A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 26 de 34

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A Caçada dos Elfos

Três grãos de areia

 

Farodin apoiou a cabeça na parede. Uma estreita faixa de luz iluminava a sala secreta que dava para a varanda dos aposentos da rainha. Ele não tinha permissão para estar ali.

Vestia um gibão discreto, uma calça justa e uma grande túnica com capuz, todos cinza, e também luvas finas de couro, um cinto largo e braçadeiras, nas quais havia punhais enfiados. Ele esperava não precisar fazer uso das armas. Embaixo dele, nas escadas e corredores secretos, Farodin ouvia ao longe as gargalhadas dos duendes. Toda uma nova geração deles já crescera desde o dia em que Noroelle foi condenada.

Numa fúria desamparada, Farodin cerrou os punhos. A dor ainda era recente demais. Fora o carrasco secreto da rainha tantas vezes e em nenhuma delas havia duvidado de seu elevado senso de justiça. Sequer uma vez pensara que as sentenças secretas de morte que cumpria pudessem não ser nada mais que pura arbitrariedade. Agora, uma sentença dela havia acabado com a sua vida, mesmo que ainda estivesse ali, vivo e respirando.

Ninguém conhecia Noroelle como ele. Ninguém sabia que um dia fora Aileen, aquela que perdera a vida ao seu lado na violenta luta contra os trolls. Procurou por ela ao longo de séculos, e agora, que a havia encontrado, estava sendo arrancada dele mais uma vez. E, desta vez, não podia contar com o renascimento de Aileen. Se ela morresse em seu local de exílio, então não haveria caminho de volta. Sua alma ficaria aprisionada para sempre naquele lugar.

Lágrimas de raiva escorriam pela face de Farodin. Noroelle fora enganada por um devanthar, uma criatura conhecida justamente como mestre da enganação! E o demônio se aproveitara do amor dela...

Por que havia assumido a forma de Nuramon? Farodin se esforçava para suprimir as dúvidas, que só cresciam. Em vão. Será que o devanthar sabia de algo? Será que Noroelle escolheria Nuramon quando a Caçada dos Elfos retornasse? E se o que ela disse a Obilee fossem somente palavras ao vento, um consolo para ele diante da certeza de que nunca voltariam a se ver?

No fim de tudo, ela ainda se entregara rápido demais ao Nuramon falso. Ambos a cortejaram por tantos anos, e ela nunca havia conseguido tomar uma decisão... E de repente pôde tomá-la em uma só noite. “Deve ter sido o feitiço do devanthar”, Farodin tentou convencer a si mesmo.

Noroelle era inocente! Seu coração era puro. Ela tem o coração puro! Ela está viva! E por isso ele a encontraria, jurou Farodin para si mesmo. Tanto fazia quanto tempo a sua busca pudesse durar. A rainha estava errada ao impor a Noroelle a pior de todas as penas. Ele não aceitaria a sentença. Farodin olhou para o pequeno vão iluminado no fim da escada. Ele realmente não devia estar ali. Mas que diferença fazia agora? Emerelle o usara para exercer a sua justiça quando o direito falado já não ajudava mais. Agora ele faria a sua própria justiça!

Decidido, Farodin espremeu-se para passar pelo vão estreito. Saiu cautelosamente para o parapeito da varanda e olhou para as profundezas. Uma cúpula de gelo ocultava a sala do trono do seu olhar, mas ele sabia que Emerelle estava ali embaixo, acompanhada da corte.

Aproximou-se da ampla porta que dava para os aposentos da rainha e encontrou-a destrancada. Seria por causa de sua arrogância? Será que confiava que os tabus fossem mais fortes que as trancas?

Farodin apagou as pegadas rasas que deixara na neve e abriu cuidadosamente a porta. Durante todos os séculos em que foi o carrasco secreto de Emerelle, nunca esteve em seus aposentos. A decoração modesta o surpreendeu. Os poucos móveis eram de uma elegância despretensiosa. A luz da chama na lareira mergulhava o quarto numa meia-luz avermelhada que o tornava agradavelmente quente.

Desnorteado, Farodin olhou em volta. Sabia que havia um quarto de vestir — uma sala onde a rainha guardava suas luxuosas vestes. Noroelle falara dela uma vez. Era ali que devia iniciar a sua busca! Precisava encontrar o vestido que Emerelle usava quando levou Noroelle para o seu exílio. Mas onde podia estar escondida a entrada para o quarto de vestir? Não via mais nenhuma porta além da que dava para a varanda e de outra que devia dar nas escadas. Tateou as paredes, olhou por trás de tapeçarias e finalmente se viu diante de um grande espelho. Sua moldura era de ébano com incrustações de madrepérola. Deslizou os dedos sobre o desenho de flores e folhas. Havia uma rosa contornada por um vão visível. Apertou cuidadosamente a peça de madrepérola.

Farodin ouviu um clique baixo e o espelho então deslizou para o lado. Surpreso, deu um passo para trás. A entrada para um cômodo repleto de silhuetas luminosas revelou-se. Silhuetas sem cabeça. O elfo respirou fundo e riu baixo. Eram só vestidos. Estavam esticados sobre manequins de varas de vime para que mantivessem a forma. Sob os manequins havia velas aromáticas, que os faziam brilhar como grandes lampiões.

Se o quarto de dormir da rainha era modesto, este era maravilhoso. Farodin foi totalmente envolvido pela enorme variedade de aromas. Pêssego, almíscar e menta eram os perfumes que prevaleciam. Emerelle não se vestia só de túnicas, mas também de perfumes.

O quarto se curvava acompanhando o formato exterior da torre, de forma que não era possível vê-lo por completo olhando da porta. Farodin atravessou a soleira e o espelho fechou-se atrás dele. O elfo ainda estava dominado pela infinidade de estímulos. Junto às paredes havia almofadas de veludo acomodadas sobre pequenos nichos, sobre as quais brilhavam as joias da rainha. Pérolas e pedras preciosas de todos os tons do arco-íris emanavam uma luz quente. Devia ser um grande prazer sonhar entre todos aqueles vestidos e joias.

Mas quanto a janelas, ali estranhamente não havia nenhuma.

— Noroelle — sussurrou o elfo.

Ela teria amado o quarto de vestir da rainha. A infinidade de vestidos. Os trajes de caça de veludo e couro, os vestidos de noite refinadíssimos, as túnicas transparentes e incrivelmente macias que Emerelle jamais vestiria na presença da corte. Os brocados magníficos, mantidos no formato por barbatanas de baleia e arames; os corpetes para eventos solenes e cerimoniais na corte, que nada mudaram ao longo dos séculos.

Havia infinitas estantes repletas de sapatos enfiados em suportes que lhes preservavam a forma. Calçados de dança estreitos, sapatos de tecido e botas de pernas de couro. Um longo friso estava cheio de luvas.

Farodin ajoelhou-se e tirou de sua bolsa de couro um anel com três pedras cor de vinho. Era o anel de Aileen. Havia sido de grande ajuda durante sua busca por ela. Era uma âncora firmemente presa aos abismos do passado e ajudava-o a se concentrar em sua amada. A esmeralda, presente de despedida de Noroelle, seria uma segunda âncora. Murmurou baixinho as familiares palavras mágicas e iniciou o feitiço de busca. Era o único feitiço que ele dominava, pois o experimentara durante os séculos em busca de Aileen.

Entre todos os vestidos deste quarto devia estar a túnica que Emerelle vestia quando levou Noroelle para o exílio. Se conseguisse encontrá-lo, poderia ser o primeiro passo na direção da amada. Farodin tinha um plano. Era tão desesperado que não o contaria a ninguém.

O poder do feitiço tomou conta do elfo. Agarrou a pedra preciosa e a ergueu lentamente. De olhos fechados, Farodin tateou o quarto de vestir, guiado somente por uma tênue intuição. A saudade e as lembranças iam ficando mais densas. Por um instante, foi como se pudesse ver com os olhos de Noroelle. Viu as feições da rainha; seu rosto refletia determinação e uma tristeza contida. A imagem desapareceu. Farodin abriu os olhos. Viu-se diante de um manequim sobre o qual estava esticado um vestido de seda azul entrelaçada por fios de ouro e prata, formando sinuosas estampas de runas. A luz das velas sob o vestido tornava as varas de vime visíveis, fazendo-as parecer ossos.

Um arrepio percorreu as costas de Farodin. Então era isso o que Emerelle vestia quando baniu a sua amada. Seus dedos deslizaram sobre o tecido macio. Lágrimas vieram-lhe aos olhos. Ficou ali em pé por um longo tempo, somente lutando para recobrar o controle.

As runas no tecido tinham poderes mágicos. Ao passar os dedos por elas, ele sentia um leve formigamento e mais ainda... Sentia o que Noroelle sentiu no momento da despedida. Um pouco dela ficou preso nas runas. E nelas não havia medo. Ela se entregara a seu destino e fora em paz com a rainha e consigo mesma.

Farodin fechou os olhos. Seu corpo todo tremia. O poder das runas também se apoderou dele. Viu uma ampulheta se quebrar sobre uma pedra e sentiu o equilíbrio mágico se alterar. O caminho para Noroelle estava fechado. Ela estava aprisionada. E impossível de ser encontrada.

O elfo caiu de joelhos. Numa teimosia desesperada, fez novamente o feitiço de busca. Ele sabia o que havia acontecido. Mas simplesmente saber e vivenciá-lo intensamente pelo poder das runas eram coisas totalmente diferentes...

— Venha! — sussurrou ele. — Venha para mim!

Estendeu a mão e pensou na ampulheta. Um golpe de vento o atingiu e quis arrastá-lo. Estava no meio de areias sinuosas e parecia preso no redemoinho da ampulheta.

Assustado, Farodin abriu os olhos. Tinha sido somente uma visão, uma miragem nascida de sua saudade... O quarto de vestir parecia estar mais escuro, como se houvesse algo de estranho ali. Algo que asfixiava a luz das velas aos poucos.

Três minúsculos pontos luminosos ergueram-se da seda fria e azul e pairaram até a mão de Farodin. Três grãos de areia da ampulheta que Emerelle destruíra. Provavelmente ficaram presos nas pregas do vestido.

O feitiço e o turbilhão de sentimentos acabaram com as forças de Farodin. Mas os três pontos de luz, que lentamente enfraqueciam, plantaram novas esperanças em seu coração. Ele reencontraria Noroelle, mesmo que precisasse procurar mais sete séculos por ela. Jogou a esmeralda no fundo do bolso da calça. Os grãos de areia, contudo, queria manter bem guardados na mão. Eles eram a chave. Se encontrasse todos os grãos de areia da ampulheta destruída, então conseguiria quebrar o encanto da rainha. Esse era o único caminho que o levaria à sua amada!