A Paciente Silenciosa

Alex Michaelides · Capítulo 21 de 74

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A Paciente Silenciosa

Capítulo 9

 

Ruth me levou à sala de estar.

— Aceita uma xícara de chá?

A sala ainda era como sempre foi, como me lembrava que era: o tapete, as cortinas pesadas, o relógio de prata tiquetaqueando na lareira, a poltrona, o sofá azul desbotado. Eu me senti bem imediatamente.

— Para ser franco, eu gostaria de algo mais forte.

Ruth me dirigiu um breve olhar penetrante, mas não disse nada. Nem recusou a minha sugestão, como eu em parte esperava.

Serviu uma taça de xerez e me entregou. Eu me sentei no sofá. A força do hábito me levou a sentar onde sempre sentava na terapia, no canto esquerdo, repousando o braço no braço do sofá. O tecido debaixo dos meus dedos estava desgastado por causa dos muitos pacientes que o cutucavam em sua ansiedade, entre eles eu.

Tomei um gole do xerez. Quente, doce e meio enjoativo, mas bebi tudo, ciente de que Ruth me observava o tempo todo. Seu olhar era óbvio mas não pesava nem incomodava; em vinte anos, Ruth jamais fora capaz de fazer com que eu me sentisse desconfortável. Não voltei a falar até terminar o xerez, deixando a taça vazia.

— É estranho estar sentado aqui com uma taça na mão. Eu sei que você não costuma oferecer bebida aos pacientes.

— Você não é mais meu paciente. Só um amigo, e, pelo que parece — acrescentou gentilmente —, está precisando de uma amiga no momento.

— Eu pareço tão mal assim?

— Infelizmente sim. E deve ser sério, caso contrário você não apareceria

desse jeito. Certamente não às dez da noite.

— Você tem razão. Eu achei... Eu achei que não tinha escolha.

— O que foi, Theo? O que aconteceu?

— Eu nem sei como dizer. Não sei por onde começar.

— Que tal do começo?

Fiz que sim. Respirei fundo e comecei. Contei tudo que havia acontecido; sobre ter voltado à maconha, que estava fumando escondido e que, assim, tinha acabado descobrindo os e-mails de Kathy e sua traição. Falava rápido, ofegante, querendo tirar aquilo do peito. Tinha a sensação de estar me confessando.

Ruth ouviu até o fim sem me interromper. Era difícil interpretar sua expressão. Por fim, ela disse:

— Eu lamento que isso tenha acontecido, Theo. Sei o quanto Kathy significa para você. O quanto a ama.

— Sim. Eu amo... — E me detive, sem conseguir dizer seu nome. Minha voz tremia. Ruth entendeu e me estendeu a caixa de lenços de papel. Eu sempre reclamava quando ela fazia isso nas nossas sessões; eu a acusava de querer me fazer chorar. E, em geral, ela conseguia. Mas não dessa vez. Minhas lágrimas estavam congeladas. Um reservatório de gelo.

Eu já me tratava com Ruth fazia muito tempo quando conheci Kathy, e dei prosseguimento à terapia nos três primeiros anos da nossa relação. Eu me lembro do conselho que Ruth me deu quando Kathy e eu nos conhecemos: “Escolher um parceiro num relacionamento amoroso é muito parecido com escolher um terapeuta. Temos que nos perguntar se a pessoa vai ser honesta com a gente, capaz de ouvir críticas, reconhecer erros e não prometer o impossível.”

Na época, eu repeti isso para Kathy, e ela propôs que fizéssemos um pacto. Juramos nunca mentir um para o outro. Nunca fingir. Sermos sempre honestos.

— O que foi que aconteceu? — questionei. — O que deu errado?

Ruth hesitou antes de responder. E o que ela disse me surpreendeu.

— Eu desconfio que você saiba a resposta, se tiver coragem de admiti-la.

— Eu não sei. — Balancei a cabeça. — Não mesmo.

E, indignado, mergulhei no silêncio — mas de repente me veio a imagem de Kathy escrevendo aqueles e-mails, tão apaixonados e carregados de

emoção, como se ficasse drogada com o simples fato de os escrever, com a natureza secreta da relação com aquele homem. Ela gostava de mentir e se esconder: era como representar, só que fora do palco.

— Eu acho que ela está entediada — falei, por fim.

— Por que você diz isso?

— Porque ela precisa de emoção. Drama. Sempre precisou. Ela tem reclamado, acho que já tem um tempo, de que a gente não se diverte mais, de que eu estou sempre estressado, de que eu trabalho demais. Isso foi motivo de briga recentemente. Ela ficava falando de chama.

— Chama?

— Querendo dizer que não havia mais uma. Entre nós.

— Ah. Entendo. — Ruth fez que sim com a cabeça. — Já falamos disso antes, não é?

— Sobre essa chama?

— Sobre o amor. Que muitas vezes confundimos amor com essa chama, com o drama, com o desequilíbrio. Mas o verdadeiro amor é tranquilo, silencioso. Tedioso, se encarado do ponto de vista da intensidade dramática. O amor é profundo e calmo... E constante. Acredito que você de fato dê amor a Kathy, no verdadeiro sentido da palavra. Outra coisa é saber se ela é capaz de pagar na mesma moeda.

Fiquei olhando para a caixa de lenços na mesa à minha frente. Não estava gostando do rumo que Ruth dava à conversa. Tentei desviá-lo.

— Os dois lados têm culpa. Eu também menti para ela. A maconha.

Ruth abriu um sorriso triste.

— Não sei se traição de forma constante, envolvendo-se sexual e emocionalmente com outro ser humano, está no mesmo patamar de ficar chapado de vez em quando. Acho que revela um tipo muito diferente de indivíduo, alguém capaz de mentir reiteradas vezes e de mentir bem, capaz de trair o parceiro sem sentir remorso...

— Você não tem como saber isso. — Eu soei tão patético quanto me sentia. — Ela pode estar se sentindo péssima.

Mas mesmo ao dizê-lo eu não acreditei nisso.

Tampouco Ruth.

— Imagino que não seja o caso. O comportamento de Kathy indica que ela tem muitos problemas: nenhuma empatia nem integridade, ou mesmo pura e

simples bondade... Qualidades que você tem de sobra.

Balancei a cabeça.

— Isso não é verdade.

— É verdade, Theo. — Ruth hesitou. — Você não acha que talvez já tenha passado por isso?

— Com Kathy?

Ruth acenou negativamente com a cabeça.

— Não foi isso que eu quis dizer. Com os seus pais. Quando você era mais jovem. Se por acaso não estaria repetindo aqui uma dinâmica da sua infância.

— Não. — De repente, fiquei irritado. — O que está acontecendo com Kathy não tem nada a ver com a minha infância.

— É mesmo? — Ruth parecia descrente. — Tentar agradar uma pessoa imprevisível, sem disponibilidade emocional, indiferente, cruel... Tentar fazê-la feliz, conquistar o seu amor... Essa não é uma história antiga, Theo? Uma história familiar?

Cerrei o punho e não disse nada.

Hesitante, Ruth prosseguiu:

— Eu sei o quanto você está se sentindo triste. Mas quero que considere a possibilidade de ter sentido essa tristeza muito antes de conhecer Kathy. Uma tristeza que vem carregando há muitos anos. Você sabe, Theo, que uma das coisas mais difíceis de admitir é que não fomos amados quando mais precisávamos. É um sentimento terrível, a dor de não ser amado.

Ruth tinha razão. Eu buscava as palavras certas para expressar esse sentimento confuso de traição, essa dor terrível e vazia, e, ao ouvir Ruth dizer — “a dor de não ser amado” —, percebi como isso impregnava toda a minha consciência, sendo ao mesmo tempo a história do meu passado, do meu presente e do meu futuro. Isso não tinha só a ver com Kathy, mas com meu pai e meus sentimentos de abandono na infância; minha dor por tudo que nunca tivera e, bem lá no fundo do coração, ainda achava que jamais teria. Ruth estava dizendo que por isso eu havia escolhido Kathy. Que melhor maneira eu teria de provar que meu pai estava certo — que eu não valho nada, que não mereço ser amado —, senão indo atrás de alguém que jamais me amará?

Mergulhei a cabeça nas mãos.

— Então tudo isso era inevitável? É isso que você está dizendo? Eu mesmo

armei tudo? Tudo está perdido?

— Não está perdido. Você não é mais um menino à mercê do pai. É um adulto e pode fazer escolhas. Você pode usar tudo isso como mais uma confirmação de que não tem valor ou romper com o passado. Se libertar do círculo vicioso.

— E o que eu faço? Você acha que devo terminar com ela?

— Eu acho que é uma situação muito difícil.

— Mas você acha que eu devo terminar com ela, não é?

— Você já avançou demais e lutou muito para agora voltar a ter uma vida de desonestidade, negação e abuso emocional. Você merece alguém que o trate melhor, muito melhor...

— É só dizer, Ruth. Me diz. Você acha que eu deveria dar um fim a isso.

Ruth olhou bem nos meus olhos. Ela encarou meu olhar.

— Eu acho que você tem que dar um fim a isso. E não digo isso como sua antiga terapeuta, mas como velha amiga. Não acho que as coisas possam voltar a ser como antes, ainda que quisesse. Talvez durasse um pouco, mas daqui a alguns meses algo mais vai acontecer e você vai estar de novo aqui nesse sofá. Seja honesto com você mesmo, Theo, com relação a Kathy e a essa situação, e tudo que se construiu sobre mentiras e inverdades vai se afastar de você. Lembre-se: um amor que não inclui a honestidade não merece ser chamado de amor.

Suspirei, vazio, deprimido e cansado.

— Obrigado, Ruth, por sua sinceridade. Significa muito para mim.

Ela me abraçou ao se despedir à porta. Nunca tinha feito isso antes. Parecia frágil nos meus braços, com seus ossos tão delicados; respirei naquele leve perfume floral e na lã do seu casaco, e outra vez tive vontade de chorar. Mas não chorei, ou não consegui chorar.

O que fiz foi me afastar, sem me virar.

Peguei um ônibus de volta para casa. Sentado à janela, olhava para fora, pensando em Kathy, na sua pele branca, naqueles lindos olhos verdes. E sentia um desejo enorme — da doçura dos seus lábios, da sua suavidade. Mas Ruth estava certa. Um amor sem honestidade não merece ser chamado de amor.

Eu tinha que voltar para casa e confrontar Kathy.

Eu tinha que deixá-la.