A Origem das Espécies

Charles Darwin · Capítulo 11 de 17 · parte 3/3

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A Origem das Espécies

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Estes órgãos, em lugar de serem fixos ou colocados num suporte im óvel, são, em certos gêneros de astérias, colocados no vértice de um tronco flexível e m uscular, ainda que curto; posto que sirvam de arm a defensiva, têm provavelm ente, neste caso, algum a função adicional. Podem reconhecer-se nos ouriços-dom ar todos os estados porque passou o espinho fixo para term inar por articular-se com a concha e adquirir assim a m obilidade. Eu quereria poder dispor de m ais espaço a fim de dar um resum o m ais com pleto das interessantes observações de Agassiz sobre o desenvolvim ento dos pedicelos. Podem , acrescenta ele, encontrar-se todos os graus possíveis entre os pedicelos das astérias e os ganchos dos ofiúros, outro grupo de equinoderinos, assim com o entre os pedicelos dos ouriços e as Ancoras das holotúiias, que pertencem tam bém à m esm a grande classe. Certos anim ais a que se dá o nom e de zoófitos, e entre eles os polizônidas em particular, são providos de órgãos curiosos, cham ados avioulários, cuj a conform ação difere m uito nas diversas espécies. Estes órgãos, no seu estado m ais perfeito, parecem -se singularm ente com um a cabeça ou um bico de abutre em m iniatura; estão colocados sobre um suporte e dotados de um a certa m obilidade, o que é igualm ente o caso para a m andíbula inferior. Observei num a espécie que todos os aviculários do m esm o ram o fazem algum as vezes sim ultaneam ente o m esm o m ovim ento de vaivém , a m andíbula inferior largam ente aberta, e descrevendo um ângulo quase de 90 em 5 segundos. Este m ovim ento provoca um abalo em todo o polizônida. Quando se tocam as m andíbulas com um a agulha, agarram na com um vigor tal, que se pode agitar todo o ram o. M. Mivart cita este caso, porque lhe parece m uito difícil que a seleção natu- 258

ral tivesse produzido, nas divisões tão distintas do reino anim al, o desenvolvim ento de órgãos tais com o os aviculários dos polizônidas e os pedicelários dos equinoderm os, órgãos que considera com o « essencialm ente análogos» . Ora, no que diz respeito à conform ação, não vej o sem elhança algum a entre os pedicelários tridáctilos e os aviculários. Estes últim os parecem -se m uito m ais às pinças dos crustáceos, sem elhança que M. Mivart teria, com tanta j ustiça, podido citar com o um a dificuldade especial, ou m elhor ainda, teria podido considerar da m esm a form a a sem elhança com a cabeça e o bico de um a ave. M. Busk, o Dr. Sm itt e o Dr. Nitsche -naturalistas que têm estudado este grupo m uito atentam ente-consideram os aviculários com o os hom ólogos dos zoóides e das suas células com pondo o zoófito; o lábio ou testa m óvel da célula correspondendo à m andíbula inferior igualm ente m óvel do aviculário. Todavia, M. Busk não conhecia gradação algum a atualm ente existente entre um zoóide e um aviculário. É, pois, im possível conj ecturar por que gradações úteis um a das form as pôde transform ar-se em outra, m as não resulta de m aneira algum a que estes graus não tenham existido. Com o existe um a certa sem elhança entre as pinças dos crustáceos e os aviculários dos polizônidas, que servem igualm ente de pinças, pode ser útil dem onstrar que existe atualm ente um a longa série de gradações úteis nos prim eiros. Na prim eira e m ais sim ples fase, o segm ento term inal do m em bro m ove-se de m aneira a aplicar-se quer contra o vértice quadrado e largo do penúltim o segm ento, quer contra um lado por com pleto; este m em bro pode assim servir para apanhar um obj eto, servindo não obstante sem pre de órgão locom otor. Vem os em seguida que um canto do penúltim o segm ento term ina por um a ligeira proem inência provida algum as vezes de dentes irregulares, contra os quais o últim o segm ento vem a aplicar-se. Vindo a aum entar o tam anho desta proj eção e a sua form a, assim com o a do segm ento term inal, m odificando-se e m elhorando-se ligeiram ente, as pinÇas tornam -se cada vez m ais perfeitas até form ar um instrum ento tão eficaz com o as patas-m andíbulas das lagostas. Podem observar-se perfeitam ente todas estas gradações.

Os polizônidas possuem , além do aviculário, órgãos curiosos cham ados vibrácula. Consistem geralm ente em largas sedas capazes de m ovim ento e facil- 259

m ente excitáveis. Num a espécie que exam inei, as celhas vibráteis eram ligeiram ente arqueadas e denteladas ao longo do bordo externo; todas as do m esm o polizônida m oviam -se m uitas vezes sim ultaneam ente, de tal m aneira que operando com o longos rem os, faziam passar rapidam ente um ram o sobre o porta-obj eto do m eu m icroscópio. Se se coloca um ram o sobre o bordo exterior dos polizônidas, as celhas vibráteis m isturam -se e fazem violentos esforços para se libertar. Crem os que servem de m eio de defesa ao anim al, e, segundo as observações de M. Busk, « expulsam lenta e docem ente a superfície do polipeiro, para afastar o que pudesse prej udicar aos delicados habitantes das células logo que saíssem os seus tentáculos» . Os aviculários servem tam bém provavelm ente de m eio defensivo; além disso, apanham e m atam os pequenos anim ais que se j ulga serem depois levados pelas correntes ao alcance dos tentáculos dos zoóides. Algum as espécies são providas de aviculários e de celhas vibráteis, o que não têm os prim eiros; outras, m as em pequeno núm ero, possuem sim ples celhas vibráteis apenas. É difícil im aginar dois obj etos m ais diferentes em aparência do que um a calha vibrátil ou feixe de sedas e um aviculário, parecendo-se com um a cabeça de ave; são, contudo, quase certam ente hom ólogas e Provêm de um a origem com um , um zoóide com a sua célula. Podem os Pois com preender com o sucede que, em certos casos, estes órgãos passem gradualm ente de um para outro, com o m e afirm ou M. Busk. Assim , nos aviculários de m uitas espécies de Lepralia, a m andíbula m óvel é tão alongada e tão sem elhante a um tufo de pêlos, que se não pode determ inar a natureza aviculária do órgão a não ser pela presença do bico fixo colocado por cim a dele. Pode fazer-se com que as celhas vibráteis sej am diretam ente desenvolvidas do lábio das células sem ter passado pela fase aviculária; m as é m ais provável que tenham seguido este últim o cam inho; porque parece difícil que, durante os estados precoces da transform ação, as outras partes da célula com o zoóide incluído tenham desaparecido subitam ente. Em m uitos casos as celhas vibráteis têm na base um suporte canclado que parece representar o bico fixo, posto que falte inteiram ente em algum as espécies. Esta teoria do desenvolvim ento da celha vibrátil é interessante, se fundam entada; porque, supondo que todas as espécies m unidas de aviculários tenham desaparecido, a im aginação m ais viva não iria j am ais até à idéia de que as celhas

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m ais viva não iria j am ais até à idéia de que as celhas vibráteis tenham prim itivam ente existido com o parte de um órgão sem elhando um a cabeça de ave ou um capuz irregular. É interessante ver dois órgãos tão diferentes desenvolver-se partindo de um a origem com um ; ora, com o a m obilidade do lábio da célula serve de m eio defensivo aos zoóides, não há dificuldade algum a em acreditar que todas as gradações no m eio das quais o lábio foi transform ado em m andíbula inferior de um aviculário e depois em um a seda alongada, tivessem igualm ente disposições protetoras em circunstâncias e direções diferentes. M. Mivart, na sua discussão, trata apenas de dois casos tirados do reino vegetal e relativos, um à estrutura das flores das orquídeas, e outro aos m ovim entos das plantas trepadoras. Relativam ente às prim eiras, diz: « Considera-se com o pouco satisfatória a explicação que se dá da sua origem -é insuficiente para fazer com preender os princípios infinitesim ais de conform ações desprovidas de utilidade a não ser quando têm atingido um desenvolvim ento considerável» . Tendo tratado a rigor este assunto num a outra obra, darei aqui apenas algum as m inudências sobre um a das m ais m arcantes particularidades das flores das orquídeas, isto é, sobre os seus agrupam entos de pólen. Um agrupam ento polínico m uito desenvolvido consiste num a quantidade de grãos de pólen fixos a um a haste elástica ou caudículo, e reunidos por um a pequena quantidade de um a substância excessivam ente viscosa. Estas j unções de pólen são transportadas pelos insetos ao estigm a de um a outra flor. Há espécies de orquídeas em que as m assas de pólen não têm caudículo, sendo os grãos som ente ligados em conj unto por filam entos m uito finos; m as é inútil falar nisto aqui, não sendo esta disposição particular às orquídeas; posso, no entanto, m encionar que no Cy pripedium , que se encontra na base da série desta fam ília, podem os entrever o ponto de partida do desenvolvim ento dos filam entos. Em outras orquídeas, estes filam entos reúnem -se em um ponto da extrem idade das j unções do pólen, o que constitui o prim eiro vestígio de um caudículo. As sem entes do pólen abortadas que se descobrem algum as vezes enterradas nas partes centrais e firm es do caudículo fornecem -nos um a excelente prova que é a origem desta conform ação, m esm o quando é m uito desenvolvida e m uito alongada.

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Quanto à segunda particularidade principal, a pequena m assa de m atéria viscosa levada para a extrem idade do caudículo, pode assinalar-se um a longa série de gradações, que foram todas m anifestam ente úteis à planta. Em quase todas as flores de outras ordens, o estigm a segrega um a substância viscosa. Em certas orquídeas um a m atéria sim ilar é segregada, m as m uito m ais considerável em quantidade, por um só dos tais estigm as, que fica estéril talvez por causa da secreção copiosa de que é a sede. Cada inseto visitando um a flor deste gênero leva por atrito um a parte da substância viscosa e conduz ao m esm o tem po alguns grãos de pólen. Com respeito a esta sim ples condição, que difere apenas m uito pouco das que se observam num a série de flores com uns, há graus de gradação infinitos -desde as espécies onde a m assa polínica ocupa a extrem idade de um caudículo curto e livre, até àquelas em que o caudículo se prende fortem ente à

m atéria viscosa, m odificando-se m uito por si m esm o o estigm a estéril. Tem os, neste últim o caso, um aparelho polinífero em condições m ais desenvolvidas e m ais perfeitas. Quem exam inar com cuidado as flores das orquídeas, não pode negar a existência da série das gradações pré-citadas - desde um a m assa de grãos de pólen reunidos entre si por filam entos, com um estigm a diferindo apenas um pouco do de um a flor ordinária, até um aparelho polinífero m uito com plicado e adm iravelm ente adaptado ao transporte pelos insetos; não se pode negar tam bém que todas as gradações são, nas diversas espécies, m uito bem adaptadas à conform ação geral de cada flor, com o fim de provocar a fecundação Pelos insetos. Neste caso e em quase todos os outros, a investigação pode ser levada m ais longe, e até Perguntar-se com o é que o estigm a de um a flor ordinária pode tornar-se viscoso; m as, com o não conhecem os a história com pleta de um só grupo de organism os, é inútil estabelecer sem elhantes questões, a que não podem os esperar responder.

Vam os às plantas trepadoras. Podem classificar-se num a longa série, desde as que se enrolam sim plesm ente em volta de um suporte, até às que tenho cham ado de folhas trepadoras e providas de gavinhas. Nestas últim as duas classes, as hastes têm geralm ente, m as nem sem pre, perdido a faculdade de se enrolar, posto que conservem a da rotação, que possuem igualm ente as gavinhas. As

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gradações insensíveis ligam as plantas de folhas trepadoras com as providas de gavinhas, e certas plantas podem ser colocadas indiferentem ente num a ou noutra classe. Mas, se se passa de sim ples plantas que se enrolam às providas de gavinhas, um a qualidade im portante aparece, é a sensibilidade ao toque, que provoca, ao contato de um obj eto, nas hastes das folhas ou das flores, nas suas m odificações em gavinhas, os m ovim entos com o fim de rodeá-lo e apanhá-lo. Depois de ter lido a m inha m em ória sobre estas plantas, adm itir-se-á, creio eu, que as num erosas gradações de função e de estrutura, existindo nas plantas que apenas se enrolam e as de gavinhas são, em cada caso, m uito vantaj osas para a espécie. Por exem plo, deve haver toda a vantagem para um a planta trepadora tornar-se num a planta de folhas trepadoras, e é provável que cada um a delas, sustentando folhas de longas hastes, se desenvolvesse num a planta de folhas trepadoras se os pecíolos das folhas apresentassem , ainda que pouco, a sensibilidade requerida para responder à ação do tato.

Constituindo o enrolam ento o m odo m ais sim ples de subir por um suporte e form ando a base da nossa série, pode naturalm ente perguntar-se com o puderam adquirir as plantas esta aptidão nascente, que m ais tarde a seleção natural aperfeiçoou e aum entou. A aptidão de enrolar-se depende a princípio da flexibilidade excessiva dos novos caules (caráter com um a m uitas plantas que não são trepadoras); depende, em seguida, de que estes caules se torcem constantem ente para se dirigirem em todas as direções, sucessivam ente num a e depois noutra, na m esm a ordem . Este m ovim ento tem com o resultado a inclinação dos caules para todos os lados e determ ina neles um a rotação seguida. Desde que a porção inferior do caule encontra um obstáculo que o im pede, a parte superior continua a torcer-se e a voltar-se, e enrola-se necessariam ente tam bém subindo em volta do suporte. O m ovim ento rotatório cessa depois do crescim ento precoce de cada rebento. Esta aptidão para a rotação e a faculdade de subir que é a conseqüência disso, encontrando-se isoladam ente nas espécies e nos gêneros distintos, que pertencem a fam ílias de plantas m uito afastadas um as das outras, deve ter sido adquirida de um a m aneira independente, e não por hereditariedade de um antepassado com um . Isto m e conduz a pensar que um a ligeira tendência neste gênero de m ovim ento não deve ser rara nas plantas não trepadoras, e que esta

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de m ovim ento não deve ser rara nas plantas não trepadoras, e que esta tendência deve fornecer à seleção natural a base sobre que pode atuar para a aperfeiçoar. Som ente conhecia, quando fiz esta reflexão, um único caso m uito im perfeito, o dos novos pecíolos florais do Maurandia, que se enrolam ligeira e irregularm ente, com o os caules das plantas trepadoras, m as sem fazer uso algum desta aptidão. Fritz Mül er descobriu pouco depois que os novos caules de um Alism a e de um Linum - plantas não trepadoras e m uito afastadas um a da outra no sistem a natural

-são afetados de um m ovim ento de rotação bem nítido, m as irregular; acrescenta que tem razões para acreditar que esta m esm a aptidão existe em outras plantas. Estes ligeiros m ovim entos parece não prestarem serviço algum a estas plantas, e em todos os casos não lhes perm item de form a algum a subir, ponto de que nós nos ocupam os. Todavia, com preendem os que se os caules destas plantas fossem flexíveis, e que, nas condições em que se acham colocados, lhes fosse útil subir a um a certa altura, o m ovim ento de rotação lento e irregular que lhes é habitual poderia, devido à seleção natural, aum entar-se e utilizar-se até que se transform assem em espécies trepadoras bem desenvolvidas. Pode aplicar-se à sensibilidade das hastes das folhas, flores e gavinhas as m esm as observações que aos casos de m ovim ento rotatório das plantas trepadoras. Encontrando-se este gênero de sensibilidade num núm ero considerável de espécies que pertencem a grupos m uito diferentes, deve encontrar-se num estado nascente em m uitas plantas que se não tornaram trepadoras. Ora, isto é exato; na Maurandia de que j á falei, observei que os novos pedúnculos florais se inclinam ligeiram ente para o lado onde se lhes toca. Morren verificou em m uitas espécies de Oxalis m ovim entos nas folhas e nos caules, sobretudo depois de serem expostos aos raios ardentes do Sol, quando se lhes toca levem ente e repetidas vezes, ou se sacode a planta. Renovei, com idêntico resultado, as m esm as experiências em outras espécies de Oxalis; em algum as o m ovim ento é perceptível, m as m ais nítido nas folhas novas; nas outras espécies o m ovim ento é extrem am ente ligeiro. Há um fato m ais im portante, se devem os acreditar Hofm eister, alta autoridade nestas m atérias: os novos rebentos e as folhas de todas as plantas entram em m ovim ento depois de terem sido sacudidas. Sabem os que, nas plantas trepado-264

ras, os pecíolos, os pedúnculos e as gavinhas são sensíveis som ente durante o prim eiro período de crescim ento. É possível então adm itir que os pequenos m ovim entos de que acabam os de falar, provocados pelo toque ou abalo dos órgãos novos e crescentes das plantas, possam ter um a im portância funcional para si. Mas, obedecendo a diversos estím ulos, as plantas possuem poderes m otores que têm para elas um a im portância m anifesta; por exem plo, a tendência para procurar a luz e m ais raram ente evitá-la, a propensão para brotar na direção contrária à

atração terrestre em vez de a seguir. Os m ovim entos que resultam da excitação dos nervos e dos m úsculos de um anim al por um a corrente galvânica ou pela absorção da estricnina podem ser considerados com o um resultado acidental, porque nem os nervos nem os m úsculos se tornaram especialm ente sensíveis a estes estim ulantes. Parece igualm ente que as plantas, tendo um a aptidão para os m ovim entos causados por certos estím ulos, podem ser excitadas acidentalm ente por um a pancada ou um abalo. Não é pois m uito difícil adm itir que, nas plantas de folhas trepadoras ou nas m unidas de gavinhas, esta tendência fosse favorecida e aum entada pela seleção natural. É contudo provável, pelas razões que consignei na m inha m em ória, que tal deveria ter sucedido apenas para as plantas que haviam j á adquirido a aptidão para a rotação, e que possuíam assim a faculdade de se enrolar.

Procurei j á explicar com o as plantas adquiriram esta faculdade, a saber: por um aum ento de um a tendência a m ovim entos de rotação ligeiros e irregulares não tendo a princípio uso algum ; estes m ovim entos, com o os provocados por um a pancada ou abalo, são o resultado acidental da aptidão ao m ovim ento, adquirido em vista de outros m otivos vantaj osos. Não procurarei decidir se durante o desenvolvim ento gradual das plantas trepadoras, a seleção natural recebeu algum auxílio dos efeitos hereditários do uso; m as sabem os que certos m ovim entos periódicos, tais com o o que se designa com o nom e de sono das plantas, são regulados pelo hábito.

Eis os principais casos, escolhidos com cuidado por um hábil naturalista, para provar que a teoria da seleção natural é im potente para explicar os estados nascentes das conform ações úteis; espero ter dem onstrado, pela discussão, que,

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sobre este ponto, não pode haver dúvidas e que a obj eção não tem fundam ento. Encontrei assim um a excelente ocasião de m e alargar um pouco sobre as gradações de estrutura m uitas vezes associadas a um a alteração de funções -assunto im portante, que não foi assaz largam ente tratado nas edições precedentes desta obra. Vou atualm ente recapitular em algum as palavras as observações que acabo de fazer.

No que respeita à girafa, a conservação contínua dos indivíduos de algum rum inante extinto, ante o com prim ento do pescoço, das pernas, etc, a faculdade de pastar acim a da altura m édia, e a destruição contínua dos que não podiam atingir a m esm a altura, bastaria para produzir este quadrúpede notável; m as o uso prolongado de todas as partes, assim com o a hereditariedade, deviam tam bém contribuir de um a m aneira im portante para a sua coordenação. Não há im probabilidade algum a em acreditar que, nos num erosos insetos, que im itam diversos obj etos, um a sem elhança acidental com um obj eto qualquer foi, em cada caso, o ponto de partida da ação da seleção natural, cuj os efeitos deviam aperfeiçoar-se m ais tarde pela conservação acidental das variações ligeiras que tendiam a aum entar a sem elhança. Isto pode durar assim por tanto tem po que o inseto continue a variar e a sem elhança m ais perfeita lhe perm ite escapar aos seus inim igos dotados de um a vista sutil. No palatino de algum as espécies de baleias, nota-se um a tendência à form ação de pequenas pontas irregulares córneas, e, em conseqüência da aptidão da seleção natural para conservar as variações favoráveis, estas pontas são convertidas em nós lam elares ou recortes, com o os do bico do ganso - depois em lâm inas curtas, com o as do pato dom éstico- depois em lam elas tão perfeitas com o as do lavanco, e enfim em gigantescas barbas, com o na boca da espécie da Groenlândia. As barbas servem , na fam ília dos patos, em prim eiro lugar de dentes, depois em parte à m astigação e em parte à filtração, e, enfim , quase exclusivam ente a este últim o uso. O hábito ou o uso som ente tem , tanto quanto podem os j ulgar, contribuído pouco ou nada para o desenvolvim ento de conform ações sem elhantes às lam elas ou às barbas de que nos ocupam os. Pelo contrário, o traspasse do olho inferior do peixe plano para o lado superior da cabeça, e a form ação de um a cauda preênsil, em

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certos m acacos, podem ser atribuídos, quase inteiram ente, ao uso contínuo e à

hereditariedade. Quanto às m am as dos anim ais superiores, pode conj eturar-se que, prim itivam ente, as glândulas cutâneas que cobriam a superfície total de um saco m arsupial, segregavam um líquido nutritivo, e que estas glândulas, m elhoradas no ponto de vista da sua função pela seleção natural e concentradas em um espaço lim itado, acabam por form ar a m am a. Não é m ais difícil de com preender com o os espinhos ram ificados de algum antigo equinoderm e, servindo de arm as defensivas, foram transform ados pela seleção natural em pedicelos tridáctilos, do que explicar o desenvolvim ento das pinças dos crustáceos por m odificações úteis, ainda que ligeiras, operadas nos últim os segm entos de um m em bro servindo a princípio unicam ente para a locom oção. Os aviculários e as celhas vibráteis dos polizênidas são órgãos que têm um a m esm a origem , ainda que m uito diferentes pelo aspecto; é fácil de com preender os serviços que prestaram as fases sucessivas que produziram as celhas vibráteis. Nos aj untam entos polínicos das orquídeas, podem encontrar-se as fases da transform ação em caudículo dos filam entos que prim itivam ente serviam para prender em conj unto os grãos do pólen; pode igualm ente seguir-se a série de transform ações pelas quais a substância viscosa parecida com a que segregam os estigm as das flores ordináxias, e servindo pouco m ais ou m enos, ainda que não inteiram ente, ao m esm o uso, está ligada às extrem idades livres dos caudículos; todas estas gradações têm sido evidentem ente vantaj osas às plantas em questão. Quanto às plantas trepadoras, é inútil repetir o que acabo de dizer neste instante.

Se a seleção natural dispõe de tanto poder, porque é, tem -se m uitas vezes perguntado, que não deu a certas espécies tal ou tal conform ação que lhes houvesse sido vantaj osa? Mas seria desarrazoado pedir um a resposta precisa a questões deste gênero, se refletirm os na nossa ignorância sobre o passado de cada espécie e sobre as condições que, hoj e, determ inam a sua abundância e sua distribuição. Salvo alguns casos em que podem invocar-se estas causas especiais, som ente podem os dar de ordinário razões gerais. Assim , com o são necessariam ente precisas num erosas m odificações coordenadas para adaptar um a espécie a novos hábitos de existência, pode ter acontecido m uitas vezes que as partes

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necessárias não tenham variado na boa direção ou até ao grau desej ado. O aum ento num érico devia, para m uitas espécies, ser lim itado por agentes de destruição que eram estranhos a toda a relação com certas conform ações; ora, nós im aginam os que a seleção natural devia produzir estas conform ações porque nos parecem vantaj osas para a espécie. Mas, neste caso, a seleção natural não podia provocar as conform ações de que se trata, porque não desem penham papel algum na luta pela existência. Em m uitos casos, a presença sim ultânea de condições com plexas, de longa duração, de natureza particular, atuando j untam ente, é

necessária ao desenvolvim ento de certas conform ações, e pode ser que as condições requeridas sej am poucas vezes apresentadas sim ultaneam ente. A opinião de que um a estrutura dada, que nós j ulgam os, m uitas vezes sem razão, ser vantaj osa para um a espécie, deve ser em todas as circunstâncias o produto da seleção natural, é contrária ao que podem os com preender de seu m odo de ação. M. Mivart não nega que a seleção natural não tenha podido efetuar algum a coisa; m as considera-a com o absolutam ente insuficiente para explicar os fenôm enos que explico pela sua ação. Tem os j á discutido os seus principais argum entos, exam inarem os os outros m ais adiante. Parecem -m e pouco dem onstrativos e de pouco peso, com parados aos que se podem invocar em favor do poder da seleção natural apoiada por outros agentes que m uitas vezes indiquei. Devo aqui j untar que alguns fatos e alguns argum entos de que fiz uso no que precede, foram citados, com o m esm o fim , num excelente artigo recentem ente publicado pelo Medical-Cirurgical Review.

Atualm ente, quase todos os naturalistas adm item a evolução sob qualquer form a. M. Mivart crê que as espécies m udam em virtude « de um a força ou de um a tendência interna» , sobre a natureza da qual nada se sabe. Todos os transform istas adm item que as espécies têm um a aptidão para se m odificarem , m as parecem e que não há m otivo algum para invocar outra força interna que não sej a a tendência à variabilidade ordinária, que perm itiu ao hom em produzir, com o auxílio da seleção, um grande núm ero de raças dom ésticas bem adaptadas ao seu destino, e que pode ter produzido igualm ente, devido à seleção natural, por um a série de gerações, as raças ou as espécies naturais. Com o tem os j á explicado, o resultado

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final constitui geralm ente um progresso na organização; contudo, apresenta-se um pequeno núm ero de casos em que é um retrocesso.

M. Mivart está, além disso, disposto a acreditar, e alguns naturalistas partilham da sua opinião, que as novas espécies se m anifestam « subitam ente e por m odificações aparecendo todas ao m esm o tem po» . Supõe, por exem plo, que as diferenças entre o hipárion tridáctilo e o cavalo se produziram bruscam ente. Pensa que é difícil acreditar que a asa de um a ave possa desenvolver-se de outra form a que não sej a por m odificação relativam ente brusca, de natureza acentuada e im portante; opinião que aplica, sem dúvida, à form ação das asas dos m orcegos e dos pterodáctilos. Esta conclusão, que im plica enorm es lacunas o um a descontinuidade da série, parece-m e im provável no m ais alto grau. Os partidários de um a evolução lenta e gradual adm item , bem entendido, que as alterações específicas podem ter sido tão súbitas e tão consideráveis com o um a sim ples variação isolada que observam os no estado da natureza, ou m esm o no estado dom éstico. Portanto, as espécies dom ésticas ou cultivadas sendo bem m ais variáveis que as espécies selvagens, é pouco provável que estas últim as tenham sido afetadas tam bém m uitas vezes por m odificações tão pronunciadas e tão súbitas com o as que surgem acidentalm ente no estado dom éstico. Pode atribuir-se à regressão m uitas destas últim as variações; os caracteres que reaparecem assim tinham sido provavelm ente, em m uitos casos, adquiridos gradualm ente no princípio. Pode dar-se ao m aior núm ero o nom e de m onstruosidades, com o, por exem plo, o hom em com seis dedos, o hom em porco-espinho, os carneiros Ancon, o gado Niata, etc.; m as estes caracteres diferem consideravelm ente do que são nas espécies naturais e lançam pouca luz sobre o nosso assunto. Excluindo sem elhantes casos de bruscas variações, o pequeno núm ero dos que ficam poderiam , encontrados no estado natural, representar quando m uito espécies duvidosas, m uito aproxim adas do tipo dos seus antepassados. Eis as razões que m e fazem duvidar de que as espécies naturais tenham experim entado alterações tão bruscas com o as que se observam acidentalm ente nas raças dom ésticas, e que m e im pedem com pletam ente de acreditar no processo bizarro a que M. Mivart as atribui. A experiência ensina-nos que as variações

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súbitas e fortem ente pronunciadas se observam isoladam ente e com intervalos de tem po assaz afastados dos nossos produtos dom ésticos. Com o tem os j á explicado, variações deste gênero m anifestando-se no estado da natureza estariam suj eitas a desaparecer por causas acidentais de destruição, e sobretudo pelos cruzam entos subseqüentes. Sabem os tam bém , por experiência, que no estado dom éstico o m esm o sucede, quando o hom em não cuida em conservar e isolar com os m aiores cuidados os indivíduos em que apareceram estas variações súbitas. Seria necessário então acreditar m anifestam ente, segundo a teoria de M. Mivart, e contrariam ente a toda a analogia, que, para dar-se a aparição rápida de um a nova espécie, tivessem aparecido sim ultaneam ente num m esm o distrito m uitos indivíduos adm iravelm ente m odificados. Com o no caso em que o hom em , se entrega inconscientem ente à seleção, a teoria da evolução gradual suprim e esta dificuldade; a evolução com preende, com efeito, a conservação de um grande núm ero de indivíduos, variando m ais ou m enos num a direção favorável, e a destruição de um grande núm ero dos que variam de um a form a contrária.

Não oferece dúvida algum a que m uitas espécies se desenvolveram de um a form a excessivam ente gradual. As espécies e m esm o os gêneros de num erosas grandes fam ílias naturais são tão aproxim ados que é m uitas vezes difícil distinguilos uns dos outros. Em cada continente, indo do norte ao sul, das terras baixas às regiões elevadas, etc., encontram os um a série de espécies análogas ou m uito próxim as; notam os o m esm o fato em certos continentes separados, m as que, tem os toda a razão em acreditá-lo, foram outrora reunidos. Infelizm ente, as notas que precedem e as que vão seguir-se obrigam -m e a fazer alusão a assuntos que terem os de discutir m ais para diante. Quando se consideram as num erosas ilhas rodeando um continente, ver-se-á quanto os seus habitantes não podem ser elevados a não ser à classificação de espécies duvidosas. O m esm o acontece se estudarm os o passado e se com pararm os as espécies que acabam de desaparecer com as que vivem atualm ente nos m esm os países, ou se fizerm os a m esm a com paração entre as espécies fósseis escondidas nos andares sucessivos de um a m esm a cam ada geológica. É evidente, dem ais, que um a série de espécies extintas se ligam da m aneira m ais estreita a outras espécies que existem atualm ente, ou que existiam recentem ente ainda; ora, não se pode sustentar que

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m ente, ou que existiam recentem ente ainda; ora, não se pode sustentar que estas espécies sej am desenvolvidas de um a m aneira brusca e rápida. Não é preciso tam pouco esquecer que, quando em lugar de exam inar as partes especiais das espécies distintas, estudam os as das espécies vizinhas, encontram os gradações num erosas, de um a delicadeza adm irável, ligando estruturas totalm ente diferentes. Um grande núm ero de fatos não são com preensíveis a não ser com a condição de se adm itir o princípio de que as espécies são produzidas m uito gradualm ente; o fato, por exem plo, de as espécies com preendidas nos grandes gêneros serem m ais aproxim adas, e apresentarem um núm ero de variedades m uito m ais considerável que as espécies dos gêneros m enores. As prim eiras são tam bém reunidas em pequenos grupos, com o o são as variedades em torno das espécies com as quais oferecem outras analogias, assim com o o vim os no segundo capítulo. O m esm o princípio nos faz com preender porque os caracteres específicos são m ais variáveis do que os caracteres genéricos, e porque os órgãos desenvolvidos num grau extraordinário variam m ais do que as outras partes num a m esm a espécie. Poder-se-iam citar m uitos fatos análogos, tendendo todos na m esm a direção. Posto que um grande núm ero de espécies sej am quase certam ente form adas por gradações tão insignificantes com o as que separam as m enores variedades, poder-se-ia, contudo, sustentar que outras se desenvolveram abruptam ente; m as então seria necessário apresentar provas evidentes em apoio a esta asserção. As analogias vagas e certas relações falsas, com o M. Chauncey Wright dem onstrou, que têm sido lançadas em apoio desta teoria, tais com o a cristalização brusca de substâncias inorgânicas, ou a passagem de um a form a poliédrica a um a outra por alterações de facetas, não m erecem consideração algum a. Há, contudo, um a classe de fatos que, à prim eira vista, tenderiam a estabelecer a possibilidade de um desenvolvim ento súbito: é a aparição rápida de seres novos e distintos nas nossas form ações geológicas. Mas o valor destas provas depende inteiram ente da perfeição dos docum entos geológicos relativos aos períodos m uito rem otos da história do Globo. Ora, se estes anais são tão fragm entados com o m uitos geólogos o afirm am , nada é para adm irar que novas form as nos apareçam com o se

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elas acabassem de desenvolver-se subitam ente.

Nenhum argum ento se produz em favor das bruscas m odificações pela falta de fuzis que possam preencher as lacunas das nossas form ações geológicas, a não ser que adm itam os as transform ações prodigiosas que supõe M. Mivart, tais com o o desenvolvim ento súbito das asas das aves e dos m orcegos ou a brusca conversão do hipário em cavalo. Mas a em briologia leva-nos a protestar abertam ente contra estas m odificações súbitas. É sabido que as asas das aves e dos m orcegos, as pernas dos cavalos ou de outros quadrúpedes não podem distinguirse num período em brionário precoce, e que se diferençam em seguida por um a m archa gradual insensível. Com o verem os m ais tarde, as sem elhanças em briológicas de todo o gênero explicam -se pelo fato de os antepassados das nossas espécies existentes variarem após a sua prim eira j uventude e transm itirem os seus caracteres novam ente adquiridos aos seus descendentes num a idade correspondente. O em brião, não sendo afetado por estas variações, representa-nos o estado passado da espécie. É o que explica porque, durante as prim eiras fases do seu desenvolvim ento, as espécies existentes se parecem tão freqüentem ente a form as antigas e extintas pertencendo à m esm a classe. Quando se aceita esta opinião sobre a significação das sem elhanças em briológicas, ou qualquer outra m aneira de ver, não é crível que um anim al tendo sofrido transform ações tão im portantes e tão inesperadas com o as de que acabam os de falar, não ofereça o m enor vestígio de um a m odificação súbita durante o estado em brionário; ora, cada particularidade da sua conform ação desenvolve-se por fases insensíveis.

Quem acreditar que um a form a antiga foi subitam ente transform ada por um a força ou um a tendência interna num a outra form a provida de asas por exem plo, é quase forçado a adm itir, contrariam ente a toda a analogia, que m uitos indivíduos devem ter variado sim ultaneam ente. Ora, não se pode negar que m odificações tão súbitas e tão consideráveis não diferem com pletam ente das que a m aior parte das espécies parecem ter sofrido. Ser-se-ia, além disso, forçado a crer na produção súbita de num erosas conform ações adm iravelm ente adaptadas às outras partes do corpo do indivíduo e às condições am bientes, sem poder apresentar a som bra de um a explicação relativam ente a estas coadaptações tão com plicadas

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e tão m aravilhosas. Ser-se-ia, enfim , obrigado a adm itir que estas grandes e bruscas transform ações não deixaram no em brião vestígio algum da sua ação. Ora, adm itir tudo isto, é, j ulgo eu, deixar o dom ínio da ciência, para entrar no dos m ilagres.

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CAPITULO VIII

Instinto

-Os Instintos podem comparar-se aos hábitos, mas têm uma origem diferente.

-Gradação dos instintos.

-Formigas e pulgões.

-Variabilidade dos Instintos.

-Instintos domésticos; sua origem.

-Instintos naturais do cuco, do avestruz e das abelhas parasitas.

-Instinto escravagista das formigas.

-A abelha; seu instinto construtor.

-As alterações de instinto e de conformação não são necessariamente si-multâneas.

-Dificuldades da teoria da seleção natural aplicada aos instintos.

-Insetos neutros ou estéreis.

-Resumo.

São tão notáveis m uitos dos instintos que o seu desenvolvim ento parecerá

sem dúvida ao leitor um a dificuldade suficiente para destruir toda a m inha teoria. Com eço por notar que não tenho m ais a intenção de procurar a origem das faculdades m entais do que as da vida. Tem os, com efeito, apenas que nos ocupar das diversidades do instinto e das outras faculdades m entais nos anim ais da m esm a classe.

Não tentarei definir o instinto. Seria fácil dem onstrar que se com preendem ordinariam ente com este term o m uitos atos intelectuais distintos; m as todos sabem o que se quer dizer quando se diz que é o instinto que leva o cuco a em igrar e a por os ovos nos ninhos das outras aves. Considera-se ordinariam ente com o instinto um ato desem penhado por um anim al, sobretudo quando é novo e sem experiência, ou um ato desem penhado por m uitos indivíduos, da m esm a m aneira, sem que saibam prever o fim , ainda que som ente pudéssem os desem penhar o m esm o ato com o auxílio da reflexão e da prática. Mas eu poderia dem onstrar que alguns destes caracteres do instinto não são universais, e que, segundo a expressão de Pierre Huber, pode verificar-se freqüentem ente, m esm o nos seres pouco elevados na escala da natureza, intervenção de um a certa dose de senso ou razão.

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