A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 14 de 34

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A Caçada dos Elfos

A caverna de gelo

 

Mandred enfiou os quatro anéis do traje de malha de ferro em um prego enferrujado na barba da estátua de Firn. Bando de elfos convencidos, pensou ele. É claro que nenhum deles fez qualquer oferenda para o Senhor do Inverno quando passaram cavalgando diante de um homem de ferro. E agora os deuses estavam raivosos! A nevasca estava cada vez mais forte, e eles ainda não haviam encontrado a caverna.

— Você vem, Mandred?

O guerreiro, enfurecido, olhou para Farodin. Ele era o pior de todos. Farodin tinha em si algo de sinistro. Às vezes ficava calado demais, pensou Mandred. Isso é coisa de homens que têm algo a esconder. Apesar disso, faria uma oferenda por ele também.

— Perdoe-os, Firn — sussurrou Mandred, fazendo o sinal do olho protetor. — Eles vêm de um lugar onde há primavera no meio do inverno. Eles não sabem de nada.

O guerreiro se ergueu, mas só para logo depois apoiar-se pesadamente no cabo de sua lança. Precisava tomar ar. Nunca havia estado tão alto nas montanhas. Já tinham deixado a fronteira das árvores para trás havia muito tempo. Aqui já não havia mais nada além de rochas e neve. Quando o céu estava claro, viam-se bem perto o Barba Dentada e o Cabeça de Troll, dois cumes sobre os quais a neve nunca derretia — mesmo nos verões mais quentes. Estavam tão próximos dos deuses que mesmo um pequeno esforço já os deixava com a respiração curta. Aquele lugar não fora feito para humanos!

Mandred agarrou as rédeas de sua égua. Para ela, o frio parecia não importar. Também não se cansava para abrir caminho. Tanto fazia o quão frágil era a camada de gelo sobre a neve alta: ela nunca afundava, exatamente como os dois lobos e os elfos. Eles deixavam que Mandred fosse na frente, para ditar o ritmo. Sem ele, certamente teriam chegado até ali duas vezes mais rápido.

Obstinado, Mandred furava o vento gelado. A neve cravava-se no seu rosto como agulhas. Ele piscava e tentava proteger os olhos com a mão o melhor que conseguia. Torcia para que o tempo não ficasse ainda pior!

Subiram numa longa geleira, cujo lado esquerdo era contornado por uma encosta de rochas íngremes. A tempestade de inverno rebentava-se em uivos nos cumes de pedra, bem acima de suas cabeças. “Tomara que seja só a tempestade o que está uivando lá em cima”, pensou Mandred, angustiado. Dizem que no inverno há trolls ali.

O guerreiro olhou de volta para os elfos. Este frio maldito parecia não ser problema para eles. Certamente fizeram algum feitiço para se proteger. Mas ele não ficaria se lamentando nem pediria qualquer coisa que fosse!

Havia escurecido rápido. Logo precisariam parar. Seguir na escuridão significava correr enorme risco de cair em alguma fenda na geleira. Maldito clima! Mandred esfregou a testa, nervoso. Suas sobrancelhas estavam cobertas por uma crosta de neve. Precisava esclarecer aos demais que já não fazia mais sentido continuar procurando. Mesmo que não se acidentassem, era possível que, no meio da tempestade de neve, passassem pela gruta e não a vissem.

O guerreiro deteve-se repentinamente. Sentia um cheiro podre que lhe lembrava o suor da besta! Olhou através da nevasca. Nada! Teria sido somente a sua imaginação?

Um dos lobos soltou um uivo longo e arrastado.

A fera estava ali! Bem perto! Mandred soltou as rédeas e apertou o cabo da lança com ambas as mãos. Um pouco adiante uma sombra surgiu na neve.

— Por Aigilaos! — gritou o guerreiro.

Só no último momento ele reconheceu do que se tratava. Era um outro homem de ferro! Dessa vez, porém, ele não olhava para a frente, por cima da geleira, mas diretamente para o paredão de pedra. Uma trilha estreita levava até lá em cima. Estreita demais para que os cavalos pudessem galgá-la.

— Aí está. — Vanna aproximou-se de Mandred e apontou para cima da trilha na rocha. — Em algum lugar lá em cima várias trilhas albas se cruzam, formando uma estrela alba.

— O que é uma estrela alba? — perguntou Mandred.

— Um lugar mágico; é o ponto onde dois ou mais caminhos albos se cruzam.

Mandred não tinha certeza do que ela queria dizer com isso. Provavelmente eram caminhos que antes eram percorridos pelos albos com frequência. Mas o que eles buscavam na Gruta de Luth? Será que vinham para cultuar algum deus?

— Já estou observando essa trilha há horas — prosseguiu Vanna. — Se sete caminhos se cruzarem nesse lugar, terão formado um portal.

Admirado, o guerreiro encarou a elfa.

— Um portal? Lá não há nenhuma casa e nenhuma torre. É uma caverna.

Vanna sorriu.

— Se é o que você diz...

Farodin apanhou a coberta que afivelara atrás de sua sela. Puxou para fora uma segunda espada e afivelou o cinto em torno de seus quadris. A arma de Brandan! Então desenrolou a coberta e jogou-a em cima de seu cavalo.

— Os cavalos procurarão um lugar para se abrigar do vento e esperarão por nós enquanto suportarem o frio — explicou Vanna. Ela afagou o menor dos dois lobos entre as orelhas, e tentou convencê-lo e acalmá-lo: — Você fica aqui para proteger os cavalos dos trolls — disse, piscando para Mandred.

Os colegas imitaram o gesto de Farodin e também protegeram os outros animais com cobertas.

“Eles parecem estar com bem menos frio que eu”, pensou Mandred, aborrecido. Acariciou o focinho da sua égua e se aborreceu com a maneira como os olhos negros da equina o encaracam. Será que ela sabia de algo sobre o seu destino? Não era normal que um cavalo parecesse tão triste assim!

— Nós vamos rasgar a barriga desse porco maldito e desaparecer daqui o mais rápido possível. Aqui está frio demais para ficarmos demorando — disse Mandred, tentando ele mesmo criar coragem.

A égua pressionou as narinas macias contra a mão de Mandred, soltando um nitrido suave.

— Você está pronto? — perguntou Vanna de forma branda.

Em vez de responder, Mandred aproximou-se da parede de pedra. O clima desgastara a pedra cinzenta, esculpindo degraus. O guerreiro tateava cuidadosamente à sua frente. O gelo estalava sob seus passos. Firmou a mão esquerda na pedra, para que fosse um apoio a mais. Os degraus tornavam-se cada vez mais estreitos. No final, mal havia lugar para um pé inteiro.

Mandred já estava ofegante quando finalmente chegou ao fim da trilha. Um desfiladeiro cujas paredes eram tão próximas que dois homens não conseguiriam passar um ao lado do outro surgiu à sua frente.

Mandred praguejou em pensamento. O devanthar não escolhera este lugar por acaso. Aqui teriam de chegar a ele um de cada vez. Bem acima do desfiladeiro brilhava uma luz vermelha, que fazia a neve acumulada sobre a rocha parecer sangue congelado. Mandred fez o sinal do olho protetor. Então avançou lentamente. O ar rarefeito estava impregnado de fumaça. Em algum lugar lá em cima ardia a resinosa madeira de pinho! O odor encobriria o mau cheiro da besta.

— Porco maldito! — Mandred deixou escapar.

Até então, foram surpreendidos pelo devanthar todas as vezes. Era como se ele conseguisse ficar invisível. Só o seu odor denunciava sua presença. Mandred avançava sorrateiramente. Em cima dele, bem no alto, havia um enorme bloco de pedra calçado entre as paredes, cobrindo o caminho como um enorme batente. Será que foi deste lugar que Vanna falou quando se referiu a um portal? Ouviu o ruído de cascalho em uma das paredes de pedra. Assustado, ergueu a lança. Algo escalava o desfiladeiro acima dele, mas a escuridão não permitia que ele identificasse a criatura.

O guerreiro acelerou os passos. O desfiladeiro alargava-se aos poucos até um pequeno barranco. A menos de cem passos dele, uma garganta sombria abria-se na rocha. A Gruta de Luth! O chão do vale era coberto de grandes rochas. Uma fogueira queimava perto da gruta.

— Saia daí e renda-se! — Mandred ergueu a lança sobre a cabeça, em desafio. — Aqui estamos! — A voz ecoava nas rochas.

— Ele só vai sair quando estivermos exatamente onde ele quer! — disse Farodin ferozmente. O elfo soltou o broche de sua capa e deixou-a escorregar até o chão.

Mandred pensou rapidamente se também deveria tirar sua pesada capa de pele. Talvez ela pudesse dificultar seus movimentos na luta. Mas estava frio demais. Por via das dúvidas, ele conseguiria tirá-la com um simples movimento de mão.

Agora Farodin avançava. Movia-se entre as rochas com agilidade felina.

— Vamos ficar juntos — ordenou Mandred. — Assim podemos nos defender melhor.

O medo de Vanna era nitidamente perceptível. Tinha os olhos arregalados e a lança em suas mãos tremia levemente.

Nuramon foi o último a chegar ao barranco. O lobo restante mantinha-se bem a seu lado. Tinha as orelhas baixas e parecia ter medo.

— Ainda há algo que você possa nos contar sobre os devanthares, feiticeira? — perguntou Mandred.

— Ninguém sabe muito sobre eles — retrucou Vanna rapidamente. — Eles são descritos de forma diferente a cada história. Às vezes são comparados a dragões; outras, a espíritos das sombras ou a serpentes imensas. Dizem que podem se transformar e assumir formas diferentes. Mas nunca ouvi falar de um que assumisse a forma de um homem-javali.

— Isso não nos ajuda muito — murmurou Mandred, desapontado, descendo para dentro do pequeno vale.

Farodin os esperava perto da fogueira. Lá havia uma grande pilha de lenha, troncos despedaçados e galhos verdes de pinheiro. O elfo afastou um dos galhos para o lado. Ali embaixo jazia um tronco de madeira mais escura. Mandred só o reconheceu depois de olhar melhor.

— O devanthar parece não ter respeito pelos seus deuses.

Mandred puxou o pesado ídolo que estava debaixo dos galhos. Era um dos homens de ferro, que desta vez representava Luth. Muitas das oferendas haviam sido arrancadas da madeira, deixando cortes profundos. Mandred apalpou, incrédulo, a estátua profanada.

— Ele vai morrer — murmurou ele. — Morrer! Ninguém zomba dos deuses sem ser punido. Você o viu? — dirigiu-se a Farodin.

O elfo apontou para a caverna com a espada de Brandan.

— Suponho que ele esteja nos esperando lá dentro.

Mandred abriu os braços e olhou para o céu noturno.

— Senhores do céu e da terra! Deem-nos forças para ser as mãos que operam a vossa vingança! Norgrimm, guia das batalhas! Ajude-me a aniquilar o nosso inimigo! — Voltou-se para a caverna. — E você, criatura demoníaca, tema a minha ira! Atirarei o seu fígado aos cães e corvos!

Decidido, Mandred caminhou até a caverna e fez mais uma vez o sinal do olho protetor. Atrás da entrada havia um túnel que fazia uma acentuada curva à esquerda, e poucos passos depois dava em uma caverna maior que o salão de baile de um rei. Era de uma beleza estonteante. No centro dela havia uma grande rocha, diante da qual o chão era escurecido de ferrugem. “Deve ter sido aqui que Luth sentou-se perto do fogo”, pensou Mandred respeitosamente.

As paredes estavam cobertas de gelo brilhante. Parecia haver luzes presas por detrás delas. Assemelhavam-se a pequenas chamas e moviam-se para cima, até o teto, onde seu brilho se refletia em centenas de cristais de gelo. Dentro da caverna era quase tão claro quanto em uma campina em um dia de verão.

Entre os cristais de gelo, desciam do teto colunas de rocha que se fundiam a robustos espinhos, também de rocha, que vinham do chão. Mandred nunca vira algo assim antes. Era como se aqui a rocha crescesse, assim como os cristais de gelo cresciam, descendo dos telhados das casas comunais. Este era mesmo um lugar dos deuses!

Os três elfos também já haviam entrado e olhavam em volta, admirados.

— Estou sentindo apenas cinco — disse Vanna.

Mandred olhou para os companheiros. Não havia mais ninguém ali além deles!

— Cinco o quê?

— Neste lugar cruzam-se cinco trilhas albas. Para os conhecedores, aqui se abre um caminho entre os mundos. Quem começa sua viagem num local como este não irá se perder. Mas este portal está selado. Não acho que sejamos capazes de abri-lo.

Mandred encarou os elfos, admirado. Não entendia nem uma palavra do que diziam. Maluquices de elfo!

— E vocês também não abrirão este portal, pois sua viagem termina aqui — ressoou uma voz em seus pensamentos.

Apavorado, o jarl deu a volta. Ali estava a besta, na entrada da caverna. Agora a criatura parecia ainda maior que na noite que o encontrou pela primeira vez. E isso porque a enorme figura estava bastante curvada.

A cabeça do devanthar era a cabeça de um javali selvagem, densamente coberta por cerdas negras. Só os seus olhos azuis não lembravam os de um animal. Brilhavam, debochados. Em seu focinho cresciam presas longas como punhais.

Seu torso era como o de um homem forte, mas os braços eram bem mais longos e pendiam quase até os joelhos. A forma das pernas era uma mistura de membros humanos e patas traseiras de javali. Elas terminavam em grandes cascos fendidos.

O monstro abriu bem as mãos, e das pontas de seus dedos despontaram garras. Mandred sentiu-se mal diante dessa visão. O devanthar tinha mesmo se transformado! Ele não tinha garras tão longas quando atacou a ele e a seus três companheiros na clareira perto de Firnstayn.

O lobo soltou um rosnado grave e gutural. Havia baixado as orelhas e colado a cauda entre as patas traseiras. Tinha, ao mesmo tempo, recolhido os beiços, e mostrava os dentes de forma ameaçadora.

O devanthar ergueu a cabeça e soltou um grito horripilante, um urro surdo que se tornou cada vez mais agudo até virar um guincho estridente.

Vanna apertou as mãos sobre os ouvidos e pôs-se de joelhos. Seria um feitiço? Mandred avançou, e um pedaço de gelo caiu diante de seus pés. O guerreiro olhou para o teto, assustado. No mesmo instante, centenas de cristais de gelo soltaram-se do teto, despencando como punhais de vidro.

Mandred pôs as mãos sobre a cabeça para se proteger. O som do gelo se estilhaçando tomou conta da caverna. Algo arranhou sua testa. Junto a ele despencou um cristal de gelo do tamanho de um braço, despedaçando-se no chão. Também sentiu algo atingir suas costas. E uma forte cacetada atingiu a parte de trás de sua cabeça.

Vanna estava no chão, deitada e muito encolhida. Um cristal de gelo trespassara sua coxa, e sua calça de couro de antílope estava encharcada de sangue. Nuramon fora atingido na cabeça, e estava recostado numa coluna de pedra, tonto, esfregando a testa. Só Farodin parecia não estar ferido.

— Chega de brincadeira! — O elfo puxou ambas as espadas e ergueu uma das lâminas. — Você reconhece esta arma? O seu dono está morto, e agora você irá encontrá-lo. Vai ser com ela que vou arrancar a sua vida!

Em vez de responder, o devanthar correu para dentro da caverna. Vanna tentou se arrastar para fugir dele, mas, antes que seu coração batesse de novo, a criatura já estava em cima dela. Com um simples tapa com as costas da mão, ele a nocauteou completamente. Pisoteou-a com um dos cascos. Seu crânio espatifou-se como um jarro de vinho que cai sobre o chão de pedra.

Nuramon lançou-se sobre o monstro com um grito estridente. Mas o devanthar reagiu surpreendentemente rápido. Desviou o golpe de espada com um movimento firme e, com sua mão em garra, dilacerou a capa do elfo.

Mandred pulou para a frente e tentou cravar a lança entre as costelas da fera. Um golpe de garra atingiu a lâmina, e por pouco não arrancou a arma da mão do guerreiro. Mandred escorregou no chão repleto de gelo.

O lobo enterrou seus dentes em uma das pernas do devanthar, enquanto Farodin o atacava com um turbilhão de golpes. Mas, em vez de desviar das espadadas, a criatura saltou para a frente e atacou, com força, usando uma de suas garras. Farodin recuou, esquivando-se, mas não o suficiente para evitar os quatro profundos sulcos que se formaram na sua face esquerda. O lobo arrastava a perna do devanthar. Mandred desejou que não tivessem deixado o outro lobo com os cavalos. Aqui ele seria de grande ajuda!

A fera fez uma volta e deu uma forte pancada nas costas do lobo. Mandred ouviu um estalo intenso. O animal ganiu. Trêmulas, suas patas traseiras vergaram-se para o lado, enquanto seus dentes continuavam cravados na perna do inimigo. Sangue claro brotava entre as cerdas negras. No entanto, bastou um simples pisão com um dos cascos para despedaçar a mandíbula e os dentes do lobo.

O devanthar se remexeu de forma selvagem. Nuramon tentara atacá-lo por trás. Um golpe de garra na mão do elfo derrubou a espada curta, e uma segunda pancada dilacerou a couraça de pele de dragão que lhe cobria o peito.

— Não pensem! — gritou Farodin. — Ele conhece todos os seus pensamentos. Não planejem o que querem fazer. Simplesmente ataquem!

Então a lança de Mandred rasgou a carne da fera. Fizera-lhe um corte fundo, bem embaixo das costelas. A criatura girou, bufando de raiva. O guerreiro levantou a arma para deter um golpe que tentou acertar sua cabeça. O cabo da lança quebrou-se com a força do choque. Mandred foi lançado para trás. Antes que a besta viesse ao seu encontro, Farodin se colocou à frente dela. Com impetuosos golpes de espada, o elfo a afastou de Mandred, dando ao humano a chance de se recuperar penosamente.

O jarl olhou para a arma destruída. A lâmina da lança tinha o tamanho de uma espada curta. Jogou fora a metade inútil do cabo. O sangue descia pelo seu braço. Ele sequer tinha percebido que fora atingido.

Enquanto isso, Farodin e a fera giravam um ao redor do outro, numa dança mortal, buscando a melhor posição para o ataque. Movimentavam-se tão rápido que Mandred não ousava avançar, com receio de atrapalhar Farodin.

A respiração do elfo tornou-se ofegante. O ar rarefeito! Mandred pôde ver como os movimentos de Farodin tornaram-se mais lentos. Com um tilintar, um golpe de garra rasgou-lhe o traje de malha de ferro, bem acima de seu ombro esquerdo. No mesmo instante, a espada de Brandan se ergueu. Sangue claro jorrou, e uma das garras do devanthar rodopiou no ar. A espadada amputara-lhe o pulso.

O devanthar grunhiu e recuou um pouco. Seria medo aquilo que se refletia em seus olhos azuis?

Farodin avançou. A besta, por sua vez, baixou a cabeça e imitou o gesto. Suas presas fincaram-se no peito de Farodin. Ambos despencaram no chão.

— Mandred...

A ponta da espada de Brandan estava atravessada no ventre da fera, saindo por suas costas. E mesmo assim ainda havia vida na criatura. Com horror, Mandred a viu se levantar.

— Nuramon... — O sangue escorreu dos lábios de Farodin. — Diga a ela... — E seu olhar se turvou.

— Farodin!

De repente Nuramon estava sobre o devanthar. Ergueu a espada com ambas as mãos e deixou-a despencar sobre a cabeça da fera. Com um som lancinante, a lâmina escorregou, deixando um sulco profundo e sangrento, mas sem penetrar. Com a força do próprio golpe, Nuramon recuou, vacilante. Seu rosto era a estampa de puro horror.

Ainda meio curvada, a besta voltou-se, perseguindo o elfo. Foi então que parou de repente.

“Esta é a minha última chance!”, pensou Mandred. O guerreiro, então, agiu rápido, aproveitando-se que a fera se ocupava de Nuramon. Deu a volta e, por trás do devanthar, agarrou, resoluto, sua presa com a mão esquerda, puxando-a com força e fazendo com que o monstro virasse a enorme cabeça para trás. Sem perder tempo, com a mão direita cravou a lâmina da lança num daqueles aterradores olhos azuis. Sem encontrar resistência desta vez, o aço forjado com a excelência élfica enterrou-se profundamente no crânio da fera.

O devanthar se revolveu uma última vez. Mandred foi arremessado contra a imensa pedra sobre a qual Luth um dia se sentou. Uma dor pesada palpitava em seu peito.

— Os cães comerão o seu fígado. — exclamou Mandred, tossindo.