A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 30 de 34

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A Caçada dos Elfos

Visitando Guillaume

 

Nuramon observou Guillaume por toda a tarde. Ouviu os seus sermões e o viu sepultar o corpo de Gelvuun. Por fim, seguiu o filho de Noroelle pela cidade. Ao fazer isso, teve algumas vezes a opressora sensação de também estar sendo seguido. Mas todas as vezes que olhou ao redor não descobriu ninguém que se comportasse de forma estranha. Havia somente os moradores de Aniscans, ocupados com seus afazeres. Então voltou a prestar atenção em Guillaume e a segui-lo, até que ele chegou à colina do templo e ali desapareceu para dentro de uma pequena casa. Com suas paredes de pedra de alvenaria, ela combinava com a imagem da cidade; se esse era o lar de Guillaume, ele parecia dar muita importância à modéstia.

Nuramon deteve-se e observou a casa da viela defronte dela. Esperava que Guillaume abrisse a janela para deixar entrar os últimos raios de luz do fim do dia. Mas ela continuava fechada. Quando a noite caiu sobre Aniscans, Nuramon viu a quente luz de velas irradiar por suas fendas.

Criou coragem e andou até a porta do milagreiro. Agora só precisava bater. Mas ele não se atrevia a isso. Estava com medo; não de que pudesse lhe suceder o mesmo que a Gelvuun, mas de cometer um grave erro. Ele não conhecia Guillaume e não sabia como ele receberia a verdade. Mas então pensou em Noroelle. Essa era a única esperança de salvar Guillaume da morte e ao mesmo tempo talvez salvar Noroelle — é claro que somente se a rainha reconhecesse que seria um erro matar Guillaume.

Bateu na porta.

Nada se moveu dentro da casa, e Nuramon pensou se deveria bater mais uma vez. Quando erguia o braço, ouviu finalmente passos. Seu coração acelerou. Logo a porta se abriria e o rosto de Noroelle o encararia. Tirou o capuz, para que Guillaume soubesse imediatamente com quem estava lidando.

A porta foi destravada e aberta. Nuramon não se enganara. Era Guillaume. O jovem sacerdote não parecia nada surpreso por ter um forasteiro diante de si. Incapaz de dizer sequer uma palavra, Nuramon observou o rosto do filho de Noroelle. Mas de que forma a expressão de Guillaume se alteraria quando descobrisse tudo sobre sua própria origem?

— Entre, filho de albos — disse o sacerdote com sua voz calma, sorrindo, antes de virar-se. Parecia estar esperando por ele.

A casa de Guillaume era muito simples. A sala em que Nuramon entrou ocupava todo o térreo. Ali havia tudo o que era necessário, do fogão a lenha até o oratório. Só não se via uma cama. Provavelmente o quarto de dormir ficava no andar de cima, ao qual se chegava subindo a escada diante da porta da casa.

— Você veio por causa do seu companheiro — disse Guillaume, sentando-se à pequena mesa no meio da sala. Ali queimava um lampião diante de um prato de madeira ainda com restos de carne. Com um gesto convidativo, Guillaume apontou para uma segunda cadeira na ponta da mesa.

Nuramon sentou-se em silêncio.

O sacerdote afastou o prato para o lado.

— Temo que o seu companheiro já tenha sido enterrado no cemitério. Espero que isso não prejudique o seu renascimento.

— Entre nós, dizem que a alma se solta do corpo dos filhos dos albos no momento da morte — esclareceu Nuramon. — Então, se houver um caminho para as almas que ligue o seu mundo e a Terra dos Albos, Gelvuun já o tomou e está lá, esperando pelo renascimento.

— Então a alma já havia partido quando enterrei o corpo.

— Sim. Mas não é por Gelvuum que estou aqui. Vim por sua causa.

Tais palavras pareceram não surpreender Guillaume.

— Porque eu o matei...

Nuramon ficou perplexo.

— Como você sabe disso?

O curador baixou o olhar.

— Eu soube quando o examinei. Ele parecia ter marcas de estrangulamento no pescoço que correspondiam aos meus dedos. — Ele parou e encarou Nuramon. — Ler as expressões nos rostos dos elfos não é fácil. Não vejo ira nos seus traços. Mas você certamente veio para exigir vingança.

— Não, também não é por isso que estou aqui.

Guillaume olhou-o surpreso.

— Eu só queria saber o que você vê no seu futuro.

— Eu sou alguém numa busca constante a serviço de Tjured. Acredito que este mundo é repleto de tesouros ocultos que só poucos são capazes de encontrar. Eu sei que o poder dos deuses se acumula em determinados lugares. Sou capaz de sentir esses lugares e seguir fluxos invisíveis que se conectam uns aos outros. — Ele claramente falava das trilhas albas, que pensava serem trilhas do seu deus. — Uso esse conhecimento para curar pessoas e pregar a paz. Gostaria que o ódio desaparecesse. Mas depois do dia de hoje parece que o preço disso é muito alto. Que tipo de dom é esse que cura humanos e mata filhos de albos?

— Posso dar uma resposta para isso. Mas pense bem se quer ouvi-la.

— Você sabe alguma coisa sobre a vocação que me permite fazer os meus milagres?

— Eu conheço a origem dela.

— Então você sabe mais que todos os sábios e sacerdotes que encontrei até hoje. Por favor, conte...

— Devo realmente fazê-lo? Pois, se você me ouvir, também vai saber por qual motivo eu e meus companheiros viemos a esta cidade, e porque eu estou aqui cometendo a ousadia de me aproximar de você.

— Você conhece os meus pais? Os meus pais verdadeiros?

— Sim, eu conheço ambos.

— Então fale!

— Você é filho de uma elfa que se chama Noroelle. Certo dia, ela assumiu a mais terrível de todas as penas para proteger a sua vida. — Com essas palavras Nuramon começou a sua narrativa. Falou de Noroelle, de seu amor e do de Farodin por ela, do devanthar e da Caçada dos Elfos, de como Guillaume foi salvo e do exílio de Noroelle. Enquanto isso, observava o semblante de Guillaume ficar cada vez mais sério, e a semelhança com Noroelle desaparecer traço a traço. Terminou com estas palavras: — Agora você sabe quem são seus pais e por que você tem esse poder que cura os homens, mas mata os elfos.

Guillaume fixou o olhar na mesa, e então repentinamente começou a chorar. Essa visão doía em Nuramon, não só pelo fato de o milagreiro se parecer tanto com Noroelle, mas porque se punha no lugar dele. Precisou se controlar para também não irromper em lágrimas.

Depois de um longo silêncio, o curador disse, por fim:

— Que tolo fui ao achar que era um escolhido de Tjured!

— Tanto faz de onde vem a sua vocação: você a usou para fazer o bem para os humanos, exatamente como a sua mãe usava a dela para cuidar dos filhos dos albos. Até a noite em que ela... — Não quis dizer mais uma vez.

— Conte-me mais sobre a minha mãe — pediu Guillaume em voz baixa.

Sem pressa, Nuramon contou ao milagreiro sobre seus vinte anos na companhia de Noroelle. Ficou até tarde da noite. Suas palavras trouxeram-lhe de novo à lembrança tudo o que viveu com a amada. Mas, quando terminou, seu ânimo mudou; agora que havia contado tudo, ficou claro para ele que tudo estava perdido e que Noroelle jamais retornaria. Guillaume também parecia profundamente perturbado agora que sabia do sacrifício da mãe.

— Você rasgou o véu que havia em torno da minha origem — disse o curador. — E me esclareceu de onde vieram os meus poderes. Mas não me disse o que o trouxe aqui.

Nuramon respirou fundo. A hora tinha chegado.

— Perguntei à minha rainha o que poderia fazer para salvar Noroelle. E ela me disse que eu deveria partir para matá-lo.

Guillaume recebeu a notícia com muita calma.

— Você já poderia ter feito isso há muito tempo. Por que me deixa viver?

— Pelo mesmo motivo que sua mãe o trouxe até este mundo. Porque eu não sinto nenhum traço do devanthar na sua alma.

— Mas, se os meus poderes de cura mataram o seu companheiro, isso deve ter sido herança do meu pai. E quem sabe o que ainda há adormecido dentro de mim!

— Você aceitaria a morte de Gelvuun para curar a mão do homem?

— Jamais.

— Então ao menos o seu espírito está livre da força sombria do devanthar, mesmo que a essência dele se reflita na sua magia.

— Mas assim é o destino. Mesmo inocente, eu sou culpado. Por minha causa minha mãe foi banida. Por minha causa o seu companheiro morreu. E eu não posso fazer nada a respeito. Parece que minha culpa é estar vivo.

— E exatamente por isso é errado matar você. E por isso eu gostaria de levar a cabo a minha tarefa de maneira diferente da que a rainha previu. Mesmo que assim eu volte a ira dela contra mim.

— Você me deixaria fugir?

— Sim, eu faria isso. Mas os meus companheiros descobririam-no rápido. — Nuramon pensou em Ollowain. — Você precisa entender por que estou aqui. Se não fosse assim, agora você já estaria morto. Eu vim para fazer uma proposta que talvez possa salvar a sua vida e libertar Noroelle. Mas ela não é mais do que uma vaga esperança.

— Faça-a!

— Posso levá-lo até a rainha e mantê-lo a salvo de qualquer perigo a caminho da Terra dos Albos. Se você falar com Emerelle na corte, talvez consiga convencê-la da sua verdadeira natureza, da mesma forma como convenceu a Noroelle e a mim. Isso é a única coisa que posso oferecer.

— Aceito a sua proposta. Por minha mãe.

Nuramon admirou o curador em segredo. Havia se perguntado se ele aceitaria assim prontamente, pois não havia qualquer garantia de que a rainha se mostraria misericordiosa. Podia ser que Emerelle se mantivesse firme em sua decisão. Mas, apesar de tudo o que acontecera, Nuramon tinha tanta confiança na sua soberana que duvidava que ela ignoraria a sua objeção.

— Quando devemos partir?

— Devemos deixar a cidade no máximo até meio-dia. Não precisamos ter pressa.

— Então conte-me algo sobre a Terra dos Albos.

Nuramon descreveu a região central para Guillaume e também contou-lhe sobre Alvemer, onde Noroelle nasceu. Nuramon terminou quando o galo cantou, e propôs que partissem com o raiar do dia, para que pudessem sair despercebidos.

Guillaume concordou e arrumou suas coisas. Então agradeceu a Nuramon por ter lhe contado a verdade.

— Nunca vou me esquecer do que fez.

Nuramon estava satisfeito. Havia alcançado a sua meta, mesmo que com isso estivesse agindo contra as ordens da rainha. Era certo que Ollowain resmungaria, mas eles levariam o filho de Noroelle até Emerelle. Isso era um meio-termo com o qual o mestre da espada também tinha de se dar por satisfeito. Mas ele seria cuidadoso, e não perderia o guerreiro elfo de vista.

Guillaume preparou um mingau de painço, avelã e uvas-passas. Perguntou a Nuramon se também queria comer alguma coisa. O elfo recusou, agradecendo. O curador tomava seu café da manhã quando um tumulto se formou lá fora, na cidade. Nuramon pôs-se a escutar e acreditou ouvir gritos. Ao escutar cascos de cavalos, levantou-se num pulo, com a mão segurando a espada.

— O que está acontecendo? — perguntou Guillaume.

— Pegue as suas coisas! — disse Nuramon.

Nas vielas o som de luta agora se misturava com gritos de dor. A cidade estava sendo atacada!

Guillaume se levantou e agarrou a trouxa.

Os sons de luta ficaram mais próximos. De repente houve um estrondo na porta da casa, que cedeu, para o horror de Nuramon. Uma silhueta entrou violentamente. Nuramon puxou a espada para atacar o intruso. Mas assustou-se ao reconhecer o vulto. Não era ninguém menos do que...