenho uma na mão, e a outra está diante de mim. São tão lindas e tão frescas!

Nuramon viu a elfa comer as amoras. Observava seus lábios como se estivesse enfeitiçado.

Após ter saboreado as frutas, ela disse:

— Foram as amoras mais doces que já comi na minha vida. Mas, agora, o que será de nós, meu espírito de árvore?

— Você não quer vir até mim e criar raízes aqui embaixo?

— Mas você também pode soltar as suas raízes e subir as escadas até mim...

— Ouça-me! Escute a minha proposta! Na minha sombra há um rapaz dormindo e sonhando. Você por acaso gosta dele?

— Sim, junte-se a ele e venha até mim. O espírito por trás da sua voz no corpo dele é o que eu quero esta noite. Venha para mim, Nuramon!

O elfo hesitou. Hoje não era o dia dos milagres? Ele fora chamado para a Caçada dos Elfos. A rainha lhe revelou o seu oráculo. As árvores falaram com ele.

Criou coragem, pisou para fora da sombra da tília e subiu pela escada até o terraço, onde Noroelle o esperava. Primeiro quis manter distância dela, como sempre fazia, para não chegar perto demais. Não queria em hipótese alguma tocá-la. Mas ali estava ela, sedutora como nunca. O vento da noite fazia seu vestido e os longos cabelos flutuarem. Ela sorriu silenciosamente e inclinou a cabeça para o lado.

— Fiquei sabendo do que a rainha fez. Você deve imaginar o quanto estou feliz.

— E você não consegue esconder de mim a sua alegria.

— Eu sempre disse que um dia todos reconheceriam o seu verdadeiro ser. Eu sabia. Oh, Nuramon! — Ela mostrou-lhe as palmas das mãos e quis estendê-las em sua direção, mas se deteve.

Mas Nuramon venceu a timidez e segurou as mãos dela.

Noroelle olhou para baixo, como se precisasse se certificar de que eram mesmo as mãos dele que a tocavam.

Ele a beijou ternamente na face, fazendo-a suspirar. Quando os lábios dele lentamente se aproximaram dos seus, ela começou a tremer. E quando as bocas se tocaram, Nuramon sentiu como a tensão de Noroelle se dissolveu e ela retribuiu o beijo. Ela então pôs os braços ao seu redor e sussurrou-lhe ao ouvido:

— Na hora certa, Nuramon. Tão surpreendente.

Eles se olharam longamente, e Nuramon teve a sensação de que nunca tinha sido diferente entre eles.

Depois de algum tempo, Noroelle pediu:

— Conte-me o que aconteceu hoje.

Nuramon contou-lhe o que ocorrera, sem se esquecer do elogio velado que a rainha fez a ela. A ligação com Gaomee e a fala do oráculo pareceram emocioná-la em especial. Nuramon terminou com as palavras:

— Eu sinto a mudança. A rainha acendeu em mim um fogo que agora precisa queimar. Sou o mesmo de antes, mas agora finalmente consigo lidar com isso.

— É por isso que agora consegue me tocar?

— Antes eu tinha medo. E quando tenho medo, faço tolices. Tinha medo de que me rejeitasse; tinha medo de que me escolhesse. Era um dilema.

— Você e Farodin, vocês são únicos. Hoje no lago ainda parecia que você nunca se aproximaria de mim, e que Farodin também jamais me mostraria sequer um sopro de sua essência. Mas esta noite vocês dois se transformaram.

— Mas Farodin foi mais rápido que eu.

— Não seria correto, Nuramon... Só porque ele encontrou o caminho até mim primeiro? Devo puni-lo porque a rainha esteve com você? Não! Uma noite para mim é um momento só, e se ambos chegaram a mim esta noite, chegaram na mesma hora. Você vê o tempo como um bem escasso, Nuramon.

— É de se estranhar? Se sigo o caminho de meus antepassados, cada momento que me resta é precioso.

— Você não seguirá esse caminho. Você viverá muito tempo e caminhará no luar.

Nuramon olhou para a lua.

— É tão esquisito que a lua, algo que eu amo tanto, evite a minha alma por tanto tempo. — Ficou em silêncio e pensou em todas as histórias sobre a lua que já ouvira. Sua avó lhe contara sobre a lua no reino dos homens. — Você sabia que no mundo de Mandred a lua muda de formato?

— Não, nunca ouvi falar disso.

— Ela é muito menor que a nossa lua. E conforme os dias passam, ela emagrece, continua se transformando noite a noite em uma foice, até desaparecer totalmente. Então ela volta a crescer pouco a pouco até alcançar o seu tamanho completo.

— Isso soa como um feitiço. Eu não sei muito sobre o Outro Mundo. Aprendi algumas línguas com os meus pais. Mas no fundo não sei nada sobre o mundo dos homens. Que magia reina lá? Os elfos também podem passear no luar da terra dos homens? O que acontece se morrerem ali?

— Essas são perguntas que somente os sábios podem

responder.

— Mas o que você acha, Nuramon?

— Eu acho que a magia que age lá é parecida com a nossa. Acredito que elfos podem andar no luar dos homens. Só que lá a lua fica mais distante. É uma viagem muito mais longa. E, se um elfo morre no reino dos homens, não é muito diferente do que acontece se perde a vida aqui. Porque para a morte todas as campinas são iguais. — Ele a encarou e viu um sopro de preocupação passar por seu rosto. — Você teme por nossa vida.

— A Caçada dos Elfos raramente chega até o reino dos homens. Você se lembra se algum elfo já morreu lá e voltou a nascer aqui?

— Dizem que um de meus antepassados teria morrido do outro lado. E veja! Eu estou aqui.

Ela riu, acariciou a face dele e voltou a observá-lo como que sob um encanto.

— O seu rosto é tão especial.

— E o seu é...

Ela escorregou os dedos por sobre os lábios dele.

— Não, você me disse essas palavras por anos e anos. Agora a ordem é: cale-se, lindo filho de albos! — Ela tirou os dedos de seus lábios, e ele permaneceu calado. Então passou suavemente os dedos pelo cabelo de Nuramon. — Você sempre pensou que as elfas só zombariam de você. E elas certamente gostam disso. Do seu nome, do seu destino... Elas fazem isso porque sempre foi assim. Mas a sua presença especial também não foi ignorada por elas. Você não vai acreditar em tudo o que já ouvi pelas suas costas, nos segredos que já ouvi cochicharem. — Nuramon queria dizer algo, mas Noroelle voltou a pousar as pontas dos dedos sobre a sua boca. — Não. Você agora precisa se calar, como ambas as árvores ali embaixo. — Recolheu a mão. — Você é muito mais que aquilo que as elfas normalmente veem em você. O oráculo tem razão. Tudo o que você é está dentro de você mesmo! E eu amo tudo o que está dentro de você, Nuramon. — E, então, ela o beijou.

Quando ela separou seus lábios dos dele e o encarou, Nuramon cautelosamente começou a falar.

— Tudo mudou. Mal posso acreditar que estou aqui com você, trocando estes carinhos e estas palavras. O que aconteceu? — Ele olhou ao redor de si, como se pudesse encontrar a resposta ali, no terraço, ou nas profundezas da noite.

— É algo que nem eu, nem você, nem Farodin teríamos conseguido realizar, mas somente a rainha. Agora o mundo se abriu para você.

— Não é o mundo aquilo pelo que anseio.

Ela balançou a cabeça afirmativamente.

— Depois que vocês voltarem, então tomarei minha decisão. Porque vocês já fizeram tudo o que podiam fazer. Agora é por minha conta... Confesso ter tido a esperança de que pudessem me cortejar ainda por muitos anos, mas isso era um sonho. Preciso escolher um de vocês. Será uma perda, tanto faz qual de vocês tenha de ser rejeitado! Mas que sorte grande para uma outra elfa!

Entreolharam-se em silêncio. Nuramon sabia o quanto uma rejeição seria dolorida. Para ele não havia outra elfa; nenhuma pela qual ele pudesse sentir um amor como este. Beijou mais uma vez as mãos dela, acariciou-lhe as bochechas e então pediu:

— Não vamos pensar nisso agora. Melhor que fique para quando Farodin e eu retornarmos.

Ela concordou com a cabeça.

— Amanhã você estará presente ou esta é a nossa despedida?

— Estarei lá — disse ela, em voz baixa.

— Então, mal posso esperar por amanhã. De que cor será o seu vestido?

— Verde. Foi Obilee que fez — perdida em pensamentos, afastou uma mecha de cabelo do rosto. Nuramon gostava desse seu gesto involuntário; ela tomava o cabelo entre os dedos anelar e mínimo ao puxá-lo para trás.

— Então o vestido com certeza é maravilhoso.

— Estou ansiosa para saber o que a rainha trará para você. O que quer que seja, será mais precioso que qualquer coisa que outra pessoa poderia lhe presentear.

— Presentear? Eu o aceitarei para a Caçada dos Elfos. Mas, quando retornarmos, devolverei a ela.

Noroelle não conteve um sorriso.

— Não, Nuramon. A rainha é generosa e não o aceitará de volta.

Ele a beijou na testa.

— Agora eu me vou, Noroelle.

— Quem sabe um de seus parentes ainda consiga ir vê-lo no seu quarto.

— Não, não acredito nisso — tomando as mãos dela, continuou —, mas quem sabe. — Olhou para cima, para as estrelas. — Esta noite tudo parece ser possível. — E soltando-se dela: — Boa noite, Noroelle.

Deu-lhe um beijo de despedida.

Nuramon deixou o terraço e, ao chegar à porta para o salão de festas, olhou mais uma vez para Noroelle. Ela era simplesmente perfeita. Nunca tinha visto isso com tanta clareza como neste momento.

Quando chegou ao corredor que levava aos quartos dos elfos caçadores, percebeu que agora todas as portas estavam fechadas. Os visitantes esperados já tinham apresentado seus cumprimentos, e ninguém parecia contar com mais visitas. A confusão de vozes que ainda se podia ouvir denunciava terem sido muitos os que vieram.

Parou diante de sua própria porta e pôs-se a escutar. Só o silêncio. Queria tanto que ao menos um de seus parentes tivesse superado as suas sombras e estivesse ali, esperando por ele. Nuramon abriu a porta e olhou para dentro. Ao lado da cama de fato havia uma silhueta imóvel, de costas para ele. Sua alegria durou só um minuto. Na sua ausência, alguém trouxera um suporte para a sua armadura que, à fraca luz das pedras, pareceu-lhe um elfo, de tanto que desejava uma visita.

Decepcionado, fechou a porta atrás de si. Aproximou-se do suporte e observou os presentes da rainha. Eram uma capa, uma armadura e uma espada curta.

Nuramon tirou a capa cor de vinho do suporte e sentiu-a com as mãos. Era pesada, feita de lã e linho; era tão trabalhada e tecida com tantos fios mágicos que nenhum golpe de vento ou gota d’água conseguiria atravessá-la ao longo do caminho. Ela o protegeria tanto do calor quanto do frio.

Noroelle tinha uma capa como aquela, que trouxera de Alvemer. Certamente não foi por acaso que a rainha mandou trazê-la. Um pedaço de Alvemer era um pedaço da terra natal de Noroelle. Se cavalgasse no inverno pelo mundo dos homens, ela o aqueceria.

Observou a armadura, curioso. Era feita da carcaça de um dragão. Armaduras como essa eram conhecidas por serem ao mesmo tempo resistentes e confortáveis. Para fabricá-las era preciso conhecer técnicas especiais. Era composta de incontáveis pedaços de couro de dragão, e protegia o tronco e os braços. Quem a fez era certamente um mestre naquele ofício. O couro de dragão foi cortado em muitos fragmentos pequenos, que então foram organizados e unidos da forma desejada. Entre cada pedaço foram fixados materiais em forma de gota, que aparentemente eram escamas de dragão cortadas no formato adequado. Mas se realmente o eram, só o artesão sabia — era o seu segredo. O couro tinha um cheiro agradável. O tratamento da pele acabou com o fedor típico dos dragões e deu lugar a um suave aroma de bosque.

Somente em Olvedes ainda se produziam armaduras de dragão, pois só lá o fogo cuspido por essas criaturas ainda representava um perigo. Os produtores de armaduras de Olvedes eram conhecidos e marcavam o seu símbolo nos trabalhos que executavam. Nuramon soltou o cinturão de armas e tirou a armadura do suporte. Procurou em seu interior a marca do mestre que confeccionou a incrível peça. Encontrou-a na região do busto. Havia a estampa de um sol e, logo abaixo, em letra pequena: Xeldaric.

Nuramon comoveu-se. Xeldaric era conhecido como um dos melhores artesãos de armaduras que já existiram. Ele partira para o luar após ter conseguido confeccionar para a rainha a sua obra-prima: uma armadura completa de albo. Nuramon ainda era criança quando ouviu a respeito dela. Xeldaric partiu para o luar na sala do trono do castelo, assim que a rainha recebeu a obra.

Vestir uma armadura feita pelas mãos de Xeldaric era uma grande honra. Mesmo quem não se esforçasse para encontrar a marca do mestre era capaz de reconhecer que aquele era um bem verdadeiramente nobre. Mesmo que à primeira vista não tivesse a uniformidade de uma armadura feita de chapas, cada um de seus pedaços estava no lugar certo e contava a história da caça ao dragão. A pele verde dos dragões de Olvedes fora trabalhada da mesma forma que o couro marrom dos dragões dos bosques de Galvelun e o dos dragões vermelhos do sol de Ischemon. Juntos, os fragmentos formavam um mosaico de cores da floresta que se misturavam umas às outras de forma natural.

Nuramon recolocou a armadura no suporte. Então pegou o cinturão da espada que colocara sobre a cama. Nele encontrou uma espada em uma bainha de couro simples. Seu pomo e guarda eram de ouro, ricamente enfeitados, e o punho feito de filetes de cobre e madrepérola. Nuramon puxou a arma da bainha e prendeu a respiração. A lâmina era forjada de lustre de estrelas, um metal que só se encontrava nos picos mais altos. A arma também era, como a armadura, uma obra-prima. No meio da guarda, bastante larga, havia runas incrustadas. Só ao olhar pela segunda vez Nuramon reconheceu quem era retratado ali: Gaomee! Ele tinha nas mãos a espada de Gaomee! Com esta arma ela derrotou Duanoc. E agora era ele quem a conduziria.