A Caçada dos Elfos

Bernhard Hennen · Capítulo 20 de 34

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A Caçada dos Elfos

O exílio

 

Noroelle apanhou três pedras mágicas que repousavam no fundo do lago há tantos anos. Escolhera um diamante, uma almandina e uma esmeralda e voltou-se para Obilee, que estava sentada à margem e brincava com os pés descalços na água. Repousou as três pedras sobre uma rocha plana, perto da jovem elfa. Então secou-se e pôs o seu vestido verde. Era o mesmo que usara na ocasião da partida dos seus amados.

— O diamante é para você —, apontou para o brilhante.

— Para mim? Mas você disse que eu devo...

— Sim. Mas são três. Este aqui é seu. Pegue-o!

Noroelle não tivera muito tempo para ensinar a Obilee os segredos da magia. A pedra prestaria bons serviços à aluna. Era como se tivesse sido feita para ela.

Obilee ergueu o cristal contra a luz do dia, que já se esvaía.

— Vou fazer um pingente com ela, para colocar em uma corrente. Ou assim ela perde o seu feitiço?

— Não, não perde.

— Ah, Noroelle... Eu não sei como vou fazer sem você.

— Você vai conseguir. O Carvalho dos Faunos vai ajudar. Ele vai ensinar a você o que já me ensinou um dia. Ollowain vai ensiná-la a lutar com espadas, já que você é uma herdeira de Danee. — Noroelle já se ocupara de todos os preparativos. Sua confidente ficaria bem.

Também havia pensado em todo o restante. Para si mesma, embalara algumas outras coisas em uma bolsa. Não precisaria de mais que isso. À sua família destinara algumas palavras, que Obilee transmitiria pessoalmente.

— Você se lembra de tudo o que eu disse? — perguntou.

— Sim. Nunca vou me esquecer das suas palavras. Guardei até os seus gestos e tom de voz. Será como se você mesma estivesse falando.

— Isso é bom, Obilee. — Noroelle observou o sol que se punha. — Logo a rainha deve estar aqui, trazendo a Pedra dos Albos. Ela é necessária para lacrar o portal com uma barreira, impedindo a passagem.

— Eu a acompanharei aonde quer que você vá.

— Use a razão, Obilee! Estou banida para sempre. Por que você jogaria a sua vida fora?

— Assim, pelo menos você não estaria sozinha.

— Isso é verdade. Mas então em vez de chorar por estar sozinha, eu choraria por sua causa. — Noroelle deu um passo para trás. O desespero no semblante de Obilee a comovia. — A rainha jamais permitiria que alguém me acompanhasse em meu exílio.

— Eu poderia fazer esse pedido.

— Mas entenda... O pensamento em você aqui me consolará. Se pensar em mim, às vezes vai ficar desconsolada, mas então lembre que estarei presente em tudo o que você fizer.

— Mas, se eu ficar, a tristeza será uma sombra sufocante sobre a minha vida!

— Então bastará vir até aqui. Aqui eu passei um tempo que foi precioso para mim. Despertei a magia da nascente e pus as pedras mágicas no lago. Aqui eu fui feliz com Farodin e Nuramon. E aqui você também foi apresentada a mim.

— E aqui você também teve o seu filho — disse Obilee, olhando tristemente para a água.

— É verdade. Mas disso eu me lembro sem tristeza ou mesmo raiva. Eu amo meu filho, mesmo que ele seja o que a rainha vê nele. E preciso pagar por isso. Mas você... Você pode aprender com os meus erros.

De repente Noroelle ouviu passos na grama. Deu meia-volta e ergueu-se quando reconheceu, à meia-luz, a silhueta graciosa.

Emerelle vestia uma túnica longa e azul, bordada com fios de prata e ouro. Noroelle não conhecia esse traje, apesar de já ter visto muitas túnicas da rainha. Na seda havia velhos símbolos de runas. Na mão esquerda, Emerelle trazia uma ampulheta, enquanto a direita estava cerrada.

Agora ela sabia qual feitiço a rainha pronunciaria para impossibilitar que chegassem à prisão de Noroelle. Depois de levá-la ao lugar estranho, Emerelle quebraria a ampulheta em uma trilha alba, de forma que os grãos de areia se espalhassem por todos os ventos. Jamais alguém conseguiria voltar a reuni-los e consertar o vidro novamente. E a barreira perduraria por toda a eternidade.

Emerelle mostrou-lhe o que havia em sua mão direita. Era uma pedra áspera, com cinco sulcos, que irradiava um brilho vermelho. Então era essa a Pedra dos Albos da rainha! Noroelle sempre quis ter permissão para vê-la uma vez. Mas nunca pensou que isso aconteceria nessas circunstâncias.

Noroelle sentia o poder da pedra. Ela ocultava, contudo, o seu poder real. Quem não conhecesse o seu segredo certamente poderia pensar que era uma pedra mágica como qualquer outra que havia em seu lago. Mas, na verdade, aquela tinha um poder com o qual Noroelle nunca se atrevera a sonhar. Dizia-se que toda a Terra dos Albos tirava o seu poder daquela pedra. Com ela, a rainha podia abrir ou fechar portais, criar ou destruir trilhas albas. E, com ela, criaria uma barreira intransponível que bloquearia o acesso a seu local de exílio. Disto seria feita a sua prisão: a Pedra dos Albos seria o muro, e a areia da ampulheta, a fechadura.

Noroelle virou-se para Obilee e abraçou-a.

— Você é como uma irmã para mim. — Ouviu a amiga começar a chorar, e tentava ela mesma conter as lágrimas. Deu um beijo de despedida na testa dela. — Adeus!

— Adeus, e lembre-se sempre de mim.

Não conseguiu mais conter as lágrimas. Apanhou a bolsa com as mãos trêmulas, e pôs-se diante da rainha.

Emerelle observou-a demoradamente, como se quisesse ver nos olhos de Noroelle se havia pronunciado a sentença certa. Mostrava-se tão solene ao fazer isso que todas as dúvidas que Noroelle tivera sobre a rainha se dissiparam. Então Emerelle deu meia-volta e pôs-se em marcha.

Noroelle olhou para trás mais uma vez, para Obilee. Certamente não seria fácil para a jovem elfa. Mas ela encontraria o seu destino — disso Noroelle tinha certeza. Pensou em Farodin e Nuramon. Dissera a Obilee tudo o que precisava saber para o caso de eles voltarem. A impressão que tivera ao ver a Caçada dos Elfos partir não estava errada: ela não voltaria a ver os seus amados.

Seguiu a rainha sem sentir antipatia por ela. Emerelle era a sua soberana e isso nunca mudaria. Ao longo do dia perguntara-se várias vezes o que teria feito se não se tratasse do seu filho. Precisou reconhecer que teria apoiado a decisão da rainha. Mas, como era a mãe da criança, preferia encarar a eternidade diante de si a ferir sua carne ou derramar o seu sangue. E era por isso que agora precisava deixar este mundo. Uma elfa não podia mudar o seu destino, mesmo que ele nunca fosse conduzi-la ao luar.

Olhou para trás uma última vez e sorriu. Enquanto o seu lago existisse, os filhos dos albos sempre se lembrariam de Noroelle, a feiticeira.