A Civilização Inca

Henri Favre · Capítulo 2 de 22

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A Civilização Inca

2. Os Estados de Tiahuanaco e Huari

No início de nossa era, a vigorosa afirm ação de tendências regionalistas latentes pôs fim a essa grande época de unidade andina. A partir de inovações tecnológicas anteriores, culturas locais m uito variadas desenvolveram -se entre os séculos I e VIII d.C.: a cultura Mochica, no litoral norte, caracterizada pela cerâm ica m odelada; a cultura Paracas-Nasca, na costa sul, caracterizada pelos tecidos finam ente decorados e bordados; e a cultura Tiahuanaco, nos planaltos m eridionais, caracterizada pela arquitetura ciclópica e a estatuária m onum ental. Sua volum osa produção artesanal era tam bém de rara beleza, j ustificando o qualificativo de “florescente” aplicado ao período.

Os excedentes agrícolas exigidos pelo desenvolvim ento de tal artesanato eram obtidos m ediante o prolongam ento dos canais de irrigação até o litoral, e a transform ação em patam ares do solo íngrem e das cordilheiras. Chefes seculares, que substituíram os sacerdotes de Chavin, organizavam e dirigiam os trabalhos. O caráter centralizado de seu poder m anifesta-se nas enorm es pirâm ides cham adas da Lua e do Sol, em Moche, cuj a construção, m ais do que conhecim entos arquitetônicos específicos, exigiu propriam ente um a m ultidão considerável de trabalhadores não qualificados, porém altam ente disciplinados. As prim eiras cidades a partir das quais o novo poder tendia a se exercer eram edificadas principalm ente no centro e no sul dos planaltos. Pouco a pouco, am pliavam seu dom ínio sobre as populações rurais, que elas organizavam em conj untos politicam ente estruturados.

A partir do século VIII, duas dessas cidades, Tiahuanaco e Huari, situadas respectivam ente às m argens do lago Titicaca e no vale m édio do Mantaro, conseguiram reunificar, em torno de si, o fragm entado m undo andino. A expansão de Tiahuanaco dirigiu-se essencialm ente para o sul. A cidade parece ter influído em todo o planalto boliviano, na parte m eridional do Peru, até o vale do Maj es, no norte do Chile, até o vale do Loa. Dentre suas ruínas m ais fam osas, destacam -se a Porta do Sol, entalhada em um bloco único de andesita, e as im ponentes edificações adm inistrativas ou cerim oniais, cuj os m egalitos, pesando até 100 toneladas, encaixam -se perfeitam ente nos outros. Em bora notáveis por sua construção, esses edifícios não form avam senão o núcleo central da aglom eração urbana. Vastas zonas residenciais os circundavam , ocupando talvez um a dezena de quilôm etros quadrados, com o em Huari, onde foram m ais bem estudadas.

A expansão de Huari processou-se em direção ao norte, até os lim ites de Caj am arca. Mais tardia, ela surgiu apenas no século IX. Nessa época, Huari j á havia sofrido a influência de Tiahuanaco, de m odo que as duas cidades difundiram um a única e m esm a cultura, levem ente diferenciada pelo estilo de sua cerâm ica. Essa difusão resultou certam ente de conquistas m ilitares. Em quase todos os lugares, com efeito, as tradições culturais locais foram brutalm ente interrom pidas, enquanto em Piquillacta, no vale do Apurim ac, e em Viracochapam pa, perto de Huam achuco, se erigiam com plexos arquitetônicos em puro estilo Huari, servindo com o casernas e entrepostos. Além disso, o m ilitarism o dessa época é fortem ente atestado pelas obras defensivas, pelas decorações m urais que m ostram um a abundância de guerreiros e prisioneiros, e tam bém pelos túm ulos, onde as cabeças-troféus decepadas dos inim igos figuram entre as peças do m obiliário funerário. Sem dúvida, a área cultural influenciada por Tiahuanaco e Huari não correspondia ao território politicam ente dom inado pelas duas m etrópoles. Não é m enos verdade, porém , que durante dois ou três séculos elas foram as capitais de grandes Estados andinos, antecipando-se com o precursoras dos vastos Im périos Chim u e Inca.