A Paciente Silenciosa

Alex Michaelides · Capítulo 65 de 74

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A Paciente Silenciosa

Capítulo 17

 

Eu pretendia resolver as coisas com Alicia logo cedo de manhã. Ia obrigá-la a reconhecer que tinha mentido sobre o assassinato de Gabriel e forçá-la a encarar a verdade.

Infelizmente, não tive a oportunidade de fazer nada disso.

Yuri esperava por mim na recepção.

— Theo, eu preciso falar com você...

— O que foi?

Olhei melhor para ele. O rosto parecia ter envelhecido da noite para o dia, como se tivesse encolhido, pálido, sem energia. Algo ruim tinha acontecido.

— Houve um acidente. Alicia... Ela tomou uma overdose.

— O quê? Ela...?

Yuri fez que não com a cabeça.

— Ela está viva, mas...

— Graças a Deus...

— Mas está em coma. Não parece nada bem.

— Onde ela está?

Yuri me conduziu por uma série de corredores trancados até a ala de cuidados intensivos. Alicia estava num quarto particular, ligada a uma máquina de eletrocardiograma e a um ventilador pulmonar. Seus olhos estavam fechados.

Christian estava no quarto com outra médica. Ele parecia pálido em contraste com a médica da emergência, que estava bastante bronzeada — evidentemente tinha acabado de voltar das férias, mas não parecia nada revigorada. Parecia exausta.

— Como ela está? — perguntei.

A médica balançou a cabeça.

— Nada bem. Tivemos que colocá-la em coma induzido. Ela teve uma parada respiratória.

— O que ela tomou?

— Algum opioide. Provavelmente hidrocodona.

Yuri fez que sim.

— Tinha um vidro de comprimidos vazio na mesa do quarto dela.

— Quem encontrou Alicia?

— Eu — respondeu ele. — Ela estava no chão, perto da cama. Parecia que não estava respirando. Na hora, achei que estava morta.

— E como ela pode ter conseguido os comprimidos?

Yuri olhou para Christian, que deu de ombros.

— Todo mundo sabe que o tráfico rola solto pelos corredores.

— E Elif é a fornecedora — comentei.

Christian concordou.

— Sim, também acho.

Indira entrou. Parecia à beira das lágrimas. Ficou ao lado de Alicia, observando-a por um instante.

— Isso vai ter um efeito péssimo nas outras. Os pacientes sempre regridem meses quando uma coisa assim acontece.

Ela se sentou, pegou a mão de Alicia e a acariciou. Eu observava o ventilador pulmonar subindo e descendo. Houve um momento de silêncio.

— A culpa é minha — falei.

Indira acenou negativamente com a cabeça.

— A culpa não é sua, Theo.

— Eu devia ter cuidado melhor dela.

— Você fez o melhor possível. Você conseguiu ajudar Alicia. O que ninguém tinha conseguido.

— Alguém já contou a Diomedes?

Christian balançou a cabeça.

— Ainda não descobrimos onde ele está.

— Tentaram no celular?

— E no telefone de casa também. Tentei algumas vezes.

Yuri franziu a testa.

— Mas... eu vi o professor Diomedes mais cedo. Ele estava aqui.

— Estava?

— Sim, hoje cedo. Ele estava na outra ponta do corredor, e parecia com pressa... Pelo menos acho que era ele.

— Estranho. Bom, ele deve ter ido para casa. Tente de novo, por favor.

Yuri assentiu. Estava com ar meio distante; confuso, perdido. Parecia ter reagido muito mal à situação. Fiquei com pena dele.

O pager de Christian tocou, assustando-o — e ele logo saiu do quarto, seguido por Yuri e a médica.

Hesitando, Indira disse em voz baixa:

— Gostaria de ficar um momento sozinho com Alicia?

Fiz que sim, sem coragem de falar. Indira se levantou e apertou meu ombro por um segundo. Então se retirou.

Alicia e eu ficamos sozinhos.

Eu me sentei ao lado da cama. Peguei o braço dela. Havia um cateter no dorso da mão. Segurei-a com delicadeza, acariciando a palma e o punho. Passava o dedo em seu pulso, sentindo as veias sob a pele, as cicatrizes salientes das tentativas de suicídio.

Então era isso. Ia acabar assim. Alicia em silêncio outra vez, e agora o silêncio duraria para sempre.

Eu me perguntava o que Diomedes diria. Conseguia imaginar o que Christian diria a ele: daria um jeito de botar a culpa em mim, dizendo que as emoções que provoquei na terapia foram demais para Alicia, que ela recorreu à hidrocodona para se acalmar e se medicar. A overdose podia ter sido acidental, diria Diomedes, mas o comportamento de Alicia era suicida. E pronto.

Mas não era só isso.

Uma coisa passou despercebida. Algo significativo, algo que ninguém havia notado, nem mesmo Yuri ao encontrar Alicia inconsciente perto da cama. Sim, havia um vidro de comprimidos vazio na mesa e dois deles no chão, de modo que naturalmente se presumiu que ela havia tomado uma overdose.

Mas ali, sob o meu dedo, no punho de Alicia, havia contusões e uma pequena marca que contavam uma história muito diferente.

Uma picada na veia, um minúsculo furo deixado por uma agulha

hipodérmica, revelando a verdade: Alicia não engoliu um vidro de comprimidos num gesto suicida. O que houve foi que injetaram nela uma dose cavalar de morfina. Não foi uma overdose.

Foi uma tentativa de assassinato.