A Paciente Silenciosa
Capítulo 3
Christian ficou olhando para mim, brincando com os hashis. Refletiu por alguns segundos antes de falar.
— Não tem muito o que contar. Não sei o que você quer saber... Ou por onde quer que eu comece.
— Comece do começo. Você atendeu Alicia durante alguns anos?
— Não... Quer dizer, sim... Mas eu já disse: não com a frequência que você está imaginando. Estive com ela duas ou três vezes depois da morte do pai.
— Quando foi a última vez?
— Mais ou menos uma semana antes do crime.
— E como você descreveria o estado mental dela?
— Ah... — Christian se recostou na cadeira, relaxando, agora que estava num terreno mais seguro. — Ela estava altamente paranoica, delirante... Até mesmo psicótica. Mas isso já tinha acontecido antes. Há muito tempo ela apresentava esse padrão de alterações de humor. Sempre num extremo ou no outro... Típica borderline.
— Por favor, me poupe dessa merda de diagnóstico. Eu só quero os fatos.
Christian me encarou parecendo ofendido, mas decidiu não discutir.
— O que você quer saber?
— Alicia contou que estava sendo vigiada, certo?
O olhar de Christian não esboçou nenhuma reação.
— Vigiada?
— Tinha alguém espionando a casa dela. Ela não comentou isso com você?
Seu rosto exibia certa estranheza. E então, para minha surpresa, Christian riu.
— Qual é a graça?
— Você acreditou nessa história? Um voyeur olhando pela janela?
— Você acha que não era verdade?
— Pura fantasia. Eu achei que fosse óbvio.
Fiz um gesto com a cabeça indicando o diário.
— Ela parece bastante convincente. Eu acreditei.
— Claro que é convincente. Eu também teria acreditado se não soubesse o que estava acontecendo. Ela estava no meio de um surto psicótico.
— É o que você não para de repetir. Mas no diário ela não parece psicótica. Só apavorada.
— Ela tinha um histórico... A mesma coisa tinha acontecido antes de eles se mudarem para Hampstead. Foi o motivo da mudança. Ela acusou um senhor que morava em frente de ficar espionando. Criou um caso daqueles. No fim das contas o velhinho era cego... Ele não conseguia ver ninguém, quanto mais espionar. Alicia estava sempre muito instável, mas foi o suicídio do pai que provocou tudo. Ela nunca mais se recuperou.
— E ela falava dele nas conversas com você? Do pai.
Christian deu de ombros.
— Não muito. Ela dizia sempre que o amava e que os dois tinham uma relação perfeitamente normal... Normal na medida do possível, considerando que a mãe tinha se matado. Para ser franco, eu tive mesmo foi sorte de conseguir extrair alguma coisa de Alicia. Ela não cooperava em nada. Ela era... Bom, você sabe como ela é.
— Não tanto quanto você, pelo visto. — Antes que ele pudesse me interromper, prossegui: — Ela tentou se matar depois da morte do pai?
Christian deu de ombros.
— Se quiser chamar assim... Não é o que eu diria.
— E o que você diria?
— Era um comportamento suicida, mas não acredito que ela quisesse morrer. Alicia era narcisista demais para de fato fazer mal a si mesma. Ela tomou uma overdose, mas na verdade era mais para chamar a atenção que qualquer outra coisa. Estava “comunicando” seu sofrimento para Gabriel, ela estava sempre tentando conseguir a atenção dele, pobre-coitado. Se eu não tivesse que respeitar a confidencialidade entre médico e paciente, eu teria falado para Gabriel cair fora.
— Uma pena para ele que você fosse tão ético.
Christian se retraiu.
— Theo, eu sei que você é capaz de ter muita empatia, justamente por isso você é um terapeuta tão bom, mas está perdendo tempo com Alicia Berenson. Mesmo antes do crime, ela já tinha pouquíssima capacidade de introspecção, ou mentalização, ou como quiser chamar. Ela era completamente absorta, em si mesma e em sua arte. Toda essa empatia que você tem por ela, toda essa bondade... Alicia não é capaz de retribuir. Ela é um caso perdido. Uma grande escrota.
Christian disse isso com desdém, sem nenhuma empatia por uma mulher com tantos problemas. Por um segundo, me perguntei se ele é que não seria o borderline. O que faria muito mais sentido.
Levantei.
— Vou falar com Alicia. Preciso de algumas respostas.
— De Alicia? — Christian parecia perplexo. — E como você pretende conseguir isso?
— Perguntando a ela.
E saí.