A Civilização Inca
2. Os imperadores conquistadores
Inka Roka foi o prim eiro soberano inca a m erecer plenam ente esse título. Ele chefiou m uitas expedições que culm inaram com a incorporação de um a dezena de aldeias periféricas, tais com o Muina e Pinawa. Mas a obra que ele deixou perm aneceu frágil e foi devastada por revoltas durante o efêm ero reinado de seu inexpressivo sucessor Yawarr Waqaq, interrom pido por um a conspiração. Todavia, Wiraqocha Inka, subindo ao poder em 1400 aproxim adam ente, conseguiu neutralizar os excessos dessas tendências autonom istas. Esse soberano, que tom ara o nom e de um a antiga divindade pan-andina, lançou seus turbulentos aliados à conquista dos terrenos de coca e m ilho de Calca, no alto Urubam ba. Em seguida invadiu o território dos Kana e dos Kanchi, subm etendo-os à sua dependência. Essa vitória, que garantiu aos Incas o acesso ao planalto, perm itiu-lhe intervir com o m ediador no conflito que opunha as grandes etnias ribeirinhas do lago Titicaca. O Estado inca tornara-se um poder que, dali por diante, o sul andino teria que levar em conta. Na verdade, esse poder era ainda m uito m odesto com parado à am plitude que iria alcançar, m as que nada ainda perm itia prever, pois — por m aior que fosse no interior e por m ais respeitada que fosse no exterior — a autoridade de Wiraqocha j am ais ultrapassou de uns 40 quilôm etros além de Cuzco.
2. Os imperadores conquistadores
O fim do longo reinado de Wiraqocha Inka foi perturbado pela am eaça cada vez m ais clara que os Chanka faziam pesar sobre o j ovem Estado inca. Os Chanka ocupavam o vale do Pam pas, desde os lagos de Choclococha, de onde se diziam originários, até o Apurim ac. Essa antiga etnia, cuj a cultura rem ontava à tradição Nasca, era organizada com o um a rica e poderosa chefia que tinha acesso aos recursos das duas planícies andinas. Com as tribos vizinhas de Sora, Poqra e Rukana, form ava um a vasta confederação cuj a influência se estendia a todo o centro-sul das cordilheiras.
Em torno de 1438, os Chanka invadiram as terras tem peradas e quentes da depressão de Abancy, cuj a fertilidade há m uito tem po lhes excitava a cobiça. Depois de arrasar os Kechwa que ali se haviam estabelecido, avançaram m ais profundam ente para o sul, em direção a Cuzco. Wiraqocha Inka, j á envelhecido, considerou inútil toda resistência e apoiou a idéia de abandonar a capital para se refugiar na fortaleza de Calca, com seu filho Urqu, a quem destinava o poder. Outro de seus filhos, porém — o que a história viria a conhecer com o nom e de Pachakuti —, decidiu defender a cidade. Apoiado por seus parentes m aternos e assistido por dois chefes de guerra, Apu May ta e Wikakiraw, reuniu sob sua autoridade todos os hom ens válidos que se haviam recusado a seguir o soberano em retirada e procurou deter a horda de invasores.
O encontro teve lugar nos arredores de Cuzco. Exageradam ente certos do sucesso, os Chanka expuseram im prudentem ente a estátua de seu ancestral-fundador, da qual os Incas conseguiram apoderar-se. Tiveram que recuar desordenadam ente em direção a Ichupam pa para aí reorganizar suas fileiras. Pachakuti, porém , não lhes deu tem po. À frente de forças acrescidas pelos contingentes das etnias dependentes — que se haviam m antido em prudente expectativa na hora do perigo, m as que agora se propunham acorrer para assegurar sua vitória —, caiu sobre o acam pam ento Chanka, aniquilando-o. Os dois sinchi que com partilhavam o com ando do exército inim igo foram assassinados, enquanto m ilhares de guerreiros acabaram m assacrados. O poderio chanka foi elim inado para sem pre. Com ele desaparecia o único obstáculo que se opunha à hegem onia inca sobre o conj unto dos planaltos, visto que nenhum a outra etnia estava em condições de deter a expansão de Cuzco. A inesperada vitória dos Incas, atribuída à intervenção da divindade solar, abria ao Estado cuzquenho a via im perial, em que Pachakuti iria resolutam ente se em penhar.
Fortalecido pelo apoio de suas tropas, que ele soube m anter distribuindo generosam ente o saque de guerra, Pachakuti depôs seu pai Wiraqocha Inka e tom ou a maskapaicha, isto é, a franj a escarlate que era insígnia do poder suprem o, usada sobre a fronte por todos os im peradores. O prim eiro cuidado do novo soberano foi ocupar o território dos Chanka vencidos. Durou m uitos anos a cam panha m ilitar que organizou com essa finalidade e dirigiu pessoalm ente. Os Incas tiveram que conquistar um a a um a as praças-fortes nas quais a população chanka estava entrincheirada. Quando a pacificação se achava suficientem ente avançada, Pachakuti confiou sua conclusão a seu irm ão Kapa Yupanki a fim de poder voltar-se para o sul e conquistar o planalto com o grosso de seu exército. Supõe-se que de 1445 a 1450 ele tenha travado duros com bates com os Kolla e os Lupaka, bem com o com outras chefias de m enor im portância que se haviam constituído ao redor do lago Titicaca. Essas chefias eram de língua e cultura ay m ara. Elas representavam os rem anescentes do que havia sido o grande Estado de Tiahuanaco, cuj a civilização conservavam sob m uitos aspectos.
Ao m esm o tem po em que Pachakuti anexava a região lacustre do altiplano, Kapa Yupanki se lançava ao norte em um a louca aventura. Tendo definitivam ente pacificado os Chanka, que havia rearm ado e integrado às fileiras do exército de Cuzco, decidiu m archar contra os Anqara. Em seguida prosseguiu cam inho através da bacia do Mantaro, ocupada pelos Wanka. Finalm ente penetrou no vale elevado do Santa, povoado pelos Way la, e se deteve em Caj am arca, onde fixou um a guarnição.
Esses ataques audaciosos colocaram o Estado inca em um a situação política e diplom ática delicada. Com eles Kapa Yupanki pretendia provavelm ente alcançar o prestígio necessário para derrubar Pachakuti. Talvez tivesse conseguido vencer o soberano se este, descobrindo suas intenções, não houvesse m andado assassiná-lo. As conseqüências externas da irresponsabilidade de Kapa Yupanki deixaram , porém , suas m arcas. Caj am arca encontrava-se a m ais de m il quilôm etros de Cuzco, em m eio a povos hostis que escaparam inteiram ente ao controle dos Incas. Por outro lado, essa região — onde nasciam os principais rios cuj as águas irrigavam a planície árida — revestia-se de considerável im portância estratégica para os Chim u, que a m antinham sob seu dom ínio. A guarnição cuzquenha que fora ali deixada só podia suscitar um a violenta reação da pane do grande Im pério litorâneo, então no apogeu de sua glória. Entretanto, ao invés de abandonar um posto avançado perigosam ente exposto, Pachakuti resolveu defendê-lo, m esm o se arriscando a um duvidoso confronto com a potência que, com tanto brilho, dom inava a costa setentrional e central. Em 1463, organizou um exército — cuj o com ando confiou ao seu j ovem filho Tupa Yupanki — para conquistar os im ensos territórios que ainda separavam Caj am arca das fronteiras de Cuzco.
Vencendo os Anqara, os Wanka e os Way la, Tupa Yupanki penetrou em Caj am arca, onde a guarnição inca conseguira revidar todos os assaltos contra ela desfechados. Em seguida precipitou suas tropas em direção ao litoral, ao longo do vale de Moche, e conquistou a m etrópole de Chanchan. Minchansanam , que ali reinava, foi forçado a capitular. Não deixa de ser um tanto m isteriosa a derrota dos Chim u, e sobretudo a aparente facilidade com que os Incas a provocaram . Os antigos autores, que habitualm ente relatam as m ínim as batalhas em tom de epopéia, não m encionam sequer um a única tentativa séria de resistência à invasão cuzquenha. Eles fazem crer, com sua surpreendente discrição, que o Im pério Chim u caiu sob o poder de Cuzco com o um fruto m aduro dem ais. De fato, com o todos os im périos “hidráulicos”, o Im pério Chim u era singularm ente vulnerável. Sua enorm e dependência em relação à irrigação colocava-o à m ercê de quem quer que chegasse a controlar as fontes e os coletores de águas fertilizantes que lhe asseguravam um a faustosa opulência. Seu destino estava j á decidido desde o instante em que os Incas, solidam ente im plantados nos planaltos interioranos, podiam desviar à vontade o curso dos rios e assim devolver os florescentes oásis da costa à aridez do deserto.
O exército inca dirigiu-se em seguida para o norte, onde Tupa Yupanki conquistou ainda Quito e Manta, no atual Equador. Retornou depois a Cuzco pela rota do litoral, pilhando de passagem as extraordinárias riquezas que encontrava. Juntam ente com os tesouros que a antiga aristocracia chim u acum ulara, foram levados tam bém num erosos traços da brilhante civilização litorânea, os quais iriam im prim ir sua m arca sobre a cultura ainda tosca dos m ontanheses incas e m ais tarde influenciar profundam ente o desenvolvim ento do ritual e das artes em Cuzco.
O retorno das forças cuzquenhas, em 1470, m arcou o fim do reinado de Pachakuti. Renunciando a im por seu filho preferido Am arru com o sucessor, o soberano foi provavelm ente forçado a ceder o poder a Tupa Yupanki, que tinha um exército vitorioso para apoiar suas am bições. Contudo, sua glória não foi absolutam ente ofuscada pelo isolam ento em que term inou os seus dias. Ele se m anteve na lenda e na história com o o verdadeiro fundador do Im pério Inca. Grande conquistador, conservou-se na m em ória de seus súditos tam bém com o grande organizador de terras e de povos. Ele ordenara a reconstrução de Cuzco segundo um plano grandioso, criara um a vasta rede de com unicação e de m ensageiros que se estendia até as fronteiras e organizara um exército forte e um a burocracia eficaz para adm inistrar as províncias sobre as quais reinava a “paz inca”. Por ter sabido aliar harm oniosam ente o saber organizador à violência criadora, viria a representar — m elhor que qualquer outro de seus predecessores ou sucessores — o m esm o m odelo de soberano perfeito que Manko Kapaq representou no plano do m ito.
Tupa Yupanki continuou a obra de seu pai. Dedicou a m aior parte de seu reinado a am pliar o Im pério, em cuj a criação havia tão intim am ente colaborado. Quando consolidou seu poder em Cuzco, entrou em luta com os povos da costa m eridional que até então haviam conseguido conservar a independência. Conj ugando ação diplom ática e pressão m ilitar, penetrou no vale de Chincha, m as só chegou a tom ar o vale vizinho de Cañete após três ou quatro anos de guerra. Essa luta term inou com a incorporação ao Im pério do célebre centro cerim onial de Pachacam ac, cuj o culto oracular atraía há m uito tem po m ultidões incalculáveis de peregrinos vindos de todos os horizontes. A hierarquia sacerdotal que governava o centro foi respeitada em seus privilégios e sua divindade, integrada ao panteão oficial do Estado inca.
Foi no início do reinado de Tupa Yupanki, segundo afirm a a tradição, que tam bém se lançou a expedição contra os Anti da alta floresta am azônica. Os Incas designavam com o term o genérico e pej orativo de Anti o conj unto das tribos m ashiwenka, nom ashiwenka, kam pa e am uesha, que se distribuíam ao longo dos rios do planalto oriental ou perm aneciam nos igarapés. Desej avam eles destruir as bases a partir das quais esses povos — m al sedentarizados, antropófagos e “bárbaros — por excelência — desfechavam ataques até os lim ites de Cuzco? Ou pretendiam arrebatar-lhes novas terras de coca a fim de atender às crescentes necessidades rituais do Estado? Sabe-se, em todo caso, que sua expedição não obteve sucesso. O exército, duram ente afetado pelo clim a, perdeu-se nas profundezas das m atas. Em Cuzco, onde não havia notícias do im perador, as intrigas não dem oraram a se enredar em torno de diversos pretendentes a um a sucessão que o rum or público j á dizia aberta. Nas províncias, a população agitava-se ou se sublevava. Os Kolla e seus vizinhos do planalto j á se haviam libertado da tutela inca quando Tupa Yupanki reapareceu, enfim , com os guerreiros que pôde reunir em sua retirada. As lendas que se dissem inaram a respeito da existência de m onstros fantásticos im pedindo o acesso à floresta não foram suficientes para dissim ular a gravidade de tam anho fracasso, desencoraj ando qualquer outra tentativa de expansão no sentido das terras baixas do Oriente.
O im perador reconduziu facilm ente à sua dependência o planalto insurreto que cedo lhe serviria de tram polim para novos em preendim entos m ilitares. Em 1480, após ter retom ado Chucuito — que fora o centro da insurreição —, dividiu o exército em três blocos. O prim eiro foi enviado para o Chaco, m as seu avanço foi rapidam ente detido pelos Chirwano. O segundo dirigiu-se para o sudeste, anexando a região de Potosí, de onde prosseguiu sua m archa até Juj uy e Tucum an, na atual Argentina. Quanto ao terceiro, partiu em direção ao sul, através das cordilheiras, conquistando todo o Chile setentrional e central até o vale do Maule, onde, afastado dem ais de sua retaguarda, preferiu não se chocar com a belicosidade dos Mapuche e outras tribos araucanas. Essas anexações fizeram o Im pério tom ar posse definitiva das fronteiras m eridionais, para onde seriam transplantadas populações exógenas, agrupadas em torno de sólidas guarnições a serem instaladas.
Atribui-se a Tupa Yupanki a fundação de num erosas vilas, com o Vilcashuam an, Jauj a, Huánuco e Caj am arca, do m esm o m odo que a edificação da cidadela de Sacsahuam an, cuj as im ponentes ruínas ainda se debruçam sobre a cidade de Cuzco. Apesar do cuidado que em penhou para engrandecer a m aj estade das funções im periais, Tupa Yupanki m orreu assassinado em 1493. As conspirações que se tram avam incessantem ente na Corte — a últim a das quais não pôde desfazer — levaram ao poder um de seus filhos, o j ovem Way na Kapaq.
O reinado de Way na Kapaq foi m ilitarm ente m enos glorioso. O novo im perador, que era ainda um a criança, foi posto sob a tutela vigilante de seus tios. Cedo aprendeu a m anipular as am bições concorrentes destes últim os para lhes im por a sua própria autoridade. Em 1511, assum iu o com ando do exército e deixou Cuzco para com bater, no extrem o norte, os povos de situação ainda m aldefinida e constantem ente revoltados. Antes de se fixar em Tum ipam pa, entre os Kañarr, invadiu o território dos Chachapuy a, que viviam à m argem direita do Maranhão. Em seguida, lançou suas tropas para além de Quito, contra o Kara e seus aliados. Desse m odo se engaj ou em um a guerra longa e cruel, que deveria durar um a dezena de anos.