A Civilização Inca
3. A última resistência (1545-1572)
Essa guerra, com efeito, se eternizava. Após o fracasso da grande ofensiva de 1536 e 1537, Manko tentara forçar as defesas Wanka a fim de se apoderar do vale de Mantaro e, em seguida lançar-se ao norte. Apesar de alguns sucessos locais, com o o ataque ao santuário de Wari Willka, as diversas cam panhas que travou contra os Wanka, em 1538 e nos anos seguintes, não foram suficientes para tom ar essa região estratégica. Os Wanka construíram um a inexpugnável m uralha, em cuj o abrigo os espanhóis poderiam defender-se tranqüilam ente. Manko teve, portanto, que renunciar a seus proj etos de restauração im perial e procurar um com prom isso honroso com os invasores. Graças a antigos partidários de Alm agro que haviam se refugiado ao seu lado, ele entrara em contato com as autoridades espanholas quando, em 1545, foi apunhalado em circunstâncias bastante obscuras por aqueles m esm os que havia nom eado seus em baixadores.
O desaparecim ento da heróica figura de Manko não quebrou a resistência inca. No entanto, antecipou o fim de um a guerra que devastara o Peru durante oito anos e que custara a vida de 1.500 espanhóis e, talvez, m ais de 200 m il ou 300 m il índios.
3. A última resistência (1545-1572)
Com a m orte de Manko, os Incas refugiaram -se nos bosques escarpados de Vilcabam ba. Essa região de relevo torm entoso estava situada sobre a vertente oriental dos Andes, entre Urubam ba e Apurim ac. A im ponente barreira nevada da cordilheira dos Andes barrava-lhe o acesso. Desde 1538, Manko a escolhera com o base de operações contra os Wanka. Estabelecendo acam pam ento na cidadela de Vitcos, fizera desse posto m ilitar avançado do distrito m ilitar am azonense a capital de um pequeno Estado no qual a tradição im perial, sob um a form a cada vez m ais grosseira e quase parodiada, iria m anter-se até 1572. A im agem do deus solar e os tesouros de Cuzco, que tinham sido salvos do saque, nela estavam guardados. Os cultos das divindades do Im pério, servidos com o antes pelos sacerdotes e pelas aqlla, foram ali restaurados. Um a vida de Corte, regida pelo cerim onial de outrora, fora m esm o reconstituída.
Entretanto, por m ais im buído que estivesse dessa gloriosa tradição, Manko não havia ignorado a urgente necessidade de adaptá-la a fim de assegurar sua sobrevivência. Os espanhóis surpreenderam -se ao perceberem seu im perial adversário no cam po de batalha, vestido com um a couraça e um capacete de ferro, m ontando um anim al adestrado e arm ado de um a espada. Enfrentando o ataque dos cavaleiros indígenas ou o fogo dos arcabuzeiros nativos, eles ficaram altam ente im pressionados pela rapidez com que os Incas haviam adquirido o dom ínio de técnicas m ilitares das quais acreditavam deter a exclusividade. Os Incas, porém , seguiram a escola dos europeus em m uitos outros dom ínios além da guerra. Manko parece ter tom ado consciência do fato de que, para resistir aos invasores com algum a probabilidade de sucesso, eles deveriam copiar num erosos elem entos de sua cultura, cuj a eficácia instrum ental se revelava tão grande. Mais que a generosidade desinteressada, fora a preocupação de dirigir um a abertura para o universo cultural da Europa que o conduzira a poupar os prisioneiros espanhóis e acolher todos os brancos que lhe vinham pedir asilo.
Mediante contatos arm ados ou pacíficos, a interpenetração das civilizações inca e hispânica prosseguiria sob o reinado de Say ri Tupaq, um filho m uito j ovem de Manko que, em 1545, os notáveis de Vitcos conduziram à direção do Estado de Vilcabam ba. Os ataques lançados contra as propriedades espanholas que com eçavam a se form ar nas terras tem peradas da região de Abancay traziam aos Incas o “gado de Castela”, assim com o utensílios de ferro, cuj o uso não tardou a se difundir. A interceptação de caravanas, que transitavam pela estrada de Lim a a Cuzco, propiciava-lhes tecidos de toda espécie, bem com o todo tipo de bens m anufaturados da península, igualm ente apreciados. Além disso, o com ércio de contrabando, que prosperava em torno do “reduto inca”, lhes perm itia adquirir, a preço de ouro, as m ercadorias que não podiam obter de outra form a.
Para pôr fim ao clim a de insegurança que a resistência indígena provocava no sul do país, as autoridades espanholas tentaram chegar a um a com posição com os Incas. Elas estavam prontas a concessões bem m aiores, visto que ainda não podiam pensar em lançar contra Vilcabam ba um a expedição m ilitar cuj o resultado parecia, aliás, m ais que incerto. Por interm édio de um a tia de Say ri Tupaq, que desposara um espanhol e vivia em Cuzco, em penharam -se em negociações com o j ovem soberano. Say ri Tupaq m ostrou-se interessado nos presentes que lhe foram oferecidos em troca de sua colaboração com os vencedores. Quando alcançou a idade de im por sua vontade aos conselheiros reticentes, resolveu aceitá-los. Em 1555, ele abandonou Vitcos definitivam ente. Após j urar fidelidade à Coroa de Espanha, retirou-se para os vastos dom ínios que lhe haviam sido concedidos em torno de Yucay. Morreu alguns anos m ais tarde, em 1560, cercado de consideração e cum ulado de honrarias.
Say ri Tupaq não fora seguido por um a parte dos Incas de Vitcos. Todavia, sua rendição provocara consideráveis defecções nas fileiras da resistência, então liderada por outro filho de Manko, o Titu Kusi, debilitando o Estado de Vilcabam ba e intensificando sua dependência em face dos Kam pa, dos Mashiwenka e de outras tribos silvícolas. À falta de poder para conquistá-los, os Incas haviam m antido esses “bárbaros” nas terras baixas da planície oriental. Entretanto, pressionados por sua vez em direção à planície devido à invasão européia, eles tiveram que vencer a repugnância que nutriam a respeito deles e lhes solicitar um a aj uda que as circunstâncias tornavam preciosa. Após o advento de Titu Kusi, essa aj uda tornou-se indispensável. O novo soberano viu-se m esm o na obrigação de recorrer a m uitas centenas de guerreiros de rostos pintados em cores berrantes e corpos ornados de param entos de plum as para assegurar a defesa da sua capital e proteger o seu palácio.
De fato, os Incas não podiam continuar a escapar da dom inação espanhola senão aceitando sofrer a influência cada vez m ais pesada dos bárbaros da floresta. Essa influência, que contrariava a experiência de síntese cultural indo-hispânica acalentada durante o reinado de Manko, tendia irresistivelm ente a arrastar a cultura cuzquenha para as suas raízes obscuras. Tal situação condenava o Estado de Vilcabam ba, cuj a existência Titu Kusi se esforçava por prolongar, praticando um a política que pretendia sutil, m as que não podia ser senão equívoca. Em 1565, ele se dignou a receber um em issário do vice-rei na pessoa de Diego Rodriguez de Figueroa — que nos deixou um relato pitoresco de sua estada em Vitcos —, m as se recusou obstinadam ente a aplicar os acordos que estabeleceu com ele. No ano seguinte, entretanto, consentiu em se fazer batizar e autorizou dois agostinianos a se estabelecerem em Vilcabam ba para pregar o cristianism o. Foi a um deles, frei Marcos Garcia, que ditou sua Crônica da Vida de Manko, destinada ao rei Felipe II, na qual j ustifica a atitude de seu pai, ao m esm o tem po protestando sua própria lealdade para com o soberano espanhol. Incapaz, porém , de resistir às pressões dos sacerdotes do Sol, que se ressentiam do sucesso da prédica m issionária, logo m andou frei Marcos de volta a Cuzco. Quanto ao outro religioso, frei Diego Ortiz, deveria ser supliciado depois que Titu Kusi, a quem o padre não conseguira curar, m orreu de pneum onia em 1571, quando a reação antieuropéia parecia de novo triunfar com o fraco Tupa Am arru.
O reinado do irm ão e sucessor de Titu Kusi foi dos m ais efêm eros. As autoridades espanholas, desapontadas pelo fracasso das interm ináveis conversações, estavam resolvidas a term inar pela força com a resistência inca. O vice-rei Toledo, que acabara de chegar ao Peru com instruções precisas de Madri e idéias pessoais m uito firm es, organizou um a cam panha m ilitar que dirigiu pessoalm ente. Duas colunas de tropas invadiram o território de Vilcabam ba, cuj os desfiladeiros não eram nem m ais vigiados, tão adiantada se encontrava a decom posição do Estado. Vitcos caiu sem opor resistência. Tupa Am arru tentou refugiar-se nas profundezas da floresta, m as foi alcançado e levado para Cuzco em cativeiro. A despeito da intervenção do clero j unto ao vice-rei, foi condenado à m orte e decapitado em m aio de 1572, na praça principal da velha m etrópole inca, em m eio a um a m ultidão de incontáveis índios entristecidos.
Esse assassinato inútil pôs fim à linhagem dos unificadores de terras e de povos que haviam dom inado os Andes inteiros, e cuj a fam a alcançara toda a Am érica do Sul. Ele transferia definitivam ente para m ãos estrangeiras a sua herança, em vão reivindicada por Manko e filhos. A partir daí, m ais nada nem ninguém iria opor-se à vontade espanhola naquele que havia sido o Im pério dos Incas.