A Paciente Silenciosa

Alex Michaelides · Capítulo 35 de 74

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A Paciente Silenciosa

Capítulo 23

 

Encontrei Diomedes em sua sala. Ele estava sentado num banco em frente à harpa. A enorme estrutura de madeira ornamentada enquadrando toda aquela chuva de cordas douradas.

— Que belo objeto — comentei.

Diomedes assentiu.

— E muito difícil de tocar.

Ele fez uma demonstração, passando os dedos carinhosamente pelas cordas. Uma suave escala ressoou pela sala.

— Gostaria de experimentar?

Sorri, acenando negativamente com a cabeça.

Ele riu.

— Como vê, continuo perguntando, na esperança de que você mude de ideia. Ninguém pode dizer que não sou persistente.

— Não sou muito musical. Foi o que disse sem rodeios o meu professor de música na escola.

— Como a terapia, a música é uma questão de relacionamento, dependendo inteiramente do professor que se tem.

— Sem dúvida.

Ele olhou de relance pela janela, fazendo um gesto com o queixo para o céu que escurecia.

— Essas nuvens estão carregadas de neve.

— Me parecem mais nuvens de chuva.

— Não, é neve. Pode ter certeza, meus antepassados todos eram pastores na Grécia. Essa noite vai nevar.

Diomedes lançou um último olhar esperançoso às nuvens e se virou de novo para mim.

— Em que posso ajudá-lo, Theo?

— É o seguinte.

Deslizei o exemplar da peça sobre a mesa para o outro lado. Ele deu uma espiada.

— O que é isso?

— Uma tragédia de Eurípides.

— Estou vendo. E por que você está me mostrando isso?

— Bem, é Alceste, o título que Alicia deu ao autorretrato, pintado depois do assassinato de Gabriel.

— Ah, sim, sim, claro. — Diomedes olhou para o livro com mais interesse. — Colocando-se no lugar de uma heroína trágica.

— Possivelmente. Devo reconhecer que estou meio empacado. Achei que você podia lidar melhor com isso.

— Por ser grego? — Ele deu uma risada. — Você acha que toda tragédia grega me é familiar?

— Bom, de qualquer forma, mais familiar do que para mim.

— Não sei por quê. É como partir do pressuposto de que todo inglês conhece as obras de Shakespeare. — Diomedes me lançou um olhar de compaixão. — Felizmente para você, essa é a diferença entre os nossos países. Todo grego conhece as tragédias. As tragédias são nossos mitos, nossa história, nosso sangue.

— Então vai poder me ajudar com essa.

Diomedes pegou o livro e começou a folheá-lo.

— E qual é a sua dificuldade?

— Minha dificuldade é o fato de ela não falar. Alceste morre pelo marido. E no fim retorna à vida, mas se mantém em silêncio.

— Ah, como Alicia.

— É.

— Então volto a fazer a pergunta: qual é a sua dificuldade?

— Bom, parece claro que há alguma ligação, mas eu não consigo entender. Por que Alceste não fala no fim.

— Por que você acha?

— Não sei. Talvez ela tenha sido dominada pelas emoções.

— Talvez. Que emoções?

— Alegria?

— Alegria? — Ele riu. — Theo, pense bem. Como você se sentiria? A pessoa que você mais ama no mundo o condenou a morrer, por pura covardia. É uma traição.

— Quer dizer que ela estava irritada?

— Você nunca foi traído?

A pergunta me atravessou feito uma lança. Senti que ruborizava. Meus lábios se moveram, mas não saía nenhum som.

Diomedes sorriu.

— Dá para ver que sim. Então... Me diga. Como Alceste se sente?

Dessa vez eu sabia a resposta.

— Furiosa. Ela está... furiosa.

— Sim. — Diomedes concordou. — Mais que furiosa. Ela sente uma fúria assassina. — Ele deu uma risada. — É impossível não se perguntar como vai ser a relação dos dois no futuro, de Alceste e Admeto. Confiança, uma vez perdida, é difícil de ser recuperada.

Levei alguns segundos para me recompor outra vez e falar.

— E Alicia?

— O que tem Alicia?

— Alceste foi condenada a morrer pela covardia do marido. E Alicia...

— Não, Alicia não morreu... Não fisicamente. — Ele deixou as palavras ressoarem. — Já psiquicamente...

— Você está dizendo que aconteceu alguma coisa que matou o espírito dela, a vontade de estar viva?

— É uma possibilidade.

Eu não estava satisfeito. Peguei o livro e dei uma olhada. Na capa havia uma estátua clássica, uma linda mulher imortalizada no mármore. Fiquei olhando, pensando no que Jean-Felix tinha me dito.

— Se Alicia morreu... como Alceste, precisamos trazê-la de volta à vida.

— Exatamente.

— Me ocorreu que, se o jeito de Alicia se expressar é por meio da arte, que tal darmos uma voz para ela?

— E como faríamos isso?

— Que tal deixar que ela pinte?

Diomedes me encarou com surpresa no olhar, e logo descartou a ideia num gesto de desdém com a mão.

— Ela já faz arteterapia.

— Não estou falando de arteterapia, mas de deixar Alicia trabalhar do jeito dela, sozinha, com um espaço próprio para criar. Deixar que ela se expresse, libere as emoções. Isso pode operar maravilhas.

Diomedes ficou um segundo sem responder. Estava refletindo.

— Você vai ter que ver isso com a arteterapeuta. Já cruzou com ela por aí? Rowena Hart. Osso duro de roer.

— Vou falar com ela. Mas com a sua bênção?

Diomedes deu de ombros.

— Se você conseguir convencer Rowena, pode ir em frente. Mas já adianto que ela não vai gostar da ideia. Nem um pouquinho.