A Civilização Inca

Henri Favre · Capítulo 1 de 22

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A Civilização Inca

Capítulo I. Precursores e concorrentes

 

Quando os espanhóis chegaram ao Peru, em 1532, os Incas j á haviam estabelecido o seu dom ínio sobre o planalto e a planície costeira dos Andes. Seu Im pério estendia-se desde Cuzco até a Colôm bia, ao norte; e até o Chile e a Argentina, ao sul. O brilho de sua civilização atingia o Panam á e chegava m esm o às longínquas praias atlânticas do Brasil, sob a form a de utensílios de cobre ou ornam entos de ouro e prata transportados de tribo em tribo, através da floresta am azônica. Em toda a Am érica do Sul, vivendo ainda na Idade da Pedra, som ente a Terra do Fogo escapava ao fascínio de sua m agnificência, que deveria dar origem ao m ito do Eldorado quando os espanhóis, por sua vez, foram por ela atraídos.

Os Incas, no entanto, tiveram origens obscuras e um difícil com eço na região onde, por longo tem po, desem penharam a figura de intrusos. Sua expansão com eçou apenas em m eados do século XV sob o reinado de Pachakuti, nono soberano de Cuzco. Em bora tardia, essa expansão assegurou-lhes rapidam ente a herança de um a tradição cultural que m uitos povos haviam contribuído para forj ar e enriquecer ao longo de um passado m uitas vezes m ilenário.

1. A civilização Chavin

Os arqueólogos pouco a pouco nos revelam toda a com plexidade deste passado andino, na alternância de suas grandes épocas de unidade com períodos não m enos brilhantes de diversificação regional.

Há m ais de 14 m il anos, pequenos grupos nôm ades percorriam a costa central do Peru, em busca de frutas, raízes e caça, deixando com o testem unho de sua passagem apenas raspadeiras e buris (culturas da Zona Verm elha e de Oquendo), assim com o algum as arm as de m ão (cultura Chivateros) grosseiram ente obtidas por percussão.

Após o recuo das grandes geleiras andinas e conseqüente desertificação do litoral, esses caçadores e coletores fixaram -se na em bocadura dos rios que desciam do flanco ocidental da cordilheira. O esgotam ento dos recursos vegetais e anim ais do m eio natural, atingido pela aridez, levou-os a explorar os produtos oceânicos e a se dedicar às prim eiras experiências agrícolas. Por volta de 3500 a.C., nas pequenas aldeias de pescadores, com o Chilca e Paracas especialm ente, plantavam -se abóbora, vagem e algodão. As pequenas coletividades interioranas, tais com o as que se abrigavam desde o VIII m ilênio nas cavernas dos altos Andes, no Centro e Sul do Peru, desenvolvem por essa m esm a época o cultivo da pim enta, do am aranto, da quinoa e de diversas espécies de cucurbitáceas, após terem dom esticado a cobaia e a bania, entre 4500 e 4000 a.C. À variedade cada vez m ais extensa de espécies cultivadas cedo se acrescentou o m ilho, cuj a presença foi detectada na região de Ay acucho desde o III m ilênio, e que se difundiu pela planície a partir de Huarm ey, em 2500 a.C. A difusão dessa planta rica em elem entos nutritivos, cuj a produtividade se intensificou por seleção e hidratação, reduziu progressivam ente a im portância da caça, da pesca e da coleta, tanto no litoral com o no interior m ontanhoso, onde a agricultura adquiriu posição preponderante entre as atividades de subsistência. No início do II m ilênio, a cerâm ica apareceu quase sim ultaneam ente nas regiões situadas entre Lim a e Casm a, e em Kotosh. De qualquer m odo, a construção de grandes edifícios religiosos em pedra sobre o planalto — com o o tem plo das Mãos Cruzadas, em Kotosh (1500 a.C.) — supõe um desenvolvim ento socioeconôm ico pelo m enos igual àquele que perm itiu, aproxim adam ente na m esm a época, a edificação das prim eiras pirâm ides em tij olos secos de La Florida e de Rio Seco (1800 a.C.) no litoral.

O advento da agricultura acarretou transform ações profundas e brutais na existência e no m odo de vida dos grupos sociais, afetando a dem ografia com um a súbita expansão, após m ilênios de relativa estagnação. Os povoados, com efeito, m ultiplicaram -se e aum entaram em dim ensões. Novos povoam entos, alguns dos quais se apresentavam com o grandes aldeias de m il habitantes, gravitavam em torno dos centros cerim oniais, dom inados por um a elite sacerdotal e form ados por terraços, pirâm ides e tem plos. A civilização Chavin (por referência a Chavin de Huantar, no Callej ón de Huy alas), que perdurou durante todo o I m ilênio, parece ter sido produto da influência de um desses centros. Ela correspondia a um a das variedades de cultura local identificada por um estilo artístico associado a um novo culto que se difundiu, provavelm ente, pelos Andes inteiros. A im agem do j aguar ou do pum a, em torno da qual se cristalizava esse culto, expandiu-se m uito rapidam ente a partir de 900 a.C., desde Pichiche, no norte, até Ocucaj e, no sul, sem dúvida m ediante proselitism o. Ela aparece, com graus diversos de estilização, gravada em pedra, m odelada em argila, pintada sobre construções ou im pressa em lâm inas de ouro, em lugares separados entre si por várias centenas de quilôm etros. Apesar da distância e dos obstáculos do relevo que as isolavam , as novas sociedades agrárias adquiriram , sob a direção dos sacerdotes de Chavin, um a unidade pelo m enos ideológica que conservaram durante m uitos séculos e que selou definitivam ente sua com unidade e seu destino.