A Paciente Silenciosa

Alex Michaelides · Capítulo 16 de 74

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A Paciente Silenciosa

Capítulo 4

 

— Olá, Alicia.

Poucos dias haviam se passado desde a diminuição da medicação, mas a diferença já era visível em Alicia. Seus movimentos pareciam mais fluidos. Seus olhos estavam mais nítidos. O olhar enevoado se fora. Parecia outra pessoa.

De pé à porta com Yuri, ela hesitou. Alicia me encarava como se me visse com clareza pela primeira vez, me avaliando, digerindo o que via. Eu me perguntava a que conclusão estaria chegando. Por fim, ela considerou que era seguro e entrou. Sem precisar de convite, sentou-se.

Fiz um gesto para que Yuri se retirasse. Ele refletiu por um segundo, então fechou a porta ao sair.

Eu me sentei de frente para Alicia. Houve um momento de silêncio. Apenas o barulho constante da chuva lá fora, gotas tamborilando na janela. E, por fim, perguntei:

— Como você está se sentindo?

Silêncio. Alicia me encarava. Os olhos pareciam lâmpadas, sem piscar.

Abri a boca e voltei a fechá-la. Estava decidido a resistir à tentação de preencher o vazio falando. Em vez disso, me limitando a ficar em silêncio na sua presença eu esperava comunicar algo diferente, algo não verbal: que estava tudo bem se ficássemos apenas sentados daquele jeito, que eu não iria machucá-la, que ela podia confiar em mim. Para conseguir fazer Alicia falar, eu precisava conquistar sua confiança. O que levaria tempo, nada poderia ser feito da noite para o dia. O processo avançaria lentamente, como uma geleira, mas avançaria.

Enquanto estávamos os dois lá sentados em silêncio, minhas têmporas começaram a latejar. Um princípio de dor de cabeça. Um sintoma revelador. Pensei em Ruth, que costumava dizer que: “Um bom terapeuta precisa ser receptivo aos sentimentos do paciente, mas sem se apegar a eles. Os sentimentos não são dele, não pertencem a ele.” Em outras palavras, aquelas pancadas na minha cabeça não eram uma dor minha; ela pertencia a Alicia. E a súbita onda de tristeza, o desejo de morrer, morrer, simplesmente morrer, tampouco me pertencia. Era dela, tudo dela. E fiquei lá, sentindo por Alicia, a cabeça latejando, o estômago embrulhado, pelo que pareceram horas

intermináveis. Até que os cinquenta minutos chegaram ao fim.

Olhei para o relógio.

— Agora precisamos encerrar.

Alicia baixou a cabeça, olhando para o colo. Hesitei. E sem querer abandonei as minhas reservas. Baixando a voz, falei de coração:

— Eu quero ajudar você, Alicia. Preciso que acredite nisso. A verdade é que quero ajudar você a ver o mundo com clareza.

Com isso, Alicia ergueu o olhar. Ela olhou para mim — através de mim.

Você não tem como me ajudar, clamavam seus olhos. Imagina só, você mal consegue ajudar a si mesmo. Você finge saber tanta coisa e ser tão esperto, mas você é que devia estar sentado aqui no meu lugar. Você é louco. Uma fraude. Um mentiroso. Mentiroso...

Enquanto Alicia me encarava, caiu a ficha do que havia me deixado perturbado a sessão inteira. É difícil encontrar palavras para descrever isso, mas um terapeuta rapidamente aprende a reconhecer o sofrimento mental por meio do comportamento físico, da fala e de certo brilho no olhar — uma apreensão, um medo, uma loucura. E era o que estava me incomodando: apesar daqueles anos de medicação, de tudo que havia feito e suportado, os olhos azuis de Alicia continuavam claros e límpidos feito um dia de verão. Ela não estava louca. O que havia, então? Que expressão era aquela em seus olhos? Qual seria a palavra exata? Era...

Antes que eu pudesse concluir o raciocínio, Alicia pulou da cadeira. Ela se lançou sobre mim, as mãos estendidas feito garras. Não tive tempo de me mover ou sair da frente. Ela caiu em cima de mim, me fazendo perder o equilíbrio. E fomos ao chão.

A parte de trás da minha cabeça bateu na parede com um baque. Ela

segurou a minha cabeça e bateu com ela na parede de novo e de novo, e começou a me arranhar e me dar tapas — precisei reunir todas as minhas forças para me desvencilhar dela.

Eu me arrastei pelo chão e estiquei o braço para o tampo da mesa. Tateei-o até encontrar o alarme. Quando meus dedos conseguiram segurá-lo, Alicia pulou em cima de mim e o arrancou da minha mão.

— Alicia...

Seus dedos apertavam meu pescoço, me sufocando — e eu tentava reaver o alarme, sem alcançá-lo. Suas mãos pressionavam cada vez mais; eu não conseguia respirar. Fiz outra tentativa de pegar o alarme e então consegui agarrá-lo. E o acionei.

Um apito agudo imediatamente se fez ouvir, praticamente me ensurdecendo. Mas ao longe ouvi o som de uma porta se abrindo e Yuri pedindo ajuda. Alicia foi contida e arrastada para longe de mim, liberando minha garganta, enquanto eu ofegava.

Foram necessários quatro enfermeiros para conter Alicia. Ela se contorcia e chutava e lutava como se estivesse possuída. Não parecia humana, mas um animal selvagem; algo monstruoso. Christian apareceu e a sedou. E ela ficou inconsciente.

Enfim, houve silêncio.