A Civilização Inca
3. A sede do poder
O poder im perial, que na origem estava inscrito em um contexto étnico preciso, inseria-se igualm ente em um quadro geográfico determ inado. Tinha por sede a cidade de Cuzco, onde a tribo inca se estabelecera ao fim de sua saga, e à qual estava ligada por vários laços m uito fortes.
Durante longo tem po, Cuzco não foi senão um a aglom eração de cabanas indistintam ente agrupadas ao redor do santuário rústico onde fora colocada a im agem do Sol. Mas Pachakuti transform ou essa pequena aldeia em sua vasta cidade cosm opolita que com preendia, em seu apogeu, talvez m ais de 60 m il habitantes. Ao descobri-la, em 1533, os espanhóis ficaram im pressionados com suas dim ensões, com o plano harm onioso que presidia à distribuição de seus quarteirões, com a aparência de seus edifícios e com a riqueza de sua decoração. Sancho de La Hoz j ulgou-a “digna de ser vista na Espanha”. “Ela está repleta de palácios senhoriais, pois nela não vive qualquer pessoa pobre. Cada senhor ali constrói a sua casa, m esm o não tendo que residir nela perm anentem ente. A m aioria dessas habitações é feita de pedras, outras têm a m etade de sua fachada desse m aterial. Há tam bém m uitas casas de tij olos, e elas estão dispostas em boa ordem , ao longo de ruas entrecruzadas regularm ente, m uito estreitas, todas pavim entadas, e sulcadas no m eio por um a calha de pedra. O único defeito dessas ruas é serem estreitas, pois de cada lado da calha há lugar som ente para um cavaleiro. Essa cidade está situada na encosta de um a m ontanha, estendendo-se até a planície. A praça, quase inteiram ente plana, é quadrada e pavim entada. Em torno dela há quatro casas que são as principais da cidade: estas são pintadas e construídas em pedras entalhadas.”
A cidade era encim ada pela im ponente fortaleza de Sacsahuam an. Essa cidadela com preendia diversos arsenais e casernas, bem com o um a torre m onum ental de quatro ou cinco níveis que repousava sobre um a base quadrada. Fora planej ada para que 5 m il guerreiros nela pudessem facilm ente m anter-se em guarnição e rechaçar um cerco. Sancho de La Hoz, que a viu antes de ser destruída, escreve que era a coisa m ais bela que se poderia adm irar no país. “As ram pas são feitas de pedras tão grandes que ninguém poderia im aginar, ao vê-las, que tivessem sido colocadas nesse lugar pela m ão do hom em , são tão grandes quanto pedaços de m ontanha ou de rochedos, e algum as têm 30 palm os de altura, outras 25, e outras 15, m as não há qualquer um a que sej a suficientem ente pequena para ser transportada em três carroças.” Com efeito, a fortaleza era defendida, do lado oposto da vila, por três m uralhas sucessivas, com ângulos reentrantes e salientes, que se elevavam sobre terraços superpostos. Essas m uralhas eram form adas por blocos m egalíticos num a construção ciclópica, alguns dos quais m ediam até 4m de altura. Tupa Yupanki, que ordenou sua construção, m obilizou para essa tarefa perto de 30 m il súditos durante vários anos.
No entanto, o edifício m ais notável da cidade, e o m ais venerável de todo o Im pério, era o Tem plo do Sol ou Qorikancha, que os im peradores não cessaram de em belezar e enriquecer ao longo de seus reinados, segundo Cieza de León, era um a vasta m uralha retangular de 400 passos de perím etro, construída em pedras secas, perfeitam ente entalhadas e aj ustadas um as às outras sem outro cim ento além do betum e. À m eia altura da m uralha passava um a cornij a de ouro de quatro palm os de largura. As portas, inteiram ente revestidas de ouro, abriam -se para um j ardim coberto de fragm entos de ouro fino e plantado com um m ilho cuj o caule, folhas e espigas eram igualm ente de ouro. Em m eio a essa vegetação artificial, passavam um as 20 lham as de ouro em tam anho natural. No interior do j ardim se elevavam quatro santuários, cuj os m uros eram externa e internam ente recobertos de placas do m etal precioso. Os m ais espaçosos continham a im agem da divindade solar ornada de um a quantidade de pedrarias de que os espanhóis j am ais puderam apoderar-se. Próxim o dela, com o rosto voltado para a cidade que protegiam , m antinham -se alinhadas as estátuas dos im peradores m ortos. Elas eram feitas de argila, m as com as vestim entas, os ornam entos e m esm o os cabelos e as unhas dos soberanos que representavam . Os três outros santuários eram consagrados à Lua (Killa), ao raio (Illapa) e ao arco-íris (Am arru).
O plano de Cuzco assem elhava-se, grosso modo, ao aspecto de um pum a, do qual a fortaleza de Sacsahuam an seria a cabeça, e a confluência dos dois rios que atravessam a cidade form aria a cauda. O corpo da cidade propriam ente dito organizava-se em torno da Qorikancha. Com preendia os palácios nos quais as panaka conservavam cuidadosam ente as m úm ias dos antigos im peradores dos quais descendiam , assim com o as casas dos m em bros das linhagens im periais que constituíam a corte do soberano reinante. Essa zona central era reservada unicam ente aos Incas, e ninguém m ais além deles podia ali se instalar. Um a linha im aginária a dividia em m etades territoriais e sociais, separando a cidade alta, Hanan Cuzco, da cidade baixa, Hurin Cuzco. Tal divisão era m uito antiga. Talvez tivesse servido outrora para regular as relações m atrim oniais e operar a distinção entre cônj uges perm itidos e cônj uges proibidos, com o ainda ocorre atualm ente entre num erosas tribos da Am érica. No interior da confederação cuzquenha, ela regulara as relações entre as etnias indígenas e a etnia heteróctone inca, que lhes era subordinada. Muito depois de Inka Roka ter unificado Hanan e Hurin sob sua autoridade, os habitantes do alto e do baixo continuaram a se opor entre si vigorosam ente em função desse sistem a dualista que Pachakuti deveria, aliás, rem anej ar.
Em torno do centro urbano, estendia-se um a zona periférica reservada aos provincianos, aos estrangeiros — enfim , a todos os súditos do Im pério que não pertencessem à etnia dom inante. Era dividida, da m esm a m aneira que o Tawantinsuy u, em quatro seções. Cada etnia tinha seu bairro na seção dessa zona periférica correspondente à seção do Im pério em que estava situada. Sua waka era ali guardada em um santuário. Seu kuraka tam bém possuía ali um a residência que ocupava quando visitava o soberano, e que deixava ou com os servidores ligados ao seu serviço ou com o herdeiro presuntivo de sua chefia, m antido perm anentem ente na Corte im perial. O bairro das etnias que os Incas prim eiro haviam feito m igrar ficava próxim o do centro urbano. Em contraste, o das etnias que haviam sido subj ugadas m ais tardiam ente ocupava um a posição excêntrica. Cuzco era um a espécie de m icrocosm o em que se refletia o Im pério, e do qual ele form ava a cabeça. As estruturas urbanas reproduziam exatam ente a organização do Tawantinsuy u, e m esm o a história de sua expansão.
Capital política, Cuzco era tam bém m etrópole religiosa, devido ao caráter sagrado do poder que sediava. A vida de seus habitantes — um a m ultidão fervilhante, singularm ente m esclada e extrem am ente fracionada pela diversidade de raças, culturas e línguas — era ritm ada pelas grandes festas que assinalavam , de um m ês lunar a outro, o calendário ritual. A cada m ês do ano, com efeito, correspondia um a festa oficiada pelo im perador, cercado de dignitários de Estado. As panaka tiravam então de seus palácios as m úm ias de seus fundadores e as conduziam em liteiras através da cidade, celebrando suas virtudes, cantando em seu louvor e evocando com brilho os grandes feitos de seu reinado. O povo, que recebia alim entos e bebidas em abundância, associava-se ruidosam ente a todas as cerim ônias.
A m ais im portante das festas era a que se celebrava em honra ao Sol (Intip ray m in). Ela ocorria anualm ente na época do solstício de verão. O im perador, que era considerado responsável por seu sucesso, preparava-se para ela com longo tem po de antecedência, abstendo-se de todo alim ento salgado ou apim entado, assim com o de toda relação sexual. Antes do nascer do dia, ele chegava à praça principal, j á invadida pelas panaka e pela população da cidade, e logo que apareciam os prim eiros clarões da aurora fazia ao astro nascente um a libação de cervej a de m ilho em um vaso de ouro. Lham as cuidadosam ente escolhidas eram oferecidas em sacrifício. Os sacerdotes as degolavam e em seguida as colocavam sobre um a fogueira a que ateavam fogo com um a estopa de algodão sobre a qual um espelho côncavo concentrava os raios solares. O fogo que o próprio Inti ateava à fogueira era transferido e conservado em um a lareira situada no interior do Tem plo do Sol que os sacerdotes dia e noite alim entavam , durante todo o ano.
Se o nom e de qusqu ou qusqo não significa “um bigo”, com o afirm am certos autores antigos, então, a cidade que o levava não era tam pouco o centro do universo do qual representava fielm ente a im agem . Era o lugar a partir do qual o im perador ordenava o caos para transform á-lo em cosm o. Desse cosm o, ele era o eixo e tam bém a alm a. Por m eio dele se com unicavam os três planos da criação: o plano supraterrestre dos deuses, o plano terrestre dos hom ens e o plano infraterrestre dos m ortos. Com efeito, era em Cuzco que os deuses se m anifestavam à hum anidade, por interm édio do im perador. Era lá que o sol se tornava visível através de seu filho eleito. Além disso, segundo a lenda, Cuzco fora fundada no local onde o balão de ouro que Manko Kapaq lançara do cum e do Wanakawri se fixara no solo. Esse rito é ainda hoj e praticado nos Andes centrais, com aj uda de um a faca ou de um a lança, para indicar os lugares propícios aos sacrifícios e profecias. Ele serve para determ inar os ushnu, isto é, os sítios privilegiados onde os deuses e ancestrais divinizados consentem em ser evocados. Ushnu por excelência, Cuzco era a cidade dos oráculos. Sua sacralidade contagiava todos os que a habitavam ou que dela se aproxim avam , a ponto de, caso duas pessoas de igual nível se cruzassem nos cam inhos do Im pério, a que viesse de Cuzco esperava até ser saudada por aquela que para lá se dirigia, visto que, de certa m aneira, a prim eira participava da santidade da cidade.
Cuzco alcançou o apogeu sob o reinado de Tupa Yupanki, pois no século XVI não era m ais, de fato, o centro diretor do Tawantinsuy u. O últim o im perador, Way na Kapaq, deixou Cuzco para estabelecer sua Corte no norte, em Tum ipam pa, onde havia nascido. Tum ipam pa, sobre cuj as ruínas os espanhóis deviam edificar m ais tarde a cidade de Cuenca, no Equador, estava situado no território da etnia Kañarr, recentem ente incorporada ao conj unto do Im pério. Encontrava-se no lim ite do distrito m ilitar setentrional, onde um a constante agitação im obilizava a m aior parte do exército im perial. A transferência do poder para essa região conturbada respondia, em prim eiro lugar, a um a exigência estratégica, pois dava ao soberano a possibilidade de subm eter a um a fiscalização m aior as chefias m ais turbulentas de seus Estados. Mas tam bém correspondia à necessidade política — talvez ainda m ais im periosa — de subtrair o im perador das pressões tradicionais das panaka cuzquenhas, e, de m aneira geral, da influência atuante dos Incas. Mais que seus predecessores, Way na Kapaq sentiria a necessidade de cortar o elo que o ligava a Cuzco, a fim de aparecer, não m ais com o o chefe de um a etnia privilegiada, m as com o o soberano de todos os povos do Tawantinsuy u, iguais em direitos diante dele. O abandono e a decapitação da velha m etrópole do sul estavam inscritos na evolução das funções im periais que levava pouco a pouco o im perador a se despoj ar de seus atributos étnicos.
A construção de Tum ipam pa foi cercada de grandes precauções rituais. O plano da nova cidade, com seu Tem plo do Sol, seu palácio e seus m onastérios, seus entrepostos e suas casernas, foi exatam ente traçado segundo o m odelo de Cuzco. Mesm o as pedras de fundação dos edifícios foram transportadas por carretas desde a velha cidade, distante, contudo, quase 2 m il quilôm etros. Tum ipam pa — povoada de kuraka do norte, m ais da m etade bárbaros; de sinchi recrutados nas chefias do distrito m ilitar; de hom ens do povo subitam ente prom ovidos pelo soberano a altas funções; e de um a m ultidão de servidores e de yana — j am ais pôde igualar-se a Cuzco. Em Cuzco, Way na Kapaq recebera a maskapaicha. Igualm ente para Cuzco foi levado e sepultado o seu cadáver. Por outro lado, Tum ipam pa não pretendia eclipsar sua rival, pois, sob o últim o reinado, nenhum a cidade poderia j am ais ser o que Cuzco fora no passado: a pessoa do im perador tornara-se a verdadeira sede do poder im perial e o único centro do Im pério.