A Civilização Inca
3. A arquitetura e o urbanismo
O Kipu era constituído por um cordão m edindo alguns centím etros a m ais que um m etro de com prim ento. Desse cordão pendiam diversos cordõezinhos com nós, torções e cores variadas. Cada cordãozinho assim singularizado correspondia a obj etos de m esm a natureza, enquanto os nós que ele com preendia exprim iam o valor num érico desses obj etos. Um nó sim ples representava o núm ero 1. Nós cada vez m ais grossos representavam os núm eros de 2 a 9. O conceito de zero era subentendido. Segundo os nós se situassem na parte inferior, m édia ou superior do cordãozinho, o núm ero que eles representavam equivaliam a unidades, dezenas, centenas ou m ilhares — ordem de m últiplos em que se escalonavam os núm eros m arcados sobre os Kipu.
É evidente que um Kipu não era inteligível senão para o kipukamayoq que o fizera, ou para aquele a quem o kipukamayoq houvesse transm itido oralm ente o significado que atribuíra a cada um dos cordõezinhos. Para interpretá-lo, era preciso conhecer o sentido convencional das torções e das cores que os especialistas j am ais chegaram a norm alizar, ao que parece. Instrum ento m nem ônico engenhoso, o Kipu não pode, de form a algum a, ser com parado a um livro de contabilidade, cuj a leitura se faz em si m esm a.
3. A arquitetura e o urbanismo
Das m ais célebres realizações da arte m onum ental dos Incas que conferiam a Cuzco um incom parável esplendor e faziam a glória do Im pério, nada m ais resta atualm ente do que algum as pedras engastadas nos m uros de casas andaluzas. Essa arte m onum ental inscreve-se na tradição arquitetônica das terras altas andinas que se iniciou em Kotos, em m eados do II m ilênio, para se desenvolver na época Chavin e chegar ao apogeu na época Tiahuanaco. A tradição das terras altas caracteriza-se pelo em prego da pedra, e por esse elem ento se distingue da tradição do litoral, que utiliza exclusivam ente o tij olo de terra seca ao sol (adobe) com o m aterial de construção.
Tem plos e palácios eram geralm ente construídos sobre um único nível, a partir de um a base retangular. Antes do início da construção, o arquiteto realizava a m aqueta que servia para orientar os trabalhadores. As pedreiras vizinhas forneciam a rocha, particularm ente a andesita, que era talhada por m eio de instrum entos de cobre ou de bronze e depois cuidadosam ente polida com areia úm ida. Às vezes a construção dos m uros era feita de blocos poligonais irregulares que se aj ustavam tão perfeitam ente uns aos outros com o as células de um tecido orgânico, de tal m odo que não se podia introduzir sequer um a agulha em sua j unção. Às vezes eram form ados de blocos retangulares dispostos em assentam entos regulares, cuj a face externa, ligeiram ente abaulada, apresentava o aspecto de um a alm ofada. Esses dois tipos de construção, em que não se em pregava cim ento algum , parecem ter surgido, em épocas diferentes. Na realidade, são contem porâneos e se encontram com binados em num erosas estruturas.
Os edifícios eram recobertos por um sim ples teto de palha. Quando as dim ensões a isso se prestavam , substituía-se esse teto por um a falsa abóbada de pedra, cuj a técnica fora provavelm ente copiada dos povos do altiplano, construtores de torres funerárias redondas denom inadas chullpa. A falsa abóbada era conhecida há m uito tem po, não só na Bolívia, m as tam bém no norte do Peru, no interior do Callej ón de Huay las.
A principal característica da arquitetura inca é a form a trapezóide dada às aberturas, cuj a verga, m ais estreita que a base, repousa sobre braços oblíquos e convergentes. Todavia, nem essas aberturas alongadas, nem as falsas j anelas ou os nichos alinhados em alturas diferentes do m uro foram suficientes para anular a im pressão pesada que transm item esses m onum entos, indiscutivelm ente m aj estosos, porém m aciços, com linhas horizontais fortem ente pronunciadas. Às vezes algum as figuras de serpente, lham a ou pum a, talhadas no enquadram ento das portas, vêm atenuar a severidade das fachadas. Mas as decorações em relevo que ornam entam as construções Chavin, assim com o as estátuas m onum entais que se integram aos com plexos arquitetônicos Tiahuanaco, estão ausentes. Arquitetura e escultura, harm oniosam ente aliadas em épocas anteriores, foram dissociadas pelos Incas, que aliás não foram grandes escultores.
As fortalezas de Sacsahuam an, em Cuzco, e de Ollantay tam bo, no alto vale do Urubam ba, constituem os m ais belos exem plos de construção m ilitar. O pukura (praça-forte) de Ollantay tam bo é cercado por duas m uralhas sucessivas que, com o a tríplice ram pa de Sacsahuam an, são form adas de blocos m egalíticos em construção ciclópica. Os edifícios prendem -se ao flanco de um a colina natural dom inada por um a torre im ensa. Ao pé da colina estendia-se um a aglom eração da qual não restam senão os alicerces. As casas dessa aglom eração, e principalm ente as de Machu Picchu, m antidas em bom estado de conservação pela floresta sob a qual ficaram soterradas até o início deste século, dem onstram o estilo da construção civil. A planta quadrangular, em função da qual se ordenavam , as distinguia da habitação fam iliar de base circular que parece ter prevalecido na m aior parte dos Andes, sobretudo no centro e no norte das terras altas. Suas paredes eram construídas em tij olos secos ou pedras brutas unidas com terra. Ela sustentavam um telhado cuj as águas form avam um ângulo m uito agudo. A porta em trapézio, que freqüentem ente constituía a única entrada da casa, era vedada por um a cortina de pele, palha ou bam bu. Diversam ente, porém , da arquitetura m onum ental de fins cerim oniais ou m ilitares, a arquitetura civil dos Incas não se difundiu nas províncias do Im pério.