A Origem das Espécies

Charles Darwin · Capítulo 15 de 17 · parte 2/3

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A Origem das Espécies

Quando se considera a distribuição dos seres…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Assim se explica a identidade de num erosas plantas que habitam pontos m uito distantes com o são as m ontanhas dos Estados Unidos e as da Europa. Assim se explica tam bém o fato de m uitas plantas alpinas de cada cadeia de m ontanhas se ligarem m ais particularm ente às form as árticas que vivem m ais ao norte, exatam ente ou quase exatam ente nos m esm oS graus de longitude; porque as em igrações provocadas pela chegada do frio, e o m ovim ento contrário resultante da vinda do calor, deviam ter-se geralm ente produzido do norte para o sul e do sul para o norte. Assim , as plantas alpinas da Escócia, segundo as observações de

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M. H. C. Watson, e as dos Pirineus segundo Ram ond, aproxim am -se sobretudo das plantas do norte da Escandinávia; as dos Estados Unidos, as do Lavrador, e as das m ontanhas da Sibéria, das das regiões árticas deste país. Estas deduções, baseadas na existência bem dem onstrada de um a época glaciária anterior, parecem explicar-m e de um a m aneira tão satisfatória a distribuição atual das produções alpinas e árticas da Europa e da Am érica, que, quando encontram os, noutras regiões, as m esm as espécies sobre cum es afastados, podem os quase concluir, sem outra prova, a existência de um clim a m ais frio, que perm itiu outrora a sua m igração através das baixas planícies interm ediárias, tornadas atualm ente m ais quentes para elas.

Durante a sua m igração para o sul e a sua retirada para o norte, causadas pela m udança de clim a, as form as árticas não deviam ter sido expostas, m ais tem po do que a viagem , a um a grande diversidade de tem peratura; além disso, com o deviam ter sem pre avançado em m assa, as suas relações m útuas não foram alteradas sensivelm ente. Daqui resulta que estas form as, segundo os princípios que tem os estabelecido nesta obra, não deviam ter sido subm etidas a grandes m odificações. Mas, com respeito às produções alpinas, isoladas desde a época da volta do calor, a princípio no sopé das m ontanhas, depois no vértice, o caso devia ter sido diferente. Não é provável, com efeito, que precisam ente as m esm as espécies árticas tenham ficado nos vértices m uito afastados uns dos outros e tenham podido em seguida sobreviver aí. Sem dúvida, ter-se-iam m isturado com as espécies alpinas m ais antigas que, habitando as m ontanhas antes do com eço da época glaciária, deviam , durante o período de m aior frio, ter descido à planície. Enfim , devem tam bém ter sido expostas a influências clim atéricas um pouco diversas. Estas variadas causas devem ter perturbado as suas relações m útuas, e são por isso tornadas susceptíveis de m odificações. É o que notam os com efeito, se com pararm os entre si as form as alpinas de anim ais e plantas de diversas grandes cadeias de m ontanhas européias; porque, ainda que m uitas espécies fiquem idênticas, um as oferecem os caracteres de variedades, outras os de form as duvidosas ou subespécies; outras, enfim , os de espécies distintas, se bem que m uito estreitam ente aliadas e representando-se m utuam ente nas diversas estações que

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ocupam .

No exem plo que precede, supus que, no com eço da nossa época glaciária im aginária, as produções árticas eram tam bém uniform es com o o são em nossos dias nas regiões que cercam o pólo. Mas é necessário supor igualm ente que m uitas das form as subárticas e m esm o algum as form as dos clim as tem perados eram idênticas em todo o Globo, porque se encontram espécies idênticas nas encostas inferiores das m ontanhas e nas planícies, tanto na Europa com o na Am érica do Norte. Ora, poderia perguntar-se com o explico esta uniform idade das espécies subárticas e das espécies tem peradas na origem da verdadeira época glaciária. Atualm ente, as form as pertencendo a estas duas categorias, no velho e no novo m undo, são separadas pelo oceano Atlântico e pela parte setentrional do oceano Pacífico. Durante o período glaciário, quando os habitantes do antigo e novo m undo viviam m ais ao sul que hoj e, deviam ser ainda m ais com pletam ente separadas pelos m ais vastos oceanos. De m odo que se pode perguntar com razão com o as m esm as espécies têm podido introduzir-se em dois continentes afastados. Creio que este fato pode explicar-se pela natureza do clim a que devia ter precedido a época glaciária. Nesta época, isto é, durante o período do novo pliocênio, os habitantes do m undo eram , na grande m aioria, especificam ente os m esm os de hoj e, e tem os toda a razão de acreditar que o clim a era m ais quente do que atualm ente. Podem os supor, por conseqüência, que os organism os que vivem agora num a latitude de 60 devem ter, durante o período pliocênio, vivido m ais perto do círculo polar, a 66 ou 67 graus de latitude, e que as produções árticas atuais ocupavam as terras esparsas m ais aproxim adas do pólo. Ora, se exam inarm os um a esfera, vem os que, no círculo polar, as terras, são quase contínuas desde o oeste da Europa, pela Sibéria, até à Am érica Oriental. Esta continuidade das terras circum polares, j unta a um a grande facilidade de m igração, resultando de um clim a m ais favorável, pode explicar a suposta uniform idade das produções subárticas e tem peradas do antigo e do novo m undo num a época anterior à do período glaciário. Julgo poder adm itir, em face das razões precedentes, que os nossos continentes ficaram desde m uito tem po quase na m esm a posição relativa, se bem que tivessem sofrido grandes oscilações de nível; estou, pois, m uito disposto a esten- 435

der a idéia acim a desenvolvida, e a concluir que, durante um período anterior e ainda m ais quente, tal com o o antigo pliocênio, um grande núm ero de plantas e anim ais sem elhantes habitaram a região quase contínua que cerca o pólo. Estas plantas e estes anim ais devem ter, nos dois m undos, com eçado a em igrar lentam ente para o sul, à m edida que a tem peratura baixava, m uito tem po antes do com eço do período glaciário. São, creio eu, os seus descendentes, m odificados por toda a parte, que ocupam agora as porções centrais da Europa e dos Estados Unidos. Esta hipótese perm ite-nos com preender o parentesco, aliás m uito afastado da identidade, que existe entre as produções da Europa e as dos Estados Unidos; parentesco m uito notável, vista a distância que existe entre os dois continentes, e a separação por um oceano tão considerável com o o Atlântico. Com preendem os igualm ente este fato singular, notado por m uitos observadores, que as produções dos Estados Unidos e as da Europa eram m ais vizinhas entre si durante os últim os estádios da época terciária do que o são hoj e. Com efeito, durante estes períodos m ais quentes, as partes setentrionais do velho e do novo m undo deviam ter sido quase com pletam ente reunidas por terras que serviram de verdadeiras pontes, perm itindo as m igrações recíprocas dos seus habitantes, pontes que o frio interceptou em seguida totalm ente. O calor decrescendo lentam ente durante o período pliocênio, as espécies com uns ao velho e ao novo m undo deviam ter em igrado para o sul; desde que passaram os lim ites do círculo polar, toda a com unicação entre elas foi interceptada, e esta separação, sobretudo no que diz respeito às produções correspondentes a um clim a m ais tem perado, devia realizar-se num a época m ais rem ota. Descendo para o sul, devem as plantas e os anim ais, num a destas regiões, ter-se m isturado com as produções indígenas da Am érica, e entrar em concorrência com elas, e, num a outra grande região, com as produções do velho m undo. Encontram os, pois, aí todas as condições requeridas para m odificações bem m ais consideráveis que para as produções alpinas, que ficaram , desde um a época m ais recente, isoladas pelas diversas cadeias de m ontanhas e nas regiões árticas da Europa e da Am érica do Norte. Resulta que, quando com param os um as com outras as produções atuais das regiões tem peradas do velho e do novo m undo, encontra-436

m os m uito poucas espécies idênticas, se bem que Asa Gray tenha recentem ente dem onstrado que há m uitas m ais do que se supunha outrora; m as, ao m esm o tem po, encontram os, em todas as grandes classes, um núm ero considerável de form as que alguns naturalistas j ulgam com o raças geográficas, e outros com o espécies distintas; encontram os, enfim , um conj unto de form as estreitam ente aliadas ou representativas, que todos os naturalistas concordam em considerar com o especificam ente distintas. O m esm o sucede tanto no m ar com o na terra, a lenta m igração para o sul de um a fauna m arítim a, cercando quase uniform em ente as costas contínuas situadas debaixo do círculo polar na época pliocênia, ou m esm o num a época pouco anterior, perm ite-nos tom ar nota, segundo a teoria da m odificação, da existência de um grande núm ero de form as aliadas, vivendo atualm ente em m ares com pletam ente separados. É assim que podem os explicar a presença nas costas ocidental e oriental da parte tem perada da Am érica do Norte, de form as estreitam ente aliadas existindo ainda ou que foram extintas durante o período terciário; e o fato ainda m ais m arcante da presença de m uitos crustáceos, descritos na adm irável obra de Dana, de peixes e de outros anim ais m arinhos estreitam ente aliados, no Mediterrâneo e nos m ares do Japão, duas regiões que são atualm ente separadas por todo um continente, e por im ensos oceanos.

Estes exem plos de parentesco íntim o entre espécies que habitaram ou habitam ainda os m ares das costas ocidentais e orientais da Am érica do Norte, do Mediterrâneo, dos m ares do Japão e das zonas tem peradas da Am érica e da Europa, não podem explicar-se pela teoria das criações independentes. É im possível sustentar que estas espécies receberam logo na sua criação caracteres idênticos, em razão da sem elhança das condições físicas dos m eios; porque, se com pararm os por exem plo certas partes da Am érica do Sul com outras partes da África Meridional ou da Austrália, vem os países de que todas as condições físicas são exatam ente análogas, m as de que os habitantes são inteiram ente diferentes.

PERÍODOS G LACIÁRIOS ALTERNANTES AO NORTE E AO SUL

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Para chegar ao nosso assunto principal, estou convencido que pode largam ente generalizar-se a hipótese de Forbes. Encontram os, na Europa, as m ais evidentes provas da existência de um período glaciário, desde as costas ocidentais da Inglaterra até à cadeia do Ural, e até aos Pirineus ao sul. Os m am íferos congelados e a natureza da vegetação das m ontanhas da Sibéria testem unham o m esm o fato. O Dr. Hooker afirm a que o eixo central do Líbano foi outrora coberto de neves eternas, alim entando geleiras que desciam de um a altura de 1200 m para os vales. O m esm o observador descobriu recentem ente im ensas orlas no nível m ais elevado da cadeia do Atlas, na África Setentrional. Nos flancos do Him alaia, nos pontos afastados entre si de 1450 km , as geleiras têm deixado os vestígios da sua descida gradual nos vales; no Sikhim , o Dr. Hooker viu nascer m ilho nas velhas e gigantescas encostas. Ao sul do continente asiático, do outro lado do equador, as sábias pesquisas do Dr. J. Haast e do Dr. Hector ensinam -nos que im ensas geleiras desceram outrora a um nível relativam ente pouco elevado na Nova Zelândia; o Dr. Hooker encontrou nesta ilha, sobre as m ontanhas m ais distantes entre si, plantas análogas que testem unham tam bém a existência de um antigo período glaciário. Resulta dos fatos que m e foram com unicados pelo reverendo W. B. Clarke. que as m ontanhas do ângulo sudeste da Austrália têm tam bém vestígios de um a ação glaciária antiga. Na m etade setentrional da Am érica tem -se observado, na costa oriental deste continente, blocos de rochedos transportados pelos gelos para o sul até 36

ou 37 graus de latitude, e, sobre as costas do Pacífico, em que o clim a é atualm ente tão diferente, até 46 graus de latitude. Têm -se notado tam bém blocos erráticos nas Montanhas Rochosas. Nas Cordilheiras da Am érica do Sul, quase no equador, as geleiras desciam outrora m uito abaixo do seu nível atual. Exam inei, no Chile Central, um im enso m ontão de detritos contendo grandes blocos erráticos, atravessando o vale de Portillo, restos sem dúvida algum a de um a gigantesca m oréia. M. D. Forbes diz-m e que encontrou em diversos pontos das Cordilheiras, a um a altura de 3.500 m aproxim adam ente, entre os graus 13 e 30 de latitude sul, rochas profundam ente estriadas, sem elhantes às que estudou na Noruega e igualm ente grandes m assas de detritos encerrando calhaus estriados. Não existe

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atualm ente, em todo este espaço das Cordilheiras, m esm o a alturas bem m ais consideráveis, nenhum a geleira verdadeira. Mais ao sul, nas duas costas do continente, desde o grau 41 de latitude até à extrem idade m eridional, encontram -se as m ais evidentes provas de um a antiga ação glaciária na presença de num erosos e im ensos blocos erráticos, que foram transportados m uito longe das localidades de onde provieram .

A extensão da ação glaciária em torno de todo o hem isfério boreal e do hem isfério austral; um pouco de antiguidade, no sentido geológico do term o, do período glaciário num e noutro hem isfério; a sua duração considerável, avaliada pela im portância dos efeitos que produziu; enfim , o nível inferior a que as geleiras baixaram recentem ente a todo o com prim ento das Cordilheiras, são outros tantos fatos que m e levaram noutro tem po a pensar que provavelm ente a tem peratura de todo o Globo devia, durante o período glaciário, ter baixado de um a m aneira sim ultânea. Mas M. Croll procurou recentem ente dem onstrar, num a adm irável série de m em órias, que o estado glacial de um clim a é o resultado de diversas causas físicas, determ inadas por um aum ento na excentricidade da órbita da Terra. Todas estas causas tendem ao m esm o fim , m as a m ais poderosa parece ser a influência da excentricidade da órbita sobre as correntes oceânicas. Resulta dos estudos de M. Croll que períodos de resfriam ento voltam regularm ente todos os dez ou quinze m il anos; m as que em intervalos m uito m ais consideráveis, em seguida a certas eventualidades, de que a m ais im portante, com o o dem onstrou sir C. Ly ell, é a posição relativa da terra e das águas, o frio torna-se extrem am ente rigoroso. M. Croll j ulga que o últim o grande período glaciário sobe a 240000 anos e durou, com ligeiras variações de clim a, cerca de 160000 anos. Quanto aos períodos glaciários m ais antigos, m uitos geólogos estão convencidos, e fornecem a este respeito provas diretas, que deviam ter-se produzido durante as épocas m iocênia e eocênia, sem falar das form ações m ais antigas. Mas, para voltar ao assunto im ediato da nossa discussão, o resultado m ais im portante a que chegou M. Croll é que, quando o hem isfério boreal atravessa um período de esfriam ento, a tem peratura do hem isfério austral eleva-se sensivelm ente; os invernos tornam -se m enos rudes,

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principalm ente em seguida a alterações na direção das correntes do Oceano. Dáse o inverso no hem isfério boreal, quando o hem isfério austral passa por seu turno por um período glaciário. Estas conclusões lançam tanta luz na distribuição geográfica, que estou disposto a aceitá-las; m as com eço pelos fatos que reclam am um a explicação.

O Dr. Hooker dem onstrou que, na Am érica do Sul, além de um grande núm ero de espécies estreitam ente aliadas, cerca de quarenta ou cinqüenta plantas fanerogâm icas da Terra do Fogo, constituindo um a parte im portante da m agra flora desta região, são com uns à Am érica do Norte e à Europa, tão afastadas com o estão estas regiões situadas nos dois hem isférios opostos. Encontra-se, nas m ontanhas elevadas da Am érica Equatorial, um conj unto de espécies particulares pertencendo aos gêneros europeus. Gardner encontrou nos m ontes órgãos, no Brasil, algum as espécies pertencentes às regiões tem peradas da Europa, espécies antárticas, e alguns gêneros dos Andes, que não existiam nas planícies quentes interm ediárias. O ilustre Hum boldt encontrou tam bém , há m uito tem po, na Sila de Caracas, espécies Pertencendo a gêneros característicos das Cordilheiras. Em África encontram -se, nas m ontanhas da Abissínia, m uitas form as tendo um caráter europeu e algum as representantes da flora do Cabo da Boa Esperança. Encontram -se no Cabo da Boa Esperança algum as espécies européias que não parecem ter sido introduzidas pelo hom em , e, nas m ontanhas, m uitas form as representativas européias que se não encontram nas partes intertropicais da África. O Dr. Hooker tam bém recentem ente dem onstrou que m uitas plantas habitando as partes superiores da ilha de Fernando Pó, assim com o as m ontanhas vizinhas dos Cam arões, no golfo da Guiné, se aproxim am estreitam ente das que vivem nas m ontanhas da Abissínia e tam bém das plantas da Europa tem perada. O Dr. Hooker diz-m e, além disso, que algum as dessas plantas, pertencentes a regiões tem peradas, foram descobertas pelo reverendo F. Lowe nas m ontanhas das ilhas de Cabo Verde. Esta extensão das m esm as form as tem peradas, quase no equador, através de todo o continente africano até às m ontanhas do arquipélago de Cabo Verde, é sem contestação um dos casos m ais m arcantes que se conhecem quanto à distribuição das plantas.

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No Him alaia e nas cadeias de m ontanhas isoladas da península indiana, nas alturas de Ceilão e nos cones vulcânicos de Java, encontram -se m uitas plantas, quer idênticas, quer representando-se reciprocam ente, e, ao m esm o tem po, representando plantas européias, m as que não aparecem nas regiões baixas e quentes interm ediárias. Um a lista dos gêneros recolhidos nos picos m ais elevados de Java parece form ar um a coleção feita num a colina da Europa. Um fato ainda m ais m arcante, é encontrarem -se form as especiais à Austrália, representadas por certas plantas que crescem nos píncaros das m ontanhas de Bornéu. Segundo o Dr. Hooker, algum as destas form as australianas estendem -se ao longo das elevações da península de Malaca, e são m uito pouco dissem inadas num a parte da Índia, e, adem ais, tão longe para o norte com o o Japão.

O Dr. F. Müller descobriu m uitas espécies européias nas m ontanhas da Austrália Meridional; outras espécies, não introduzidas pelo hom em , encontram -se nas regiões baixas; e, segundo o Dr. Hooker, poderia confeccionar-se um a grande lista de gêneros europeus que existem na Austrália, e que, contudo, não existem nas regiões tórridas interm ediárias. Na adm irável Introdução à flora da Nova Zelândia, o Dr. Hooker indica fatos análogos e não m enos característicos às plantas desta grande ilha. Vem os, pois, que certas plantas vivendo nas m ais altas m ontanhas dos trópicos em todas as partes do Globo e nas planícies das regiões tem peradas, nos dois hem isférios do norte e do sul, pertencem às m esm as espécies, ou são variedades das m esm as espécies. É necessário observar, todavia, que estas plantas não são rigorosam ente form as árticas, porque, assim com o o faz notar M. H. C. Watson « à m edida que se desce das latitudes polares para o equador, as floras das m ontanhas, Ou floras alpinas, perdem cada vez m ais os seus caracteres árticos» . Dem ais a m ais estas form as idênticas e m uito estreitam ente aliadas, m uitas espécies, habitando estes m esm os pontos tão com pletam ente separados, pertencem aos gêneros que se não encontram atualm ente nas baixas regiões tropicais interm ediárias. Estas breves notas aplicam -se apenas às plantas; poder-se-iam , todavia, citar alguns fatos análogos relativos aos anim ais terrestres. Estas m esm as notas aplicam -se igualm ente aos anim ais m arinhos; ou poderia citar, Por exem plo, um a

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asserção de um a grande autoridade, o professor Dana: « É certam ente curioso ver, diz ele, que os crustáceos da Nova Zelândia tenham com os da Inglaterra, seus antípodas, um a sem elhança m ais estreita que com os de toda a outra parte do Globo» . Sir J. Richardson fala tam bém da reaparição nas costas da Nova Zelândia, da Tasm ânia, etc., de form as de peixes todas setentrionais. O Dr. Hooker ensina-m e que vinte e cinco espécies de algas, com uns à Nova Zelândia e à Europa, não se encontram nos m ares tropicais interm ediários. Os fatos que precedem , isto é, a presença de form as tem peradas nas regiões elevadas de toda a África Equatorial, da península Indiana até Ceilão e arquipélago m alaio, e, de um a m aneira m enos característica, nas vastas regiões da Am érica Tropical do Sul, autorizam -nos a pensar que em época rem ota, provavelm ente durante a parte m ais fria do período glaciário, as baixas regiões equatoriais destes grandes continentes foram habitadas por um núm ero considerável de form as tem peradas. Nesta época, é provável que ao nível do m ar o clim a fosse então, no equador, o que é hoj e na altitude de 1.500 a 1.800 m , ou talvez m esm o ainda um pouco m ais frio. Durante este período m uito frio, as regiões baixas no equador deviam ter sido cobertas por um a vegetação m ista tropical e tem perada, sem elhante à que, segundo o Dr. Hooker, atapeta com exuberância os cabeços inferiores do Him alaia na altura de 1.200 a 1.500 m , m as talvez com um a preponderância ainda m aior de form as tem peradas. Igualm ente ainda M. Mann encontrou que form as européias tem Peradas com eçam a aparecer a 1.500 m de altura aproxim adam ente, na ilha m ontanhosa de Fernando Pó, no golfo da Guiné. Nas m ontanhas do Panam á, o Dr. Seem ann encontrou, a 600 m de altura som ente, um a vegetação sem elhante à do México, e apresentando um a « harm oniosa m iscelânea de form as da zona tórrida com as das regiões tem peradas» . Vej am os agora se a hipótese de M. Croll sobre um período m ais quente no hem isfério austral, enquanto que o hem isfério boreal sofria o frio intenso da época glaciária, lança algum a luz sobre esta distribuição, inexplicável na aparência, dos diversos organism os nas partes tem peradas dos dois hem isférios, e sobre as m ontanhas das regiões tropicais. Medido em anos, o período glaciário deve ter sido m uito longo, m ais que suficiente, num a palavra, para explicar todas as m igrações, se se considerar

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quão poucos séculos são necessários para que certas plantas e certos anim ais naturalizados se espalhem em im ensos espaços. Sabem os que as form as árticas invadiram as regiões tem peradas à m edida que a intensidade do frio aum entava, e, depois destes fatos que acabam os de citar, é necessário adm itir que algum as das form as tem peradas m ais vigorosas, m ais dom inantes e m ais espalhadas, deviam ter então penetrado até às planícies equatoriais. Os habitantes destas planícies equatoriais devem ter, ao m esm o tem po, em igrado para as regiões intertropicais do hem isfério sul, m ais quente nesta época. No declive do período glaciário, tom ando os dois hem isférios gradualm ente a sua tem peratura precedente, ocupando as form as tem peradas setentrionais, as planícies equatoriais deviam ter sido repelidas para o norte, ou destruídas e substituídas pelas form as equatoriais vindas do sul. É, contudo, m uito provável que algum as dessas form as tem peradas se tenham retirado para as partes m ais elevadas da região; ora, se estas partes fossem bastante elevadas, teriam sobrevivido aí e aí ficariam com o as form as árticas nas m ontanhas da Europa. No caso m esm o em que o clim a não fosse perfeitam ente conveniente, deviam ter podido sobreviver, porque a m udança de tem peratura devia ter sido m uito lenta, e o fato de as plantas transm itirem aos descendentes aptidões constitucionais diferentes para resistir ao calor e ao frio, prova que possuem incontestavelm ente um a certa aptidão à aclim atação. Se o curso regular dos fenôm enos trouxesse um período glaciário no hem isfério austral e superabundância de calor no hem isfério boreal, as form as tem peradas m eridionais deviam por seu turno ter invadido as planícies equatoriais. As form as setentrionais, outrora vivendo nas m ontanhas, deviam ter descido então e ter-se m isturado com as form as m eridionais. Estas últim as, na volta do calor, deviam ter-se retirado para o seu antigo habitat, deixando algum as espécies nos cum es, e arrastando consigo para o sul algum as das form as tem peradas do norte que tinham descido das suas posições elevadas nas m ontanhas. Devem os, pois, encontrar algum as espécies idênticas nas zonas tem peradas boreais e austrais e nos vértices das m ontanhas das regiões tropicais. Mas as espécies exiladas assim durante tanto tem po nas m ontanhas, ou num outro hem isfério, devem ter sido obrigadas a entrar em concorrência com as num erosas form as novas e encontra- 443

ram -se expostas a condições físicas um pouco diferentes; estas espécies, por tais m otivos, devem ter sofrido grandes m odificações, e devem atualm ente existir na form a de variedades ou de espécies representativas; ora, é isto o que se apresenta. É necessário tam bém lem brar a existência de períodos glaciários anteriores nos dois hem isférios, fato que nos explica, segundo os m esm os princípios, o núm ero de espécies distintas que habitam regiões análogas m uito afastadas entre si, espécies pertencendo a gêneros que se não encontram j á hoj e nas zonas tórridas interm ediárias.

É um fato notável no qual o Dr. Hooker m uito insistiu com respeito à Am érica, e Afonso de Candolle a respeito da Austrália, que um núm ero m uito m aior de espécies idênticas ou levem ente m odificadas em igrou do norte para o sul do que do sul para o norte. Encontram -se, contudo, m uitas form as m eridionais nas m ontanhas de Bornéu e da Abissínia. Julgo que esta m igração m ais considerável do norte para o sul é devida à m aior extensão de terras no hem isfério boreal e à m aior quantidade de form as que as habitam ; estas form as, por isso, devem ter-se encontrado, devido à seleção natural e à concorrência m ais ativa, num estado de perfeição superior, que lhes terá assegurado a preponderância sobre as form as m eridionais. Tam bém , quando as duas categorias de form as se m isturaram nas regiões equatoriais, durante as alternativas dos períodos glaciários, as form as setentrionais, m ais vigorosas, encontraram -se m ais aptas a guardar o seu lugar nas m ontanhas, e em seguida avançar para o sul com as form as m eridionais, enquanto que estas não têm podido subir para o norte com as form as setentrionais. É assim que vem os hoj e num erosas produções européias invadir o Prata, a Nova Zelândia, e, em grau m enor, a Austrália, e vencer as form as indígenas; enquanto que m uito poucas form as m eridionais se naturalizam no hem isfério boreal, se bem que se tenham abundantem ente im portado do Prata para a Europa, há dois ou três séculos, e, nos quarenta e cinco últim os anos, da Austrália, peles, lãs e outros obj etos de natureza a ocultar sem entes. Os m ontes Nillgherrias da Índia oferecem , contudo, um a exceção parcial; porque, assim com o m o diz o Dr. Hooker, neles se naturalizam as form as australianas. Não há dúvida que antes do últim o período glaciário as m ontanhas intertropicais foram povoadas por form as alpinas endêm i- 444

cas, m as essas por quase toda a parte foram substituídas por form as m ais dom inantes, produzidas nas regiões m ais extensas e nos laboratórios m ais ativos do norte. Em m uitas ilhas, as produções indígenas são quase igualadas ou m esm o j á

ultrapassadas por form as estrangeiras aclim atadas; circunstância que é o prim eiro passo dado para a sua extinção com pleta. As m ontanhas são ilhas na terra firm e, e os seus habitantes cederam o lugar aos provenientes das regiões m ais vastas do norte, com o os habitantes das verdadeiras ilhas por toda a parte têm desaparecido e desaparecerão ainda diante das form as continentais aclim atadas pelo hom em .

Os m esm os princípios se aplicam à distribuição dos anim ais terrestres e das form as m arinhas, tanto nas zonas tem peradas do hem isfério boreal e do hem isfério austral com o nas m ontanhas intertropicais. Quando, durante o apogeu do período glaciário, as correntes oceânicas eram m uito diferentes do que hoj e são, alguns habitantes dos m ares tem perados puderam atingir o equador. Um pequeno núm ero de entre estes pôde talvez avançar im ediatam ente para o sul m antendose nas correntes m ais frias, enquanto que outros ficaram estacionários em profundidades em que a tem peratura era m enos elevada e aí sobreviveram até que um período glaciário, com eçando no hem isfério austral, lhes perm itisse continuar a sua m archa ulterior para o sul. As coisas passar-se-iam da m esm a m aneira com o para esses espaços isolados que, segundo Forbes, existem em nossos dias nas partes m ais profundas dos nossos m ares tem perados, partes povoadas de produções árticas. Estou longe de acreditar que as hipóteses que precedem tirem todas as dificuldades que apresentam a distribuição e as afinidades das espécies idênticas e aliadas que vivem hoj e a tão grandes distâncias nos dois hem isférios e algum as vezes nas cadeias de m ontanhas interm ediárias. Não se saberiam traçar as rotas exatas das m igrações, nem dizer porque certas espécies que não outras têm em igrado; porque certas espécies se m odificaram e produziram form as novas, enquanto que outras ficaram intactas. Não podem os esperar a explicação de fatos desta natureza senão quando souberm os dizer a razão de o hom em poder aclim atar num país estranho esta e não aquela espécie; a razão de um a espécie se es- 445

palhar duas ou três vezes m ais longe, ou ser duas ou três vezes m ais abundante que outra, se bem que am bas estej am colocadas nas suas condições naturais. Ficam ainda diversas dificuldades especiais para resolver; a presença, por exem plo, segundo o Dr. Hooker, das m esm as plantas em pontos prodigiosam ente afastados tais com o a terra de Kerguélen, a Nova Zelândia e a Terra do Fogo; m as, com o sugere Ly ell, os gelos flutuantes podem ter contribuído para a sua dispersão. A existência, em certos pontos e em m uitos outros ainda do hem isfério austral, de espécies que, Posto que distintas, fazem parte de gêneros exclusivam ente restritos a este hem isfério, constitui um fato ainda m ais notável. Algum as destas espécies são tão distintas, que não podem os supor que o tem po decorrido desde o com eço do últim o período glaciário tenha sido suficiente para a sua m igração e para que as m odificações necessárias tenham podido efetuar-se. Estes fatos parecem -m e indicar que espécies distintas pertencendo aos m esm os gêneros têm em igrado de um centro com um seguindo linhas radiadas, e m e levam a crer que, no hem isfério austral, do m esm o m odo que no hem isfério boreal, o período glaciário foi precedido de um a época m ais quente, durante a qual as terras antárticas, atualm ente cobertas de gelos, nutriram um a flora isolada e toda particular. Pode supor-se que antes de serem exterm inadas durante o últim o período glaciário, algum as form as desta flora foram transportadas em num erosas direções por m eios acidentais, e, com auxílio de ilhas interm ediárias, em seguida subm ersas, para diversos pontos do hem isfério austral.

É assim que as costas m eridionais da Am érica, da Austrália, e da Nova Zelândia poderiam apresentar em com um estas form as particulares de seres organizados. Sir C. Ly ell discutiu, em páginas notáveis, em linguagem quase idêntica à

m inha, os efeitos das grandes alternativas do clim a sobre a distribuição geográfica no universo inteiro. Acabam os de ver que a conclusão à qual chegou M. Croll, relativam ente à sucessão de períodos glaciários num dos hem isférios, coincidindo com períodos de calor no outro hem isfério, j unta à lenta m odificação das espécies, explica a m aior parte dos fatos que apresentam , na distribuição por todos os pontos do Globo, as form as organizadas idênticas, e as que são estreitam ente alia- 446

das. As ondas vivas têm , durante certos períodos, corrido do norte para o sul e reciprocam ente, e, nos dois casos, têm atingido o equador; m as a corrente da vida foi sem pre m uito m ais considerável do norte para o sul do que no sentido inverso, é, por conseguinte, a do norte que m ais largam ente inundou o hem isfério austral. Da m esm a form a que o fluxo depõe em linhas horizontais os detritos que arrasta às praias, elevando-se m ais alto nas costas em que a m aré é m ais forte, da m esm a m aneira as ondas vivas deixaram nos altos píncaros os seus fragm entos vivos, seguindo um a linha que se eleva lentam ente desde as baixas planícies árticas à grande altitude no equador. Podem com parar-se os seres diversos assim naufragados a essas tribos de selvagens que, expulsas de toda a parte, sobrevivem nas partes retiradas das m ontanhas de todos os países, e aí perpetuam os vestígios e a lem brança, cheia de interesse para nós, dos antigos habitantes das planícies circunvizinhas.

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CAPITULO XIII

Distribuição geográfica (continuação)

-Distribuição das produções de água doce.

-A respeito das produções das ilhas oceânicas.

-Ausência de batráquios e mamíferos terrestres.

-A respeito das relações entre os habitantes das ilhas e os do continente mais próximo.

-A respeito da colonização proveniente da origem mais próxima com modificações ulteriores.

-Resumo dos dois capítulos.

PRODUÇÃO DA ÁG UA DOCE

Estando os rios e os lagos separados entre si por barreiras terrestres, poder-se-ia j ulgar que as produções das águas doces não devessem espalhar-se facilm ente na m esm a região e não pudessem j am ais estender-se até países afastados, constituindo o m ar um a barreira ainda m ais infranqueável. Todavia, sucede exatam ente o contrário. Não só as espécies de água doce que pertençam às m ais diferentes classes têm um a distribuição extensa, m as ainda espécies aliadas prevalecem de um a m aneira notável em todo o m undo. Lem bro-m e que, quando recolhi, pela prim eira vez, os produtos das águas doces do Brasil, fui im pressionado pela sem elhança dos insetos, das conchas, etc., que encontrei, com os de Inglaterra, enquanto que as produções terrestres diferiam com pletam ente. Creio que, na m aior parte dos casos, se pode explicar esta aptidão inatendida que têm as produções de água doce para estender-se m uito, pelo fato de serem adaptadas, para m aior vantagem , a curtas e freqüentes m igrações passo a passo, ou de curso de água em curso de água, nos lim ites da própria região; circunstância de que a conseqüência necessária foi um a grande facilidade na dispersão ao longe. Não podem os estudar aqui m ais que alguns exem plos. Os m ais difíceis observam -se sem dúvida entre os peixes. Julgava-se outrora que as m esm as espécies de água doce não existiram j am ais em dois continentes afastados

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um do outro. Mas o Dr. Günther dem onstrou recentem ente que o Galaxius attenuatus habita a Tasm ânia, a Nova Zelândia, as ilhas FalKland e o continente da Am érica do Sul. Eis um caso extraordinário que indica provavelm ente um a dispersão em anante de um centro antártico durante um período quente anterior. Todavia, o caso torna-se um pouco m enos m arcante quando se sabe que as espécies deste gênero têm a faculdade de franquear, por m eios desconhecidos, espaços consideráveis em pleno oceano; assim , um a espécie torna-se com um à Nova Zelândia e às ilhas Aukland, se bem que estas duas regiões estej am separadas por um a distância de cerca de 380 km . No m esm o continente os peixes de água doce estendem -se m uitas vezes m uito, e quase caprichosam ente; porque dois sistem as de rios possuem por vezes algum as espécies em com um , e alguns outras espécies m uito diferentes. É provável que as produções de água doce sej am algum as vezes transportadas pelo que se poderia cham ar m eios acidentais. Assim , os turbilhões arrastam m uito freqüentem ente peixes vivos a distâncias consideráveis; sabe-se, além disso, que os ovos, m esm o tirados da água, conservam durante m uito tem po um a notável vitalidade. Mas estaria disposto a atribuir principalm ente a dispersão dos peixes de água doce a m udanças no nível do solo, sobrevindas num a época recente, e que puderam fazer certos rios verter-se nos outros. Poderia citar exem plos desta m istura das águas de m uitos sistem as de rios em seguida a inundações, sem que houvesse m udança de nível. A grande diferença entre os peixes que vivem nas duas vertentes opostas de m uitas cadeias de m ontanhas contínuas, de que a presença tem , desde um a época m uito longínqua, im pedido toda a m istura entre os diversos sistem as de rios, parece m otivar a m esm a conclusão. Alguns peixes de água doce pertencem a form as m uito antigas; concebese, pois, que houvesse um tem po bem suficiente para perm itir am plas alterações geográficas e portanto grandes m igrações. Dem ais, m uitas considerações levaram o Dr. Günther a pensar que as m esm as form as de peixe persistem desde longo tem po. Podem , com todos os cuidados, habituar-se lentam ente os peixes do m ar. a viver na água doce; e, segundo Valenciennes, não há sequer um só grupo de que todos os m em bros sej am exclusivam ente lim itados à água doce, de m odo que um a espécie m arinha de um grupo de água doce, depois de ter m uito tem po viaj a- 449

do ao longo das costas, podia adaptar-se, sem m uita dificuldade, às águas doces de um país distante.

Algum as espécies de conchas de água doce têm um a vasta distribuição, e certas espécies aliadas, que, pela m inha teoria, derivam de um antepassado com um , e devem provir de um a fonte única, prevalecem em todo o m undo. A sua distribuição em baraçou-m e a princípio, porque os seus ovos não são susceptíveis de ser transportados pelas aves, e são, com o os adultos, m ortos im ediatam ente pela água do m ar. Não podia m esm o com preender com o algum as espécies aclim atadas tenham conseguido espalhar-se tão facilm ente na m esm a localidade, quando observei dois fatos que, entre outros, lançaram algum a luz sobre o assunto. Quando um pato, depois de ter m ergulhado, em erge bruscam ente de um tanque coberto de lentilhas aquáticas, vi duas vezes estas plantas aderirem ao dorso da ave, e cheguei m uitas vezes, transportando algum as lentilhas de um aquário para outro, a introduzir, sem querer, neste últim o conchas provindo do prim eiro. Há ainda um a outra intervenção talvez m ais eficaz; tendo suspendido um a pata de adem num aquário em que existia um grande núm ero de ovos de conchas de água doce em cam inho de eclosão, encontrei-a coberta de um a m ultidão de pequenas conchas m uito pouco saídas, e que estavam aí presas com bastante força para não se destacarem quando sacudi a pata tirada da água; todavia, num a idade m ais avançada, caíam por si m esm as. Estas conchas recentem ente saídas do ovo, ainda que de natureza aquática, sobreviveram doze a vinte horas na pata do adem , m as num ar úm ido; tem po durante o qual um a garça-real ou um pato pode, voando, percorrer um espaço de 900 a 1100 km ; ora, se fosse arrastado pelo vento para um a ilha oceânica ou para um ponto qualquer da terra firm e,’ o anim al pousaria certam ente num lago ou num regato. Sir C. Ly ell diz-m e que se tem capturado um Dy tiscus transportando um Ancy lus (concha de água doce análoga às lapas) que aderia fortem ente ao seu corpo; um coleóptero aquático da m esm a fam ília, um Coly m betes, caiu a bordo do Beagle, a 72 km pouco m ais ou m enos da terra m ais vizinha; poder-se-ia dizer até onde poderia ser transportado se fosse im pelido Por um vento favorável.

Sabe-se, desde há m uito, com o é im ensa a dispersão de um grande núm e- 450

ro de plantas de água doce e m esm o de plantas dos Pântanos, tanto nos continentes com o nas ilhas oceânicas m ais afastadas. É, segundo a nota de Afonso de Candolle, o que provam de um a m aneira m arcante certos grupos consideráveis de plantas terrestres, que têm apenas alguns representantes aquáticos; estes últim os, com efeito, parecem adquirir im ediatam ente um a grande extensão com o por um a conseqüência necessária dos seus hábitos. Creio que este fato se explica pelos m eios m ais favoráveis de dispersão. Tenho dito que, por vezes, ainda que raram ente, um a certa quantidade de terra adere às patas e ao bico das aves. As pernaltas que freqüentam os bordos lodosos dos lagos, sendo postas em fuga repentinam ente, são as m ais suj eitas a ter as patas cobertas de lam a. Ora, as aves desta ordem são geralm ente grandes viaj antes e encontram -se por vezes até nas ilhas m ais distantes e m ais estéreis, situadas em pleno oceano. É pouco provável que pousem na superfície do m ar, de m odo que a lam a aderente às patas não sofre o risco de ser tirada, e não deixariam , portanto, de voar para pontos onde encontrassem as águas doces que freqüentam ordinariam ente. Não creio que os botânicos duvidem da quantidade de sem entes de que a vasa dos lagos está carregada; eis um fato dos m ais m arcantes que observei nas diversas experiências que em preendi a este respeito. Tom ei, no m ês de Fevereiro, em três pontos diferentes debaixo de água, j unto da m argem de um pequeno lago, três colheres de vasa que, seca, pesava som ente 139 gram as. Conservei esta vasa durante seis m eses no m eu laboratório, arrancando e estudando cada planta que rebentava; contei ao todo 537 pertencendo a num erosas espécies, e, contudo, a vasa úm ida cabia toda num a chávena de café. Estes fatos provam , creio eu, que seria m uito para espantar se as aves aquáticas não transportassem j am ais as sem entes das plantas de água doce para lagos e regatos situados a enorm es distâncias. A m esm a intervenção pode atuar tão eficazm ente com respeito aos ovos de alguns pequenos anim ais de água doce.

Há outras ações desconhecidas que podem ter tam bém contribuído para esta dispersão. Verifiquei que os peixes da água doce absorvem certas sem entes, se bem que expilam m uitas outras depois de as ter engolido; os próprios peixes pequenos engolem sem entes tendo um a certa grandeza, tais com o os do nenúfar

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am arelo e do potam ogeto. As garças-reais e outras aves têm , século após século, devorado peixes quotidianam ente; voam em seguida e vão pousar noutros regatos, onde são arrastadas através dos m ares pelas tem pestades; j á vim os que as sem entes conservam a faculdade germ inativa durante um núm ero considerável de horas, quando são lançadas com os excrem entos ou vom itadas em bolas. Quando vi o tam anho das sem entes de um a m agnífica planta aquática, o Nelum bium , e m e lem brei das notas de Afonso de Candolle a respeito dela, pareceu-m e um fato inteiram ente inexplicável a sua distribuição; m as Audubon nota que encontrou no estôm ago de um a garça sem entes do grande nenúfar m eridional, provavelm ente, segundo o Dr. Hooker, o Netum bium luteum . Ora, j ulgo que se pode adm itir por analogia que um a garça voando de lago em lago, e fazendo pelo cam inho um a copiosa alim entação com peixes, vom ite em seguida um a bola contendo sem entes ainda no estado de germ inar.

Além destes diversos m eios de distribuição, é necessário não esquecer que quando um lago ou um ribeiro se form a pela prim eira vez, num a ilha em via de levantam ento por exem plo, esta estação aquática é desocupada; por isso, um só

ovo ou um a só sem ente tem todas as probabilidades de se desenvolver. Posto que deva sem pre haver luta pela existência entre os indivíduos das diversas espécies, por pouco num erosas que sej am , que ocupem o m esm o lago, contudo com o esse núm ero, m esm o num lago bem povoado, é pequeno com parativam ente ao núm ero de espécies habitando um a igual extensão de terreno, a concorrência é

provavelm ente m enos rigorosa entre as espécies aquáticas que entre as espécies terrestres. Portanto, um im igrante, vindo das águas de um país estranho, tem m ais probabilidades de se apossar de um lugar novo do que se se tratasse de um a form a terrestre. É necessário lem brar que m uitas das produções da água doce são pouco elevadas na escala da organização, e tem os razões para crer que os seres inferiores se m odificam m enos prontam ente que os seres superiores, o que assegura um tem po m ais longo que a m édia ordinária às m igrações das espécies aquáticas. Não esqueçam os tam bém que um grande núm ero de espécies da água doce foram provavelm ente dissem inadas outrora, tanto quanto essas produções podem sê-lo, em im ensas extensões, pois que estão extintas nas regiões interm e-452

diárias. Mas a grande distribuição de plantas e anim ais inferiores da água doce, que tenham conservado form as idênticas ou fossem m odificadas até certo ponto, parece depender essencialm ente da dissem inação das suas sem entes e dos seus ovos por anim ais e sobretudo pelas aves aquáticas, que possuem grande poder de vôo, e que Viaj em naturalm ente de um a outro sistem a de curso de água.

OS HABITANTES DAS ILHAS OCEÂNICAS

Chegam os agora à últim a das três classes de fatos que escolhi com o apresentando as m aiores dificuldades, relativam ente à distribuição, na hipótese de não som ente todos os indivíduos da m esm a espécie terem em igrado de um ponto único, m as ainda de todas as espécies aliadas, posto que habitando hoj e as localidades m ais afastadas, provirem de um a paragem única, berço do seu prim eiro antepassado. Indiquei j á as razões que m e fazem por de lado a hipótese da extensão dos continentes durante o período das espécies atuais, ou, pelo m enos, um a extensão tal que as num erosas ilhas dos diversos oceanos tivessem recebido os seus habitantes terrestres devido à sua união com um continente. Esta hipótese tira m uitas dificuldades, m as não explica qualquer dos fatos relativos às produções insulares. Não m e deterei, nas notas que vão seguir-se, apenas na questão da dispersão, m as exam inarei uns outros fatos, que têm algum a relação com a teoria das criações independentes ou com a da descendência com m odificações. As espécies de toda a sorte que povoam as ilhas oceânicas são em pequeno núm ero, se as com pararm os às que habitam espaços continentais de igual extensão; Afonso de Candolle adm ite este fato para as plantas e Wolaston para os insetos. A Nova Zelândia, por exem plo, com as suas m ontanhas elevadas e as suas estações variadas, que cobrem m ais de 1250 km em latitude, j unta às ilhas vizinhas de Aukland, de Cam pbell e de Chatam , encerra apenas 960 espécies de fanerogâm icas. Se com pararm os esta m odesta cifra com a das espécies que abundam nas superfícies iguais no sudoeste da Austrália ou no Cabo da Boa Esperança, devem os reconhecer que um a tão grande diferença em núm ero deve provir de algum a causa com pletam ente independente de um a sim ples diferença nas

Continuar: parte 3 de 3