A Civilização Inca
Capítulo V. As artes e os saberes
O poder im perial j ustificava-se pela civilização que pretendia levar aos povos que lhe eram subj ugados. Não se pode desconhecer atualm ente que essa pretensão estava longe de ser consistentem ente m antida. Com efeito, a civilização inca influenciou debilm ente a m aioria das culturas andinas, cuj o desenvolvim ento bloqueou, sem dúvida, sem contudo m odificar-lhe profundam ente a tradição. Ela não m arcou senão as tribos próxim as de Cuzco e os chefes das etnias constitutivas do Im pério, cuj a população, em seu conj unto, continuou a viver segundo os antigos costum es. Aliás, essa civilização, m esm o depois de enriquecida pela contribuição cultural dos Chim u, perm aneceu à im agem de seu am biente. Rude, m ais que austera: assim se apresentava ela através de suas obras, com o tam bém do ponto de vista de m uitas que a haviam precedido nos Andes.
Os Incas, com o se sabe, inovaram pouco. Eles recolheram a herança de um longo passado durante o qual foram inventadas, experim entadas e às vezes levadas à m ais perfeita expressão as técnicas que eles desenvolveriam intensam ente. Mais do que aquilo que eles acrescentaram a essa herança, sua originalidade decorre dos em préstim os seletivos que fizeram e da m aneira pela qual os em pregaram e agenciaram .
1. A literatura, a música e a dança
Diversam ente dos Astecas, que lhes foram contem porâneos, os Incas não parecem ter tido escrita. Fizeram -se num erosas tentativas de provar que os desenhos que ornam entam os tecidos cuzquenhos são na verdade pictogram as ou ideogram as, m as nenhum a delas chegou a resultados convincentes. Quanto à afirm ação de Montesinos, segundo a qual as populações andinas teriam possuído um sistem a de escrita que teria sido esquecido depois que os Incas interditaram o seu uso, o m ínim o que se pode dizer é que lhe falta seriedade. Não se pode absolutam ente im aginar que o em prego de um instrum ento de com unicação tão im portante quanto a escrita pudesse perder-se sob o reinado dos soberanos de Cuzco, ou que estes se tenham condenado deliberadam ente a depender da m em ória dos chaski para transm itir suas ordens às províncias do Im pério.
A literatura inca, portanto, j am ais foi fixada. Alguns m itos de origem , vários relatos que evocam fatos e gestos de sucessivos im peradores e que foram m ais ou m enos fielm ente transcritos pelos com piladores europeus: eis quase tudo que restou. A transm issão oral tornava essa literatura particularm ente vulnerável às pressões da sociedade colonial. Mas, sob um a form a sem dúvida em pobrecida, ela se perpetuou clandestinam ente até bem além da Conquista. Certam ente, contribuiu com um a fração difícil de calcular para essa efêm era e curiosa floração das letras hispano-kechwa do século XVIII, caracterizada pelo longo poem a Apu Inka Ataw Wallpaman e pelo grande dram a Ollantay, cuj os personagens, tom ados da história inca, exprim em sentim entos europeus em língua nativa.
Os depositários da tradição e dos relatos sem ilegendários que constituíam os anais do passado inca eram os amawta. Com o registra Cieza de León, cada im perador cercava-se de certo núm ero de especialistas, ao m esm o tem po m úsicos, poetas e feiticeiros, para que celebrassem sua grandeza, conservando-lhe a m em ória. Quando m orria o soberano, os amawta “determ inavam se ele tinha sido bastante bem -sucedido em seus em preendim entos para m erecer figurar na história, e suficientem ente coraj oso no com bate e bondoso com os povos, para que seu nom e perm anecesse eternam ente entre os hom ens”. De acordo com a descendência do defunto, eles expurgavam todos os fatos que pudessem em palidecer o brilho do reinado que acabava de se encerrar. Depois, registravam seus feitos em espécies de epopéias ou de canções de gesta, que cantavam em diversas ocasiões. Cieza acrescenta que aqueles que tinham a função de elaborar a história oficial e de conservar sua ortodoxia eram altam ente valorizados, e que as linhagens im periais a serviço das quais estavam colocados m antinham -nos faustosam ente.
Os amawta, cuj o saber se transm itia de geração em geração no seio de certas fam ílias, forneceram a m uitos autores antigos a m atéria-prim a das crônicas que estes deixaram . Não é surpreendente, portanto, que estas apresentem diferenças sensíveis e às vezes contradições flagrantes, pois as epopéias incas tendiam m uito m enos a glorificar o Im pério, revelando a continuidade de ação entre os soberanos, do que celebrar os im peradores, acusando a descontinuidade de seus reinados. Elas desenvolviam , não um a, m as várias histórias m ilitantes, que correspondiam a igual núm ero de linhagens im periais, e que m anifestavam o prestígio que, em nom e de seus fundadores, as panaka reivindicavam concorrentem ente. Refletiam , assim , a fragm entação da consciência histórica entre os grupos de descendência rivais e a precariedade de consenso sobre o passado que se estabelecia no seio da elite.
A literatura de caráter histórico duplicava-se em um a literatura religiosa, cuj o desenvolvim ento seria brutalm ente interrom pido pelos m issionários espanhóis encarregados de destruir todas as m anifestações dos cultos autóctones. Cristobal de Molina registrou, contudo, na sua Relación des fables et rites des Incas, um certo núm ero de hinos e preces que os sacerdotes de Cuzco dirigiam às divindades, nos quais se m esclavam preocupações m orais e cuidados m ateriais. Citarem os aqui um hino dedicado ao deus Wiraqocha:
Ó Criador,
Bem -aventurado criador, sê m isericordioso;
Tem piedade dos hom ens, de teus hom ens e servidores Que tu fizeste e a quem disseste para ser.
Tem piedade deles;
Que perm aneçam sem pre sãos e salvos
Com seus filhos e toda a sua descendência;
Que percorram o cam inho reto sem pensar no m al; Que vivam longo tem po, e j am ais m orram j ovens; Que com am e vivam em paz.
Um a língua assim tão rica e suave com o o kechwa prestava-se adm iravelm ente a expressões poéticas com todas as nuanças de sentim entos. A poesia, e em particular a poesia am orosa e elegíaca, era um gênero m uito praticado e altam ente apreciado. O poeta evocava, em textos curtos, a solidão do am ante na ausência do ser am ado, o torm ento do hom em que am a sem esperança, a nostalgia do tem po que passa, a inflexibilidade do destino. Sentindo o seu fim próxim o, o grande Pachakuti teria com posto estes versos plenos de um a resignação estóica:
Eu nasci tal qual a flor em um j ardim .
Foi assim que cresci.
Depois veio a idade e envelheci,
E, quando tive que m orrer, feneci
E m orri.
Com o as epopéias e os hinos religiosos, as odes e elegias eram freqüentem ente cantadas na escala pentatônica que ainda hoj e caracteriza a m úsica andina. O canto era acom panhado por instrum entos de sopro e às vezes ritm ado pelo soar de chocalhos, batim entos de tam bor e sons de conchas m arinhas. Os m ais notáveis dos instrum entos de sopro eram as flautas. Algum as delas, com o os pequenos pinkullu entalhados em osso, ou as longas kena fabricadas com bam bu, com preendiam um só tubo perfurado de num erosos orifícios. Outras assem elhavam -se à flauta de Pã, possuindo num erosos tubos que podiam ser m odelados em argila ou m esm o esculpidos em pedra. Nenhum instrum ento de cordas, ao que parece, era conhecido nos Andes antes do século XVI.