A Civilização Inca
2. A astronomia e as matemáticas
O term o kechwa taki, que designa a um só tem po a dança e o canto ao ritm o do qual esta se realiza, sublinha a união íntim a que existia entre a literatura, a m úsica e a expressão corporal. As danças m ais com uns eram o arawi e sobretudo o wayno, que, sem dúvida sob form as acentuadam ente m odificadas, se difundiu em todo o Peru contem porâneo. Wam an Pum a m enciona ainda outras: o llamaya, dança de pastores; o harawayo, dança dos agricultores; o kachiwa, dança da alegria; o haylli arawi, dança da vitória após os com bates. Ele acrescenta que, “quando não eram acom panhadas de bebedeiras, se poderia dizer que representavam a expressão da m ais perfeita felicidade”. De fato, essas danças inscreviam -se no quadro de cerim ônias rituais durante as quais os dançarinos, vestidos de fantasias com guizos, consum iam a cervej a em abundância para chegar a um estado de transe m ístico. Em Huarochiri, as danças que tinham lugar no m om ento da sem eadura, para propiciar a fertilidade do solo, possuíam um incontestável aspecto orgíaco.
2. A astronomia e as matemáticas
Os Incas, que ignoravam a escrita, não podiam registrar em textos o fruto de sua observação do m ovim ento dos astros com o o fizeram tão m inuciosam ente os antigos Mexicanos. Não deixaram qualquer docum ento sem elhante aos calendários m esoam ericanos, que perm itiria hoj e avaliar a extensão e a precisão do saber que, a partir de tal observação, eles haviam elaborado no dom ínio do côm puto do tem po. Entretanto, com o em todas as sociedades agrárias, a astronom ia não era um saber negligenciado nos Andes. Sabe-se que o ano inca correspondia ao ano solar. Segundo Molino, ele com eçava na época do solstício de verão, isto é, no curso do m ês de j unho. Outros cronistas, porém , afirm am que ele se iniciava em dezem bro, com o solstício de inverno. Era dividido em 12 m eses lunares, cuj os nom es — sobre os quais, aliás, os autores antigos não m antêm m aior acordo tam pouco — teriam sido fixados por May ta Kapaq, quarto soberano de Cuzco. Cada m ês com portava um a série de atividades rituais que tinham lugar na capital e um a série de atividades econôm icas que se desenvolviam nas províncias.
Principais
Mês Atividades GREGORIANO INCA Rituais e
Agrárias
Warachikuy
rito de
Dezembro Raymi passagem
dos
adolescentes
Janeiro Kamay
Qatun
Fevereiro
pukuy
Pacha
Março
pukuy
Abril Ariwakis
Qatun
Maio Colheitas
kuski
Intip
Awkay raymin
Junho festa da kuski
divindade
solar
Chawa
Julho
warkis
Agosto Yapakis Semeadura
Sitwa, rito
de expulsão
Koya
Setembro das
raymi
desonras e
das doenças
Uma
Outubro
raymi
Novembro Ayamarka
(Segundo Polo de Ondegardo, Cabello Valboa e Murúa.)
O ano solar, entretanto, não coincidia exatam ente com o ciclo dos 12 m eses lunares. Ele conta, com efeito, 10,9 dias a m ais que o ano lunar. Ora, com o cada ano lunar estava associado a cerim ônias rituais e sobretudo a trabalhos agrícolas, com o a sem eadura e a colheita, essa diferença, crescente de ano para ano, devia ser periodicam ente reabsorvida. Para isso, era necessário repartir os dias excedentes entre os diferentes m eses, acrescentá-los ao 12º m ês lunar, ou reuni-los em um terceiro m ês colocado ao fim do terceiro ano lunar. Ignora-se qual dessas soluções — nenhum a das quais é inteiram ente satisfatória — foi definitivam ente adotada. Sabe-se, porém , que o problem a da concordância entre o tem po solar e o lunar preocupou seriam ente as autoridades do Im pério. As tentativas que Wiraqocha Inka realizou para restabelecer essa concordância valeram -lhe ser lem brado na história com o o verdadeiro inventor do calendário. Mas elas não foram certam ente coroadas de sucesso duradouro, pois o im perador seguinte, Pachakuti, a quem se atribui a m esm a invenção, teve que repeti-las. Pachakuti teria feito edificar 12 torres a leste de sua capital para m arcar o lugar exato onde o sol se elevava ao início de cada m ês, e tornar assim evidente a correspondência entre os dois sistem as de côm puto.
Não parece que o calendário tenha tido entre os Incas um a função divinatória tão significativa com o entre os Maias, por exem plo, onde ele indicava os dias de sorte e os dias nefastos, e servia para predizer os destinos individuais e coletivos. Contudo, entre a astronom ia e a astrologia, a fronteira perm anecia vaga. Os corpos celestes exerciam um a influência sobre os hom ens, e seus m ovim entos possuíam um significado prem onitório. A posição da lua no céu anunciava a chuva fertilizante ou a estiagem causadora de escassez. Suas fases abriam períodos favoráveis a certas atividades e desfavoráveis a outras. A passagem dos com etas pressagiava epidem ias, fom es ou guerras. Os eclipses eram particularm ente tem idos, pois constituíam um a am eaça a toda a hum anidade. A astrologia respondia antes de tudo às inquietações das coletividades agropastoris e às preocupações de seus habitantes. Os responsáveis pelo Estado, que dispunham de outros m eios de ação para influir no sobrenatural, não parecem tê-lo em pregado com o técnica de governo.
Os cálculos necessários ao desenvolvim ento da astronom ia e à determ inação de um calendário faziam -se à base de um sistem a num érico decim al. As operações eram facilitadas pela invenção de um a espécie de ábaco, do qual fala Cobo, e que Wam a Pum a representa em um de seus desenhos prim itivos. O ábaco inca com preendia cinco fileiras de quatro casas, entre as quais se distribuíam séries de um a cinco grãos de m ilho. Os resultados obtidos eram registrados sobre os Kipu, cuj a grande im portância para os recenseam entos populacionais, regularm ente praticados por um Estado que se apoiava em um sistem a de corvéias, j á com entam os.