A Origem das Espécies
Seção 23
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
m edida pois que os grupos novos e aperfeiçoados se espalham na Terra, os antigos desaparecem , e por toda a parte há correspondência na sucessão das form as, tanto na sua prim eira aparição com o no desaparecim ento final. Creio ainda útil fazer um a observação a este respeito. Indiquei as razões que m e levam a crer que a m aior parte das nossas grandes form ações ricas em fósseis foram depositadas durante períodos de abaixam ento, e que interrupções de um a duração im ensa, no que se refere ao depósito de fósseis, se deviam ter produzido durante as épocas em que o fundo do m ar estava estacionário ou em via de levantam ento, e tam bém quando os sedim entos se não depositassem em assaz grande quantidade, em assaz rapidam ente para esconder e conservar os restos dos seres organizados. Suponho que, durante estes longos intervalos, de que não podem os encontrar vestígio algum , os habitantes de cada região sofre- 394
ram um a som a considerável de m odificações e extinções, e que houve freqüentes em igrações de um a região para outra. Com o tem os todas as razões para j ulgar que im ensas superfícies são afetadas pelos m esm os m ovim entos, é provável que form ações exatam ente contem porâneas se deviam m uitas vezes ter acum ulado em grandes extensões na Mesm a parte do Globo: m as não estam os de m odo algum autorizados a concluir que foi assim invariavelm ente, e que grandes superfícies foram sem pre afetadas pelos m esm os m ovim entos. Quando duas form ações se depositam durante quase o m esm o período, m as contudo não exatam ente o m esm o, devem os, pelas razões que precedentem ente indicam os, notar a m esm a sucessão geral nas form as que então viveram , sem que, coNtudo, as espécies correspondam exatam ente; pois houve, num a das regiões, um pouco m ais de tem po do que na outra, para perm itir as m odificações, as extinções e as im igrações. Creio que casos deste gênero se apresentam na Europa. Nas suas adm iráveis m em órias sobre os depósitos cocênios de Inglaterra e de França, M. Prestwich chegou a estabelecer um estreito paralelism o geral entre os andares sucessivos dos dois países; m as, com parando certos terrenos de Inglaterra com os depósitos correspondentes em França, posto que se encontre entre eles um a curiosa concordância nO núm ero das espécies pertencendo aos m esm os gêneros; contudo, as próprias espécies diferem de m odo tal que é difícil de explicar, atendendo à
proxim idade dos dois j azigos; a m enos, contudo, que se suponha que um istm o separou dois m ares povoados por duas faunas contem porâneas, m As distintas. Ly ell fez observações sem elhantes a respeito de algum as das form ações terciárias m ais recentes. Barrande assinala, por seu lado, um notável paralelism o geral nos depósitos silúricos sucessivos da Boêm ia e da Escandinávia; não obstante, encontram -se diferenças surpreendentes entre as espécies. Se, nestas regiões, as diversas form ações não tivessem sido depositadas exatam ente durante os m esm os períodos - um depósito, um a região, correspondendo m uitas vezes a um período de inatividade noutra - e se, nas duas regiões, as espécies se tivessem m odificado lentam ente durante a acum ulação das diversas form ações e nos longos intervalos que as separaram , os depósitos, nos dois pontos, poderão estar coloca- 395
dos na m esm a ordem quanto à sucessão geral das form as organizadas, e esta ordem pareceria sem razão estritam ente paralela; não obstante, as espécies não seriam todas as m esm as nos andares em aparência correspondentes das duas estações.
DAS AFINIDADES DAS ESPÉCIES EXTINTAS ENTRE SI E COM AS FORMAS VIVAS
Exam inem os agora as afinidades m útuas das espécies extintas e vivas. Agrupam -se todas num Pequeno núm ero de grandes classes, fato que explica de m om ento a teoria da descendência. Em regra geral, quanto m ais antiga for a form a, tanto m ais difere das form as vivas. Mas, assim com o Buckland j á de há m uito o fez notar, podem classificar-se todas as espécies extintas, quer nos grupos existentes, quer nos intervalos que os separam . É certam ente verdade que as espécies extintas contribuem para encher lacunas que existem entre os gêneros, fam ílias e ordens atuais; m as, com o se tem contestado e m esm o negado este ponto, pode ser útil fazer alguns reparos a tal assunto e citar alguns exem plos; se dirigirm os som ente a nossa atenção para as espécies vivas ou para as espécies extintas pertencendo à m esm a classe, a série é infinitaMente m enos perfeita do que se as com binássem os am bas num sistem a geral. Encontra-se continuam ente nos escritos do professor Owen a expressão « form as generalizadas» aplicada aos anim ais extintos; Agassiz fala a cada instante de tipos « proféticos ou sintéticos» ; ora, estes term os aplicam -se a form as ou fuzis interm ediários. Um outro paleontólogo distinto, M. Gaudry, dem onstrou do m odo m ais categórico que um grande núm ero de m am íferos fósseis que descobriu na Ática servem para preencher os intervalos entre os gêneros existentes. Cuvier considerava os rum inantes e os paquiderm es com o as duas ordens de m am íferos m ais distintos; m as encontravam se tantos fuzis fósseis interm ediários que o professor Owen teve de rem odelar toda a classificação e colocar certos paquiderMes na subordem dos rum inantes; fez, por exem plo, desaparecer por gradações insensíveIs a im ensa lacuna que existia entre o porco e o cam elo. Os ungulados ou quadrúpedes de cascos são agora divididos em dois grupos, o dos quadrúpedes com dedos pares e o dos
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quadrúpedes com dedos íMpares; m as o Macrauchenia da Am érica Meridional liga até certo ponTo estes dois grupos im portantes. Ninguém poderia contestar que o hipário form a um fuzil interm ediário entre o cavalo existente e outros ungulados. o Ty potherium da Am érica MeridiOnal, que se não saberia classificar em qualquer ordem existente, form a, com o indica o nom e que lhe deu o professor Gervais, um fuzil interm ediário notável na série dos m am íferos. Os Sirénia constituem um grupo m uito distinto de m am íferos, e um dos caracteres m ais notáveis do dugongo e do lam antino atuais é a ausência com pleta de m em bros posteriores, sem m esm o neles se encontrarem rudim entos desses m em bros; m as o Halithérium extinto tinha, segundo o professor Flower, o osso da coxa ossificado e articulado num acetábulo bem definido da pelve, e por isso se aproxim a dos quadrúpedes ungulados ordinários, aos quais os Sirénia estão aliados, debaixo de outros pontos de vista. Os cetáceos ou baleias diferem consideravelm ente de todos os outros m am íferos, m as o zeuglodonte e o esqualodonte da época terciária, de que alguns naturalistas fizeram um a ordem distinta, são, segundo o professor Huxley, verdadeiros cetáceos e « constituem um elo interm ediário com os carnívoros aquáticos» . O professor Huxley dem onstrou tam bém que m esm o o enorm e intervalo que separa as aves dos répteis, se encontra em parte preenchido, da m aneira m ais im prevista, pelo avestruz e Archeoptery x extinto, de um a parte, e da outra, pelo Com psognatus, um dos dinossauros, grupo que com preende os répteis terrestres m ais gigantescos. Com respeito aos invertebrados, Barrande, cuj a autoridade é irrefutável nesta m atéria, afirm a que as descobertas de cada dia provam que, se bem que os anim ais paleozóicos possam certam ente classificar-se nos grupos existentes, estes grupos não eram contudo, nesta época afastada, tão distintam ente separados com o o são atualm ente. Alguns autores têm negado que qualquer espécie extinta ou algum grupo de espécies possa ser considerado com o interm ediário entre duas espécies vivas quaisquer ou entre grupos de espécies atuais. A obj eção não teria valor senão tanto quanto se entendesse por isto que a form a extinta é, por todos estes caracteres, diretam ente interm ediária entre duas form as ou entre dois grupos vivos. Mas, num a classificação natural, há certam ente m uitas espécies fósseis que se
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colocam entre os gêneros vivos, e m esm o entre gêneros pertencentes a fam ílias distintas. o caso m ais freqüente, sobretudo quando se trata de grupos m uito diferentes, com o os peixes e os répteis, parece ser que se, por exem plo, no estado atual, estes grupos se distinguem por um a dezena de caracteres, o núm ero de caracteres distintos é m enor nos antigos m em bros dos dois grupos, de m odo que os dois grupos eram outrora um pouco m ais vizinhos entre si do que hoj e o são. Julga-se bastante com um ente que, quanto m ais antiga é um a form a, tanto m ais tende a ligar, por alguns dos seus caracteres, grupos atualm ente m uito afastados entre si. Esta observação aplica-se apenas, sem dúvida, aos grupos que, no decurso das idades geológicas, sofreram m odificações consideráveis; difícil seria, além disso, dem onstrar a verdade da proposição, porque de quando em quando se descobrem anim ais m esm o vivos que, com o a lepidossereia, se ligam , pelas suas afinidades, a grupos m uito distintos. Todavia, se com pararm os os m ais antigos répteis e os m ais antigos batráquios, os m ais antigos peixes, os m ais antigos cefalópodes e os m am íferos da época eocênia, com os m em bros m ais recentes das m esm as classes, necessário nos é reconhecer que esta observação é verdadeira. Vej am os até que ponto os diversos fatos e as deduções que precedem concordam com a teoria da descendência com m odificação. Peço ao leitor, vista a com plicação do assunto, para recorrer ao quadro de que nos tem os j á servido no capítulo quarto. Suponham os que as letras em itálico e num eradas representam gêneros, e as linhas pontuadas, que se afastam divergindo, as espécies de cada gênero. A figura é m uito sim ples e dá-nos som ente um pequeno núm ero, gêneros e espécies; m as pouco im porta. As linhas horizontais podem figurar form ações geológicas sucessivas, e podem considerar-se com o extintas todas as form as colocadas abaixo da linha superior. Os três gêneros existentes a14, q14, p14, form arão um a pequena fam ília; b14 e f14, um a fam ília m uito próxim a ou subfam ília, e o14, e14, m 14 um a terceira fam ília. Estas três fam ílias reunidas aos num erosos gêneros extintos fazendo parte das diversas linhas de descendência provindo por divergência da espécie-m ãe A, form arão um a ordem ; porque todos terão herdado algum a coisa com um do antepassado prim itivo. Em virtude do princípio da tendên- 398
cia contínua à divergência dos caracteres, para cuj a explicação o nosso diagram a serviu j á, quanto m ais recente for um a form a, tanto m ais deve ordinariam ente diferir do ascendente prim ordial. Podem os por aqui com preender facilm ente a razão por que são os fósseis m ais antigos que m ais diferem das form as atuais. A divergência dos caracteres não é, todavia, um a eventualidade necessária; pois que esta divergência depende unicam ente de que perm itiu aos descendentes de um a espécie apoderar-se de m ais lugares diferentes na econom ia da natureza. É pois m uito possível, assim com o o tem os visto para algum as form as silúricas, que um a espécie possa persistir apresentando apenas leves m odificações correspondentes a fracas alterações nas suas condições de existência, conservando, porém , durante um longo período, os seus traços característicos gerais. É o que representa, na figura, a letra F14.
Todas as num erosas form as extintas e vivas derivadas de A constituem , com o j á o fizem os notar, um a ordem que, em seqüência aos efeitos contínuos da extinção e da divergência dos caracteres, está dividida em m uitas fam ílias e subfam ílias; supõe-se que algum as m orreram em diversos períodos, enquanto que outras persistiram até nossos dias.
Vem os, exam inando o diagram a, que se descobrirm os, em diferentes pontos da parte inferior da série, um grande núm ero de form as extintas que se supõe terem sido escondidas nas form ações sucessivas, as três fam ílias que existem na linha superior tornar-se-iam m enos distintas um a da outra. Se, por exem plo, se encontrassem os gêneros a1, a5, a10, f8, m 3, m 6, m 9, estas três fam ílias estariam bastante estreitam ente ligadas para que devessem provavelm ente ser reunidas num a só grande fam ília, quase com o se deve fazer com respeito aos rum inantes e certos paquiderm es. Contudo, poderia talvez contestar-se que os gêneros extintos que ligam assim os gêneros vivos de três fam ílias sej am interm ediários, porque não o são diretam ente, m as sim plesm ente por um longo circuito e passando por um grande núm ero de form as m uito diferentes. Se se descobrissem m uitas form as extintas acim a de um a das linhas horizontais m édias que representam as diferentes form ações geológicas-acim a do núm ero VI, por exem plo-m as que se não encontrasse algum a abaixo desta linha, não haveria m ais que duas fam ílias (som en- 399
te as duas fam ílias da esquerda a14 e b14, etc.), a reunir num a só; ficariam duas fam ílias que seriam m enos distintas um a da outra do que o eram antes da descoberta dos fósseis. Ainda assim , se supuserm os que as três fam ílias form adas de oito gêneros (a14 a m 14) sobre a linha superior diferem entre si por m eia dúzia de caracteres im portantes, as fam ílias que existiam na época indicada pela linha VI deviam certam ente diferir um a da outra por um núm ero m enor de caracteres, porque neste grau genealógico rem oto deviam ter-se afastado m enos do seu ascendente com um . É assim que gêneros antigos e extintos apresentam algum as vezes, em certo grau, caracteres interm ediários entre os descendentes m odificados, ou entre os parentes colaterais.
As coisas devem ser sem pre m uito m ais com plicadas na natureza do que o são no diagram a; os grupos, com efeito, devem ter sido m ais num erosos; devem ter durações m uito desiguais, e experim entar m odificações m uito variáveis em grau. Com o som ente possuím os o últim o volum e dos Arquivos Geológicos, e dem ais este volum e está m uito incom pleto, não podem os esperar, exceto em alguns casos m uito raros, poder preencher as grandes lacunas do sistem a natural, e ligar assim fam ílias ou ordens distintas. Tudo o que nos é perm itido esperar, é que os grupos que, em períodos geológicos conhecidos, têm sofrido m uitas m odificações, se aproxim em um pouco m ais entre si nas form ações m ais antigas, de m odo que os m em bros destes grupos pertencendo às épocas m ais rem otas difiram m enos por alguns dos seus caracteres do que os m em bros atuais dos m esm os grupos. É, de resto, no que acordam reconhecer os nossos m elhores paleontólogos. A teoria da descendência com m odificações explica, pois, de um a m aneira satisfatória os principais fatos que se referem às afinidades m útuas que se notam tanto entre as form as extintas com o entre estas e as form as vivas. Estas afinidades parecem -m e inexplicáveis se se consideram noutro ponto de vista. Pela m inha teoria, é evidente que a fauna de cada um dos grandes períodos da história da Terra deve ser interm ediária, pelos seus caracteres gerais, entre a que a precedeu e a que se seguiu. Assim as espécies que viveram durante o sexto grande período indicado no diagram a, são as descendentes m odificadas das que viviam durante o quinto, e as ascendentes das form as ainda m ais m odificadas
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do sétim o; não podem , pois, deixar de ser quase interm ediárias pelo seu caráter entre as form as da form ação inferior e as da form ação superior. É preciso, todavia, tom ar em conta a parte da extinção total de algum as das form as anteriores, da im igração num a região qualquer de form as novas vindas de outras regiões, e de um a som a considerável de m odificações que devem ter-se operado durante os longos intervalos negativos que decorreram entre o depósito das diversas form ações sucessivas. Feitas estas reservas, a fauna de cada período geológico é certam ente interm ediária pelos seus caracteres entre a fauna que a precedeu e a que se lhe seguiu. Citarei apenas um exem plo: os fósseis do sistem a devoniano, quando da sua descoberta, foram em conj unto reconhecidos pelos paleontólogos com o interm ediários pelos seus caracteres entre os dos terrenos carboníferos que os seguiram e os do sistem a siluriano que os precederam . Mas cada fauna não é
necessária e exatam ente interm ediária, por causa da desigualdade da duração dos intervalos que decorreram entre o depósito das form ações consecutivas. O
fato de certos gêneros apresentarem um a exceção à regra não poderia invalidar a asserção que toda a fauna de um a época qualquer sej a, no seu conj unto, interm ediária entre a que a precede e a que se lhe segue. Por exem plo, o Dr. Falconer classificou em duas séries os m astodontes e os elefantes: um a, pelas suas afinidades m útuas; a outra, pela época da sua existência; ora, estas duas séries não concordam . As espécies que apresentam caracteres extrem os não são nem as m ais antigas nem as m ais recentes, e as que são interm ediárias pelos seus caracteres não o são pela época em que viveram . Mas, neste caso com o em outros análogos, supondo por um instante que não possuíam os as provas do m om ento exato da aparição e da espécie, o que em verdade se não dá, não tem os razão algum a para supor que as form as sucessivam ente produzidas se perpetuem necessariam ente durante tem pos iguais. Um a form a m uito antiga pode por vezes persistir m uito m ais tem po do que um a form a produzida posteriorm ente, noutra parte, sobretudo quando se trata de form as terrestres habitando distritos separados. Com parem os, por série, segundo as suas afinidades, todas as raças vivas e extintas do pom bo dom éstico, este arranj o não concordaria de m odo algum com a ordem da sua produção, e ainda m enos com a da sua extinção. Com efeito, a ori- 401
gem -m ãe, o torcaz, existe ainda, e um conj unto de variedades com preendidas entre o torcaz e o m ensageiro são extintas; os m ensageiros, que têm caracteres extrem os com respeito ao com prim ento do bico, têm um a origem m ais antiga que os cam balhotas de bico curto, que se encontram na outra extrem idade da série. Todos os paleontólogos verificaram que os fósseis de duas form ações consecutivas são m uito m ais estreitam ente aliados que os fósseis de form ações m uito distanciadas; este fato confirm a a asserção precedentem ente form ulada do caráter interm ediário, até certo ponto, dos vestígios orgânicos que são conservados num a form ação interm édia. Pictet dá um exem plo bem conhecido, isto é, a sem elhança geral que se verifica nos fósseis contidos nos diversos andares da form ação da greda, posto que, em cada um destes andares, as espécies sej am distintas. Este sim ples fato, pela sua generalidade, parece ter abalado no professor Pietet a firm e crença na im utabilidade das espécies. Alguém que estej a um pouco fam iliarizado com a distribuição das espécies que vivem atualm ente à superfície do Globo não pensará em explicar a estreita sem elhança que oferecem as espécies distintas de duas form ações consecutivas pela persistência, nas m esm as regiões, das m esm as condições físicas durante longos períodos. É necessário lem brar que as form as organizadas, pelo m enos as form as m arinhas, m udaram quase sim ultaneam ente em todo o Globo e, por conseqüência, nos m ais diversos clim as e nas m ais diferentes condições. Quão pouco, em verdade, foram afetadas as form as específicas dos habitantes do m ar pelas vicissitudes consideráveis do clim a durante o período pleistocênio, que com preende todo o período glaciário!
Pela teoria da descendência, nada m ais fácil que com preender as afinidades íntim as que se notam entre os fósseis de form ações rigorosam ente consecutivas, se bem que sej am consideradas com o especificam ente distintas. Tendo a acum ulação de cada form ação sido freqüentem ente interrom pida e sendo longos intervalos negativos decorridos entre os depósitos sucessivos, não poderíam os esperar, com o tentei dem onstrar no capítulo precedente, encontrar em um a ou duas form ações quaisquer todas as variedades interm ediárias entre as espécies que apareceram no princípio e no fim destes períodos; m as devem os encontrar, após intervalos relativam ente m uito curtos, avaliando-os no ponto de vista geoló-402
gico, ou m uito longos, m edidos em anos, form as intim am ente aliadas, ou, com o se têm cham ado, espécies representativas. Ora, é isto o que verificam os diariam ente. Num a palavra, encontram os as provas de um a m utação lenta e insensível das form as específicas, tal com o estam os no direito de esperar.
DO G RAU DE DESENVOLVIMENTO DAS FORMAS ANTIG AS COMPARADO COM O
DAS FORMAS VIVAS
Vim os, no quarto capítulo, que, em todos os seres organizados que atingiram a idade adulta, o grau de diferenciação e de especialização dos diversos órgãos nos perm ite determ inar o grau de aperfeiçoam ento e superioridade relativa. Vim os tam bém que, a especialização dos órgãos constituindo um a vantagem para cada ser, deve a seleção natural tender a especializar a organização de cada indivíduo, e a torná-la, em tal ponto de vista, m ais perfeita e m ais elevada; m as isto não im pede que ela possa deixar a num erosos seres um a conform ação sim ples e inferior, apropriada a condições de existência m enos com plexos, e, em certos casos m esm o, possa determ inar um a sim plificação e um a degradação do organism o, de m odo a adaptá-lo m elhor a condições particulares. Num sentido m ais geral, as novas espécies tornam -se superiores às que as precederam ; porque têm , na luta pela existência, de sobrepuj ar todas as form as anteriores com que se encontram em concorrência ativa. Podem os pois concluir que, se se pudessem por em concorrência, nas condições de clim a, quase idênticas, os habitantes da época eocênia com os do m undo atual, estes venceriam os prim eiros, e os exterm inariam ; da m esm a form a tam bém , os habitantes, da época eocênia venceriam as form as do período secundário e estes as form as paleozóicas. De m odo tal que esta prova fundam ental da vitória na luta pela existência, assim com o o fato da especialização dos órgãos, tendem a provar que as form as m odernas devem , segundo a teoria da seleção natural, ser m ais elevadas do que as form as antigas. Será assim ? A im ensa m aioria dos paleontólogos responderia pela afirm ativa, e a sua resposta, posto que a prova sej a difícil, deve ser adm itida com o verdadeira. O fato de certos branquiópodes terem sido apenas ligeiram ente m odifica- 403
dos desde um a época geológica m uito afastada, e de certas conchas terrestres e de água doce ficarem quase o que eram nessa época em que, tanto quanto o podem os saber, apareceram pela vez prim eira, não constitui um a obj eção séria a esta conclusão. É necessário não ver tam pouco um a dificuldade insuperável no fato verificado pelo dr. Carpenter, de a organização dos foram iníferos não ter progredido desde a época laurentiana; porque alguns organism os devem ficar adaptados às condições de vida m uito sim ples; ora, quem m elhor apropriado a este respeito do que os protozoários de organização tão inferior? Se a m inha teoria im plicasse com o condição necessária o progresso da organização, obj etos desta natureza ser-lhe-iam fatais. Sê-lo-iam igualm ente se se pudesse provar, por exem plo, que os foram iníferos tom assem origem durante a época laurentiana, ou os branquiópodes durante a form ação cam briana; porque então não teria decorrido um tem po suficiente para que o desenvolvim ento destes organism os chegasse ao ponto que atingiram . Um a vez chegados a um estado dado, a teoria da seleção natural não exige que continuem a progredir m ais, posto que, em cada período sucessivo, devam m odificar-se ligeiram ente, de m odo a conservar o seu lugar na natureza, apesar das ligeiras alterações nas condições am bientes. Todas estas obj eções repousam sobre a ignorância em que estam os da idade real do nosso Globo, e dos períodos em que as diferentes form as da vida têm aparecido pela vez prim eira, pontos m uito discutíveis.
A questão de saber se o conj unto da organização progrediu constitui de todas as form as um problem a m uito com plicado. Os arquivos geológicos, sem pre m uito incom pletos, não vão bastante longe para que se possa estabelecer com um a nitidez incontestável que, durante o tem po de que a história nos é conhecida, a organização fez grandes progressos. Hoj e ainda, se se com param entre si os m em bros de um a m esm a classe, os naturalistas não estão de acordo para decidir quais são as form as m ais elevadas. Assim , uns consideram os cetáceos ou tubarões com o os m ais elevados na série dos peixes, porque se aproxim am dos répteis por certos pontos im portantes de conform ação; outros dão a m esm a ordem aos teleósteos. Os ganóides estão colocados entre os cetáceos e os teleósteos; estes últim os são atualm ente m uito preponderantes em núm ero, m as outrora os
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cetáceos e os ganóides eram únicos; por conseguinte, segundo o tipo de superioridade que se escolher, poderá dizer-se que a organização dos peixes progrediu ou retrogradou. Parece com pletam ente im possível avaliar da superioridade relativa dos tipos pertencendo a classes distintas; porque quem poderá decidir, por exem plo, se um a siba é m ais elevada que um a abelha, inseto este a que Von Baer atribuía « um a organização superior à de um peixe, posto que construído em outro m olde?» Na com plexa luta pela existência, é perfeitam ente possível que os crustáceos, m esm o pouco elevados na sua classe, possam vencer os cefalópodes, que constituem o tipo superior dos m oluscos; estes crustáceos, se bem que tenham um desenvolvim ento inferior, ocupam um a ordem m uito elevada na escala dos invertebrados, a avaliar pela prova m ais decisiva de todas, o com bate. Além destas dificuldades inerentes que se apresentam quando se trata de determ inar quais as form as m ais elevadas pela sua organização, é necessário não com parar som ente os m em bros superiores de um a classe em duas épocas quaisquer - posto que sej a isto, sem dúvida, o fato m ais im portante a ponderar na balança - m as ainda com parar entre si todos os m em bros da m esm a classe, superiores e inferiores, durante um e outro período. Num a época afastada, os m oluscos m ais elevados e m ais inferiores, os cefalópodes e os branquiópodes, abundavam em núm ero; atualm ente, estas duas ordens têm dim inuído m uito, enquanto que outros, cuj a organização é interm édia, têm aum entado consideravelm ente. Alguns naturalistas sustentam com o conseqüência que os m oluscos apresentavam outrora um a organização superior à que hoj e têm . Mas pode exibir-se, em apoio da opinião contrária, o argum ento bem m ais forte baseado no fato da enorm e redução dos m oluscos inferiores, e o fato de os cefalópodes existentes, ainda que pouco num erosos, apresentarem um a organização m uito m ais elevada do que a dos antigos representantes. Necessário é tam bém com parar os núm eros proporcionais das classes superiores e inferiores existentes em toda a parte em duas épocas quaisquer; se, por exem plo, existem hoj e cinqüenta m il form as de vertebrados, e se souberm os que num a época anterior existiam apenas dez m il, é preciso tom ar conta deste aum ento em núm ero da classe superior que im plica um deslocam ento considerável das form as inferiores, e que constitui um progresso decisivo na organização
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universal. Vem os por aqui quanto é difícil, para não dizer im possível, com parar, com um a perfeita exatidão, através de condições tão com plexas, o grau de superioridade relativa dos organism os im perfeitam ente conhecidos que têm constituído as faunas dos diversos períodos sucessivos.
Esta dificuldade ressalta claram ente do exam e de certas faunas e de certas floras atuais. A rapidez extraordinária com que as produções européias se têm espalhado recentem ente na Nova Zelândia, apoderando-se de posições que deviam ser precedentem ente ocupadas pelas form as indígenas, perm ite-nos acreditar que, se todos os anim ais e todas as plantas da Grã-Bretanha fossem levados e postos em liberdade na Nova Zelândia, um grande núm ero de form as britânicas se naturalizariam aí prontam ente com o tem po, e exterm inariam num erosas form as indígenas. Por outro lado, o fato de apenas um único habitante do hem isfério austral se naturalizar no estado selvagem num a parte qualquer da Europa, perm itenos duvidar de que, se todas as produções da Nova Zelândia fossem introduzidas na Inglaterra, há m uito que poderiam apoderar-se de posições atualm ente ocupadas pelas nossas plantas e pelos nossos anim ais indígenas. Neste ponto de vista, as produções da Grã-Bretanha podem , pois, ser consideradas com o superiores às da Nova Zelândia. Todavia, o m ais hábil naturalista não poderia prever este resultado pelo sim ples exam e das espécies dos dois países. Agassiz e m uitos outros j uízes com petentes insistem sobre este fato de que os anim ais antigos se parecem até certo ponto aos em briões dos anim ais atuais da m esm a classe; insistem tam bém sobre o paralelism o m uito exato que existe entre a sucessão geológica das form as extintas e o desenvolvim ento em briogênico das form as atuais. Esta form a de ver concorda adm iravelm ente com a m inha teoria. Procurarei, num próxim o capítulo, dem onstrar que o adulto difere do em brião após m uitas variações sobrevindas durante o decurso da vida dos indivíduos, e herdadas pela sua posteridade num a idade correspondente. Este proceder, que deixa o em brião quase sem alteração, acum ula continuam ente, durante o decurso das gerações sucessivas, diferenças cada vez m aiores no adulto. O em brião fica assim com o um a espécie de retrato, conservado pela natureza, do estado antigo e m enos m odificado no anim al. Esta teoria pode ser verdadeira, e todavia ser j am ais
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suscetível de um a prova com pleta. Quando se vê, por exem plo, que os m am íferos, os répteis e os peixes, os m ais antigam ente conhecidos, pertencem rigorosam ente às suas classes respectivas, posto que algum as destas antigas form as sej am , até certo ponto, m enos distintas entre si, com o o não são hoj e os m em bros típicos dos m esm os grupos, seria inútil procurar anim ais reunindo os caracteres em briogênicos com uns a todos os vertebrados enquanto se não descobrirem depósitos ricos em fósseis, abaixo das cam adas inferiores do sistem a cam briano - descoberta que parece m uito pouco provável.
DA SUCESSÃO DOS MESMOS TIPOS NAS MESMAS ZONAS DURANTE OS ÚLTI-MOS PERÍODOS TERCIÁRIOS
M. Clift dem onstrou, há m uitos anos, que os m am íferos fósseis provenientes das cavernas da Austrália são estreitam ente aliados aos m arsupiais que vivem atualm ente neste continente. Um parentesco análogo, m anifesto m esm o para um a vista inexperiente, m ostra-se igualm ente na Am érica do Sul, nos fragm entos de arm aduras gigantescas sem elhantes à do tatu, encontradas nas diversas localidades do Prata. O professor Owen dem onstrou da form a m ais m arcante que a m aior parte dos m am íferos fósseis, escondidos em grande núm ero nesses países, se aproxim am dos tipos atuais da Am érica MeridionaL. Este parentesco torna-se ainda m ais evidente pela adm irável coleção de ossadas fósseis recolhidas nas cavernas do Brasil por M. Lund e Clausen. Estes fatos im pressionaram -m e tão vivam ente que, desde 1839 a 1845, insistia vivam ente sobre esta « lei da sucessão dos tipos» e sobre « estas notáveis relações de parentesco que existem entre as form as extintas e as form as vivas do m esm o continente» . O professor Owen estendeu depois a m esm a generalização aos m am íferos do velho m undo, e as restaurações das gigantescas aves extintas da Nova Zelândia, feitas por este sábio naturalista, confirm am igualm ente a m esm a lei. O m esm o sucede com as aves encontradas nas cavernas do Brasil. M. Woodward dem onstrou que esta m esm a lei se aplica às conchas m arinhas, m as m enos aparente, por causa da vasta distribuição da m aior parte dos m oluscos. Poder-se-iam ainda aj untar outros exem plos, tais com o as relações que existem entre as conchas terrestres extintas e vivas da ilha da Madeira, e entre as conchas extintas e vivas das águas salobras
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vas da ilha da Madeira, e entre as conchas extintas e vivas das águas salobras do m ar Áralo-Cáspio.
Ora, o que significa esta lei adm irável da sucessão dos m esm os tipos nas m esm as regiões? Depois de ter com parado o clim a atual da Austrália com o de certas partes da Am érica Meridional, situadas na m esm a latitude, seria tem erário explicar, por um lado, a dessem elhança dos habitantes destes dois continentes pela diferença das condições físicas; e, por outro lado, explicar pelas sem elhanças destas condições a uniform idade dos tipos que existiram em cada um destes países durante os últim os períodos terciários. Não se poderia, tam pouco, pretender que é em virtude de um a lei im utável que a Austrália tem produzido principalm ente ou exclusivam ente m arsupiais, ou que a Am érica do Sul tem som ente produzido desdentados e alguns outros tipos que lhe são próprios. Sabem os, com efeito, que a Europa era antigam ente povoada por num erosos m arsupiais, e dem onstrei, em trabalhos a que precedentem ente aludi, que a lei da distribuição dos m am íferos terrestres na Am érica era noutro tem po diferente do que é hoj e. A Am érica do Norte apresentava antigam ente m uitos caracteres atuais da m etade m eridional deste continente; e esta aproxim ava-se m uito m ais do que atualm ente da m etade setentrional. As descobertas de Falconer e de Cautley tam bém nos ensinam que os m am íferos da índia Setentrional estiveram outrora em relação m ais estreita com os da África do que hoj e estão. A distribuição dos anim ais m arinhos fornece-nos fatos análogos.
A teoria da descendência com m odificações explica im ediatam ente esta grande lei da sucessão m uito tem po continuada, m as não im utável, dos m esm os tipos nas m esm as regiões; porque os habitantes de cada parte do m undo tendem evidentem ente a deixar aí, durante o período seguinte, descendentes estreitam ente aliados, se bem que m odificados até certo ponto. Se os habitantes de um continente diferiram outrora consideravelm ente dos de outro continente, da m esm a form a os descendentes m odificados diferem ainda quase da m esm a m aneira e no m esm o grau. Mas, após m ui longos intervalos e alterações geográficas im portantes, em seguida aos quais houve num erosas m igrações recíprocas, as form as m ais fracas cedem o lugar às form as dom inantes, de m odo que não pode haver
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nada im utável nas leis da distribuição passada ou atual dos seres organizados. Perguntar-se-á, a m odo de zom baria, se considero a preguiça, o tatu e o papaform igas com o os descendentes degenerados do m egatério e de outros m onstros gigantescos vizinhos, que outrora habitaram a Am érica Meridional. Não é de m odo algum adm issível. Estes enorm es anim ais estão extintos e não deixaram descendentes. Mas encontra-se, nas cavernas do Brasil, um grande núm ero de espécies fósseis que, pela sua configuração e por todos os outros caracteres, se aproxim am das espécies que vivem atualm ente na Am érica do Sul, e de que algum as podem ter sido os antepassados reais das espécies vivas. É preciso não esquecer que, pela m inha teoria, todas as espécies do m esm o gênero descendem de um a espécie única, de m aneira que, se se encontrarem num a form ação geológica seis gêneros tendo cada um oito espécies, e na form ação zoológica seguinte outros seis gêneros aliados ou representativos tendo cada um o m esm o núm ero de espécies, podem os concluir que, em geral, um a só espécie de cada um dos antigos gêneros deixou descendentes m odificados, constituindo as diversas espécies dos gêneros novos. as outras sete espécies de cada um dos antigos gêneros deviam ter-se extinguido sem deixar posteridade. Ou então (é
provavelm ente este o caso m ais freqüente), duas ou três espécies, pertencendo a dois ou três dos seis gêneros antigos, têm sido as únicas a servir de origem aos novos gêneros, as outras espécies e todos os outros gêneros desapareceram totalm ente. Nas ordens em via de extinção, de que os gêneros e as espécies decrescem pouco a pouco em núm ero, com o na dos desdentados da Am érica do Sul, um m enor núm ero ainda de gêneros e de espécies devem deixar descendentes m odificados.
RESUMO DESTE E DO PRECEDENTE CAPÍTULO
Tentei dem onstrar que os nossos arquivos geológicos são extrem am ente incom pletos; que som ente tem sido explorada um a pequeníssim a parte do nosso Globo; que certas classes apenas de seres organizados foram conservadas em abundância no estado fóssil; que o núm ero das espécies e dos indivíduos que fa-409
zem parte dos nossos m useus é absolutam ente nada com parando-o com o núm ero de gerações que devem ter existido durante o tem po de um a só form ação; que a acum ulação de depósitos ricos em espécies fósseis diversas, e bastante espessa para resistir a degradações ulteriores, não sendo possível que durante períodos de abaixam ento do solo, enorm es espaços de tem po devam ter decorrido no intervalo de m uitos períodos sucessivos; que provavelm ente houvesse m ais extinções durante os períodos de abaixam ento e m ais variações durante os de levantam ento, notando que estes últim os períodos são m enos favoráveis à conservação dos fósseis, o núm ero de form as conservadas deve ter sido m enos considerável; que cada form ação não foi depositada de um a m aneira contínua; que a duração de cada um a delas foi provavelm ente m ais curta que a duração m édia das form as específicas; que as m igrações têm gozado um papel im portante na prim eira aparição de form as novas em cada zona e em cada form ação; que as espécies espalhadas são as que deviam ter variado m ais freqüentem ente, e, por conseguinte, as que devem ter dado origem ao m aior núm ero de espécies novas; que as variedades foram a princípio locais; e enfim que, se bem que cada espécie deva ter percorrido num erosas fases de transição, é provável que os períodos durante os quais sofreu m odificações, posto que longos, se se avaliam em anos, devem ter sido curtos, com parados àqueles durante os quais cada um a tem ficado sem m odificações. Estas causas reunidas explicam em grande m edida a razão por que, ainda que encontráSsem os num erosos fuzis, não encontram os variedades inúm eras, ligando entre si de um a m aneira perfeitam ente graduada todas as form as extintas e vivas. É necessário não esquecer tam pouco que todas as variedades interm ediárias entre duas ou m ais form as seriam infalivelm ente consideradas com o espécies novas e distintas, a não ser que se não possa reconstituir a cadeia com pleta que as liga entre si; porque não poderia sustentar-se que possuím os qualquer m eio certo que nos perm ita distinguir as espécies das variedades. Quem não adm ite a im perfeição dos docum entos geológicos deve, com razão, repelir a m inha teoria por com pleto; porque é em vão que perguntará onde estão as inum eráveis form as de transição que deviam outrora ter ligado as espécies vizinhas ou representativas que se encontram nos andares sucessivos da
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m esm a form ação. Pode recusar-se acreditar nos enorm es intervalos de tem po que deviam ter decorrido entre as nossas form ações consecutivas, e desconhecer a im portância do papel que devem ter desem penhado as m igrações quando se estudam as form ações de um a única grande região, a Europa por exem plo. Pode sustentar-se que a aparição súbita de grupos inteiros de espécies é um fato evidente, posto que na m aior parte do tem po tenha apenas a aparência de verdade. Pode perguntar-se onde estão os vestígios destes organism os tão infinitam ente num erosos que deviam ter existido m uito tem po antes que as cam adas inferiores do sistem a cam briano fossem depositadas. Sabem os hoj e que existia, nesta época, pelo m enos um anim al; m as não posso responder a esta últim a questão a não ser supondo que os nossos oceanos deviam ter existido depois de um longo tem po aí onde existem atualm ente, e que deviam ocupar estes pontos após o com eço da época cam briana; m as que m uito antes deste período, o Globo tinha um aspecto com pletam ente diferente, e que os continentes de então, constituídos por form ações m uito m ais antigas do que as que conhecem os, ou existem apenas no estado m etam órfico, ou estão enterrados no fundo dos m ares. Afora estas dificuldades, todos os outros fatos principais da paleontologia parecem -m e concordar com a teoria da descendência com m odificações pela seleção natural. Torna-se-nos fácil com preender com o as novas espécies aparecem lenta e sucessivam ente; porque as espécies das diversas classes não se m odificam sim ultaneam ente com a m esm a rapidez ou no m esm o grau, posto que todas, no decorrer do tem po, experim entem m odificações até certo ponto. A extinção das form as antigas é a conseqüência quase inevitável da produção de form as novas. Podem os com preender porque desaparecendo um a espécie não aparece j am ais. Os grupos de espécies aum entam lentam ente em núm ero, e persistem durante períodos desiguais em duração, porque a m archa das m odificações é necessariam ente lenta e depende de um a série de eventualidades com plexas. As espécies dom inantes pertencendo a grupos extensos e preponderantes tendem a deixar num erosos descendentes, que constituem , por seu turno, novos subgrupos, depois grupos. À m edida que estes se form am , as espécies dos grupos m enos vigorosos, em razão da inferioridade que devem por herança a um antepassado co- 411
m um , tendem a desaparecer sem deixar descendentes m odificados à superfície da Terra. Todavia, a extinção com pleta de um grupo inteiro de espécies pode ser algum as vezes um a operação m uito longa, em razão da persistência de quaisquer descendentes que puderam continuar a sustentar-se em certas posições isoladas e protegidas. Quando um grupo desaparece com pletam ente, não reaparece j am ais, tendo-se rom pido o laço das suas gerações. Podem os com preender com o sucede que as form as dom inantes, que se espalham m uito e que fornecem o m aior núm ero de variedades, devem tender a povoar o m undo de descendentes que se aproxim am delas, sendo m odificadas por com pleto. Estas chegam geralm ente a deslocar os grupos que, na luta pela existência, lhes são inferiores. Resulta daqui que após longos intervalos os habitantes do Globo parecem ter m udado por toda a parte sim ultaneam ente. Podem os com preender com o sucede que todas as form as da vida, antigas e recentes, constituem no seu conj unto apenas um pequeno núm ero de grandes classes. Podem os com preender porque, em virtude da tendência contínua à divergência dos caracteres, quanto m ais um a form a é antiga, tanto m ais difere, de ordinário, das que vivem atualm ente; porque antigas form as extintas enchem freqüentem ente lacunas existentes entre as form as atuais e reúnem algum as vezes num só dois grupos precedentem ente considerados com o distintos, m as m ais ordinariam ente tendem apenas a dim inuir a distância que os separa. Quanto m ais antiga é um a form a, tantas m ais vezes sucede que tem , até certo ponto, caracteres interm ediários entre grupos hoj e distintos; porque, quanto m ais antiga é um a form a, tanto m ais deve aproxim ar-se do antepassado com um de grupos que divergiram após consideravelm ente e por conseguinte assem elhar-se-lhe. As form as extintas apresentam raram ente caracteres diretam ente interm ediários entre as form as vivas; são interm ediários apenas em m eio de um circuito longo e tortuoso, passando por um conj unto de outras form as diferentes e desaparecidas. Podem os facilm ente com preender porque os vestígios orgânicos de form ações im ediatam ente consecutivas são m uito estreitam ente aliados, porque estão em relação genealógica m ais intim a; e, tam bém , porque os fósseis sepultados num a form ação interm ediária apresentam caracteres interm ediários.
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Os habitantes de cada período sucessivo da história do Globo venceram os seus predecessores na luta pela existência, e ocupam por este fato um lugar m ais elevado do que eles na escala da natureza, tendo-se geralm ente especializado a sua conform ação; é o que pode explicar a opinião adm itida pela m aior parte dos paleontólogos que, no seu conj unto, a organização tem progredido. Os anim ais antigos e extintos parecem -se, até certo ponto, aos em briões dos anim ais vivos e pertencentes à m esm a classe; fato adm irável que se explica m uito sim plesm ente pela m inha teoria. A sucessão dos m esm os tipos de organização nas m esm as regiões, durante os últim os períodos geológicos, cessa de ser um m istério, e explica-se m uito sim plesm ente pelas leis da hereditariedade. Se, pois, os arquivos geológicos são tão im portantes com o m uitos sábios o crêem , e podem os pelo m enos afirm ar que a prova do contrário não poderia ser fornecida, as prim eiras obj eções, levantadas contra a teoria da seleção seriam m uito dim inuídas ou desapareceriam . Parece-m e, por outro lado, que todas as leis essenciais estabelecidas pela paleontologia proclam am claram ente que as espécies são o produto da geração ordinária, e que as form as antigas foram substituídas por form as novas e aperfeiçoadas, e elas m esm o o resultado da variação e da persistência do m ais apto.
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