A Paciente Silenciosa
Capítulo 7
— A sensação é outra se comparada à última vez — comentei.
Nenhuma reação.
Alicia estava sentada à minha frente, a cabeça ligeiramente voltada para a janela. Imóvel, a coluna rígida e ereta. Parecia uma violoncelista. Ou um soldado.
— Estou me referindo ao fim da última sessão. Quando você me agrediu e teve que ser contida.
Silêncio. Hesitei.
— Fico me perguntando se foi uma forma de me testar. Para ver como eu reagiria. Acho importante você saber que eu não me deixo intimidar com facilidade. Eu encaro qualquer coisa que vier de você.
Alicia olhava para o céu cinzento para além da grade da janela. Esperei um momento.
— Preciso dizer uma coisa a você, Alicia. Eu estou do seu lado. Espero que um dia você acredite nisso. Claro que leva tempo para se estabelecer uma relação de confiança. Minha antiga terapeuta costumava dizer que, para se ter intimidade, é preciso sentir repetidas vezes que encontramos correspondência na outra pessoa, o que não acontece da noite para o dia.
Alicia agora olhava fixamente para mim, sem piscar, um olhar impenetrável. Minutos se passaram. Parecia mais um teste de resistência que uma sessão de terapia.
Aparentemente eu não estava avançando em direção nenhuma. Talvez não houvesse esperança mesmo. Christian teve razão ao lembrar que os ratos abandonam o navio que está afundando. O que diabos eu pretendia escalando
aquela carcaça naufragada, agarrado ao mastro, pronto para me afogar?
A resposta estava sentada diante de mim. Como disse Diomedes, Alicia era uma sirena muda, me atraindo para minha ruína.
De repente, fui dominado pelo desespero. Eu quis gritar: Diz alguma coisa. Qualquer coisa. Fala.
Mas não disse nada disso. O que fiz foi romper com a tradição terapêutica. Parei de pisar em ovos e fui direto ao ponto.
— Gostaria de falar do seu silêncio. Do que significa... Do que pode significar. E especificamente por que você parou de falar.
Alicia baixou o olhar. Ela ao menos estava me ouvindo?
— Enquanto a gente está aqui, uma imagem me ocorre constantemente: uma pessoa mordendo o punho, contendo um grito, engolindo um berro. Lembro que, quando comecei a fazer terapia, eu achava muito difícil chorar. Tinha medo de ser levado por uma torrente, de não conseguir resistir a ela. Talvez você esteja se sentindo assim. Por isso é importante esperar até se sentir segura e acreditar que não vai estar sozinha nessa torrente, que eu estou aqui para acompanhar você.
Silêncio.
— Eu me considero um terapeuta relacional. Você sabe o que isso significa?
Silêncio.
— Significa que eu acho que Freud estava equivocado em alguns pontos. Eu não acredito que o terapeuta possa ser um quadro em branco, como ele pretendia que fosse. Sem querer, a gente deixa transparecer todo tipo de informação a nosso respeito: a cor das meias, a maneira como me sento ou falo. Só de estar aqui sentado com você, estou revelando muito sobre mim. Por mais que me esforce para ser invisível, estou mostrando a você quem eu sou.
Alicia ergueu o olhar. Ela me encarou, o queixo levemente inclinado — haveria um desafio naquele olhar? Enfim eu merecia sua atenção. Me ajeitei na cadeira.
— A questão é saber o que fazer a respeito disso. A gente pode ignorar, negar e fingir que a terapia é toda sobre você. Ou então reconhecer que essa é uma via de mão dupla e trabalhar nesse sentido. E aí então de fato a gente pode começar a avançar.
Ergui a mão. Fiz um gesto com a cabeça para a minha aliança.
— Esse anel diz alguma coisa para você, não é?
Os olhos de Alicia muito lentamente se moveram para a aliança.
— Ele diz que eu sou casado, que eu tenho uma esposa. A gente é casado há quase nove anos.
Nenhuma reação, mas ela ainda encarava o anel.
— Você foi casada por sete anos, não é mesmo?
Nenhuma resposta.
— Eu amo muito a minha mulher. Você amava o seu marido?
Os olhos de Alicia se moveram. Direto para o meu rosto. Ficamos nos encarando.
— O amor engloba todo tipo de sentimento, certo? Bons e maus. Eu amo a minha esposa... Ela se chama Kathy... Mas às vezes fico furioso com ela. Às vezes... eu a odeio.
Alicia continuava me encarando; eu me sentia como um coelho diante do farol de um carro, paralisado, incapaz de desviar o olhar ou sair do lugar. O alarme estava em cima da mesa, ao meu alcance. Eu me esforçava para não olhar para ele.
Eu sabia que não devia continuar falando, que devia me calar, mas não conseguia parar. E fui em frente, compulsivamente.
— E, quando digo que a odeio, não significa que tudo em mim a odeie. Apenas uma parte de mim. O importante é nunca perder de vista as duas partes. Uma parte sua amava Gabriel. Uma parte sua o odiava.
Alicia balançou a cabeça: não. Um movimento breve, mas claro. Finalmente uma reação. De repente me empolguei. Devia ter parado por ali, mas não parei.
— Uma parte sua o odiava — repeti com mais firmeza.
Ela balançou a cabeça outra vez. Seu olhar era fulminante. Ela está ficando com raiva, pensei.
— É verdade, Alicia. Caso contrário você não o teria matado.
De repente, Alicia se levantou. Achei que ia avançar sobre mim. Meu corpo se contraiu. Mas ela se virou e caminhou até a porta. E começou a bater com os punhos.
Yuri abriu a porta por fora. Ele pareceu aliviado ao ver que Alicia não estava me estrangulando no chão. Ela forçou a passagem por ele e saiu
correndo pelo corredor.
— Calminha, querida, devagar. — Ele voltou o olhar para mim. — Tudo certo? O que aconteceu?
Não respondi. Yuri me olhou de um jeito estranho e se foi. Fiquei sozinho.
Burro, pensei. Você é mesmo muito burro. No que eu estava pensando? Forcei demais a barra com ela, pressão demais, cedo demais. Foi extremamente antiprofissional, além de ter sido de uma completa incompetência. Revelou muito mais do meu estado mental que do dela.
Mas foi isso que Alicia fez por mim. O silêncio dela foi como um espelho, que refletia a minha própria imagem.
E em muitos momentos o que vi refletido não foi muito agradável.