A Paciente Silenciosa
Quarta Parte
O objetivo da terapia não é consertar o passado, mas permitir que o paciente enfrente sua própria história e sinta sua dor.
ALICE MILLER
CAPÍTULO 1
Fechei o diário de Alicia e o coloquei na minha mesa.
Fiquei lá sentado, sem me mexer, ouvindo a chuva bater na janela. Eu tentava digerir o que tinha acabado de ler. E evidentemente havia muito mais a entender sobre Alicia Berenson do que eu imaginava. Antes ela era como um livro fechado para mim; agora o livro estava aberto e o conteúdo me pegou totalmente de surpresa.
Eu tinha muitas perguntas. Alicia achava que estava sendo vigiada. Será que ela chegou a descobrir quem era o tal homem? Ela contou a alguém? Eu precisava descobrir. Pelo que eu sabia, ela só confiou a informação a três pessoas: Gabriel, Barbie e esse misterioso dr. West. Teria parado por aí ou contou a mais alguém? Outra pergunta: por que o diário terminava de maneira tão abrupta? Haveria algo mais, escrito em outro lugar? Outro caderno de anotações que não chegou a me entregar? E eu também me perguntava o que ela pretendia ao me entregar o diário. Alicia queria dizer alguma coisa, com toda certeza — e era uma revelação tão íntima que era quase chocante. Seria um gesto de boa vontade, para mostrar que confiava em mim? Ou algo mais sinistro?
E havia mais uma coisa que eu precisava verificar: o dr. West, o médico que tratava de Alicia. Uma importante testemunha de caráter, com informações vitais sobre seu estado mental na época do crime. Mas ele não tinha prestado depoimento no julgamento de Alicia. Por quê? Nem chegou a ser mencionado. Antes de ver seu nome no diário dela, era como se ele não existisse. E o que poderia ter chegado ao seu conhecimento? Por que ele não havia se manifestado?
Dr. West.
Não podia ser a mesma pessoa. Só podia ser coincidência. Eu precisava descobrir.
Botei o diário na gaveta da minha mesa e a tranquei. Mas quase imediatamente mudei de ideia. Destranquei a gaveta e peguei o diário. Melhor ficar com ele — mais seguro não perdê-lo de vista. Coloquei-o no bolso do casaco.
Saí da minha sala. Desci a escada e percorri o corredor até chegar à última porta.
Parei por um momento, olhando para a porta. Havia uma placa com um nome: DR. C. WEST.
Nem sequer me dei ao trabalho de bater. Abri a porta e entrei.