A Civilização Inca
Capítulo VI. Invasão e queda
CAPÍTULO VI. INVASÃO E Q UEDA
A m orte de Way na Kapaq, em 1528, abriu um novo interregno. Com o de costum e, as chefias rebelaram -se, o Im pério deslocou-se e o poder central ruiu, enquanto diversos candidatos à maskapaicha entravam em luta para restaurar em seu proveito o Tawantinsuy u. A história preparava-se para recom eçar. E se repetiria se um grupo de estrangeiros que iriam subj ugar o m undo inca aos destinos da Europa não tivesse então desem barcado nas costas do Peru.
1. A invasão européia (1532-1536)
De fato, a luta pelo poder lim itava-se aos dois filhos de Way na Kapaq, Ataw Wallpa e Waskarr, que o im perador m orto havia tido de duas esposas diferentes. Muito provavelm ente nascido em Cuzco, Ataw Wallpa desfrutava de alta popularidade no norte, onde passara a infância e a adolescência. O poderoso exército do distrito m ilitar acantonado ao redor de Quito, que ele freqüentem ente acom panhara em com bate e de cuj a rude existência com partilhava com boa vontade, era-lhe inteiram ente leal. Por outro lado, a nova elite engendrada pelo aparelho de Estado e recrutada nas províncias periféricas inclinava-se em seu favor. Com o Way na Kapaq, Ataw Wallpa gostava de cercar-se de kuraka recentem ente ingressos na dependência do Im pério e de hom ens com uns que um a ação de destaque houvesse feito subir de nível. Ele devia, portanto, escolher num erosos de seus chefes de guerra nas etnias setentrionais, apenas fracam ente influenciados pela cultura cuzquenha.
Por sua vez, Waskarr dispunha de sólido apoio no sul, entre as antigas chefias incaizadas, e no seio na etnia inca. Governador de Cuzco durante os dez últim os anos do reinado de seu pai, m anipulava o descontentam ento que suscitara, em todas as regiões m eridionais, a transferência da sede do poder im perial para Tum ipam pa. O corpo sacerdotal da cidade, cuj a im portância fora deliberadam ente reduzida por Way na Kapaq, e os dignitários da tribo fundadora do Im pério, que o últim o soberano havia gradualm ente destituído de consideráveis funções políticas, viam nele um instrum ento de sua revanche contra o governo do norte. Entretanto, as panaka da velha nobreza cuzquenha, apesar de todo o desej o que tinham de retom ar os privilégios, não aderiram unanim em ente à sua causa. Pois, se Waskarr descendia de um a linhagem de Tupa Yupanki, que se classificava na m etade Hurin, Ataw Wallpa pertencia, pelo lado m aterno, a um a panaka não m enos prestigiada — a do grande Pachakuti, que ocupava posição em inente na m etade oposta Hanan. Jogando com a filiação m aterna e com as relações que esta lhe valia, o pretendente do norte devia atrair, contra as panaka coalizadas da m etade de seu m eio-irm ão, as linhagens de sua própria m etade.
A luta travada para conquistar o poder im perial em vacância não opunha, portanto, som ente o norte ainda “bárbaro” ao sul do país, profundam ente “civilizado”. Não punha em confronto unicam ente as novas forças sociais diante dos grupos tradicionais em declínio j unto com a estrutura tribal do Im pério. Exprim ia tam bém , no interior dessa estrutura arcaica — que repousava sobre o parentesco, a aliança e a descendência —, a antiga rivalidade entre as linhagens de Hurin e Hanan, o velho antagonism o das panaka do Baixo-Cuzco e do Alto-Cuzco.
Após três longos m eses de expectativa que os dois adversários utilizaram para consolidar suas posições, Waskarr decidiu iniciar as hostilidades. Mandou executar alguns parentes de Ataw Wallpa a fim de intim idar os Hanan e lançou suas tropas contra o norte. A sorte das arm as lhe foi por um m om ento favorável, pois os soldados de Cuzco chegaram até os lim ites de Quito. O exército do distrito m arcial, porém , reorganizado por Ataw Wallpa e confiado a três brilhantes sinchi — Kiskis, Rum iñawi e Challkuchim aq —, logo reconquistou Tum ipam pa, apoderou-se de Caj am arca e se preparava para ocupar Jauj a a partir do planalto de Bom bom quando a notícia da aparição de indivíduos estranhos chegados do m ar se espalhou pelo Im pério convulsionado. Era abril de 1532. À frente dos espanhóis, Francisco Pizarro, que desem barcara sem anas antes na ilha de Puná, acabara de chegar a Tum bes.
A expedição espanhola fora preparada há m uito tem po. Em 1524, Pizarro fizera o reconhecim ento do litoral colom biano. Três anos m ais tarde, em 1527, ele explorou as costas do Peru e recolheu nos ancoradouros inform ações úteis sobre os territórios interioranos andinos. Seus m ovim entos teriam sido estreitam ente vigiados pelas autoridades im periais da época, que teriam enviado a seu encontro num erosos em issários. A presença espanhola nos lugares onde ela j á se m anifestara não teve, portanto, o im pacto da surpresa que freqüentem ente se lhe atribuiu. Em todo caso, Ataw Wallpa, inteiram ente ocupado em com bater Waskarr, parece ter experim entado em relação a esses hom ens brancos e barbudos, aos cavalos que eles m ontavam e às arm as de fogo de que se serviam um a sensação m ais de curiosidade do que de terror. É certo que não apreciava absolutam ente a atitude dos recém -chegados, os quais m obilizavam os kuraka litorâneos contra seus representantes e saqueavam os tem plos e edifícios públicos. Mas sua inferioridade num érica lhe parecia tão grande que ele acreditava poder facilm ente lançá-los ao m ar quando se apresentasse a ocasião propícia.
Todavia, para os partidários de Waskarr ocupados na defesa do sul, o desem barque espanhol na zona de influência de seus adversários representava um acontecim ento capaz de reverter a relação das forças político-m ilitares, desde que convenientem ente explorado. É possível que alguns deles o tenham interpretado com o um a intervenção sobrenatural em seu favor, e que os sacerdotes de Cuzco tenham m esm o evocado com esse obj etivo o velho m ito de Wiraqocha — o deus pan-andino que a espum a das ondas deveria trazer a Tawantinsuy u para fazer reinar a j ustiça e a paz. Mas, tenham sido identificados ou não com o enviados de Wiraqocha, os espanhóis pareceram aliados potenciais aos partidários de Waskarr. Este enviou secretam ente seus em baixadores a Pizarro, que dele ouviram palavras estim ulantes, ainda que am bíguas, as quais foram facilm ente interpretadas com o um a prom essa de apoio, visto que os espanhóis se preparavam para lutar contra Ataw Wallpa.
Com efeito, após haver consolidado suas alianças na costa setentrional e fundado no centro dessa região a vila de San Miguel de Piura (j ulho de 1532), Pizarro cruzou a vertente ocidental da prim eira cordilheira sem encontrar em m om ento algum a m enor resistência. Em 15 de novem bro de 1532, entrou em Caj am arca. No m esm o dia, à tarde, dirigiu a Ataw Wallpa, que organizara seus acam pam entos nas im ediações, um convite para lhe fazer visita. Era a ocasião que o chefe inca esperava para se desem baraçar desses estrangeiros que, do seu ponto de vista, eram m enos perigosos do que incôm odos. No am anhecer de 16 de novem bro, apresentou-se na cidade com um traj e cerim onial cuidadosam ente estudado a fim de am edrontar os espanhóis, que o exército de Rum iñawi, acam pado nas m ontanhas vizinhas, deveria capturar vivos em sua fuga. Ele tinha, aliás, previam ente designado os m em bros de sua corte entre os quais os prisioneiros brancos seriam repartidos na qualidade de yana.
Esse plano, que correspondia m ais a um a caçada cerim onial (chaku) do que a um a batalha, desenrolou-se de m odo inteiram ente diverso. Alguns instantes após a entrada de Ataw Wallpa na praça principal Pizarro ordenou o abrir-fogo e a entrada em com bate da cavalaria e dos cães. O pânico apoderou-se dos índios, cuj a retirada estava bloqueada. Apesar da abnegação de seus servidores, que se com prim iam em torno dele para fazer um a cerca com seus corpos, Ataw Wallpa foi arrancado de sua liteira e arrastado para um dos edifícios dentro dos quais os espanhóis estavam entrincheirados. Das elevações circundantes, o exército de Rum iñawi assistiu im potente à sua captura. Ao cair da tarde, com receio de que um assalto à cidade pudesse expor o im perador prisioneiro a eventuais represálias, Rum iñawi ordenou a retirada geral para Quito.
Entretanto, a captura de Ataw Wallpa não interrom peu a vitoriosa ofensiva do exército do norte contra os aliados de Waskarr. Pouco depois, Chalkuchim aq apoderou-se da bacia do Mantaro, enquanto Kiskis continuava sua m archa para o sul, invadindo Angoy aco e, de passagem , tom ando Vilcashuam an. Algum as sem anas m ais tarde, ele entrava em Cuzco, onde, após se haver apoderado da pessoa de Waskarr, entregou os Hurin à terrível vingança dos Hanan. A m úm ia de Tupa Yupanki, fundador da panaka do m alsucedido pretendente ao poder suprem o, foi profanada e queim ada. Quase 80 crianças e m uitas centenas de hom ens e m ulheres foram m ortos. Os m em bros de sua seção foram dizim ados e seus cadáveres lançados às aves de rapina. A velha nobreza cuzquenha extinguia-se, inteiram ente inocente do perigo branco.
No início de 1533, o Im pério estava portanto reunificado, m as o im perador, confirm ado pela sorte das arm as, se encontrava em poder dos espanhóis: Waskarr era prisioneiro de Ataw Wallpa, que por sua vez o era de Pizarro. A rigor, a reconstituição da unidade im perial era m ais aparente do que real. As forças arm adas controlavam a capital e as m etrópoles regionais, assim com o os grandes eixos de com unicação. Mas a m aioria das chefias lhes escapava. Os kuraka, que recusavam qualquer autoridade que lhes fosse superior, acorreram a Caj am arca a fim de procurar j unto aos estrangeiros o auxílio necessário para se libertar da tutela inca. Continuando a política que praticara desde a chegada, Pizarro se propôs apoiar sua rebelião contra o Estado e restaurar seu poder soberano. Obteve assim a fidelidade dos Kañarr, dos Chachapuy a e de m uitas outras etnias de m enor im portância. Em abril de 1533, seu irm ão Hernando trouxe-lhe, de sua expedição ao sul, a decisiva adesão dos Wanka. Em seu retorno de Pachacam ac, para onde fora enviado para pilhar as riquezas do célebre tem plo, Hernando havia concluído, em Jauj a, um pacto de aliança com os chefes dessa grande e poderosa etnia da bacia do Mantaro, que suportava tão m al a dom inação dos Incas quanto Kañarr e os Chachapuy a. A aliança hispano-wanka, notável pela solidez, teve im portância considerável na seqüência dos acontecim entos. Além do episódio da Conquista, ela decidiu em grande parte o destino do Peru m oderno e contem porâneo.
À rebelião das chefias constitutivas do Im pério se acrescentou a insurreição dos yana, que os espanhóis souberam igualm ente atiçar e canalizar. Essa classe servil em expansão tentava aproveitar-se da desordem geral para se levantar contra seus senhores. De Caj am arca, Pizarro decretou sua em ancipação. Transform ou assim os m ovim entos insurrecionais locais em um a verdadeira revolução social. Organizados em grupos errantes, os yana, sem ligações tribais, dissem inaram -se por todas as regiões, elim inando de passagem os sím bolos e representantes da autoridade estatal. Grande núm ero deles se uniu aos espanhóis. Wam an Pum an de Ay ala, nada suspeito de sim patia com relação aos Incas, descreveu as atrocidades de que foram capazes os yana e m ostrou a responsabilidade que eles tiveram na queda do Tawantinsuy u.
Os kuraka e os yana, aliados aos espanhóis, viam com inquietação a decisão de Pizarro de dar liberdade a Ataw Wallpa em troca do pagam ento do fabuloso resgate que consistia em encher todo um aposento de ouro, e cuj o m ontante foi avaliado em m ais de 100 m ilhões de dólares. Eles exerceram sobre o chefe espanhol e sobre seus com panheiros num erosas e sutis pressões para que o prisioneiro fosse executado. Difundiram o boato de que Ataw Wallpa, de seu cárcere, dera ordem aos seus exércitos fiéis para se apoderarem de Caj am arca e aniquilarem todos os brancos. A cada dia relatavam m ovim entos im aginários de tropas inim igas nas vizinhanças da cidade. Teria Pizarro acreditado nessas alegações? Teria sido ele vítim a dessa intoxicação psicológica inteligentem ente organizada? O fato foi que, tom ando por pretexto o assassinato de Waskarr, que ocorrera algum as sem anas antes, ele fez condenar Ataw Wallpa à m orte, em 29 de agosto de 1533, por fratricídio e usurpação.