A Civilização Inca
3. As razões do expansionismo inca
Com efeito, a resistência dos Kara foi m ais forte, perm itindo prever a im portância dessa etnia. O exército im perial que perdera em hom ogeneidade o que ganhara em núm ero, experim entou rudes reveses. A distância em que se encontrava em relação às fontes de abastecim ento lim itava suas possibilidades de ação. Em suas fileiras, o furor contido alternava-se com um sentim ento crescente de lassidão, e este se traduzia em todo tipo de atrocidades de que eram vítim as as populações locais. No m om ento em que a vitória se deixou finalm ente entrever, os Chiriwano atacaram subitam ente a outra extrem idade do Im pério, o que obrigou Way na Kapaq a desviar suas guarnições da frente setentrional, assim perm itindo aos Kara retom ar tem porariam ente as hostilidades. Pela prim eira vez o Im pério era forçado à defensiva.
Em 1523, entretanto, o território kara achava-se dom inado, e até com pletam ente pacificado, enquanto os Incas atingiam o vale de Ancasm ay o, que hoj e m arca a fronteira entre o Equador e a Colôm bia. Eles avançaram provavelm ente até a região de Pasto, m as não parece que j am ais tenham procurado ali se fixar. Outras preocupações assom avam seu soberano. Um m al desconhecido (a varíola, sem dúvida, ou a rubéola, que os europeus haviam introduzido no Novo Mundo) espalhara-se com aterradora rapidez. Enquanto esse m al abatia populações geneticam ente desarm adas, sinais estranhos surgiam no céu e seres m isteriosos, vindos do m ar, eram assinalados em diversos pontos do litoral. Os deuses, interrogados pelos sacerdotes quanto ao sentido que se deveria atribuir a esses prodígios, perm aneceram espantosam ente m udos. Em 1528, Way na Kapaq foi por sua vez abatido pela epidem ia que j á levara 200 m il de seus súditos, ou talvez tenha sucum bido a um a tentativa de envenenam ento, segundo outras fontes. Ao m orrer, algum tem po depois, deixou o Im pério m ergulhado na m ais viva inquietação e na m aior incerteza quanto ao futuro.
Entrem entes, os espanhóis, conduzidos por Francisco Pizarro, faziam o reconhecim ento das costas nas quais se preparavam para desem barcar.
3. As razões do expansionismo inca
Em m enos de um século, a confederação cuzquenha liderada pelos Incas chegou a fundar o m ais vasto Im pério da Am érica pré-colom biana. Os territórios que conquistara por m eio de guerras incessantes cobriam um a superfície de 950 m il quilôm etros quadrados, equivalente à da França, da Itália, da Suíça e do Benelux reunidos. Ela se estendia do norte ao sul, segundo o eixo das cordilheiras, sobre m ais de 4 m il quilôm etros, desde o vale de Ancasm ay o até o de Maule. A oeste, fazia lim ite com o oceano Pacífico. A leste, um a linha de fortificações os protegia de incursões das tribos silvícolas indom áveis e predadoras da Am azônia, que tentavam esporadicam ente subir as encostas dos Andes para penetrar no interior dos planaltos.
A população com preendida nos lim ites do Im pério tem sido obj eto de estim ativas vagas e contraditórias, fundadas em bases ainda incertas, m as é duvidoso que tivesse ultrapassado 10 m ilhões de habitantes às vésperas da chegada dos europeus. Com punha-se de um a centena de grupos étnicos de im portância desigual, que se diferenciavam uns dos outros pela língua e pela cultura. Por m ais ligadas que tivessem sido por um a “co-tradição” forj ada no alvorecer de sua história, durante as grandes fases de form ação da unidade pan-andina, essas etnias reagrupadas pelos Incas não constituíam m ais que um conj unto político notoriam ente heterogêneo.
Que im periosa necessidade im pulsionava Cuzco a reunir em torno de si tantas terras e tantos povos? Que significava essa sede de conquista? Os Incas j ustificavam seu im perialism o aproxim adam ente nos m esm os term os em que os espanhóis procurariam legitim ar o seu. Diziam -se investidos de um a m issão civilizadora j unto às populações dos Andes que ainda estavam m ergulhadas na barbárie. Acusavam freqüentem ente esses povos de praticarem o incesto, de com erem carne hum ana e de viverem em estado de guerra perm anente; e iriam ensinar-lhes as relações de parentesco, o cultivo do m ilho e a arte de viver em paz que distinguia o “civilizado” do “bárbaro”.
Aparentem ente, nada predispunha Cuzco a cum prir essa m issão que cada um a das Anãs andinas — j ulgando-se única depositária da civilização e representante exclusiva da verdadeira hum anidade — pretendia assum ir. Vistos através de nossos atuais conhecim entos sobre sua cultura, os Incas não parecem um povo excepcionalm ente agressivo. Diversam ente de seus contem porâneos Astecas do México central, que cercavam a guerra de um verdadeiro culto, não parecem ter exaltado em dem asia as funções m ilitares. Nos textos revelados no século XVI por Cristobal de Molina, a guerra é designada com o um flagelo e a paz, com o o bem suprem o concedido pela benevolência dos deuses. É verdade que essa paz resultava de com bates e se instaurava em conseqüência de episódios sangrentos e atos de real ferocidade. Os chefes inim igos vencidos eram trazidos para a capital com suas arm as e seus ídolos para serem lançados aos pés do im perador, que desse m odo celebrava o seu triunfo. Eram depois decapitados, fazendo-se vasilham es de bebida com seus crânios, flautas com seus ossos, colares com seus dentes e tam bores com sua pele. Essa refinada crueldade, porém , caracterizava toda um a época, não sendo exclusiva de qualquer etnia.
A vocação im perialista dos Incas originou-se do sucesso que obtiveram nas guerras que lhes foram largam ente im postas pelas populações circundantes. A inesperada vitória de Pachakuti sobre os invasores Chanka rom pera o precário equilíbrio político dos Andes. De um lado, essa vitória colocara Cuzco em posição hegem ônica. De outro lado, porém , devia tam bém cristalizar contra tal hegem onia a hostilidade das etnias vizinhas que se j ulgavam am eaçadas e cuj as sucessivas derrotas só poderiam am pliar cada vez m ais o poder cuzquenho.
Toda conquista provocava, assim , um a nova guerra que desem bocava em outras conquistas. Os Incas j am ais escaparam dessa engrenagem na qual sua feroz resistência à invasão chanka os fizera entrar. Pois, à m edida que seu Estado se expandia, a guerra externa se fazia cada vez m ais necessária à estabilidade da ordem interna: ela se tornaria, de fato, a m ola principal do regim e. Com o toda paz im perial, a paz inca im plicava um estado de tensão perm anente nas fronteiras que m antinha a unidade das partes constitutivas do Im pério e as fazia aceitar a suprem acia de Cuzco. Às vésperas de sua m orte, Yawarr Waqaq teria apressadam ente organizado um a expedição ao planalto, com o único fim de im pedir o esfacelam ento da confederação cuzquenha, então atingida por violentas convulsões. Vários de seus sucessores em preenderam cam panhas m ilitares — m uito m enos no sentido de anexar novos territórios do que para j ugular as forças centrífugas que operavam no seio das etnias que eles j á controlavam e cuj a atuação colocava em incessante perigo o seu im enso m as frágil edifício político pluriétnico e pluricultural.
Desse m odo, a guerra de conquista constituía um fator essencial de integração e de m obilidade social dentro do Im pério. Ela representava o proj eto coletivo que confederava os povos vencidos e subj ugados. A realização de tal proj eto era bastante lucrativa para tornar tangível aos olhos destes últim os as vantagens da dependência em que seriam m antidos. Os guerreiros que se distinguiam em com bate podiam aspirar a títulos, bens e sobretudo à m ão-de-obra servil recrutada nos contingentes de prisioneiros. O prestígio que obtinham com suas proezas e as recom pensas que as sancionavam refletiam -se no conj unto do grupo étnico a que pertenciam .
É provável que se tenha form ado logo um “partido da guerra” através do qual os chefes das etnias subj ugadas — m ais ainda que os próprios m em bros da tribo inca — pressionassem continuam ente o poder para se engaj ar em novas conquistas m ilitares que lhes dariam ocasião de m elhorar seu status.
Por outro lado, as transferências de riquezas engendradas pela expansão do Im pério incitavam grande núm ero de pequenas etnias, conscientes de seu isolam ento e de sua frágil capacidade de defesa, a se colocarem deliberadam ente na órbita de Cuzco. Foi assim que os Chincha da costa m eridional se associaram aos Incas, não só para evitarem , m ais cedo ou m ais tarde, sofrer as conseqüências de sua invasão com o tam bém para poderem participar dos benefícios de seu em preendim ento im perial. Segundo o testem unho de chefes chincha, os soberanos incas freqüentem ente se esforçavam para convencer as populações periféricas de que o Im pério era o único quadro político possível, e com provavam por m eio de presentes suntuosos todo o interesse que estas teriam em se incorporar a ele.
Entretanto, o im perialism o de Cuzco se fragm entou no reinado de Way na Kapaq, devido à tenaz resistência das etnias do extrem o norte. O grande exército im perial, no qual os Incas não eram m ais que m inoria, m ergulhou em operações de pacificação sem obter vitórias grandiosas e nem m esm o sucessos decisivos. Diante desse fracasso, o proj eto federativo do Im pério com eçou a perder sua credibilidade, ao ponto de graves insurreições de caráter autonom ista se haverem desencadeado no próprio centro do Estado pan-andino. Significaria isso que o Im pério, um a vez atingidos seus lim ites definitivos, estaria condenado a se desintegrar? Isso seria subestim ar os esforços que Pachakuti e os im peradores seguintes em preenderam para organizar os territórios conquistados e reabsorver, na tram a de um a nova ordem social, o m osaico de antigos povos dos Andes. Mas Cuzco se havia estendido longe dem ais — e sobretudo rápido dem ais — para que tais esforços tivessem tem po de produzir todas as suas conseqüências. Sem dúvida, a guerra de conquista era ainda indispensável à coesão de seu Im pério quando j á se havia tornado im possível. Por isso, apesar das brilhantes realizações que o caracterizaram no dom ínio interior, o reinado de Way na Kapaq assinalaria m enos o apogeu do poder inca do que o início de sua decadência.