A Origem das Espécies
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
pos j á consideráveis para aum entar sem pre e divergir pelos seus caracteres, j unta à conseqüência quase inevitável de extinções freqüentes, explica o arranj o de todas as form as vivas em grupos subordinados a outros grupos, e todos com preendidos num pequeno núm ero de grandes classes, arranj o que prevaleceu em todos os tem pos. Este grande fato do agrupam ento de todos os seres organizados, pelo que se cham ou o sistem a natural, é absolutam ente inexplicável na hipótese das criações.
Com o a seleção natural atua som ente acum ulando variações ligeiras, sucessivas e favoráveis, não pode produzir m odificações consideráveis’ou súbitas; só pode agir a passos lentos e curtos. Esta teoria torna fácil de com preender o axiom a: Natura non facit saltum , que cada nova conquista da ciência m ostra logo todos os dias ser verdadeiro. Vem os ainda com o, em toda a natureza, o m esm o fim geral é atingido por um a variedade quase infinita de m eios; porque toda a particularidade, um a vez adquirida, é por m uito tem po hereditária, e conform ações diversificadas por m uitos m odos diferentes têm que adaptar-se ao m esm o fim geral. Vem os, num a palavra, porque a natureza é pródiga em variedades, sendo m uito avara em inovações. Ora, porque razão existiria esta lei se cada espécie fosse independentem ente criada? É o que ninguém saberia explicar. Um grande núm ero de outros fatos parecem explicar por esta teoria. Não é
estranho que um a ave tendo a form a do picanço se nutra de insetos terrestres; que um pato, habitando as terras elevadas e não nadando, ou pelo m enos raram ente, tenha os pés palm ados; que um a ave sem elhante ao m elro m ergulhe e se nutra de insetos subaquáticos; que um a procelária tenha hábitos e conform ação convenientes para a vida de um pingüim , e bem assim um conj unto de outros casos? Mas na hipótese de cada espécie se esforçar constantem ente em crescer em núm ero, enquanto que a seleção natural está sem pre pronta a atuar para adaptar os seus descendentes, lentam ente variáveis, • todo o lugar que, na natureza, está
desocupado ou im perfeitam ente preenchido, estes fatos cessam de ser extraordinários e eram m esm o de prever. Podem os com preender, até certo ponto, que haj a tanta beleza em toda a natureza; porque pode, em grande parte, atribuir-se esta beleza à intervenção da
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seleção. Esta beleza não concorda sem pre com as nossas idéias sobre o belo; basta, para nos convencerm os, considerar certas serpentes venenosas, certos peixes e certos m orcegos horrendos, ignóbeis caricaturas da face hum ana. A seleção sexual deu brilhantes cores, form as elegantes e outros ornam entos aos m achos e por vezes tam bém às fêm eas de m uitas aves, de borboletas e de diversos anim ais. Tornou m uitas vezes nas aves a voz do m acho harm oniosa para a fêm ea, e agradável m esm o para nós. As flores e os frutos, tornados vistosos, e ferindo pelas suas cores vivas num fundo verde de folhagem , atraem , um as os insetos, que se lhes avizinham , contribuindo para a sua fecundação, e outras as aves, que, devorando os frutos, concorrem para dissem inar as sem entes. Com o se faz que certas cores, certos tons e certas form as agradem ao hom em tanto com o aos anim ais inferiores, isto é, com o se faz que os seres vivos tenham adquirido o sentido da beleza na sua form a m ais sim ples? É o que não saberíam os dizer com o não saberíam os explicar o que prim itivam ente pôde dar encanto a certos olores e a certos sabores.
Com o a seleção natural atua em m eio da concorrência, não se adapta nem aperfeiçoa os anim ais de cada país senão relativam ente aos outros habitantes; não devem os, pois, de form a algum a adm irar-nos de que as espécies de um a região qualquer, espécies que se supõe, pela teoria ordinária, terem sido especialm ente criadas e adaptadas para esta localidade, sej am vencidas e substituídas por produtos vindos de outros países. Não devem os adm irar-nos, igualm ente, de que todas as com binações da natureza não sej am , no nosso ponto de vista, absolutam ente perfeitas, o olho hum ano, por exem plo, e m esm o que algum as sej am contrárias às nossas idéias de apropriação. Não devem os adm irar-nos de que o aguilhão da abelha cause m uitas vezes a m orte do indivíduo que o em prega; de que os m achos, neste inseto, sej am produzidos tam bém em grande núm ero para desem penhar um só ato, e sej am em seguida trucidados pelas suas irm ãs estéreis; do enorm e desperdício do pólen dos nossos pinheiros; do ódio instintivo que a abelha-m estra tem pelas filhas fecundas; de que o icnêum on se estabeleça no corpo vivo de um a lagarta e se nutra a expensas suas, e de tantos outros casos análogos. O que há realm ente de adm irável na teoria da seleção natural, é que se
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não tenham observado ainda m ais casos de deficiência da perfeição absoluta. As leis com plexas e pouco conhecidas que regulam a produção das variedades são, tanto quanto nós podem os avaliar, as m esm as que regem a produção das espécies distintas. Nos dois casos, as condições físicas parecem ter determ inado, num grau de que não podem os fixar a im portância, efeitos definidos e diretos. Assim , quando variedades chegam a um a nova estância, revestem ocasionalm ente alguns dos caracteres próprios às espécies que a ocupam . O uso e falta de uso parecem , tanto nas variedades com o nas espécies, ter produzido efeitos im portantes. É im possível não se ser levado a esta conclusão quando se considera, por exem plo, o pato de asas curtas (m icróptero), cuj as asas, incapazes de servir para o vôo, estão quase no m esm o estado que as do pato dom éstico; ou quando se vê
o tucu-tuco escavador (cténom y s), que é ocasionalm ente cego, e certas toupeiras que o são ordinariam ente e cuj os olhos são cobertos de um a película; enfim , quando se pensa nos anim ais cegos que habitam as cavernas escuras da Am érica e da Europa. A variação correlativa, isto é, a lei em virtude da qual a m odificação de um a parte do corpo arrasta a de diversas outras partes, parece tam bém ter desem penhado um papel im portante nas variedades e nas espécies; num as e noutras tam bém os caracteres desde há m uito perdidos estão suj eitos a reaparecer. Com o explicar, pela teoria das criações, a aparição ocasional das riscas sobre as espáduas e nas pernas das diversas espécies do gênero cavalo e seus híbridos?
Quão sim plesm ente, ao contrário, este fato se explica, se se adm itir que todas estas espécies derivam de um antecessor zebrado, da m esm a form a que as diferentes raças do pom bo dom éstico derivam do torcaz, com plum agem azul e listrada!
Se se aceita a hipótese ordinária da criação independente de cada espécie, porque razão é que os caracteres específicos, isto é, os que fazem diferir um as das outras as espécies do m esm o gênero, seriam m ais variáveis que os caracteres genéricos que são com uns a todas as espécies? Porque razão é que, por exem plo, a cor de um a flor estaria m ais suj eita a variar num a espécie de um gênero, do qual as outras espécies, que se supõem ter sido criadas de m odo independente, têm flores de diferentes cores, do que se todas as espécies do gênero tivessem flores da m esm a cor? Este fato explica-se facilm ente, se adm itirm os que
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as espécies são apenas variedades bem acentuadas, cuj os caracteres são tornados perm anentes num alto grau. Com efeito, tendo j á variado por certos caracteres desde a época em que divergiam da origem com um , o que produziu a sua distinção específica, esses m esm os caracteres estarão ainda m ais suj eitos a variar do que os caracteres genéricos, que, desde m ui longa data, continuaram a transm itir-se sem m odificações. É im possível explicar, pela teoria da criação, porque um ponto de organização, desenvolvido de um a m aneira inusitada num a espécie qualquer de um gênero e, por conseqüência, de grande im portância para esta espécie, com o podem os naturalm ente pensá-lo, é em inentem ente suscetível de variações. Pela m inha teoria, pelo contrário, este ponto é a sede, desde a época em que as diversas espécies se separam da fonte com um , de um a quantidade desabitual de variações e m odificações, e deve, por conseguinte, continuar a ser geralm ente variável. Mas um a parte pode desenvolver-se de um a m aneira excepcional, com o a asa de um m orcego, sem ser m ais variável que outra conform ação, se é com um a um grande núm ero de form as subordinadas, isto é, se se transm ite hereditariam ente durante um longo período; porque, em tal caso, torna-se constante devido a um a ação prolongada da seleção natural. Quanto aos instintos, por m ais m aravilhosos que m uitos sej am , a teoria da seleção natural das m odificações sucessivas, leves, m as vantaj osas, explica-os tão facilm ente com o explica a conform ação corporal. Podem os assim com preender a razão da natureza proceder por gradações para prover dos seus diferentes instintos os anim ais diversos de um a m esm a classe. Ensaiei dem onstrar quanta luz o princípio do aperfeiçoam ento gradual lança sobre os fenôm enos tão interessantes que nos apresentam as faculdades arquiteturais da abelha. Posto que, sem dúvida, o hábito desem penha um papel na m odificação dos instintos, não é todavia indispensável, com o o provam os insetos neutros, que não deixam descendentes para herdar efeitos de hábitos longam ente continuados. Na hipótese de todas as espécies de um m esm o gênero derivarem de um m esm o pai, de que herdaram um grande núm ero de pontos com uns, com preendem os que as espécies ligadas, colocadas em condições de existência m uito diferentes, tenham , contudo, quase os m esm os instintos; com preendem os, por exem plo, porque os m elros da Am érica
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Meridional tem perada e tropical forram o ninho com lam a, com o o fazem as nossas espécies inglesas. Não m ais nos devem os adm irar, segundo a teoria da lenta aquisição dos instintos pela seleção natural, que alguns sej am im perfeitos e suj eitos a erro, e que outros sej am um a causa de sofrim entos para outros anim ais. Se as espécies não são variedades bem determ inadas e perm anentes, podem os im ediatam ente com preender porque a sua posteridade híbrida obedece às m esm as leis com plexas que os descendentes de cruzam entos entre variedades reconhecidas relativam ente à sem elhança com seus pais, à sua absorção m útua em seguida a cruzam entos sucessivos, e sobre outros pontos. Esta sem elhança seria bizarra se as espécies fossem o produto de um a criação independente e as variedades fossem produzidas pela ação de causas secundárias. Se se adm ite que os docum entos geológicos são m uito im perfeitos, todos os fatos que daí dim anam vêm em apoio da teoria da descendência com m odificações. As espécies novas têm aparecido em cena lentam ente e com intervalos sucessivos; a som a das alterações operadas em períodos iguais é m uito diferente nos diversos grupos. A extinção das espécies e de grupos com pletos de espécies, que tem gozado um papel tão considerável na história do m undo orgânico, é a conseqüência inevitável da seleção natural; porque as form as antigas devem ser suplantadas pelas form as novas e aperfeiçoadas. Quando a cadeia regular das gerações é interrom pida, nem as espécies nem os grupos de espécies perdidas reaparecem j am ais. A difusão gradual das form as dom inantes e as lentas m odificações dos seus descendentes fazem que depois de longos intervalos de tem po as form as vivas pareçam ter sim ultaneam ente chegado a toda a Terra. O fato de os restos fósseis de cada form ação apresentarem , em certa escala, caracteres interm ediários, com parativam ente aos fósseis m ergulhados nas form ações inferiores e superiores, explica-se sim plesm ente pela situação interm édia que ocupam na cadeia genealógica. Este grande fato, de todos os seres extintos poderem ser agrupados nas m esm as classes que os seres vivos, é a conseqüência natural de que uns e outros dim anam de pais com uns. Com o as espécies têm geralm ente divergido em caracteres no longo curso da sua descendência e das suas m odificações, podem os com preender a razão de as form as m ais antigas, isto é, os an- 540
tecessores de cada grupo, ocuparem m uitas vezes um a posição interm édia, em certo grau, entre os grupos atuais. Consideram -se as form as novas com o sendo, em conj unto, geralm ente m ais elevadas na escala da organização do que as form as antigas; devem -no ser, além disso, porque são as form as m ais recentes e m ais aperfeiçoadas que, na luta pela existência, têm devido sobrepuj ar as form as m ais antigas e m enos perfeitas; os seus órgãos devem ter-se tam bém especializado m uito para desem penhar as suas diversas funções. Este fato é por com pleto com patível com o da persistência de seres num erosos, conservando ainda um a conform ação elem entar e pouco perfeita, adaptada às condições de existência sim ples; é tam bém com patível com o fato de a organização de algum as form as haver retrogradado, porque estas form as se têm sucessivam ente adaptado, em cada fase da sua descendência, às condições m odificadas de ordem inferior. Enfim , a lei notável da longa persistência de form as ligadas no m esm o continente - m arsupiais na Austrália, desdentados na Am érica Meridional, e outros casos análogos - com preende-se facilm ente, porque, num a m esm a região, as form as existentes devem ser estreitam ente ligadas às form as extintas por um laço genealógico. No que é concernente à distribuição geográfica, se adm itirm os que no decurso im enso de rem otos tem pos, houve grandes em igrações nas diversas partes do Globo, devidas a num erosas alterações clim atéricas e geológicas, bem com o a m eios num erosos, ocasionais e pela m aior parte desconhecidos de dispersão, a pluralidade dos fatos im portantes da distribuição geográfica torna-se inteligível pela teoria da descendência com m odificações. Podem os com preender o paralelism o tão m arcante que existe entre a distribuição dos seres organizados na espécie, e a sua sucessão geológica no tem po; porque, nos dois casos, os seres ligaram -se uns aos outros pelo laço da geração ordinária, e os m eios de m odificação foram os m esm os. Com preendem os toda a significação deste fato notável, o que im pressionou todos os viaj antes, isto é, que, no m esm o continente, nas condições m ais diversas, apesar do calor ou do frio, nas m ontanhas ou nas planícies, nos desertos ou nos pântanos, a m aior parte dos habitantes de cada grande classe têm entre si relações evidentes de parentesco; descendem , com efeito, dos m es- 541
m os prim eiros colonos, seus antepassados com uns. Em virtude deste m esm o princípio de em igração anterior, com binado na m aior parte dos casos com o da m odificação, e graças à influência do período glaciário, pode explicar-se a causa de se encontrarem nas m ontanhas m ais afastadas um as das outras e em zonas tem peradas de um e de outro hem isfério, algum as plantas idênticas e m uitas outras estreitam ente aliadas; com preendem os da m esm a form a a aliança estreita de alguns habitantes dos m ares tem perados dos dois hem isférios, que são, contudo, separados por todo o oceano tropical. Posto que duas regiões apresentem condições físicas tão sem elhantes quanto um a m esm a espécie possa desej á-las, não devem os adm irar-nos de os seus habitantes serem totalm ente diferentes, pois foram separados com pletam ente uns dos outros desde longo tem po; a relação do organism o é, com efeito, a m ais im portante de todas as relações, e com o as duas regiões devem ter recebido colonos vindos de fora, ou provenientes de um a e de outra, em diferentes épocas e em proporções diferentes, a m archa das m odificações nas duas regiões deve inevitavelm ente ser diferente. Na hipótese de em igrações seguidas de m odificações subseqüentes, tornase fácil com preender a causa de as ilhas oceânicas serem apenas povoadas por um núm ero restrito de espécies, e porque a m aior parte destas espécies são especiais ou endêm icas; porque não se encontram nestas ilhas espécies pertencendo aos grupos de anim ais que não podem atravessar largos braços de m ar, tais com o as rãs e os m am íferos terrestres; porque, por outra parte, se encontram nas ilhas m uito afastadas de todo o continente espécies particulares e novas de m orcegos, anim ais que podem atravessar o Oceano. Fatos tais com o a existência de todas as espécies de m orcegos nas ilhas oceânicas, com exclusão de todos os outros anim ais terrestres, são absolutam ente inexplicáveis pela teoria das criações independentes.
A existência de espécies aliadas ou representativas em duas regiões quaisquer im plica, segundo a teoria da descendência com m odificações, que as m esm as form as parentes habitaram outrora as duas regiões; encontram os, com efeito, quase invariavelm ente, que, quando duas regiões separadas são o habitat de m uitas espécies estreitam ente ligadas, algum as espécies idênticas são ainda
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com uns às duas. Por toda a parte onde se encontram m uitas espécies estreitam ente unidas, m as distintas, encontram -se tam bém form as duvidosas e variedades pertencendo aos m esm os grupos. Em regra geral, os habitantes de cada região têm laços estreitos de parentesco com os que ocupam a região que parece ter sido a fonte m ais aproxim ada daquela de onde os colonos podiam ter partido. Encontram os a prova nas relações m arcantes que se notam entre quase todos os anim ais e quase todas as plantas do arquipélago de Galápagos, de João Fernandes e outras ilhas am ericanas e as form as que povoam o continente am ericano vizinho. As m esm as relações existem entre os habitantes do arquipélago de Cabo Verde e das ilhas vizinhas e os do continente africano; ora, é necessário reconhecer que, segundo a teoria da criação, estas relações ficam inexplicáveis. Vim os que a teoria da seleção natural com m odificações, arrastando as extinções e a divergência dos caracteres, explica a razão de todos os seres organizados passados e presentes poderem dispor-se, num pequeno núm ero de grandes classes, em grupos subordinados a outros grupos, nos quais os grupos extintos se intercalam m uitas vezes entre os grupos recentes. Estes m esm os princípios m ostram tam bém a causa de as afinidades m útuas das form as serem , em cada classe, tão com plexas e tão indiretas; porque certos caracteres são m ais úteis que outros para a classificação; porque os caracteres de adaptação não têm quase im portância algum a para tal fim , posto que indispensáveis ao indivíduo; porque os caracteres derivados de partes rudim entares, sem utilidade para o organism o, podem m uitas vezes ter grande valor no ponto de vista da classificação; porque, enfim , os caracteres em briológicos são os que, a este respeito, têm freqüentem ente m ais valor. As verdadeiras afinidades dos seres organizados, ao contrário das suas sem elhanças de adaptação, são o resultado hereditário da com unhão de descendência. O sistem a natural é um arranj o genealógico, onde os graus de diferença são designados pelos term os variedades, espécies, gêneros, fam ílias, etc., de que nos é necessário descobrir as linhas com o auxílio dos caracteres perm anentes, quaisquer que possam ser e por m ais insignificante que sej a a sua im portância vital. A disposição sem elhante dos ossos na m ão hum ana, na asa do m orcego, 543
na barbatana do golfinho e na perna do cavalo; o m esm o núm ero de vértebras no pescoço da girafa e no do elefante; todos estes fatos e um núm ero infinito de outros sem elhantes explicam -se facilm ente pela teoria da descendência com Modificações sucessivas, lentas e ligeiras. A sem elhança de tipo entre a asa e a perna do m orcego, ainda que destinadas a usos tão diversos; entre as m axilas e as patas do escaravelho; entre as pétalas, os estam es e pistilos de um a flor, explica-se igualm ente em grande escala pela teoria da m odificação gradual das partes e dos órgãos que, num antepassado afastado de cada um a dessas classes, eram prim itivam ente sem elhantes. Vem os claram ente, segundo o princípio de que as variações sucessivas não sobrevêm sem pre num a idade precoce e apenas são hereditárias na idade correspondente, porque os em briões de m am íferos, de aves, de répteis e de peixes, são tão sem elhantes entre si e tão diferentes no estado adulto. Podem os cessar de nos m aravilhar de que os em briões de um m am ífero de respiração aérea, ou de um a ave, tenham fendas branquiais e artérias em rede, com o no peixe, que deve, por m eio de guelras bem desenvolvidas, respirar o ar dissolvido na água.
A falta de uso, aj udada algum as vezes pela seleção natural, deve m uitas vezes contribuir para reduzir órgãos tornados inúteis em seguida a alterações nas condições de existência ou nos hábitos; depois disto, é fácil com preender a significação dos órgãos rudim entares. Mas a falta de uso e a seleção atuam ordinariam ente sobre o indivíduo apenas quando é adulto e cham ado a tom ar um a parte direta e com pleta na luta pela existência, e têm , pelo contrário, som ente pequena ação sObre uM órgão nos prim eiros tem pos da vida; por conseguinte, um órgão inútil aparecerá som ente pouco reduzido e a custo rudim entar durante a prim eira idade. A vaca tem , por exem plo, herdado de um antepassado prim itivo, tendo dentes bem desenvolvidos, dentes que não perfuram j am ais a gengiva da m axila superior. Ora, podem os adm itir que os dentes desapareceram no anim al adulto devido à falta de uso, tendo a seleção natural adaptado adm iravelm ente a língua a abóbada do palatino e os lábios a pastar sem a aj uda dos dentes, enquanto que, na vitela, os dentes não têm sido afetados, e, em virtude do princípio de hereditariedade em idade correspondente, se têm transm itido desde um a rem ota época
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até os nossos dias. No ponto de vista da criação independente de cada ser organizado e de cada órgão especial, com o explicar a existência de todos estes órgãos tendo o cunho m ais evidente da m ais com pleta inutilidade, tais com o os dentes na vaca no estado em brionário, ou as asas com dobras que cobrem , num grande núm ero de coleópteros, os élitros soldados?
Pode-se afirm ar que a natureza se esforça por nos revelar, por m eio dos órgãos rudim entares, bem com o pelas conform ações em brionárias e hom ólogas, o seu plano de m odificações, que nos recusam os obstinadam ente a com preender. Acabo de recapitular os fatos e as considerações que profundam ente m e convenceram de que, durante um a longa série de gerações, as espécies se m odificaram . Estas m odificações efetuaram -se principalm ente pela seleção natural de num erosas variações ligeiras e vantaj osas; em seguida, os efeitos hereditários do uso e não uso das partes prestaram um poderoso concurso a esta seleção; enfim , a ação direta das condições do m eio e as variações que, em nossa ignorância, nos parecem surgir espontaneam ente, têm gozado tam bém um papel, m enos im portante, é verdade, pela sua influência sobre as conform ações de adaptação no passado e no presente. Parece que não tenho, nas precedentes edições desta obra, concedido um papel assaz im portante à freqüência e ao valor destas últim as form as de variação, não lhes atribuindo m odificações perm anentes de conform ação, independentem ente da ação da seleção natural. Mas, desde que as m inhas conclusões têm sido, recentem ente, fortem ente deturpadas, e desde que se tem afirm ado que atribuo as m odificações das espécies exclusivam ente à seleção natural, perm itir-se-m e-á, sem dúvida, fazer notar que, na prim eira edição desta obra, assim com o nas edições subseqüentes, sem pre reproduzi num a posição bem evidente, isto é, no fim da introdução, a frase seguinte: “Estou convencido que a seleção natural tem sido o agente principal das m odificações, m as j am ais o foi exclusivam ente”. Isto foi em vão, tão grande é o poder de um a constante e falsa dem onstração; todavia, a história da ciência prova felizm ente que não dura m uito tem po.
Não é possível supor que um a teoria falsa pudesse explicar, de m aneira tão
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satisfatória, com o o faz a teoria da seleção natural, as diversas grandes séries de fatos de que nos tem os ocupado. Tem -se recentem ente obj etado que está nisto um falso m étodo de raciocínio; m as é o que se em prega para apreciar os acontecim entos ordinários da vida, e os m aiores sábios não têm desdenhado em o seguir. É assim que se chega à teoria ondulatória da luz; e a crença da rotação da Terra no seu eixo só recentem ente encontrou o apoio de provas diretas. Não é
um a obj eção valiosa dizer que, no presente, a ciência não lança luz algum a sobre o problem a bem m ais elevado da essência ou da origem da vida. Quem pode explicar o que é a essência da atração ou da gravidade! Ninguém hoj e, contudo, se recusa a adm itir todas as conseqüências que ressaltam de um elem ento desconhecido, a atração, posto que Leibnitz tivesse outrora censurado Newton de ter introduzido na ciência « propriedades ocultas e m ilagres» . Não vej o razão algum a para que as opiniões desenvolvidas neste volum e firam o sentim ento religioso de quem quer que sej a. Basta, além disso, para m ostrar quanto estas espécies de im pressões são passageiras, lem brar que a m aior descoberta que o hom em tem feito, a lei da atração universal, foi tam bém atacada por Leibnitz, « com o subversiva da religião natural, e, nestas condições, da religião revelada» . Um eclesiástico célebre escrevia-m e um dia, « que tinha acabado por com preender que acreditar na criação de algum as form as capazes de se desenvolver por si m esm as noutras form as necessárias, é ter um a concepção bem m ais elevada de Deus, do que acreditar que houvesse necessidade de novos atos de criação para preencher as lacunas causadas pela ação das leis estabelecidas» . Pode-se perguntar a razão pela qual, até m uito recentem ente, os naturalistas e os geólogos m ais em inentes têm sem pre repelido a idéia da m utabilidade das espécies. Não se pode afirm ar que os seres organizados no estado de natureza não estão suj eitos a qualquer variação; não se pode provar que a som a das variações realizadas no decorrer do tem po sej a um a quantidade lim itada; não se tem podido e não se pode estabelecer distinção bem nítida entre as espécies e as variedades bem isoladas. Não se pode afirm ar que as espécies entrecruzadas sej am invariavelm ente estéreis, e as variedades invariavelm ente fecundas; nem que a esterilidade sej a um a qualidade especial e um sinal da criação. A crença na
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im utabilidade das espécies era quase inevitável, tanto que se não atribuía à história do Globo senão um a duração m uito curta, e agora, que tem os adquirido algum as noções do lapso de tem po decorrido, adm itim os prontam ente, e sem provas, que os docum entos geológicos são bastante com pletos para nos fornecer a dem onstração evidente da m utação das espécies, se essa m utação se realizou realm ente. Mas a causa principal da nossa repugnância natural em adm itir que um a espécie deu origem a outra espécie distinta é o estarm os sem pre pouco dispostos a adm itir um a grande alteração sem verm os os graus interm ediários. A dificuldade é a m esm a que a que tantos geólogos experim entaram quando Ly ell dem onstrou que as longas linhas de declive interiores, assim com o a escavação dos grandes vales, são o resultado de influências que vem os ainda agir em torno de nós. O
espírito não pode conceber toda a significação deste term o: um m ilhão de anos, nem saberia, dem ais, adicionar nem perceber os efeitos com pletos de m uitas variações ligeiras, acum uladas durante um núm ero quase infinito de gerações. Posto que estej a profundam ente convencido da verdade das opiniões que em breves palavras tenho exposto no presente volum e, não espero convencer certos naturalistas, m uito experim entados sem dúvida, m as que, desde longo tem po, estão habituados a ver um conj unto de fatos num ponto de vista diretam ente oposto ao m eu. É m uito fácil ocultar a nossa ignorância em expressões tais com o plano de criação, unidade de tipo, etc.; e pensar que nos explicam os quando apenas repetim os um m esm o fato. Aquele que tiver qualquer disposição natural a ligar m ais im portância a algum as dificuldades não resolvidas do que à explicação de um certo núm ero de fatos, rej eitará certam ente a m inha teoria. Alguns naturalistas dotados de um a inteligência aberta e j á disposta a por em dúvida a im utabilidade das espécies podem ser influenciados pelo conteúdo deste volum e, m as tenho m ais confiança no futuro, nos novos naturalistas, que poderão estudar im parcialm ente os dois lados da questão. Todo o que for levado a adm itir a im utabilidade das espécies prestará verdadeiros serviços exprim indo conscienciosam ente a sua convicção, porque som ente assim se poderá desem baraçar a questão de todos os preconceitos que a cercam .
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Alguns naturalistas em inentes exprim iram , recentem ente, a opinião de que há, em certos gêneros, um a m ultidão de espécies, consideradas com o tais, que não são, contudo, verdadeiras espécies; enquanto que há outras que são reais, isto é, que foram criadas de um a m aneira independente. É esta, m e parece, um a singular conclusão. Depois de terem reconhecido um conj unto de form as, que consideraram , m uito recentem ente ainda, com o criações especiais, que são ainda consideradas com o tais pela grande m aioria dos naturalistas, e que, conseqüentem ente, têm todos os caracteres exteriores de verdadeiras espécies, adm item que estas form as são o produto de um a série de variações e recusam estender esta m aneira de ver a outras form as um pouco diferentes. Não pretendem , contudo, poder definir, ou m esm o conj ecturar, quais são as form as que foram criadas e quais as que são produtos de leis secundárias. Adm item a variabilidade com o vera causa num caso, e rej eitam -na arbitrariam ente noutro, sem estabelecer qualquer distinção fixa entre os dois. O dia virá em que se poderão assinalar estes fatos com o um curioso exem plo da cegueira resultante de um a opinião preconcebida. Estes sábios não parecem adm irar-se m ais de um ato m iraculoso da criação do que de um a origem ordinária. Mas crêem eles realm ente que em inum eráveis épocas da história da Terra certos átom os elem entares receberam ordem de se agruparem em tecidos vivos? Adm item eles que em cada suposto ato de criação se tenha produzido um ou m uitos indivíduos? As espécies infinitam ente num erosas de plantas e anim ais terão sido criadas no estado de sem entes, de óvulos ou de perfeito desenvolvim ento? E, no caso dos m am íferos, terão essas espécies, depois da criação, trazido os indícios m entirosos da nutrição intra-uterina? A estas questões, os partidários da criação de algum as form as vivas ou de um a só form a não saberiam , sem dúvida, que responder. Diversos sábios têm sustentado que é
tão fácil acreditar na criação de centos de m ilhões de seres com o na criação de um só; m as em virtude do axiom a filosófico de a m enor ação, form ulado por Maupertuis, o espírito é levado m ais voluntariam ente a adm itir o m enor núm ero, e não podem os certam ente crer que um a quantidade inúm era de form as da m esm a classe tenham sido criadas com os sinais evidentes, m as enganosos, da sua descendência de um m esm o antepassado.
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Com o recordação de um estado de coisas anterior, tenho em pregado, nos parágrafos precedentes, m uitas expressões que im plicam nos naturalistas a crença na criação de cada espécie. Tenho sido m uito censurado de m e haver exprim ido assim ; m as era isto, sem dúvida algum a, a opinião geral quando da aparição da prim eira edição da obra atual. Discuti outrora com m uitos naturalistas sobre a evolução, sem encontrar j am ais o m enor testem unho sim pático. É provável, portanto, que alguns acreditassem na evolução, m as ficassem silenciosos, ou se exprim issem de um a m aneira de tal m odo am bígua, que não fosse fácil com preender a sua opinião. Hoj e, tudo m udou e quase todos os naturalistas adm item o grande princípio da evolução. Há, contudo, quem acredite ainda que as espécies têm subitam ente produzido, por m eios ainda inexplicáveis, form as novas totalm ente diferentes; m as, com o procurei aqui dem onstrar, há provas poderosas que se opõem a toda a adm issão destas m odificações bruscas e consideráveis. No ponto de vista científico, e m esm o conduzindo a estudos ulteriores, há apenas pouca diferença entre a crença de novas form as terem sido produzidas subitam ente de um a m aneira inexplicável pelas antigas form as m uito diferentes, e a velha crença na criação das espécies por m eio do barro. Até onde, poderão perguntar-m e, levais vós a vossa doutrina da m odificação das espécies? Eis um a pergunta à qual é difícil responder, porque, quanto m ais distintas são as form as que consideram os, m ais os argum entos em favor da com unhão de descendência dim inuem e perdem a sua força. Alguns argum entos, todavia, têm um peso considerável e alta im portância. Todos os m em bros de classes inteiras estão ligados uns aos outros por um a cadeia de afinidades, e podem todos, segundo um m esm o princípio, ser classificados em grupos subordinados a outros grupos. Os restos fósseis tendem por vezes a preencher as im ensas lacunas entre as ordens existentes. Os órgãos no estado rudim entar testem unham claram ente que existiram em estado desenvolvido num antepassado prim itivo; fato que, em alguns casos, im plica m odificações consideráveis nos descendentes. Em classes inteiras, conform ações m uito variadas são construídas sobre o m esm o plano, e os em briões m uito novos assem elham -se de perto. Não posso, pois, duvidar que a teoria da descen- 549
dência com m odificações não deva com preender todos os m em bros de um a m esm a grande classe ou de um m esm o reino. Creio que todos os anim ais derivam de quatro ou cinco form as prim itivas no m áxim o, e todas as plantas de um núm ero igual ou m esm o m enor.
A analogia conduzir-m e-ia a dar um passo a m ais, e seria levado a crer que todas as plantas e todos os anim ais derivam de um protótipo único; m as a analogia pode ser um guia enganador. Todavia, todas as form as da vida têm m uitos caracteres com uns: a com posição quím ica, a estrutura celular, as leis do crescim ento e a faculdade que têm de ser afetadas por certas influências nocivas. Esta susceptibilidade nota-se até nos fatos m ais insignificantes; assim , um m esm o veneno afeta m uitas vezes da m esm a m aneira as plantas e os anim ais; o veneno segregado pela m osca da galha determ ina na roseira brava ou no carvalho excrescências m onstruosas. A reprodução sexual parece ser essencialm ente sem elhante em todos os seres organizados, exceto talvez em alguns dos m ais ínfim os. Em todos, quanto o sabem os atualm ente, a vesícula germ inativa é tanto a m esm a; de m aneira que todos os seres organizados têm um a origem com um , Mas, se se consideram as duas divisões principais do m undo orgânico, isto é, o reino anim al e o reino vegetal, notam -se certas form as inferiores, bastante interm ediárias pelos seus caracteres, para que os naturalistas estej am em desacordo quanto ao reino a que devem ser ligados; e, assim com o o fez notar o professor Asa Gray, « os esporos e outros corpos reprodutores das algas inferiores podem j actar-se de ter a princípio um a existência anim al caracterizada, à qual sucede um a existência incontestavelm ente vegetal» . Por conseguinte, pelo princípio da seleção natural com divergência de caracteres, não parece im possível que os anim ais e as plantas tenham podido desenvolver-se partindo dessas form as inferiores e interm ediárias; ora, se adm itirm os este ponto, devem os adm itir tam bém que todos os seres organizados que vivem ou que viveram na Terra podem derivar de um a só form a prim ordial. Mas, sendo esta dedução sobretudo fundada na analogia, é indiferente que sej a aceite ou não. É, sem dúvida possível, assim com o o supõe M. G. H. Lewes, que nas prim eiras origens da vida m uitas form as diferentes tenham podido surgir; m as, se é assim , lícito nos é concluir que m uito poucas som ente deixaram
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descendentes m odificados; porque, assim com o o fiz notar recentem ente a respeito dos m em bros de cada grande classe, quais os vertebrados, os articulados, etc, encontram os nas suas conform ações em briológicas, hom ólogas e rudim entares a prova evidente de que os m em bros de cada reino derivam todos de um antepassado com um . Quando as opiniões que deixo expostas nesta obra, opiniões que M. Wallace tem sustentado tam bém no j ornal da Sociedade Lineana, e quando opiniões análogas sobre a origem das espécies forem geralm ente adm itidas pelos naturalistas, podem os prever que se produzirá na história natural um a revolução im portante. Os sistem atistas poderão continuar os seus trabalhos com o hoj e; m as não serão m ais constantem ente assediados por dúvidas quanto ao valor específico de tal ou tal form a, circunstância que, eu falo por experiência, não constituirá um ligeiro alívio. As disputas eternas sobre a especificidade de cinqüenta silvas britânicas cessarão. Os sistem atistas não terão m ais que decidir (o que, além disso, não será sem pre fácil), se um a form a qualquer é assaz constante ou assaz distinta de outras form as para qUe se Possa defini-la bem , e, neste caso, se essas diferenças são bastante im portantes para m erecer o nom e de espécie. Este últim o ponto m erecerá bem m ais alta consideração do que hoj e m erece, porque diferenças, por ligeiras que sej am , entre duas form as quaisquer que não ligam algum grau interm édio, são atualm ente tidas pelos naturalistas com o suficientes para j ustificar a sua distinção específica.
Serem os, m ais tarde, obrigados a reconhecer que a única distinção a estabelecer entre as espécies e as variedades bem caracterizadas consiste som ente em que se sabe ou se supõe que estas últim as estão atualm ente ligadas entre si por gradações interm ediárias, enquanto que as espécies deviam tê-lo sido outrora. Por conseguinte, sem deixar de tom ar em consideração a existência presente de graus interm ediários entre duas form as quaisquer, serem os levados a pesar com m ais cuidado a extensão real das diferenças que as separam , e atribuir-lhes um m aior valor. É m uito possível que form as, hoj e reconhecidas com o sim ples variedades, sej am m ais tarde j ulgadas dignas de um nom e específico; nesse caso, a linguagem científica e a linguagem ordinária encontram -se de acordo. Em breve,
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terem os de tratar a espécie da m esm a m aneira com o os naturalistas tratam atualm ente os gêneros, isto é, com o sim ples com binações artificiais, inventadas para m aior com odidade. Esta perspectiva não é talvez consoladora, m as desem baraçar-nos-em os, pelo m enos, de pesquisas inúteis às quais dá lugar a explicação absoluta, ainda não encontrada e encontrável, do term o espécie. Os outros ram os m ais gerais da história natural adquirirão ainda m ais interesse. Os term os: afinidade, parentesco, com unhão, tipo, paternidade, m orfologia, caracteres de adaptação, órgãos rudim entares e atrofiados, etc., que em pregam os naturalistas, cessarão de ser m etáforas e tom arão um sentido absoluto. Quando não olharm os para um ser organizado com o um selvagem olha para um navio, isto é, com o qualquer coisa que a nossa inteligência não alcança; quando virm os em toda a produção um organism o de que a história é m uito antiga; quando considerarm os cada conform ação e cada instinto com plicados com o o resum o de um conj unto de com binações todas vantaj osas ao seu possuidor, da m esm a m aneira que toda a grande invenção m ecânica é a resultante do trabalho, da experiência, da razão, e m esm o erros de um grande núm ero de obreiros; quando espreitarm os o ser organizado neste ponto de vista, quanto, e falo por experiência própria, não ganhará em interesse o estudo da história natural!