A Origem das Espécies
Quando se considera a distribuição dos seres…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
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condições físicas. O condado de Cam brígia, ainda que tão uniform e, possui 847 espécies de plantas, e a pequena ilha de Anglesey 764; é verdade que alguns fetos e um a pequena quantidade de plantas introduzidas pelo hom em estão com preendidas nestes núm eros, e que, em m uitas relações, a com paração não é m uito j usta. Tem os a prova da ilha da Ascensão, tão estéril, que não possuía prim itivam ente m ais que m eia dúzia de espécies de fanerogâm icas; contudo, há um grande núm ero que estão aclim atadas, com o na Nova Zelândia, assim com o em todas as ilhas oceânicas conhecidas. Em Santa Helena, há toda a razão para crer que as plantas e os anim ais aclim atados têm exterm inado, ou quase, um grande núm ero de produções indígenas. Quem adm itir a doutrina das criações separadas para cada espécie deverá, pois, adm itir tam bém que o núm ero suficiente de plantas e de anim ais m elhor adaptados não foi criado para as ilhas oceânicas, pois que o hom em as tem involuntariam ente povoado m ais perfeitam ente e m ais ricam ente do que a natureza. Se bem que, nas ilhas oceânicas, as espécies sej am pouco num erosas, a proporção das espécies endêm icas, isto é, as que se não encontram noutra parte do Globo, é m uitas vezes m uito grande. Pode estabelecer-se a verdade desta asserção com parando, por exem plo, a relação entre a superfície dos terrenos e o núm ero de conchas terrestres especiais à ilha da Madeira, ou o núm ero das aves endêm icas do arquipélago Galápagos com o núm ero das que habitam um continente qualquer. De resto, este fato podia ser teoricam ente previsto, porque, com o j á tem os explicado, espécies vindo de longe a longe para um distrito isolado e novo, e tendo de entrar em luta com novos concorrentes, devem estar grandem ente suj eitas a m odificar-se e devem m uitas vezes produzir grupos de descendentes m odificados. Mas de que, num a ilha, quase todas as espécies de um a classe são particulares a esta estação, não resulta necessariam ente que as de outra classe ou de outra secção da m esm a classe o devem ser tam bém ; esta diferença parece provir em parte de que as espécies não m odificadas em igraram em grupo, de m odo que as suas relações recíprocas não sofreram m ais que pequena perturbação, e, em parte, pela chegada freqüente de im igrações não m odificadas, vindas da m esm a pátria, com as quais se cruzaram as form as insulares.
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É necessário não esquecer que os descendentes de sem elhantes cruzam entos devem ganhar quase com certeza em vigor, de tal m odo que um cruzam ento acidental bastaria para produzir efeitos m ais consideráveis do que se poderia esperar. Eis alguns exem plos em apoio das notas que precedem . Nas ilhas Galápagos, encontram -se vinte e seis espécies de aves terrestres, de que vinte e um a, ou talvez m esm o vinte e três, são particulares a estas ilhas, enquanto que, em onze espécies m arinhas, duas som ente são próprias do arquipélago; é evidente, com efeito, que as aves m arinhas podem arribar a estas ilhas m uito m ais facilm ente e m uitas m ais vezes do que as aves terrestres. As Berm udas, ao contrário, que estão situadas quase à m esm a distância da Am érica do Norte que as Galápagos da Am érica do Sul, e que têm um solo m uito Particular, não possuem um a só
ave terrestre endêm ica; m as sabem os, pela bela descrição das Berm udas que devem os a M. J. M. Jones, que um grande núm ero de aves da Am érica do Norte visita freqüentem ente esta ilha. M-E. V. Harcourt ensina-m e que, quase todos os anos, os ventos arrastam até à Madeira m uitas aves da Europa e da África. Esta ilha é habitada Por noventa e nove espécies de aves, de que um a só lhe é própria, se bem que m uito estreitam ente aliada ,a um a eSpécie européia; três ou quatro outras espécies são lim itadas à Madeira e às Canárias. As Berm udas e a Madeira foram , pois, povoadas pelos continentes próxim os com aves que, durante longos séculos, lutaram j á um as com as outras nas pátrias respectivas, e que se foram m utuam ente adaptando entre si. Estabelecida um a vez no seu novo habitat, cada espécie deVia ter sido m antida pelas outras nos seus lim ites próprios e nos seus antigos hábitos, sem apresentar m uita tendência a m odificações, porque o cruzam ento com as form as não m odificadas, que vinham de tem pos a tem pos da m ãepátria, devia contribuir em extrem o para a reprim ir. A Madeira é, além disso, habitada por um núm ero considerável de conchas terrestres que lhe são próprias, enquanto que nem um a só espécie de conchas m arinhas é particular às suas costas; ora, posto que não conheçam os o m odo de dispersão das conchas m arinhas, é, contudo, fácil com preender que os seus ovos ou as suas larvas aderindo talvez a plantas m arinhas ou a m adeiras flutuantes, ou ainda às patas das pernaltas, pudessem ser transportadas bem m ais facilm ente do que conchas terrestres, através
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de 400 ou 500 km de pleno m ar. As diversas ordens de insetos habitando a Madeira apresentam casos quase análogos. As ilhas oceânicas são algum as vezes desprovidas de certas classes inteiras de anim ais de que o lugar é ocupado por outras classes; assim , os répteis nas ilhas Galápagos, e as aves ápteras gigantescas na Nova Zelândia, tom am o lugar dos m am íferos. É talvez duvidoso que se deva considerar a Nova Zelândia com o ilha oceânica, por ser m uito grande e ser separada da Austrália por um m ar pouco profundo; o reverendo W. B. Clarke, fundando-se nos caracteres geológicos desta ilha e na direção das cadeias de m ontanhas, sustentou recentem ente a opinião de que devia, bem com o a Nova Caledônia, ser considerada com o um a dependência da Austrália. Quanto às plantas, o Dr. Hooker dem onstrou que, nas ilhas Galápagos, os núm eros proporcionais das diversas ordens são m uito diferentes do que foram . Explicam -se geralm ente todas estas diferenças em núm ero, e ausência de grupos inteiros de plantas e de anim ais nas ilhas, pelas supostas diferenças nas condições físicas; m as a explicação parece-m e pouco satisfatória, e creio que as facilidades de em igração devem ter gozado um papel pelo m enos tão im portante com o a natureza das condições físicas.
Poderiam apresentar-se m uitos fatos notáveis relativos aos habitantes das ilhas oceânicas. Por exem plo, em algum as ilhas onde não há um só m am ífero, certas plantas indígenas têm m agníficas sem entes com ganchos; ora, há poucas relações m ais evidentes que a adaptação das sem entes com ganchos ao transporte operado por m eio da lã ou do pêlo dos quadrúpedes. Mas um a sem ente arm ada de ganchos pode ser levada para outra ilha por outros m eios, e a planta m odificando-se torna-se um a espécie endêm ica conservando os seus ganchos, que não constituem um apêndice m ais inútil do que as asas atrofiadas que, em m uitos coleópteros insulares, se ocultam debaixo dos élitros soldados. Encontram se m uitas vezes ainda, nas ilhas, árvores ou arbustos pertencendo a ordens que, dem ais a m ais, não contêm senão plantas herbáceas; ora, as árvores, assim com o o dem onstrou Afonso de Candolle, têm geralm ente, quaisquer que possam ser as causas, um a distribuição lim itada. Daqui resulta que as árvores não poderiam atingir as ilhas oceânicas afastadas. Um a planta herbácea que, num continente,
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tivesse poucas probabilidades de poder sustentar a concorrência com as grandes árvores bem desenvolvidas que ocupam o terreno, conseguiria, transplantada para um a ilha, elevar-se acim a das outras plantas herbáceas tornando-se sem pre m aior e ultrapassando-as. A seleção natural, neste caso, tenderia a aum entar a estatura da planta, a qualquer ordem que pertença, e por conseguinte a converter-se em arbusto prim eiro e depois em árvore.
AUSÊNCIA DE BATRÁQ UIOS E DE MAMÍFEROS TERRESTRES NAS ILHAS OCEÂ-NICAS
Quanto à ausência de ordens inteiras de anim ais nas ilhas oceânicas, Bory Saint-Vincent fez notar, há m uito tem po j á, que se não encontram j am ais batráquios (rãs, sapos e salam andras, nas num erosas ilhas de que os grandes oceanos estão sem eados). Os estudos que fiz para verificar esta asserção confirm aram o quanto ela é exata, se excetuarm os a Nova Zelândia, a Nova Caledônia, as ilhas Andam ão, e talvez as ilhas Salom ão e Sey chelles. Mas frisei j á quanto é duvidoso contar a Nova Zelândia e a Nova Caledônia no núm ero das ilhas oceânicas e as dúvidas são ainda m aiores quando se trata das ilhas Andam ão, Salom ão e Sey chelles. Não é às condições físicas que se pode atribuir esta ausência geral de batráquios num tão grande núm ero de ilhas oceânicas, porque parecem particularm ente próprias à existência destes anim ais, e a prova é que as rãs introduzidas na Madeira, nos Açores e na Maurícia aí se m ultiplicaram a ponto de se tornarem um flagelo. Mas, com o estes anim ais, e bem assim as ovas, são m ortos im ediatam ente pelo contato da água do m ar, à exceção todavia de um a espécie indiana, o seu transporte por esta via seria m uito difícil, e, por conseqüência, podem os com preender a razão de não existirem em nenhum a ilha oceânica. Seria, pelo contrário, bem difícil explicar porque, na teoria das criações independentes, não teriam sido criados nestas localidades.
Os m am íferos oferecem um outro caso análogo. Depois de ter com pulsado cuidadosam ente as m em órias dos m ais antigos viaj antes, não encontrei um só
testem unho seguro da existência de um m am ífero terrestre, à exceção dos ani-457
m ais dom ésticos que possuíam os indígenas, habitando um a ilha distante m ais de 500 km de um continente ou de um a vasta ilha continental, e um grande núm ero de ilhas m ais aproxim adas da terra firm e são igualm ente desprovidas. As ilhas Falkland, onde habita um a raposa sem elhante ao lobo, parecem excetuar-se desta regra; m as este grupo não pode ser considerado com o oceânico, porque repousa num banco que se liga à terra firm e, distante som ente 450 km ; além disso, com o os gelos flutuantes transportaram noutro tem po blocos erráticos à costa ocidental, pode ser que as raposas tenham sido levadas por esta form a, com o ainda hoj e sucede nas regiões árticas. Não poderia sustentar-se, contudo, que as ilhas pouco extensas não são próprias à existência pelo m enos dos pequenos m am íferos, porque estes se encontram em diversas partes do Globo em ilhas bem dim inutas, quando estas estão na vizinhança de um continente. Não se saberia, além disso, citar um a só ilha na qual os nossos pequenos m am íferos não estej am naturalizados e abundantem ente m ultiplicados. Não poderia alegar-se m esm o, segundo a teoria das criações independentes, que o tem po não fosse suficiente para a criação dos m am íferos; porque um grande núm ero de ilhas vulcânicas são de um a tão rem ota antiguidade, com o o provam as im ensas degradações que têm sofrido e os j azigos terciários que aí se encontram ; dem ais a m ais, o tem po foi suficiente para a produção de espécies endêm icas pertencendo a outras classes; ora sabe-se que, nos continentes, os m am íferos aparecem e desaparecem m ais rapidam ente que os anim ais inferiores. Se os m am íferos terrestres faltam nas ilhas oceânicas, quase todas têm m am íferos aéreos. A Nova Zelândia possui dois m orcegos que não se encontram em qualquer outra parte do m undo; a ilha Norfolk, o arquipélago Fij i, as ilhas Bonin, os arquipélagos das Carolinas e Marianas, e a Maurícia, possuem os seus m orcegos particulares. Porque não produziu, pois, a força criadora m ais que m orcegos, com exclusão de todos os outros m am íferos, nas ilhas distantes? Pela m inha teoria é fácil responder a esta pergunta; nenhum m am ífero terrestre, com efeito, pôde ser transportado através de um largo braço de m ar, m as os m orcegos puderam franquear a distância voando. Têm -se visto m orcegos errar de dia sobre o Atlântico a grandes distâncias da terra, e duas espécies da Am érica do Norte visitam regularm ente ou acidentalm ente as Berm udas, a 1000 km da ter- 458
ra firm e. M. Tom es, que estudou especialm ente esta fam ília, ensina-m e que num erosas espécies têm um a distribuição considerável, e se encontram sobre os continentes e nas ilhas m uito afastadas. Basta, pois, supor que as espécies errantes são m odificadas nos seus novos hábitos para por-se em relação com os novos m eios nos quais se encontram , e para daí deduzirm os a causa de poder haver, nas ilhas oceânicas, m orcegos endêm icos, na ausência de qualquer outro m am ífero terrestre. Há ainda outras relações interessantes a notar entre a profundidade dos braços de m ar que separam as ilhas, quer entre si, quer dos continentes m ais vizinhos, e o grau de afinidade dos m am íferos que as habitam . M. Windsor Earl fez a este respeito algum as observações notáveis, observações consideravelm ente desenvolvidas em seguida pelos belos estudos de M. Wallace no grande arquipélago m alaio, o qual é atravessado, j unto das Celebes, por um braço de m ar profundo, que m arca um a separação com pleta entre duas faunas m uito distintas de m am íferos. De cada lado deste braço de m ar, as ilhas repousam sobre um banco subm arino que tem um a profundidade m édia, e são povoadas de m am íferos idênticos ou m uito estreitam ente aliados. Não tive ainda tem po de estudar este assunto para todas as partes do Globo, m as até ao presente encontrei que a relação é bastante geral. Assim , os m am íferos são os m esm os na Inglaterra com o no resto da Europa, de que está separada por um estreito pouco profundo; o m esm o se dá em todas as ilhas j unto das costas da Austrália. Por outra parte, as ilhas que form am as índias Ocidentais estão situadas sobre um banco subm erso a um a profundidade de cerca de 1000 braças; encontram os aí form as am ericanas, m as as espécies e m esm o os gêneros são distintos por com pleto. Ora, com o a som a das m odificações que os anim ais de todos os gêneros podem sofrer, depende sobretudo do lapso de tem po decorrido, e com o as ilhas separadas do continente ou das ilhas vizinhas por águas pouco profundas, devem ter provavelm ente form ado um a região contínua num a época m ais recente que as que estão separadas por estreitos de um a grande Profundidade, é fácil com preender com o deve existir um a relação entre a profundidade do m ar que separa duas faunas de m am íferos, e o grau das suas afinidades; -relação que, na teoria das criações independentes, fica inexpli- 459
cável.
Os fatos que precedem relativam ente aos habitantes das ilhas oceânicas, isto é, o pequeno núm ero das espécies, j unto à grande proporção das form as endêm icas;-as m odificações que têm sofrido os m em bros de certos grupos, sem que outros grupos pertencendo à m esm a classe tenham sido m odificados; - a ausência de ordens inteiras tais com o os batráquios e os m am íferos terrestres, apesar da presença dos m orcegos aéreos; -as proporções singulares de certas ordens de plantas; -o desenvolvim ento das form as herbáceas em árvores, etc. - parecem -m e concordar m uito m elhor com a opinião de os m eios ocasionais de transporte terem um a eficácia suficiente para povoar as ilhas, com a condição de se continuarem durante longos períodos, do que com a suposição de todas as ilhas oceânicas terem sido outrora ligadas ao m ais próxim o continente. Nesta últim a hipótese, com efeito, é provável que as diversas classes tivessem im igrado de um a m aneira m ais uniform e, e que, então, as relações m útuas das espécies introduzidas em grandes quantidades sendo pouco perturbadas, não fossem m odificadas ou o tivessem sido de um m odo m ais igual. Não pretendo dizer que não restem ainda m uitas dificuldades sérias para explicar com o é que a m aior parte dos habitantes das ilhas m ais afastadas atingiu a sua pátria atual, com o conservou as form as específicas ou foi ulteriorm ente m odificada. É necessário ter em conta aqui a probabilidade da existência de ilhas interm ediárias, que serviram de ponto de descanso, que desapareceram em seguida. Contentar-m e-ei em citar um dos casos m ais difíceis. Quase todas as ilhas oceânicas, m esm o as m enores e as m ais distantes, são habitadas por conchas terrestres pertencendo geralm ente a espécies endêm icas, m as algum as vezes tam bém por espécies que se encontram noutros pontos - fato de que o Dr. A. A. Gould observou exem plos m arcantes no Pacífico. Ora, sabe-se que as conchas terrestres são facilm ente m ortas pela água do m ar; os seus ovos, pelo m enos os que pude subm eter à experiência, vão ao fundo e m orrem . É necessário, contudo, que houvesse algum m eio de transporte desconhecido, m as eficaz. Seria talvez por aderência dos de m om ento nascidos às patas das aves? Tenho j ulgado que as conchas terrestres, durante a estação de hibernação e enquanto a abertura da
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concha está fechada por um diafragm a m em branoso, se podiam talvez conservar nas fendas das m adeiras flutuantes e atravessar assim braços de m ar bastante largos. Verifiquei que m uitas espécies podem , neste estado, resistir à im ersão na água do m ar durante sete dias. Um a Helix pom atia, depois de ter sofrido este tratam ento, foi m ergulhada, quando hibernou de novo, durante vinte dias em água do m ar, e resistiu perfeitam ente.
Durante este lapso de tem po, podia ter sido transportada por um a corrente m arítim a que tivesse um a velocidade m édia a um a distância de 1.000 km . Com o esta hélice tem um diafragm a calcário m uito espesso, tirei-lho e quando foi substituído por um novo diafragm a m em branoso, coloquei-o em água do m ar durante catorze dias, no fim dos quais o anim al, perfeitam ente intacto, escapou. Experiências sem elhantes foram ultim am ente em preendidas pelo barão Aucapitaine; pôs, num a caixa crivada de buracos, cem conchas terrestres, pertencentes a dez espécies, e m ergulhou-a por com pleto no m ar durante quinze dias. Das cem conchas vinte e sete restabeleceram -se. A presença do diafragm a parece ter um a grande im portância, porque, em doze especím enes de Cy clostom a elegans, que dele estavam providas, onze sobreviveram . É notável, visto o m odo com o a Helix pom atia resistiu nos m eus ensaios à ação da água salgada, que nenhum dos cinqüenta e quatro especím enes de hélice pertencendo a quatro espécies, que serviram às experiências do barão Aucapitaine, tenha sobrevivido. É, todavia, pouco provável que as conchas terrestres fossem m uitas vezes transportadas assim ; o m odo de transporte pelas patas das aves é m ais verossím il.
A RESPEITO DAS RELAÇÕES ENTRE OS HABITANTES DAS ILHAS E OS DO
CONTINENTE MAIS PRÓXIMO
O fato m ais im portante para nós é a afinidade entre as espécies que habitam as ilhas e as que habitam o continente m ais vizinho, sem que essas espécies sej am , contudo, idênticas. Poderiam citar-se num erosos exem plos deste fato. O
arquipélago Galápagos está situado no equador a 800 ou 900 km das costas da Am érica do Sul. Todos os produtos terrestres e aquáticos deste arquipélago têm o
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incontestável estigm a do tipo continental am ericano. Em vinte e seis aves terrestres, vinte e um a, ou talvez m esm o vinte e três, são consideradas com o espécies tão distintas, que se supõem criadas no m esm o lugar; portanto, nada m ais m anifesto que a afinidade estreita que apresentam com as aves am ericanas por todos os seus caracteres, pelos seus costum es, gestos e entoações de voz. É da m esm a m aneira para os outros anim ais e para a m aioria das plantas, com o o prova o Dr. Hooker na sua adm irável obra sobre a flora deste arquipélago. Contem plando os habitantes destas ilhas vulcânicas isoladas no Pacífico, distantes do continente m uitas centenas de km , o naturalista sente, contudo, que está ainda em terra am ericana. Porque será assim ? Porque estas espécies, que se supõe terem sido criadas no arquipélago Galápagos, e em m ais parte algum a, trazem tão evidentem ente m arcada a afinidade com as espécies criadas na Am érica? Nada há, nas condições de existência, na natureza geográfica destas ilhas, na sua altitude ou seu clim a, nem nas proporções segundo as quais as diversas classes estão associadas, que se pareça com as condições da costa am ericana; de fato, há m esm o um a assaz grande diferença a todos os respeitos. Por outro lado, há na natureza vulcânica do solo, no clim a, na altitude e na superfície destas ilhas, um a grande analogia entre elas e as ilhas do arquipélago de Cabo Verde; m as que diferença com pleta e absoluta no ponto de vista dos habitantes! A população destes últim os tem as m esm as relações com os habitantes da África com o os habitantes das Galápagos com as form as am ericanas. A teoria das criações independentes não pode fornecer explicação algum a para fatos desta natureza. É evidente, ao contrário, segundo a teoria que sustentam os, que as ilhas Galápagos, quer em conseqüência de um a antiga continuidade com a terra firm e (se bem que não partilhe desta opinião), quer por m eios de transporte eventuais, devem ter recebido os seus habitantes da Am érica, da m esm a m aneira que as ilhas de Cabo Verde os receberam da África; uns e outros têm sofrido m odificações, m as traíram sem pre o seu lugar de origem em virtude do princípio de hereditariedade. Poderiam citar-se m uitos fatos análogos; é, com efeito, um a lei quase universal que as produções indígenas de um a ilha estej am em relação de parentesco estreito com as dos continentes ou das ilhas m ais próxim as. As exceções são ra- 462
ras e explicam -se na m aior parte. Assim , posto que a ilha de Kerguélen estej a m ais aproxim ada da África do que da Am érica, as plantas que a habitam estão, segundo a descrição feita pelo Dr. Hooker, em relação m ais estreita com as form as am ericanas; m as esta anom alia desaparece, porque é necessário adm itir que esta ilha devia ter sido principalm ente povoada com as sem entes transportadas em terra e pedras pelos gelos flutuantes im pelidos por correntes próprias. Pelas suas plantas indígenas, a Nova Zelândia tem , com o se devia esperar, relações m uito m ais estreitas com a Austrália, a terra firm e m ais vizinha, do que com qualquer outra região; m as aPresenta tam bém com a Am érica do Sul relações m arcantes, e este continente, ainda que estej a im ediatam ente após a Austrália com respeito a distância, está tão afastado, que o fato parece quase anorm al. A dificuldade, todavia, desaparece na hipótese de a Nova Zelândia, a Am érica do Sul e outras regiões m eridionais terem sido povoadas em parte por form as vindas de um ponto interm édio, ainda que afastado, as ilhas antárticas, quando, durante um período terciário quente, anterior ao últim o período glaciário, fossem cobertas de vegetação. A afinidade, fraca sem dúvida, m as de que o Dr. Hooker afirm a a realidade, que se nota entre a flora da parte sudoeste da Austrália e a do Cabo da Boa Esperança, é um caso m uito m ais notável; esta afinidade é, todavia, lim itada às plantas, e será explicada com certeza algum dia.
A lei que determ ina o parentesco entre os habitantes das ilhas e os da m ais próxim a terra firm e m anifesta-se por vezes em pequena escala, m as de um a m aneira m uito interessante nos lim ites do m esm o arquipélago. Assim , cada ilha do arquipélago Galápagos é habitada, e o fato é em extrem o curioso, por m uitas espécies distintas, m as que têm relações m uito m ais estreitas entre si do que com os habitantes do continente am ericano ou de outra parte do m undo. É isto o que se devia esperar, porque as ilhas tão aproxim adas devem necessariam ente ter recebido em igrantes quer da m esm a fonte originária, quer um as das outras. Mas com o se com preende que estas em igrações tenham sido diferentem ente m odificadas, ainda que fracam ente, em ilhas tão próxim as um as das outras, tendo a m esm a natureza geológica, a m esm a altitude, o m esm o clim a, etc.? Isto em baraçou-m e durante m uito tem po; m as a dificuldade provém sobretudo da tendência errônea,
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m as profundam ente enraizada no nosso espírito, que nos leva sem pre a considerar as condições físicas de um país com o o ponto m ais essencial: enquanto que é
incontestável que a natureza dos outros habitantes, com os quais cada um está
em luta, constitui um ponto tam bém m uito essencial, e que é geralm ente um elem ento de sucesso m uito m ais im portante. Ora, se exam inarm os as espécies que habitam as ilhas Galápagos, e que se encontram igualm ente noutras partes do m undo, encontram os que diferem m uito nas diversas ilhas. Era de prever esta diferença, se se adm itir que as ilhas foram povoadas por m eios acidentais de transporte, podendo a sem ente de um a planta ter sido transportada para um a ilha, por exem plo, e a de outra planta diferente para outra ilha, se bem que am bas tenham um a origem geral. Disto resulta que, quando outrora um im igrante tivesse chegado a um a ilha, ou tivesse ulteriorm ente passado de um a para outra, seria sem dúvida exposto nas diversas ilhas a condições diferentes; porque terá tido de lutar contra os conj untos de organism os diferentes; um a planta, por exem plo, encontrando o terreno que lhe é m ais favorável ocupado por form as um pouco diversas segundo as ilhas, terá tido de resistir aos ataques de inim igos diferentes. Se esta planta com eçou a variar, a seleção natural terá provavelm ente favorecido em cada ilha variedades igualm ente um pouco diferentes. Todavia, algum as espécies terão podido espalhar-se e conservar os m esm os caracteres em todo o arquipélago, do m esm o m odo que vem os algum as espécies largam ente dissem inadas por um continente ficarem as m esm as por toda a parte. O fato realm ente notável no arquipélago Galápagos, fato que se nota tam bém em m enor grau nos outros casos análogos, é que as novas espécies um a vez form adas num a ilha não se espalham prontam ente nas outras. Mas as ilhas, posto que em frente um as das outras, são separadas por braços de m ar m uito profundos, quase sem pre m ais largos do que a Mancha, e nada faz supor que fossem outrora reunidas. As correntes m arítim as que atravessam o arquipélago são m uito rápidas, e as raj adas de vento extrem am ente raras, de m aneira que as ilhas são, de fato, m uito m ais separadas um as das outras do que parecem no m apa. Contudo, algum as espécies próprias ao arquipélago ou que se encontram noutras partes do Globo, são com uns às diversas ilhas, e podem os concluir da sua distribuição
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atual que deviam ter podido passar de um a a outra ilha. Creio, todavia, que nos enganam os m uitas vezes supondo que as espécies estreitam ente aliadas invadiram necessariam ente os territórios recíprocos, quando podem livrem ente com unicar entre si. É certo que, quando um a espécie é dotada de qualquer superioridade sobre outra, não tarda a suplantá-la total ou parcialm ente; m as é provável que am bas conservem a sua posição respectiva durante m uitíssim o tem po, se estiverem igualm ente bem adaptadas à situação que ocupam . O fato de um grande núm ero de espécies naturalizadas por intervenção do hom em , se encontrarem espalhadas com um a espantosa rapidez em vastas superfícies, leva-nos a concluir que a m aior parte das espécies deviam ter-se espalhado do m esm o m odo; m as é necessário lem brar que as espécies que se aclim atam nos países novos não são, em geral, estreitam ente aliadas aos habitantes indígenas; são, ao contrário, form as m uito distintas, pertencendo na m aior parte dos casos, com o o dem onstrou Afonso de Candolle, a gêneros diferentes. No arquipélago Galápagos, um grande núm ero de aves, ainda que m uito bem adaptadas para voar de ilha para ilha, são distintas em cada um a delas; é assim que se encontram três espécies estreitam ente aliadas de m elros-zom badores, de que cada um a está lim itada num a ilha distinta. Suponham os agora que o m elro-zom bador da ilha Chatam era levado pelo vento para a ilha Charles, que tam bém possui o seu; para que tentaria estabelecer-se aí? Podem os adm itir que a ilha Chatam é suficientem ente povoada pela sua espécie local, porque cada ano põe m ais ovos e cria m ais filhos do que os que podem sobreviver, e devem os igualm ente crer que a espécie da ilha Charles está
pelo m enos tão bem adaptada ao seu m eio com o a espécie da ilha Chatam . Devo a sir C. Ly eIl e a M. Wallaston, a com unicação de um fato notável em relação com esta questão; a Madeira e a pequena ilha adj acente de Porto Santo possuem m uitas espécies distintas, m as representativas, das conchas terrestres, entre as quais algum as há que vivem nas covas dos rochedos; ora, transportam -se anualm ente de Porto Santo para a Madeira grandes quantidades de pedras, sem que a espécie da prim eira ilha sej a j am ais introduzida na segunda, se bem que as duas ilhas tenham sido colonizadas por conchas terrestres européias, dotadas sem dúvida de algum a superioridade sobre as espécies indígenas. Penso, pois, que não há razão
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para ficar-se surpreendido de que as espécies indígenas que habitam as diversas ilhas do arquipélago Galápagos se espalhassem por cada ilha. A ocupação anterior tem provavelm ente tam bém contribuído m uitíssim o, no m esm o continente, para im pedir a m istura das espécies habitando regiões distintas, posto que oferecendo condições físicas sem elhantes. É assim que os ângulos sudeste e sudoeste da Austrália, se bem que apresentem condições físicas quase análogas, e form em um todo contínuo, são, contudo, povoados por um grande núm ero de m am íferos, de aves, e de vegetais distintos; o m esm o se observa, segundo M. Bates, para as borboletas e outros anim ais que habitam o grande vale aberto e contínuo do Am azonas. O princípio que regula o caráter geral dos habitantes das ilhas oceânicas, isto é, as suas relações estreitas com a região que lhes pôde enviar m ais facilm ente colonos, assim com o a sua m odificação ulterior, é suscetível de num erosas aplicações na natureza; disto se vê a prova em cada m ontanha, em cada lago, e em cada pântano. As espécies alpinas, com efeito, se se excetuarem as que, quando do últim o período glaciário, foram largam ente espalhadas, ligam -se às espécies habitantes das baixas terras circunvizinhas. Assim , na Am érica do Sul, encontram -se espécies alpinas de aves-do-paraíso, roedores, plantas, etc., form as estas pertencendo a tipos estritam ente am ericanos; é evidente, com efeito, que um a m ontanha, durante o seu lento levantam ento, devia ter sido colonizada pelos habitantes das planícies adj acentes. E o m esm o acontece com os habitantes dos lagos e dos pântanos, com a reserva de que m aiores facilidades de dispersão têm contribuído para espalhar as m esm as form as em m uitas partes do m undo. Os caracteres da m aior parte dos anim ais cegos que povoam as cavernas da Am érica e da Europa, assim com o outros casos análogos oferecem os exem plos da aplicação do m esm o princípio. Quando em duas regiões, por afastadas que estej am um a da outra, se encontram m uitas espécies estreitam ente aliadas ou representativas, encontram -se igualm ente algum as espécies idênticas; por toda a parte onde se encontram m uitas espécies estreitam ente ligadas, encontram -se tam bém m uitas form as que certos naturalistas classificam com o espécies distintas e outros com o sim ples variedades; são, pois, dois pontos que, a m eu ver, não poderiam ser
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contestados; ora, estas form as duvidosas indicam -nos os graus sucessivos da m archa progressiva da m odificação.
Pode dem onstrar-se, de um a m aneira m ais geral, a relação que existe entre a energia e a extensão das m igrações de certas espécies, quer nos tem pos atuais, quer num a época anterior, e a existência de espécies estreitam ente aliadas em pontos do Globo m uito afastados entre si. M. Goul fez-m e notar, há m uito tem po, que os gêneros de aves espalhados em todo o orbe contêm num erosas espécies que têm um a distribuição m uito considerável. Não duvido da verdade geral desta asserção, que seria, todavia, difícil de provar. Os m orcegos e, em grau m enor, os felídeos e os canídeos disto nos oferecem entre os m am íferos um exem plo m arcante. A m esm a lei governa a distribuição das borboletas e dos coleópteros, bem com o a da m aior parte dos habitantes das águas doces, nos quais um grande núm ero de gêneros, pertencendo às classes m ais distintas, está espalhado em todo o m undo e encerra m uitas espécies apresentando igualm ente um a distribuição m uito extensa. Isto não é porque todas as espécies dos gêneros espalhados por toda a parte, tenham sem pre um a grande distribuição, nem m esm o tenham um a distribuição m édia m uito considerável, visto que esta distribuição depende m uito do grau das suas m odificações. Se, por exem plo, duas variedades de um a m esm a espécie habitam , um a a Am érica e a outra a Europa, a espécie terá um a vasta distribuição; m as, se a variação é ,im pelida a ponto de considerar as variedades com o espécies, a distribuição será logo m uito reduzida. Não podem os deixar de dizer que as espécies aptas a franquear barreiras e a espalhar-se ao longe, tais com o certas espécies de aves de vôo poderoso, têm necessariam ente um a distribuição m uito extensa, porque é necessário lem brar sem pre que a extensão de um a espécie im plica não som ente a aptidão a vencer obstáculos, porém , a faculdade bem m ais im portante de poder, num solo estranho, sustentar a luta pela existência contra as form as que o habitam . Mesm o na hipótese de todas as espécies de um m esm o gênero, se bem que atualm ente repartidas por diversos pontos do Globo quase sem pre m uito distantes uns dos outros, derivarem de um único antepassado, devíam os poder verificar, e verificam os geralm ente, com efeito, que algum as espécies pelo m enos apresentam um a distribuição considerável.
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Devem o-nos lem brar que m uitos gêneros em todas as classes são m uito antigos e que as espécies que contêm tiveram , por isso, am plam ente o tem po de se dissem inar e sofrer grandes m odificações ulteriores. Os docum entos geológicos parecem provar tam bém que os organism os inferiores, a qualquer classe que pertençam , m odificam -se m enos rapidam ente que aqueles que estão m ais elevados na escala; estes organism os têm , por conseguinte, m ais probabilidades de se dispersar m ais largam ente, conservando por com pleto os m esm os caracteres específicos. Dem ais, as sem entes e os ovos de quase todos os organism os inferiores são m uito pequenos, e por isso m ais próprios a ser transportados ao longe; estas duas causas explicam provavelm ente um a lei form ulada de há m uito e que Afonso de Candolle recentem ente discutiu no que respeita às plantas, a saber: quanto m ais baixo for na escala o lugar de um grupo de organism os, m ais a sua distribuição é considerável.
Todas as relações que acabam os de exam inar, isto é, a m aior dissem inação das form as inferiores, com parativam ente à das form as superiores; a distribuição considerável das espécies fazendo parte dos próprios gêneros m uito largam ente espalhados; as relações que existem entre as produções alpinas, lacustres, etc, e as que habitam as regiões baixas circunvizinhas; o íntim o parentesco que liga os habitantes das ilhas aos da terra firm e m ais próxim a; o parentesco m ais estreito ainda entre os habitantes distintos das ilhas que fazem parte do m esm o arquipélago, são outros tantos fatos que a teoria da criação independente de cada espécie não perm ite explicar; torna-se fácil com preendê-los se adm itirm os a colonização pela fonte m ais vizinha ou m ais acessível, j unta a um a adaptação ulterior dos im igrantes às condições da sua nova pátria.
RESUMO DESTE CAPÍTULO E DO ANTECEDENTE
As dificuldades que parecem opor-se à hipótese em virtude da qual todos os indivíduos da m esm a espécie, onde quer que se encontrem , derivam de pais com uns, são sem dúvida m ais aparentes que reais. Com efeito, ignoram os profundam ente quais são os efeitos precisos que podem resultar de alterações no
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clim a ou no nível de um país, alterações que são certam ente produzidas durante um Período recente, além de outras m odificações que foram m uito provavelm ente efetuadas; ignoram os igualm ente quais sej am os m eios eventuais de transporte que puderam entrar em j ogo; estam os autorizados, enfim , a supor, e é esta um a consideração m uito im portante, que um a espécie, depois de ter ocupado um a vasta região contínua por com pleto, pudesse estender-se em seguida em certas regiões interm ediárias. Além disso, várias considerações gerais e sobretudo a im portância das barreiras de toda a espécie e a distribuição análoga dos subgêneros, dos gêneros e das fam ílias, autorizam -nos a aceitar a doutrina adotada j á por m uitos naturalistas e que designavam com o nom e de centros únicos de criação. Quanto às espécies distintas do m esm o gênero que, segundo a m inha teoria, provêm da m esm a origem , a dificuldade, ainda que quase tão grande com o quando se trata da dispersão dos indivíduos da m esm a espécie, não é m ais considerável, se puserm os de parte o que ignoram os e tom arm os conta da lentidão com que certas form as se devem ter m odificado e do lapso de tem po im enso que pôde decorrer durante as suas m igrações. Com o exem plo dos efeitos que as alterações clim atéricas puderam exercer sobre a distribuição, procurei dem onstrar a im portância do papel desem penhado pelo últim o período glaciário, que atuou até às regiões equatoriais, e que, durante as alternativas de frio do norte ao sul, perm itiu a m istura das produções dos dois hem isférios opostos, e fez encalhar algum as, se nos podem os exprim ir assim , nos vértices das altas m ontanhas em todas as partes do m undo. Um a discussão um pouco m ais m inuciosa do m odo de dispersão das produções de água doce servium e para m ostrar a diversidade dos m odos acidentais de transporte. Tem os visto que nenhum a dificuldade insuperável im pede de adm itir que, sendo dado o curso prolongado de tem po, todos os indivíduos da m esm a espécie e todas as espécies do m esm o gênero derivam de um a fonte com um ; todos os principais fatos da distribuição geográfica se explicam , pois, pela teoria da m igração, com binada com a m odificação ulterior e a m ultiplicação de form as novas. Assim se explica a im portância capital das barreiras, quer de terra, quer de m ar, que não som ente separam , m as ainda circunscrevem as diversas províncias zoológicas e
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botânicas. Assim se explicam ainda a concentração das espécies aliadas nas m esm as regiões e o laço m isterioso que, em diversas latitudes, na Am érica Meridional por exem plo, as liga entre si bem Com o às form as extintas que outrora viveram no m esm o continente, os habitantes das planícies e das m ontanhas, os das florestas, dos pântanos e dos desertos. Se se pensar na alta im portância das relações m útuas de organism o para organism o, com preende-se facilm ente com o form as m uito diferentes habitam m uitas vezes duas regiões oferecendo quase as m esm as condições físicas; porque, o tem po desde que os im igrantes penetraram num a das regiões ou nas duas, a natureza das com unicações que têm facilitado a entrada de certas form as em m aior ou m enor núm ero e excluiu certas outras, a concorrência que as form as novas tiveram de sustentar quer entre si, quer com as form as indígenas, a aptidão, enfim , dos im igrantes a variar m ais ou m enos prontam ente, são outras tantas causas que deviam ter produzido nas duas regiões, independentem ente das condições físicas, condições de existência infinitam ente diversas. A som a das criações orgânicas ou inorgânicas devia ter sido quase infinita, e devem os encontrar, e encontram os com efeito, nas diversas m aiores províncias geográficas do Globo, alguns grupos de seres m uito m odificados, outros que o são m uito pouco, uns contêm um núm ero considerável de indivíduos, outros um núm ero m uito restrito.
Estes m esm os princípios, com o procurei dem onstrar, perm item -nos explicar a causa de a m aior parte dos habitantes das ilhas oceânicas ser, além de pouco num erosa, endêm ica ou privativa; a causa de, em razão da diferença dos m eios de m igração, um grupo de seres não encerrar m ais que espécies particulares, enquanto que as espécies de um outro grupo pertencente à m esm a classe são com uns a m uitas partes da terra. Torna-se fácil com preender com o grupos inteiros de organism os, tais com o os batráquios e os m am íferos terrestres, faltam nas ilhas oceânicas, enquanto que as m ais afastadas e as m ais isoladas possuem as suas espécies particulares de m am íferos aéreos ou m orcegos; que deve existir um a relação entre a existência, nas ilhas, de m am íferos num estado m ais ou m enos m odificado e a profundidade do m ar que separa estas ilhas da terra firm e; que todos os habitantes de um arquipélago, se bem que especificam ente distintos em
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cada pequena ilha, devem ser estreitam ente aliados uns aos outros, e aproxim arse igualm ente, m as de um a m aneira m enos estreita, daqueles que ocupam o continente ou o lugar de onde os im igrantes possam ter tirado a sua origem . Enfim , explicam os porque, se existem em duas regiões, Por distantes que sej am um a da outra, espécies estreitam ente aliadas ou representativas, aí se encontram quase sem pre tam bém algum as espécies idênticas.
Com o Edward Forbes o fez notar bem claram ente, existe, m uitas vezes, um paralelism o m arcante entre as leis da vida no tem po e no espaço. As leis que regularam a sucessão das form as nos tem pos passados são quase as m esm as que as que atualm ente determ inam as diferenças nas diversas zonas. Um grande. núm ero de fatos vêm em apoio desta hipótese. A duração de cada espécie ou de cada grupo de espécies é contínua no tem po; porque as exceções a esta regra são tão raras, que podem ser atribuídas a que não tem os ainda descoberto, nos depósitos interm ediários, certas form as que parece faltarem aí, m as que se encontram nas form ações superiores e inferiores. Da m esm a form a no espaço, é
regra geral que as regiões habitadas por um a espécie ou por um grupo de espécies sej am contínuas; as exceções, assaz num erosas em verdade, podem explicar-se, com o tentei dem onstrar, por antigas m igrações efetuadas em circunstâncias diferentes ou por m eios acidentais de transporte, ou pelo fato da extinção da espécie nas regiões interm ediárias. As espécies e os grupos de espécies têm o seu ponto de desenvolvim ento m áxim o, no tem po e no espaço. Grupos de espécies vivendo durante um m esm o período ou na m esm a zona, são m uitas vezes caracterizadas por traços insignificantes que lhes são com uns, tais, por exem plo, com o particularidades exteriores de form a e cor. Se considerarm os a longa sucessão das épocas passadas, ou as regiões entre si m uito afastadas à superfície do Globo, encontra-se que, em certas classes, as espécies diferem pouco um as das outras, enquanto que as de outra classe, ou m esm o as de um a fam ília distinta da m esm a ordem , diferem consideravelm ente tanto no tem po com o no espaço. Os m em bros inferiores de cada classe m odificam -se geralm ente m enos do que aqueles cuj a organização é m ais elevada; a regra apresenta toda via nos dois casos exceções características. Segundo a m inha teoria, estas diversas relações tanto
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no tem po com o no espaço, são m uito inteligíveis; porque, quer considerem os as form as aliadas que se m odificam durante idades sucessivas, quer as que se m odificaram depois de ter em igrado para regiões afastadas, as form as não são, nos dois casos, m enos ligadas entre si pelo laço ordinário da geração; nos dois casos, as leis da variação têm sido as m esm as, e as m odificações têm -se acum ulado, em virtude da m esm a lei, a seleção natural.