A Civilização Inca
Capítulo II. A expansão Inca
No m om ento em que os Chim u com eçavam a conquista da costa setentrional, um a pequena tribo chegava com dificuldades à bacia de Cuzco, no interior dos Andes do Peru m eridional. Adm ite-se ter sido em fins do século XIII que chegaram os Incas às terras férteis que circundam os rios Huatanay e Tullum ay o, no centro de um a depressão nas cordilheiras. Essa data é tão hipotética com o todas as dem ais que foram atribuídas aos diversos episódios da história inca, inclusive as m ais destacadas. Ela corresponde, no entanto, a um a ruptura que os arqueólogos observaram na tradição cultural local, e cuj as características sugerem a irrupção por essa época de um novo povo na região.
1. A confederação cuzquenha
De onde vinha esse povo? Com o todas as etnias andinas, os Incas se reconheciam com o paqarina, isto é, um a m atriz tribal de onde acreditavam originar-se seu ancestral-fundador. Os prim eiros cronistas espanhóis relatam que a paqarina da etnia inca era a gruta de Paqariqtam pu, situada aproxim adam ente a uns 30km ao sul de Cuzco. Dessa gruta, haviam saído outrora quatro irm ãos: Ay ar Kachi, Ay ar Uchu, Ay ar Awka e Ay ar Manko ou Manko Kapaq. Sem pai nem m ãe, sem terras nem bens, esses ancestrais peram bularam por longo tem po entre Tam pukiro, Pallata e Hay skisro, deslocando de um lugar a outro seu frágil acam pam ento. O m ais velho, Ay ar Kachi, regressou de Hay skisro, reentrando na caverna m atricial para aí se converter em waka (divindade local). Os m ais j ovens prosseguiram sua longa m archa até o cum e do m onte Wanakawri, que dom ina o vale do Huatanay. Lá, Ay ar Uchu se petrificou, enquanto Manko Kapaq lançava um bastão de ouro em diversas direções a fim de determ inar o lugar que m arcaria o fim de sua m archa errante. O bastão afundou-se nas terras de Wanay pata, das quais Ay ar Kachi tom ou posse antes de se petrificar por sua vez. Ficando sozinho, Manko estabeleceu-se em Wanay pata e aí construiu a cidade de Cuzco. Com o auxílio de sua esposa-irm ã, Mam a Oqllo, reuniu sob sua autoridade as populações esparsas das redondezas, que viviam na barbárie, para fazê-las penetrar na civilização. Os Incas considerariam para sem pre Manko Kapaq com o o ancestral de sua tribo, fundador de seu Im pério e herói civilizador de toda a hum anidade.
Seria vão procurar nesse relato as etapas de um a m igração histórica e as condições reais que determ inaram a instalação dos m igrantes na bacia de Cuzco. Quando os Incas penetraram nessa região, m uitas tribos j á haviam m uito antes fixado suas aldeias. A m ais antiga era, sem dúvida, a dos Sawasiray, que tinham Paqariqtam pu com o paqarina e Ay ar Kachi com o ancestral. Os Sawasiray eram vizinhos dos Allkawisa, cuj a paqarina era Wanakawri e o ancestral, Ay ar Uchu. Essas duas tribos haviam concluído um a aliança com os Maras, que acreditavam descender de Ay ar Awka; e foi nessa aliança que entraram os Incas, os quais traçavam sua descendência a partir de Manko Kapaq. O m ito dos irm ãos Ay ar aparecia, assim , com o elaboração tardia a partir de elem entos díspares. Ele visa, em prim eiro lugar, atribuir um a origem com um aos ancestrais-fundadores de quatro grupos étnicos diferentes que haviam decidido confederar-se. Sua principal função era j ustificar a situação política de Cuzco após a chegada dos Incas, e não descrever o itinerário que estes teriam em preendido.
A inserção dos recém -chegados na confederação cuzquenha foi certam ente m enos gloriosa do que pretendia a tradição. Os Incas ocuparam , em relação aos Sawasiray, aos Allkawisa e aos Maras, um a posição subordinada, talvez m esm o dependente. De seus poderosos aliados, adotaram num erosos traços culturais, especialm ente a língua, o kechwa, cuj a difusão iriam posteriorm ente assegurar através dos Andes. Contudo, não renunciaram ao seu próprio idiom a, que continuaram a praticar entre si até fins do século XVI. Segundo o padre Bernabé Cobo, esse idiom a teria sido estreitam ente aparentado ao dos índios Tam pu, que viviam no vale de Urubam ba, tendo supostam ente afinidades am azonenses. Outros indícios, por outro lado, sugerem localizar-se no interior da alta floresta am azônica o foco original dos Incas.
A prim itiva organização da confederação cuzquenha repousava sobre a existência de duas m etades que m antinham entre si relações de oposição com plem entar e desequilibrada. Hanan, a m etade de cim a, era tam bém a m etade “forte”, constituída pelos ocupantes iniciais do solo. Hurin representava a m etade “fraca” de baixo, constituída pelos Incas. O poder parece ter sido partilhado entre as m etades, de tal m odo que Hanan detinha as funções políticas e religiosas, enquanto Hurin exercia a função m ilitar. Os prim eiros chefes incas usavam então o título de sinchi (chefes de guerra). Em bora os sinchi garantissem o culto que sua tribo rendia a Inti, a divindade solar cuj o tem plo habitavam , não deixavam de depender ritualm ente das autoridades da m etade oposta.
No curso do século XIV, Sinchi Roka, que a tradição apresenta com o filho e sucessor de Manko Kapaq, e depois Lloki Yupanki, May ta Kapak e Kapa Yupanki desem penharam com grande energia o cargo de chefe de guerra no qual foram sucessivam ente investidos. Eles em preenderam num erosos ataques para saquear as cidades das vizinhas; e sem dúvida tam bém tiveram que rechaçar m uitos assaltos. Seus sucessos m ilitares reforçaram , a um a só vez, tanto a posição da confederação cuzquenha na região com o a da tribo inca no sistem a federativo de Cuzco. Com a m orte de Kapa Yupanki, a relação de forças entre os aliados foi consideravelm ente m odificada em favor dos Incas para que Inka Roka pudesse apoderar-se do controle da confederação. À frente de seus guerreiros, o novo sinchi derrubou pela violência as autoridades de Hanan, acum ulando suas funções. A estátua de Manko Kapaq foi transportada solenem ente para a m etade do alto. O culto do Sol, ligado ao do ancestral tribal, foi im posto a todos os aliados. Subordinados aos Incas, estes foram condenados a perder pouco a pouco a sua autonom ia e a se fundir em um Estado de pretensão unitária.