A Origem das Espécies
Seção 23
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Citarei ainda um outro exem plo que m e im pressionou particularm ente quando tive ocasião de o observar. Afirm ei, num a m em ória sobre os cirrípedes sésseis fósseis, que, dado o núm ero im enso de espécies terciárias vivas e extintas; dada a abundância extraordinária de indivíduos de m uitas espécies em todo o
374
GlObO, desde as regiões árticas ao equador, habitando a diversas profundidades, desde as altas águas até 50 braças; dada a perfeição com que os indivíduos são conservados nas cam adas terciárias m ais antigas; atenta a facilidade com que o m enor fragm ento de valva pode ser reconhecido, lícito era concluir-se que, se os cirrípedes sésseis houvessem existido durante o período secundário, estas espécies teriam sido certam ente conservadas e descobertas. Ora, com o nem um a só
espécie se descobriu nos j azigos desta época, cheguei à conclusão de que este im enso grupo devia ter-se desenvolvido subitam ente na origem da série terciária; caso em baraçoso para m im , porque fornecia um exem plo a m ais da aparição repentina de um grupo im portante de espécies. Acabava a m inha obra de aparecer, quando recebi do hábil paleontólogo, M. Bousquet, o desenho de um cirrípede séssil incontestável e adm iravelm ente conservado, que tinha descoberto em greda, na Bélgica. O caso era tanto m ais notável, quanto este cirrípede era um verdadeiro Chtham alus, gênero m uito com um , m uito num eroso, e espalhado por toda a parte, m as de que não tinha ainda encontrado um espécim e, m esm o em algum depósito terciário. Mais recentem ente ainda, M. Woodward descobriu na greda superior um Py rgom a, m em bro de um a subfam ília distinta dos cirrípedes sésseis. Tem os, pois, hoj e a prova certa de que este grupo de anim ais existiu durante o período secundário.
O caso em que m ais freqüentem ente insistem os paleontólogos, com o exem plo da aparição m om entânea de um grupo inteiro de espécies, é o dos peixes teleósteos nas cam adas inferiores, segundo Agassiz, da época da greda. Este grupo encerra a grande m aioria das espécies atuais, Mas adm ite-se geralm ente hoj e que certas form as j urássicas e triásicas pertencem as grupo dos teleósteos, e um a alta autoridade classificou m esm o neste grupo certas form as paleozóicas. Se todo o grupo teleósteo tivesse realm ente aparecido no hem isfério setentrional no com eço da form ação da greda, o fato seria certam ente m uito notável; m as não constituía um a obj eção insuperável contra a m inha hipótese, a não ser que se não possa dem onstrar ao m esm o tem po que as espécies deste grupo apareceram súbita e sim ultaneam ente em toda a Terra na m esm a época. É supérfluo lem brar que quase se não conhece ainda qualquer peixe fóssil proveniente do sul do e-375
quador, e ver-se-á, percorrendo a Paleontologia de Pictet, que as diversas form ações européias têm fornecido apenas m uito poucas espécies. Algum as fam ílias de peixes têm atualm ente um a distribuição m uito lim itada; é possível que o m esm o se haj a dado outrora com os peixes teleósteos, e que fossem em seguida espalhados, depois de se terem desenvolvido consideravelm ente em qualquer m ar. Não tem os m ais direito algum a supor que os m ares do Globo foram sem pre tão livrem ente abertos do sul ao norte com o o são hoj e. Em nossos dias ainda, se o arquipélago m alaio se transform asse em continente, as partes tropicais do oceano Índico form ariam um a grande bacia fechada, na qual grupos im portantes de anim ais m arinhos poderiam m ultiplicar-se, e ficar encerrados até que algum as espécies adaptadas a um clim a m ais frio, e tornadas assim capazes de dobrar os cabos m eridionais da África e da Austrália, pudessem em seguida estender-se e ganhar os m ares longínquos.
Estas considerações diversas, a nossa ignorância sobre a geologia dos países que se encontram fora dos lim ites da Europa e dos Estados Unidos, a revolução que as descobertas dos doze últim os anos têm operado nos nossos conhecim entos paleontológicos, levam -nos a pensar que é tam bém arriscado dogm atizar sobre a sucessão das form as organizadas em todo o Globo, tal qual sucederia a um naturalista que tivesse desem barcado cinco m inutos num ponto estéril das costas da Austrália, se discutisse sobre o núm ero e a distribuição das produções deste continente.
DA APARIÇÃO SÚBITA DE G RUPOS DE ESPÉCIES ALIADAS NAS CAMADAS FOS-SILÍFERAS MAIS ANTIG AS
Há um a outra dificuldade análoga, m as m uito m ais séria. Quero falar da aparição súbita de espécies pertencendo às divisões principais do reino anim al nas rochas fossilíferas m ais antigas que se conhecem . Os argum entos que m e têm convencido de que todas as espécies do m esm o grupo derivam de um ascendente com um , aplicam -se igualm ente às espécies m ais antigas que conhecem os. Não há dúvida, por exem plo, que todos os trilobitas cam brianos e silurianos descendem de algum crustáceo que deve ter vivido m uito tem po antes da época
376
cendem de algum crustáceo que deve ter vivido m uito tem po antes da época cam briana, e que diferia provavelm ente m uito de todos os anim ais conhecidos.
Alguns dos m ais antigos anim ais, com o o Náutilo, Língula, etc, não diferem m uito das espécies vivas; e, segundo m inha teoria, som ente se poderiam supor estas antigas espécies com o os antepassados de todas as espécies dos m esm os grupos que apareceram a seguir, porque não apresentam em grau algum caracteres interm ediários. Por conseguinte, se a m inha teoria é verdadeira, é certo que devem ter decorrido, antes das cam adas cam brianas inferiores, períodos bastante longos, e provavelm ente m esm o m uito m ais longos, do que toda a duração dos períodos com preendidos entre as épocas cam briana e atual, períodos desconhecidos durante os quais seres vivos povoaram a Terra. Encontram os aqui um a obj eção form idável; pode duvidar-se, com efeito, que o período durante o qual o estado da Terra perm itiu à sua superfície a vida, tenha durado m uito tem po. Sir W. Thom pson adm ite que a consolidação da crosta terrestre não pode elevar-se a m enos de 20 m ilhões de anos, e não m ais de 400 m ilhões, e deve estar m ais provavelm ente com preendida entre 98 e 200 m ilhões. O desvio considerável entre estes lim ites prova quanto estes dados são vagos, e é provável que outros elem entos devam ser introduzidos no problem a. M. Croll avalia em 60 m ilhões de anos o tem po decorrido desde o depósito dos terrenos cam brianos; m as, a j ulgar pela pouca im portância das alterações orgânicas que se realizaram desde o com eço da época glaciária, esta duração parece curta relativam ente às m odificações num erosas e consideráveis que as form as vivas têm sofrido desde a form ação cam briana. Quanto aos 140 m ilhões de anos anteriores, a custo se podem considerar com o suficientes para o desenvolvim ento das form as variadas que existiam j á durante a época cam briana. É todavia provável, com o o faz notar expressam ente sir W. Thom pson, que durante estes períodos prim itivos o Globo devia ser exposto a alterações m ais rápidas e m ais violentas nas suas condições físicas do que atualm ente; de onde tam bém m odificações m ais rápidas nos seres organizados que habitavam a superfície da Terra nessas rem otas épocas. Porque não encontram os nós depósitos ricos em fósseis pertencendo a es- 377
ses períodos prim itivos anteriores à época cam briana? Eis um a questão a que não posso dar um a resposta satisfatória. Muitos geólogos em inentes, com sir R. Murchison na vanguarda, estavam , recentem ente ainda, convencidos que vem os os prim eiros vestígios de vida nos restos orgânicos que nos fornecem as cam adas silúricas m ais antigas. Outros j uízes, m uito com petentes, tais com o Ly ell e E. Forbes, contestam esta conclusão. Não esqueçam os que conhecem os um pouco exatam ente apenas um a pequena porção do Globo. Não há m uito tem po que M. Barrande j untou ao sistem a silúrico um novo andar inferior, povoado de num erosas espécies novas e especiais; m ais recentem ente ainda, M. Hicks encontrou, no sul do País de Gales, cam adas pertencendo à form ação cam briana inferior, ricas em trilobitas, e contendo além disso diversos m oluscos e diversos anelídeos. A presença de nódulos fosfáticos e de m atérias betum inosas, m esm o em algum as das rochas azóicas, parece indicar a existência da vida desde esses períodos. A existência do cozoon na form ação laurentina, no Canadá, é geralm ente adm itida. Há no Canadá, abaixo do sistem a silúrico, três grandes séries de cam adas; é na m ais antiga que se encontra o cozoon. W. Logan afirm a « que a espessura das três séries reunidas ultrapassa provavelm ente m uito a de todas as rochas das épocas seguintes, desde a base da série paleozóica até aos nossos dias. Isto faznos recuar tão longe no passado, que se pode considerar a aparição da fauna cham ada prim ordial (de Barrande) com o um fato relativam ente m oderno» . O cozoon pertence à classe dos anim ais m ais sim ples no ponto de vista da organização; m as, apesar desta sim plicidade, é adm iravelm ente organizado. Existiu em quantidades inum eráveis, e, com o o fez notar o Dr. Dawson, devia certam ente nutrir-se de outros seres organizados m ais sim ples, que devem ter igualm ente pululado em núm ero incalculável. Assim são verdadeiras as notas que fizem os em 1859, com respeito à existência de seres que tenham vivido m uito tem po antes do período cam briano, e os term os de que m e servi então são quase os m esm os de que se serviu m ais tarde sir W. Logan. Não obstante, a dificuldade de explicar, com boas razões, a ausência de vastos pavim entos de cam adas fossilíferas abaixo das form ações do sistem a cam briano superior fica sem pre m uito grande. É
pouco provável que as cam adas m ais antigas tivessem sido com pletam ente des-378
truídas por desnudação, e que os fósseis fossem inteiram ente obliterados a seguir por um a ação m etam órfica; porque, nesse caso, teríam os encontrado tam bém apenas fracos vestígios das form ações que se lhes seguiram im ediatam ente, e esses restos apresentariam sem pre sinais de alteração m etam órfica. Ora, as descrições que possuím os dos depósitos silúricos que cobrem im ensos territórios na Rússia e na Am érica do Norte não perm item concluir que, quanto m ais antiga é a form ação, tanto m ais invariavelm ente deve ter sofrido um a desnudação considerável ou um m etam orfism o excessivo. O problem a fica pois, por enquanto, inexplicado, insolúvel, e pode continuar a servir de sério argum ento contra as opiniões em itidas aqui. Farei todavia a hipótese seguinte, para provar que se poderá talvez m ais tarde encontrar um a solução. Em virtude da natureza dos restos orgânicos que, nas diversas form ações da Europa e dos Estados Unidos, não parecem ter vivido a m uito grandes profundidades, e da enorm e quantidade de sedim entos de que o conj unto constitui estas poderosas form ações de um a espessura de m uitos km , podem os pensar que, do princípio ao fim , grandes ilhas ou grandes extensões de terreno, próprios a fornecer os elem entos destes depósitos, devem ter existido na vizinhança dos continentes atuais da Europa e da Am érica do Norte. Agassiz e outros sábios sustentaram recentem ente esta m esm a opinião. Mas não sabem os qual era o estado das coisas nos intervalos que separaram as diversas form ações sucessivas; não sabem os se, durante estes intervalos, a Europa e os Estados Unidos existiam no estado de terras em ergidas ou áreas subm arinas j unto das terras, m as sobre as quais se não form ava nenhum depósito, ou enfim com o o leito de um m ar aberto e insondável. Vem os que os oceanos atuais, cuj a superfície é o triplo da das terras, são sem eados de um grande núm ero de ilhas; m as não se conhece um a só ilha verdadeiram ente oceânica (excetuando a Nova Zelândia, se todavia esta se pode considerar com o tal), que apresente m esm o um vestígio de form ações paleozóicas ou secundárias. Podem os, pois, talvez concluir que, por onde se estendem atualm ente os nossos oceanos, não existiam , durante as épocas paleozóica e secundária, nem continentes nem ilhas continentais; porque, se tivessem existido,
379
seriam , com toda a probabilidade, form ados a expensas dos m ateriais que lhes houvessem sido tirados, pelos depósitos sedim entares paleozóicos e secundários, que teriam sido a seguir parcialm ente levantados nas oscilações de nível que devem necessariam ente haver-se produzido durante estes im ensos períodos. Se pois podem os concluir algum a coisa destes fatos é que, onde se estendem atualm ente os nossos oceanos, oceanos existiram desde a época m ais recôndita de que pudéssem os ter conhecim ento, e, por outra parte, que onde se encontram hoj e os continentes, existiram grandes extensões de terra desde a época cam briana, subm etidas m uito provavelm ente a fortes oscilações de nível. A carta colorida que j untei à m inha obra sobre os recifes de coral levou-m e a concluir que, em geral, os grandes oceanos são ainda hoj e áreas de enfraquecim ento; que os grandes arquipélagos são sem pre o teatro das m aiores oscilações de nível, e que os continentes representam áreas de levantam ento. Mas não tem os razão algum a para supor que as coisas tenham sido sem pre assim desde o com eço do m undo. Os nossos continentes parecem ter sido form ados, no decurso de num erosas oscilações de nível, por um a preponderância da força de elevação; m as não pode suceder que as áreas do m ovim ento preponderante tenham m udado no decorrer das idades? Num período m uito anterior à época cam briana pode ter havido continentes onde hoj e existem oceanos, e oceanos sem lim ites onde hoj e existem continentes. Não estaríam os tam pouco autorizados a supor que, se o fundo atual do oceano Pacífico, por exem plo, viesse a ser convertido em continente, aí encontrássem os, num estado reconhecível, form ações sedim entares m ais antigas do que as cam adas cam brianas, supondo que fossem outrora aí depositadas; porque poderia suceder que cam adas, que em seguida ao seu abaixam ento se tivessem aproxim ado de m uitas m ilhas do centro da Terra, e que tivessem sido fortem ente com prim idas com o peso enorm e da grande m assa de água que as cobria, sofressem m odificações m etam órficas bem m ais consideráveis do que as que ficaram m ais perto da superfície. As im ensas extensões de rochas m etam órficas desnudadas que se encontram em algum as partes do m undo, na Am érica do Sul por exem plo, e que devem ter sido subm etidas à ação do calor num a forte pressão, pareceram -m e sem pre exigir algum a explicação especial; e talvez vej am os, nestas
380
im ensas regiões, num erosas form ações, m uito anteriores à época cam briana, hoj e com pletam ente desnudadas e transform adas pelo m etam orfism o.
RESUMO
As diversas dificuldades que acabam os de discutir, a saber: a ausência das nossas form ações geológicas de fuzis apresentando todos os graus de transição entre as espécies atuais e as que as precederam , posto que encontrem os m uitas vezes form as interm ediárias; a aparição súbita de grupos inteiros de espécies nas nossas form ações européias; a ausência quase com pleta, pelo m enos até hoj e, de depósitos fossilíferos por baixo do sistem a cam briano, têm todas incontestavelm ente um a grande im portância. Vem os a prova no fato de os paleontólogos m ais em inentes, tais com o Cuvier, Agassiz, Barrande, Pietet, Falconer, E. Forbes, etc., e todos os nossos m aiores geólogos, Ly ell, Murchison, Sedgwick, etc., terem unanim em ente, e m uitas vezes com ardor, sustentado o princípio da im utabilidade das espécies. Todavia, sir C. Ly eIl sustenta atualm ente, com a sua grande autoridade, a opinião contrária, e a m aior parte dos paleontólogos e dos geólogos estão m uito abalados nas suas convicções anteriores. Os que adm item a perfeição e a suficiência dos docum entos que a geologia nos fornece rebaterão sem dúvida im ediatam ente a m inha teoria. Quanto a m im , considero os arquivos geológicos, segundo a m etáfora de Ly ell, com o um a História do Globo incom pletam ente conservada, escrita num dialeto sem pre m odificado, e de que possuím os apenas o últim o volum e tratando de dois ou três países som ente. Alguns fragm entos de capítulos deste volum e e algum as linhas esparsas de cada página são as únicas chegadas até nós. Cada palavra desta linguagem alterando lentam ente, diferindo m ais ou m enos nos capítulos sucessivos, pode representar as form as que viveram , que estão sepultadas nas form ações sucessivas, e que nos parecem sem razão ter sido bruscam ente introduzidas. Esta hipótese atenua m uito, se não as faz desaparecer por com pleto, as dificuldades que acabam os de discutir no presente capítulo.
381
CAPITULO XI
Da sucessão geológica dos seres organizados
-Aparição lenta e sucessiva das espécies novas.
-Sua diferente velocidade de transformação.
-As espécies extintas não mais reaparecem. Os grupos de espécies, no ponto de vista da sua aparição e desaparecimento, obedecem às mesmas regras gerais que as
espécies isoladas.
-Extinção.
-Alterações simultâneas das formas orgânicas em todo o Globo.
-Afinidades das espécies extintas quer entre si, quer com as espécies vivas.
-Estado de desenvolvimento das formas antigas.
-Sucessão dos mesmos tipos nas mesmas zonas.
-Resumo deste capítulo e do capítulo precedente.
Exam inem os agora se as leis e os fatos relativos à sucessão geológica dos seres organizados concordam m elhor com a teoria ordinária da im utabilidade das espécies do que com a da sua m odificação lenta e gradual, por via da descendência e da seleção natural. As espécies novas têm aparecido m uito lentam ente, um a após outra, tanto na terra com o nas águas. Ly ell dem onstrou que, a este respeito, as diversas cam adas terciárias fornecem um testem unho incontestável; cada ano tende a preencher algum as lacunas que existem entre estas cam adas, e a tornar m ais gradual a proporção entre as form as extintas e as form as novas. Em algum as das cam adas m ais recentes, posto que subindo a um a alta antiguidade contando em anos, notase apenas a extinção de um a ou duas espécies, e a aparição de outras tantas espécies novas, quer locais, quer, quanto o podem os j ulgar, sobre toda a superfície da Terra. As form ações secundárias são m ais destruídas; m as, assim com o o faz notar Bronn, a aparição e o desaparecim ento das num erosas espécies extintas escondidas em cada form ação não foram j am ais sim ultâneas. As espécies pertencendo a diferentes gêneros e a diferentes classes não m udaram no m esm o grau nem com a m esm a rapidez. Nas cam adas terciárias m ais antigas podem encontrar-se algum as espécies atualm ente vivas, em m eio de
382
um conj unto de form as extintas. Falconer assinalou um exem plo m arcante de um fato parecido, é um crocodilo existindo ainda que se encontra entre os m am íferos e répteis extintos nos depósitos sub-him alaios. A língula silúrica, difere m uito pouco das espécies vivas deste gênero, enquanto que a m aior parte dos outros m oluscos silúricos e todos os crustáceos têm m udado m uito. Os habitantes da terra parecem m odificar-se m ais rapidam ente que os do m ar; tem -se observado ultim am ente na Suíça um notável exem plo deste fato. Há ocasião de crer que os organism os elevados na escala se m odificam m ais rapidam ente do que os organism os inferiores; esta regra sofre, contudo, algum as exceções. A som a das transform ações orgânicas, segundo a nota de Pictet, não é a m esm a em cada form ação sucessiva. Todavia, se com pararm os duas form ações que não sej am m uito próxim as, encontram os que todas as espécies têm sofrido algum as m odificações. Quando um a espécie desaparece do Globo, não tem os razão algum a para acreditar que a form a idêntica reapareça j am ais. O caso que pareceria fazer m aior exceção a esta regra é o das « colônias» de M. Barrande, que fazem invasão durante algum tem po no m eio de um a form ação m ais antiga, em seguida cedem de novo o lugar à fauna preexistente; m as Ly ell parece ter-m e dado um a explicação satisfatória deste fato, supondo m igrações tem porárias provindo de províncias geográficas distintas. Estes diversos fatos concordam bem com a m inha teoria, que não supõe lei algum a fixa do desenvolvim ento, obrigando todos os habitantes de um a zona a m odificar-se bruscam ente, sim ultaneam ente, ou em grau igual. Pela m inha teoria, ao contrário, a m archa das m odificações deve ser lenta, e afetar geralm ente apenas m uito pouco as espécies ao m esm o tem po; com efeito, a variabilidade de cada espécie é independente da de todas as outras. A acum ulação pela seleção natural, num ’ grau m ais ou m enos pronunciado, das variações ou diferenças individuais que podem surgir, produzindo assim m ais ou m enos m odificações perm anentes, depende de eventualidades num erosas e com plexas - tais com o a natureza vantaj osa das variações, a liberdade dos cruzam entos, as alterações lentas nas condições físicas do país, a im igração de novas form as e a natureza dos outros habitantes com os quais a espécie que varia se encontra em concorrência. Nada
383
é, pois, de adm irar que um a espécie possa conservar a sua form a m ais tem po do que as outras, ou que, se ela se m odifica, o faça em grau m enor. Encontram os relações análogas entre os habitantes atuais de países diferentes; assim , as conchas terrestres e os insetos coleópteros da Madeira chegaram a diferir consideravelm ente das form as do continente europeu que m ais se lhe assem elham , enquanto que as conchas m arinhas e as aves não se alteraram . A rapidez m aior das m odificações nos anim ais terrestres e de um a organização m ais elevada, com parativam ente ao que se passa com as form as m arinhas e inferiores, explica-se talvez pelas relações m ais com plexas que existem entre os seres superiores e as condições orgânicas e inorgânicas da sua existência, assim com o o tem os j á indicado num capítulo precedente. Quando um grande núm ero de habitantes de qualquer região se m odifica e aperfeiçoa, resulta do princípio da concorrência e das relações essenciais que têm m utuam ente entre si os organism os na luta pela existência, que toda a form a que não se m odifica e não se aperfeiçoa em certo grau deve ser exposta à destruição. E dá-se isto porque todas as espécies da m esm a região acabam sem pre, se se considera um lapso de tem po suficiente longo, por se m odificar, porque de outra form a desapareceriam .
A m édia das m odificações nos m em bros da m esm a classe pode ser quase a m esm a, durante períodos iguais e de igual com prim ento; m as com o a acum ulação de cam adas duráveis, ricas em fósseis, depende do depósito de grandes m assas de sedim entos em áreas em via de abaixam ento, estas cam adas devem ter-se necessariam ente form ado com intervalos m uito consideráveis e irregularm ente interm itentes. Por conseqüência, a som a das alterações orgânicas de que dão testem unho os fósseis contidos nestas form ações consecutivas não é igual. Nesta hipótese, cada form ação não representa um ato novo e com pleto de criação, m as som ente um a cena tom ada ao acaso no dram a que lentam ente se está
sem pre desenrolando.
É fácil com preender a causa por que um a espécie, um a vez extinta, não poderia aparecer, adm itindo m esm o a volta de condições de existência orgânicas e inorgânicas idênticas. Com efeito, posto que a descendência de um a espécie possa adaptar-se de m aneira a ocupar na econom ia da natureza o lugar de um a
384
outra (o que sucede sem dúvida m uitas vezes), e chegar assim a suplantá-la, as duas form as - antiga e m oderna - não poderiam j am ais ser idênticas, porque am bas teriam quase certam ente herdado dos antepassados distintos caracteres diferentes, e porque organism os j á diferentes tendem a variar de um a m aneira diferente. Por exem plo, é possível que, se os nossos pom bos-pavões fossem todos destruídos, os tratadores chegassem a reconstituir um a nova raça quase sem elhante à raça atual. Mas se supuserm os a destruição da origem -m ãe, o torcaz - e tem os toda a razão para acreditar que no estado de natureza as form as pais são geralm ente substituídas e exterm inadas pelos seus descendentes aperfeiçoados - seria pouco provável que um pom bo-pavão, idêntico à raça existente, pudesse derivar da outra espécie de pom bo ou m esm o de algum a outra raça bem fixa do pom bo dom éstico. Com efeito, as variações sucessivas seriam com certeza diferentes num certo grau, e a variedade novam ente form ada im prim iria provavelm ente na fonte m ãe algum as divergências características. Os grupos de espécies, isto é, os gêneros e as fam ílias seguem na sua aparição e desaparecim ento as m esm as regras gerais que as espécies isoladas, isto é, que se m odificam m ais ou m enos fortem ente, e m ais ou m enos prontam ente. Um grupo um a vez extinto j am ais reaparece; isto é, que a sua existência, tanto quanto se perpetua, é rigorosam ente contínua. Sei que esta regra sofre algum as exceções aparentes, m as tão raras são, que E. Forbes, Pictet e Woodward (ainda que inteiram ente opostos às idéias que defendo) a adm item com o verdadeira. Ora, esta regra concorda rigorosam ente com a m inha teoria, porque todas as espécies de um m esm o grupo, qualquer que tenha podido ser a sua duração, são os descendentes m odificados entre si, e de um antepassado com um . As espécies do gênero língula por exem plo, que apareceram sucessivam ente em todas as épocas, devem ter sido ligadas um as às outras por um a série ininterrupta de gerações, desde as cam adas m ais antigas do sistem a silúrico até nossos dias. Vim os, no capítulo precedente, que grupos inteiros de espécies parecem surgir por vezes ao m esm o tem po e subitam ente. Procurei dar um a explicação deste fato, que seria, se fosse bem verificado, fatal à m inha teoria. Mas tais casos são excepcionais; a regra geral, ao contrário, é um aum ento progressivo em núm ero,
385
até que o grupo atinj a o seu m áxim o, cedo ou tarde seguido de um decrescim ento gradual. Se se representar o núm ero de espécies contidas num gênero, ou o núm ero de gêneros contidos num a fam ília, por um traço vertical de espessura variável, atravessando as cam adas geológicas sucessivas contendo estas espécies, o traço parece algum as vezes com eçar no seu extrem o inferior, não por ponta aguda, m as bruscam ente. Espessa-se gradualm ente subindo; conserva m uitas vezes um a largura igual, durante um traj eto m ais ou m enos longo, depois term ina por se adelgaçar nas cam adas superiores, indicando o decrescim ento e a extinção final da espécie. Esta m ultiplicação gradual do núm ero das espécies de um grupo está
estritam ente de acordo com a m inha teoria, porque as espécies de um m esm o gênero e os gêneros da m esm a fam ília aum entam apenas lenta e progressivam ente a m odificação e a produção de num erosas form as vizinhas podendo ser som ente longos e graduais. Com efeito, um a espécie a princípio produz duas ou três variedades, que se convertem lentam ente em outras tantas espécies, que por seu turno, e por um a m archa igualm ente gradual, dão origem a outras variedades e espécies, e, assim sucessivam ente, com o os ram os que, partindo de um tronco único de um a grande árvore, term inam , ram ificando-se sem pre, por form ar um grupo considerável no seu conj unto.
EXTINÇÃO
Tem os, até ao presente, falado apenas incidentem ente do desaparecim ento das espécies e dos grupos de espécies. Pela teoria da seleção natural, a extinção das form as antigas e a produção das form as novas aperfeiçoadas são dois fatos intim am ente conexos. A velha noção da destruição com pleta de todos os habitantes do Globo, após cataclism os periódicos, é hoj e geralm ente abandonada, m esm o por geólogos tais com o E. de Beaum ont, Murchison, Barrande, etc., cuj as conclusões gerais deveriam naturalm ente conduzir a conclusões desta natureza. Resulta, pelo contrário, do estudo das form ações terciárias que as espécies e os grupos de espécies desapareciam lentam ente um as após outras, prim eiro num ponto, depois noutro, e enfim da Terra inteira. Em alguns casos m uito raros, tais com o a
386
rotura de um istm o e a irrupção, que é a conseqüência, de um a aluvião de novos habitantes provindo de um m ar vizinho, ou a im ersão total de um a ilha, a m archa da extinção podia ter sido rápida. As espécies e os grupos de espécies persistem durante períodos de um a extensão m uito desigual; vim os, com efeito, que alguns grupos que apareceram desde a origem da vida existem ainda hoj e, enquanto que outros desapareceram antes do fim do período paleozóico. O tem po durante o qual um a espécie isolada ou um gênero pode persistir não parece depender de lei algum a fixa. Pode sem pre crer-se que a extinção de um grupo com pleto de espécies deve ser m uito m ais lenta do que a sua produção. Se se figura com o precedentem ente a aparição e o desaparecim ento de um grupo por um traço vertical de espessura variável, este últim o afila-se m uito m ais gradualm ente para a extrem idade superior, que indica a m archa da extinção, do que para a extrem idade inferior, que representa a aparição prim eira, e a m ultiplicação progressiva da espécie. Há, contudo, casos em que a extinção de grupos inteiros foi notavelm ente rápida; é o que se observa com os am onitas no fim do período secundário. Tem -se m uito gratuitam ente envolvido em m istérios a extinção das espécies. Alguns autores chegaram a supor que, com o a vida do indivíduo tem um lim ite determ inado, assim a da espécie tem tam bém um a duração lim itada. Ninguém , com o eu, tem podido ser im pressionado de espanto pelo fenôm eno da extinção das espécies. Qual não foi a m inha surpresa, por exem plo, quando encontrei no Prata um dente de cavalo sepultado com os restos de m astodontes, de m egatérios, de toxodontes e outros m am íferos gigantescos extintos, que todos tinham coexistido num período geológico recente com conchas ainda vivas? Com efeito, o cavalo, desde a sua introdução na Am érica do Sul pelos Espanhóis, tornou-se selvagem em todo o país e m ultiplicou-se com um a rapidez sem igual; devia, pois, perguntar a m im próprio qual devia ter sido a causa da extinção do cavalo prim itivo, em condições de existência na aparência tão favoráveis. O m eu espanto era m al fundado; o professor Owen não tardou a reconhecer que o dente, posto que m uito sem elhante ao do cavalo atual, pertencia a um a espécie extinta. Se este cavalo existisse ainda, m as que fosse raro, ninguém se adm iraria; porque em todos os países a raridade é o atributo de um conj unto de espécies de todas as
387
classes; se se perguntarem as causas de tal raridade, respondem os que são a conseqüência de algum as circunstâncias desfavoráveis nas condições de existência, m as não podem os de form a algum a indicar quais sej am essas circunstâncias. Supondo que o cavalo fóssil tenha existido ainda com o espécie rara, parece m uito natural pensar, pela analogia com todos os outros m am íferos, incluindo o elefante, cuj a reprodução é tão lenta, bem com o pela naturalização do cavalo dom éstico na Am érica do Sul, que, em condições favoráveis, tivesse, em poucos anos, povoado o continente. Mas não teríam os podido dizer quais as condições desfavoráveis que obstaram à sua m ultiplicação; se um a ou m uitas causas atuaram em conj unto ou separadam ente; em que período da vida e em que grau atuou cada um a delas. Se as circunstâncias continuassem , tão lentam ente com o se j ulga, a tornar-se cada vez m enos favoráveis, não teríam os certam ente observado o fato, m as o cavalo fóssil tornar-se-ia cada vez m ais raro, e extinguir-se-ia finalm ente, dando o seu lugar na natureza a qualquer concorrente m ais feliz.
É difícil ter sem pre presente ao espírito o fato de a m ultiplicação de cada form a viva ser sem cessar lim itada por causas nocivas desconhecidas que, contudo, são m uito suficientes para determ inar a princípio a raridade e em seguida a extinção. Com preende-se tão pouco este assunto, que tenho ouvido m uitas vezes exprim ir a surpresa que causa a extinção de anim ais gigantescos, tais com o o m astodonte e o dinossauro, com o se a força corporal fosse o bastante para assegurar a vitória na luta pela existência. A grande corpulência de um a espécie, pelo contrário, pode arrastar, em certos casos, com o Owen o faz notar, m ais pronta extinção, devido à m aior quantidade de nutrição necessária. A m ultiplicação do elefante atual deve ter sido lim itada por um a causa qualquer antes que o hom em habitasse a índia ou a África. O Dr. Falconer, j uiz m uito com petente, atribui esta paragem no aum ento em núm ero do elefante índico aos insetos que o fatigam e o enfraquecem ; Bruce chegou à m esm a conclusão relativam ente ao elefante africano da Abissínia. É certo que a presença dos insetos e dos vam piros decide, em diversas partes da Am érica do Sul, da existência dos m aiores m am íferos naturalizados. Nas form ações terciárias recentes, vem os casos num erosos em que a rari- 388
dade precede a extinção, e sabem os que o m esm o fato se apresenta para os anim ais que o hom em , pela sua influência, tem exterm inado local ou totalm ente. Posso repetir aqui o que escrevi em 1845: adm itir que as espécies se tornam geralm ente raras antes da extinção, e não adm irar tal fato, para som ente m aravilhar o seu desaparecim ento, é com o adm itir que a doença, no indivíduo, é o antecessor da m orte, e se vej a a doença sem surpresa, Para Pasm ar e atribuir a m orte do doente a um ato de violência.
A teoria da seleção natural é baseada na opinião que cada variedade nova, e, em últim a análise, cada espécie nova, se form a e se m antém por m eio de certas vantagens adquiridas sobre as que consigo entram em concorrência; e, enfim , sobre a extinção das form as m enos favorecidas, que é a conseqüência inevitável. O m esm o se dá com as nossas produções dom ésticas, porque, quando um a variedade nova e um Pouco superior foi obtida, substitui a princípio as variedades inferiores da vizinhança; m ais aperfeiçoada, espalha-se cada vez m ais, com o os nossos bois de chifres curtos, e tom a o lugar de outras raças em outros países. A aparição de form as novas e o desaparecim ento das antigas são pois, tanto para as produções naturais com o para as produções artificiais, dois fatos conexos. O
núm ero das form as novas específicas, produzidas num tem po dado, deve ter sido, nos grupos florescentes, provavelm ente m ais considerável do que o das form as antigas que foram exterm inadas; m as sabem os que, pelo m enos durante as épocas geológicas recentes, as espécies não têm aum entado indefinidam ente; de m aneira que podem os adm itir, no que diz respeito às épocas m ais recentes, que a produção de novas form as determ inou a extinção de um núm ero quase igual de form as antigas.
A concorrência é geralm ente m ais rigorosa, com o com exem plos o dem onstram os j á, entre as form as que se sem elham em todos os pontos de vista. Por conseguinte, os descendentes m odificados e aperfeiçoados de um a espécie causam geralm ente o exterm ínio da origem -m ãe; e se m uitas novas form as, provindo de um a m esm a espécie, conseguem desenvolver-se, são as form as m ais próxim as desta espécie, isto é, as espécies do m esm o gênero, que se encontram m ais expostas à destruição. É assim , creio eu, que um certo núm ero de espécies no- 389
vas, derivadas de um a espécie única e constituindo assim um gênero novo, chega a suplantar um gênero antigo, pertencente à m esm a fam ília. Mas deve ter sucedido m uitas vezes tam bém que um a espécie nova pertencendo a um grupo tom asse o lugar de um a espécie pertencendo a um grupo diferente, e provocasse assim a sua extinção. Se m uitas form as aliadas têm saído desta m esm a form a, outras espécies conquistadoras anteriorm ente lhe deverão ter cedido o lugar, e serão então geralm ente as form as vizinhas que têm m ais a sofrer, em razão de algum a inferioridade hereditária com um a todo o grupo. Mas com o as espécies obrigadas a ceder assim o seu lugar a outras m ais aperfeiçoadas pertencem à m esm a classe ou a classes distintas, poderá suceder que algum as delas possam ser m uito tem po conservadas, após a sua adaptação a condições diferentes de existência, ou porque, ocupando um ponto isolado, escaparam a um a rigorosa concorrência. Assim , por exem plo, algum as espécies de Trigonia, grande gênero de m oluscos das form ações secundárias, têm sobretudo vivido e habitam ainda os m ares australianos; e alguns m em bros do grupo considerável e quase extinto dos peixes ganóides encontram -se ainda nas nossas águas doces. Com preende-se, pois, a causa de a extinção com pleta de um grupo ser geralm ente, com o acabam os de ver, m uito m ais lenta do que a sua produção.
Quanto à súbita extinção de fam ílias ou de ordens inteiras, tais com o o grupo dos trilobitas no fim da época paleozóica ou o dos am onitas no fim do período secundário, lem brar-nos-em os do que tem os j á dito sobre os grandes intervalos de tem po que decorreram entre as nossas form ações consecutivas, intervalos durante os quais se pode efetuar um a extinção lenta, m as considerável. Dem ais, quando, após im igrações súbitas ou de um desenvolvim ento m ais rápido do que de ordinário, algum as espécies de um novo grupo se apoderam de um a região qualquer, m uitas espécies antigas devem ser exterm inadas com um a rapidez correspondente; ora, as form as assim suplantadas são provavelm ente próxim as aliadas, pois que possuem algum defeito com um .
Parece-m e, pois, que o m odo de extinção das espécies isoladas ou dos grupos de espécies concorda perfeitam ente com a teoria da seleção natural. Não devem os adm irar-nos da extinção, m as da nossa presunção de querer im aginar
390
que com preendem os as circunstâncias com plexas de que depende a existência de cada espécie. Se nos esquecerm os um instante de que cada espécie tende a m ultiplicar-se até ao infinito, m as que está constantem ente conservada em respeito por causas que só raram ente com preendem os, toda a econom ia da natureza é
incom preensível. Quando puderm os dizer precisam ente a causa por que tal espécie é m ais abundante em indivíduos do que outra, ou porque esta espécie e não aquela pode ser naturalizada num dado país, só então terem os o direito de nos adm irarm os de que não possam os explicar a extinção de certas espécies ou de certos grupos.
ALTERAÇÕES Q UASE INSTANTÂNEAS DAS FORMAS VIVAS NO G LOBO
Um a das descobertas m ais interessantes da paleontologia, é que as form as da vida m udam em todo o Globo de um a m aneira quase sim ultânea. Assim , a form ação européia da greda reconhece-se em m uitas partes do Globo, nos m ais diversos clim as, m esm o onde se não poderia encontrar o m enor fragm ento de m ineral sem elhante à greda, por exem plo na Am érica do Norte, na Am érica do Sul equatorial, na Terra do Fogo, no Cabo da Boa Esperança e na península índica. Com efeito, em todos estes pontos afastados, os vestígios orgânicos de certas cam adas apresentam um a sem elhança incontestável com os da greda; não porque se encontrem aí as m esm as espécies, porque, em m uitos casos, não houve um a que fosse identicam ente a m esm a, m as pertencem às m esm as fam ílias, aos m esm os gêneros, às m esm as subdivisões de gêneros, e são por vezes sem elhantem ente caracterizadas Pelos m esm os caracteres superficiais, tais com o a cinzeladura exterior. Além disso, outras form as de greda que se não encontram na Europa, m as que existem nas form ações superiores ou inferiores, seguem -se na m esm a ordem nestes diferentes pontos do Globo tão afastados entre si. Muitos autores verificaram um paralelism o sem elhante das form as da vida nas form ações paleozóicas sucessivas da Rússia, da Europa Ocidental e da Am érica do Norte; o m esm o se observa, segundo Ly ell, nos diversos depósitos terciários da Europa e da Am érica
391
do Norte. Pondo m esm o de lado algum as espécies fósseis que são com uns ao velho e novo m undo, o paralelism o geral das diversas form as da vida nas cam adas paleozóicas e nas cam adas terciárias não ficará m enos m anifesto e tornará
fácil a correlação nas diversas form ações.
Estas observações, todavia, aplicam -se apenas aos habitantes m arinhos do Globo; porque dados suficientes nos faltam para apreciar se as produções das terras e das águas doces têm , em pontos afastados, m udado de um a m aneira paralela análoga. Há razão para de tal duvidar. Se se houvesse trazido do Prata o Megatério, o My lodon, o Macrauchenia e o Toxodon sem ensinam entos sobre a sua posição geológica, ninguém suporia que estas form as tivessem existido com m oluscos m arinhos ainda vivos; todavia, a sua coexistência com o m astodonte e o cavalo, perm itiria pensar que viveram durante um dos últim os períodos terciários. Quando dizem os que as faunas m arinhas se alteraram sim ultaneam ente em todo o Globo, é necessário não supor que a expressão se aplica ao m esm o ano ou ao m esm o século, ou m esm o que tenha um sentido geológico bem rigoroso; porque, se todos os anim ais m arinhos vivendo atualm ente na Europa (assim com o os que viveram durante o período pleistocênio, j á tão fortem ente distanciado, se se contar a sua antiguidade pelo núm ero de anos, visto que com preende toda a época glaciária), fossem com parados aos que existem atualm ente na Am érica do Sul ou na Austrália, o m ais hábil naturalista com dificuldade poderia decidir quais dos habitantes atuais ou dos da época pleistocênica na Europa, sem elham m ais os do hem isfério austral. Ainda assim , alguns observadores m uito com petentes adm item que as produções atuais dos Estados Unidos se aproxim am m ais das que viveram na Europa durante certos períodos terciários recentes do que das form as européias atuais, e, sendo assim , é evidente que as cam adas fossilíferas que se depositam agora nas costas da Am érica do Norte arriscar-se-iam no futuro a ser classificadas com os depósitos europeus algum tanto m ais antigos. Não obstante, num futuro m uito afastado, não é duvidoso que todas as form ações m arinhas m ais m odernas, o pliocênio superior, o pleistocênio e os depósitos com pletam ente m odernos da Europa, da Am érica do Norte, da Am érica do Sul e da Austrália, poderão ser com razão considerados com o sim ultâneos, no sentido geológico da palavra,
392
porque encerrarão detritos fósseis m ais ou m enos aliados, e porque não conterão qualquer das form as próprias aos depósitos inferiores m ais antigos. Este fato da m udança sim ultânea das form as da vida nas diversas partes do m undo, dando a esta lei o sentido lato e geral que acabam os de dar-lhe, im pressionou m uito dois observadores em inentes, MM. de Verneuil e de Archiac. Depois de ter lem brado o paralelism o que se nota entre as form as orgânicas da época paleozóica nas diversas partes da Europa, acrescentam : « Se, feridos por esta estranha sucessão, voltarm os os olhos para a Am érica do Norte e aí descobrirm os um a série de fenôm enos análogos, parecer-nos-á, pois, certo que todas as m odificações das espécies, a sua extinção, a introdução de espécies novas, não m ais podem ser o resultado de sim ples alterações nas correntes oceânicas, ou de outras causas m ais ou m enos locais e tem porárias, m as que devem depender de leis gerais que regulem o conj unto do reino anim al» . M. Barrande invoca outras considerações de grande valor que conduzem à m esm a conclusão. Não se poderia, com efeito, atribuir a estas alterações de correntes, de clim a, ou de outras condições físicas, estas im ensas m utações das form as organizadas no Globo, nos clim as m ais diversos. Devem os, assim com o Barrande o fez observar, procurar algum a lei especial. É o que ressaltará ainda m ais claram ente quando tratarm os da distribuição atual dos seres organizados, e virm os quanto são insignificantes as relações entre as condições físicas das diversas regiões e a natureza dos seus habitantes.
Este grande fato da sucessão paralela das form as da vida no m undo explica-se facilm ente pela teoria da seleção natural. As espécies novas form am -se porque possuem algum as vantagens sobre as m ais antigas; ora, as form as j á
dom inantes, ou que têm algum a superioridade sobre as outras form as do m esm o país, são as que produzem o m aior núm ero de variedades novas ou espécies nascentes. A prova evidente desta lei, é que as Plantas dom inantes, isto é, as que são m ais com uns e m ais espalhadas, são tam bém as que produzem a m aior quantidade de variedades novas. É natural, além disso, que as espécies Preponderantes, variáveis, susceptíveis de se espalhar ao longe e tendo j á invadido m ais ou m enos os territórios de outras espécies, sej am tam bém as m ais aptas para se
393
estender ainda m ais, e para produzir, em novas regiões, variedades e espécies novas. Pode a sua difusão ser por vezes m uito lenta, porque depende de alterações clim atéricas e geográficas, de acidentes im previstos e da aclim atação gradual das novas espécies nos diversos clim as que haj am de atravessar; m as, com o tem po, são as form as dom inantes que, em geral, têm m ais probabilidades em se espalhar, e, finalm ente, em prevalecer. É provável que os anim ais terrestres habitando continentes distintos se espalhem m ais lentam ente do que as form as m arinhas povoando m ares contínuos. Podem os, pois, chegar a encontrar, com o se observa com efeito, um paralelism o m enos rigoroso na sucessão das form as terrestres do que nas form as m arinhas. Parece-m e, portanto, que a sucessão paralela e sim ultânea, dando a este últim o term o o sentido m ais lato, das m esm as form as organizadas no Globo concorda bem com o princípio segundo o qual novas espécies seriam produzidas pela grande extensão e pela variação das espécies dom inantes. Sendo dom inantes as próprias espécies novas, pois que têm ainda um a certa superioridade sobre as form as-m ães que j á existiam , assim com o sobre outras espécies, continuam a espalhar-se, a variar e a produzir novas variedades. As espécies antigas, vencidas pelas novas form as vitoriosas, às quais cedem o lugar, são geralm ente aliadas em grupos, conseqüência da herança com um de algum a causa de inferioridade; à