A Civilização Inca
4. A cerâmica e a tecelagem
Grandes arquitetos, os Incas foram tam bém grandes construtores de cidades que aceleraram fortem ente — em bora em graus variáveis, segundo as regiões — o m ovim ento geral de urbanização desencadeado nos Andes na época de Tiahuanaco. Tum ipam pa, Caj am arca, Huánuco, Jauj a, Huay tará, Vilcashuam an: são essas as principais aglom erações que edificaram no centro dos territórios conquistados. A m aioria delas que antes eram centros adm inistrativos, m ilitares e cerim oniais, raram ente ocupados por um a população num erosa e estável — não sobreviveu às guerras que acom panharam e sucederam a invasão européia. Tum ipam pa, a capital de Way na Kapaq, foi com pletam ente arrasada. Caj am arca não conservou senão o “Cuarto dei Rescate”, no qual Pizarro teria recebido o resgate de Ataw Wallpa. Huánuco e Vilcashuam an, que não foram ocupadas pelos espanhóis, foram m ais bem preservadas de um a destruição quase sistem ática, apesar de os indígenas das im ediações não terem cessado, durante quatro séculos, de extrair delas as pedras necessárias à construção de suas casas. Vilcashuam an, que está situada na região de Ay acucho, possui um a curiosa estrutura piram idal em degraus, no cum e da qual se encontra um assento de pedra que teria sido revestido por folhas de ouro.
Decididam ente, o aglom erado provinciano inca m ais bem conservado é o de Tam bo Colorado, no baixo vale de Pisco. Seus edifícios em pedra, tal com o aqueles que foram construídos no grande centro religioso de Pachacam ac à m esm a época, revelam que com os Incas a tradição arquitetônica das terras altas se difundiu à planície, onde tendeu a substituir a arquitetura de adobe. Apesar de serem num erosos no norte e no centro das cordilheiras, os conj untos urbanos de estilo cuzquenho são m uito m ais raros tanto no Peru litorâneo quanto na Bolívia. Teria sido porque nessas duas vagas regiões de seu Im pério, os Incas teriam aproveitado cidades que j á estavam em atividade? Ou seria m ais correto pensar que sua atuação política no território do Estado Chim u e das grandes chefias ay m ara fosse m ais fraca que em outros lugares? Dessas duas hipóteses, a segunda parece a m ais provável. Pelo m enos coincide com o fato de que, ao longo de toda a estrada litorânea que os espanhóis percorreram em 1532, eles não encontraram qualquer guarnição im perial, nem m esm o um único funcionário do poder central.
4. A cerâmica e a tecelagem
Com a cerâm ica inca, com pleta-se a longa seqüência dessa arte andina, cuj a abundante e variada produção se iniciou no curso do II m ilênio.
A ausência de torno obrigava o ceram ista a um a tosca form a cilíndrica que girava em torno de si m esm a para form ar as faces da peça que se desej ava obter. Com certeza, a invenção do torno na costa setentrional, no início de nossa era, tornava possível a produção em série. A ele se deve especialm ente essa cerâm ica antropom orfa e zoom orfa, de um realism o im pressionante, na qual os artesãos de Mochica revelaram extraordinárias qualidades plásticas. A técnica da m odelagem , porém , j am ais elim inou com pletam ente a do enrolar, a única que perm itia confeccionar peças m aiores, tais com o os vasos de estocagem .
Um a vez m odelado, o vaso era decorado com relevos, gravuras ou estam pas, com ou sem pintura. Às vezes era sim plesm ente pintado. Os vasos de cerâm ica de Nasca, cuj os lados eram ornados de representações de anim ais m onstruosos m uito estilizados, em sete ou oito cores, atestam o notável desenvolvim ento da policrom ia na costa m eridional do Peru. As peças eram em seguida cozidas no forno, fosse pelo processo de oxidação, fosse pelo de redução. No prim eiro caso, eram expostas a um fogo intenso subm etido a um a forte corrente de ar. Obtinha-se um vasilham e m uito duro, nos tons claros de m arrom , verm elho ou crem e que são próprias do estilo Mochica. No segundo caso, eram colocadas em forno de baixa tem peratura onde o oxigênio entrava em quantidade lim itada. O vasilham e tornava-se negro e apresentava o aspecto brilhante que singulariza o estilo Chim u.
As tigelas, os pratos fundos, os vasos de faces ligeiram ente convexas e sobretudo as garrafas esferóides com dois escoadouros ligados por um a alça plana, ou com um estribo form ado por dois dutos tubulares unidos por um gargalo, são as peças m ais representativas da produção cerâm ica andina. Os Incas extraíram desses m odelos, às vezes m uito antigos, as form as que deviam valorizar, depois que Tupa Yupanki atraíra para Cuzco os artesãos de Chim u a fim de que estes renovassem a arte da cerâm ica no coração m esm o de seu Im pério. Mas a form a que eles criaram — e que representou um a singular inovação plástica em toda a região dos Andes — foi um a espécie de pequena j arra de gargalo longo e estreito e de fundo cônico ou achatado, guarnecida de duas alças laterais, que evoca o aribalo grego, cuj o nom e lhe foi dado.
O vasilham e inca é geralm ente m uito fino, bem polido e harm onioso em suas proporções. Entretanto, não possuía a qualidade estética da cerâm ica Mochica ou Nasca. Com efeito, sua decoração é quase sem pre pobre, sem inspiração nem fantasia. Às vezes as peças são ornadas com cabeças de anim ais em relevo. Mais freqüentem ente, porém , são apenas pintadas em preto e branco sobre fundo verm elho. As cores inscrevem -se em desenhos geom étricos (quadrados, losangos, triângulos, “gregas”), dispostos em linhas horizontais e incansavelm ente repetidos.
Considerada um a arte m enor, a cerâm ica reveste-se, no entanto, de im portância capital para a arqueologia. Os cacos de cerâm ica enterrados no solo são m uitas vezes os únicos elem entos de que dispõe o arqueólogo para definir um a cultura e delim itar a área de sua expansão. A análise estratigráfica dos vestígios indica a ordem em que as culturas se sucederam em um a região, enquanto o estudo das seriações revela a influência exercida por esta ou aquela cultura sobre um a ou outra de suas vizinhas. Esses m étodos, aplicados à cerâm ica inca, vêm confirm ar a fraca incidência cultural de Cuzco sobre as etnias andinas que lhe eram politicam ente subj ugadas. Abundante nas circunvizinhanças da capital im perial, essa cerâm ica rareava no interior das províncias. Não é encontrada senão nas áreas das m etrópoles regionais ocupadas por funcionários do Estado, nos locais dos ayllu constituídos por m itm aq de origem cuzquenha e, às vezes, nas habitações dos kuraka. Não som ente deixou de influenciar os diferentes tipos regionais ou locais, que continuaram a ser produzidos segundo as tradições plásticas e estilísticas autônom as, com o tam bém não se difundiu em quantidade suficiente para representar um a percentagem significativa de toda a cerâm ica em uso em quaisquer das regiões dos Andes, à exceção da notável e ainda inexplicada cerâm ica do vale de Ica.
Mais antigo ainda que o artesanato da cerâm ica, o da tecelagem conheceu um desenvolvim ento igualm ente espetacular. O algodão cultivado no litoral, a alpaca e a vicunha das terras altas forneciam a m atéria-prim a. As fibras eram prim eiram ente tingidas com corantes naturais à base dos quais os artesãos da costa m eridional criaram um a gam a de 190 coloridos. Em seguida, eram fiadas por m eio de rocas e depois tecidas em diversos tipos de teares rudim entares. O tear m ais com um , ainda hoj e utilizado nos Andes, consistia em duas liças colocadas sobre um plano horizontal, um a das quais era fixada a um a árvore ou a um poste, enquanto a outra era presa a um a tira que o tecelão passava ao redor do corpo, na altura dos rins.
Os tecidos do Peru suscitaram , com m uita j ustiça, o deslum bram ento de todos os que os estudaram . Quase todas as técnicas conhecidas atualm ente j á eram utilizadas entre os antigos peruanos. Em pregavam -se as m ais sim ples para confeccionar as tangas e os ponchos usados pelos hom ens, assim com o os xales (liklla) e as túnicas (anaku) am arradas à cintura por um cinto que constituíam a vestim enta fem inina. Recorria-se às m ais elaboradas, tais com o o brocado, o bordado e a tapeçaria, para produzir tecidos destinados a fins cerim oniais, dentre os quais se destacam pela excepcional qualidade as peças saídas das oficinas de Paracas, na costa m eridional. Esses notáveis tecidos — alguns dos quais têm m ais de 20m de com prim ento — são decorados com m otivos anim ais tratados em policrom ia, dem onstrando perfeita m estria a um gosto apurado. Eles m arcam , sem qualquer dúvida, o apogeu da arte universal da tecelagem .
De todas essas técnicas, qual delas foi de uso m ais desenvolvido entre os Incas? Para responder a essa pergunta, seria preciso dispor de um a am ostra m aior do que a que possuím os. Ora, as condições clim áticas das terras altas, à diferença das do litoral, garantiram m uito m al a conservação dos tecidos. Sabe-se, entretanto, que a produção têxtil adquiriu nessa época um caráter m aciço e que dos m onastérios do Sol saíam quantidades enorm es de todas as espécies de tecidos, em particular os fam osos chumpi ou kumpi, de delicadeza e leveza incom paráveis. Sua decoração, porém , feita de elem entos geom étricos em duas ou três cores, era tão estereotipada com o a da cerâm ica. Parece, portanto, que os Incas j ulgavam a qualidade de um produto m ais por critérios técnicos do que por critérios estéticos, o que não significa, todavia, que sua arte fosse puram ente utilitária, com o se tem freqüentem ente afirm ado.